Amores
As Sombras entre a Luz e o Prato
O retorno à mesa de jantar foi como caminhar sobre uma corda bamba esticada sobre um abismo. A mão de Jaafar, firme e quente contra a minha, era o único contrapeso que me impedia de cair. Quando entramos na sala, o silêncio caiu por um breve segundo, quebrado apenas pelo tilintar de um garfo contra a porcelana. Minha mãe nos olhou com uma mistura de preocupação e alívio, enquanto Jermaine e Halima trocaram um olhar cúmplice que eu não soube decifrar.
— Está tudo bem, querida? — perguntou minha mãe, a voz carregada de uma cautela que me fez sentir como se eu fosse feita de vidro.
— Sim, mãe — respondi, forçando um tom de voz que não soasse tão trêmulo quanto minhas pernas. — Só precisava de um pouco de ar. O Jaafar me ajudou.
Nos sentamos. Jaafar não soltou minha mão até que estivéssemos devidamente acomodados, um ao lado do outro. Ele puxou a cadeira para mim, um gesto de cavalheirismo que, vindo dele, parecia natural e não apenas protocolar. O risoto de cogumelos ainda estava lá, uma mancha amarelada no prato que parecia zombar da minha incapacidade de processar nutrientes como uma pessoa normal.
— Estávamos falando sobre o novo projeto do Jaafar — disse Jermaine, tentando dissipar a tensão que pairava no ar. — Ele vai começar a trabalhar em algumas demos novas no estúdio.
— Rebeca tem um ouvido incrível para harmonias — Jaafar interveio, sua voz soando como música para os meus ouvidos, mas também me colocando sob um holofote que eu ainda não estava pronta para encarar. — Eu estava pensando se ela não gostaria de passar por lá um dia desses. Para dar uma opinião.
Eu senti o olhar de todos em cima de mim. A ansiedade, aquela velha conhecida, rastejou pela minha espinha. A ideia de sair de casa, de ser vista em um ambiente profissional, de estar perto dele enquanto ele brilhava... era assustadora.
— Eu... eu não sei se seria de muita ajuda — murmurei, baixando os olhos para as minhas mãos.
— Você seria a melhor ajuda que eu poderia ter — Jaafar disse, e desta vez ele não se importou que nossos pais estivessem assistindo; ele tocou meu braço, um toque leve que pedia confiança.
O restante do jantar foi um borrão de conversas educadas e tentativas de minha parte de esconder que eu estava apenas fingindo comer. Eu levava o garfo à boca, mastigava o ar, e depois limpava os lábios com o guardanapo, deixando o alimento escondido na dobra do tecido. Era uma técnica que eu havia aperfeiçoado nos últimos meses, uma dança coreografada com a minha própria autodestruição.
No entanto, Jaafar estava observando. Ele não disse nada na frente dos outros, mas cada vez que eu fazia isso, sentia seu corpo tensionar ao meu lado.
Quando os Jackson finalmente se despediram, a noite parecia ter durado uma eternidade. No hall de entrada, enquanto os adultos trocavam os últimos abraços, Jaafar se aproximou de mim.
— Amanhã, às dez? — ele sussurrou. — Eu venho te buscar. Vamos caminhar no parque, longe de jantares e de pressão. E depois... vamos conversar com sua mãe.
— Jaafar, eu não sei se consigo — confessei, o medo voltando a me sufocar.
— Você consegue. Porque eu vou estar segurando sua mão.
Ele me deu um beijo casto na testa e saiu, deixando para trás o cheiro de sândalo e uma promessa que me tirava o sono.
Naquela noite, eu não dormi. Fiquei encarando o teto, sentindo o vazio no meu estômago que agora doía fisicamente. A fome era uma companhia constante, uma prova de que eu tinha o controle sobre algo, mesmo que esse controle estivesse me matando. Levantei-me e fui até o espelho. As luzes da rua filtravam-se pela janela, iluminando minha pele pálida e as sardas que Jaafar chamara de constelações. Eu me achava um mapa de erros, mas ele... ele via algo diferente.
Por que ele veria algo diferente?
Na manhã seguinte, o sol nasceu com uma intensidade que eu não sentia há muito tempo. Às dez horas em ponto, a campainha tocou. Minha mãe abriu a porta e, pouco depois, chamou meu nome com uma voz que misturava surpresa e esperança.
Eu desci as escadas vestindo um moletom largo, tentando mais uma vez esconder o que eu era. Jaafar estava lá, parado na entrada, vestindo jeans e uma camiseta branca simples. Ele parecia ter saído de um sonho.
— Pronta? — ele perguntou, estendendo a mão.
— Acho que sim.
Caminhamos em silêncio até o parque próximo à nossa rua. O ar fresco da manhã era revigorante, mas meu corpo estava fraco. Cada passo parecia exigir uma energia que eu não tinha. Sentamos em um banco sob um carvalho antigo, longe das trilhas mais movimentadas.
— Beca — ele começou, virando-se para mim —, eu passei a noite pensando no que você me disse no jardim. Sobre se sentir invisível. Sobre a Savannah.
Eu me encolhi, esperando o momento em que ele diria que tinha se enganado, que a luz do dia havia mostrado a ele que eu não era quem ele pensava.
— Eu quero que você entenda uma coisa — ele continuou, a voz firme —. A beleza que o mundo vê é passageira. Eu vivi cercado por ela a vida toda. O que me atraiu em você, desde que éramos crianças, foi a sua alma. A forma como você se emociona com uma melodia, a maneira como você olha para o mundo com tanta profundidade. Ver você se apagar assim... dói mais do que qualquer término de namoro.
— Eu comecei a contar as calorias porque achei que, se eu fosse menor, a dor também seria menor — confessei, as lágrimas começando a brotar. — Mas a dor só cresceu. E agora eu não sei como parar. Eu tenho medo de comer, Jaafar. Tenho medo de que, se eu começar, eu nunca mais pare, ou que eu volte a ser aquela garota que ninguém nota.
— Eu sempre notei você — ele disse, aproximando-se e pegando minhas mãos frias nas dele. — Mesmo quando eu estava com outras pessoas, eu procurava você na multidão. Eu fui um covarde por não ter dito isso antes, por ter deixado você acreditar que não era o suficiente.
Ficamos ali por um tempo, apenas respirando o mesmo ar. Pela primeira vez em meses, eu não senti a necessidade imediata de me esconder.
— Precisamos contar para a sua mãe, Beca. Você precisa de ajuda profissional. Nutricionista, terapia... você não pode carregar isso sozinha.
— Eles vão ficar tão decepcionados — solucei. — Meus pais acham que eu sou apenas tímida. Se eles souberem que eu estou... que eu estou doente...
— Eles amam você. Eles querem você viva e saudável. E eu também.
Voltamos para casa de mãos dadas. O caminho de volta pareceu mais curto, ou talvez fosse apenas o peso que havia saído dos meus ombros. Quando entramos, meus pais estavam na cozinha, tomando café e conversando em voz baixa. Eles pararam assim que nos viram.
— Mãe, pai — eu disse, a voz falhando. — Eu preciso conversar com vocês. O Jaafar... ele vai me ajudar a explicar.
As horas seguintes foram as mais difíceis da minha vida. Houve lágrimas, houve choque e houve muita dor. Ver o rosto da minha mãe se desintegrar quando confessei que não comia uma refeição completa há semanas foi como uma facada no coração. Mas, ao mesmo tempo, foi um alívio. O segredo que me corroía agora estava à luz do sol.
Jaafar não saiu do meu lado. Ele explicou como tinha percebido, como tinha me visto no jardim, e como estava disposto a me apoiar em cada etapa do tratamento.
— Nós vamos cuidar disso, Rebeca — disse meu pai, a voz embargada, enquanto me abraçava. — Nós vamos trazer você de volta.
Depois que meus pais subiram para ligar para alguns médicos e processar tudo o que haviam ouvido, Jaafar e eu ficamos sozinhos na sala.
— Você foi muito corajosa hoje — ele disse, puxando-me para um abraço apertado.
— Eu só fiz isso porque você estava aqui — respondi, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Eu sempre vou estar aqui.
Ele se afastou um pouco e me olhou nos olhos. Havia uma intensidade ali que eu nunca tinha visto antes, uma mistura de proteção e um desejo genuíno.
— Eu quero te levar a um lugar — ele disse, com um pequeno sorriso.
— Agora?
— Agora.
Ele me levou até o piano que ficava na sala de estar, aquele que eu disse que estava pegando poeira. Ele se sentou no banco e bateu no espaço ao lado dele.
— Toca comigo? — ele pediu.
— Jaafar, eu não toco há meses. Meus dedos estão pesados.
— Apenas uma melodia simples. Aquela que você compôs quando tínhamos quinze anos. Eu ainda me lembro dela.
Eu me sentei, hesitante. Posicionei minhas mãos sobre as teclas frias. Meu coração batia forte, mas não era a batida de pânico da ansiedade. Era algo diferente. Algo que parecia... vida.
Começamos a tocar. As notas preencheram a sala, flutuando no ar como se estivessem limpando as sombras que haviam se acumulado ali por tanto tempo. Jaafar acompanhava minha melodia com acordes suaves, criando uma harmonia que eu não sabia que ainda existia dentro de mim.
No meio da música, ele parou de tocar e apenas me observou. Eu continuei por mais alguns segundos, sentindo a música vibrar através do meu corpo magro, até que eu também parei.
— Viu? — ele sussurrou. — O brilho ainda está aí. Ele nunca foi embora, Beca. Você só o trancou em um lugar onde não podia vê-lo.
— Eu tenho tanto medo do futuro — admiti, olhando para as teclas pretas e brancas. — Tenho medo de falhar. De não conseguir melhorar.
— Você vai ter dias ruins — ele disse, com uma honestidade que eu apreciei. — Vai ter dias em que você vai querer voltar para o escuro. Mas nesses dias, eu vou ser a sua luz. Eu vou te lembrar de quem você é. Eu vou te lembrar de que suas sardas são estrelas e que sua alma é a música mais bonita que eu já ouvi.
Ele se inclinou e me beijou novamente. Desta vez, o beijo foi mais profundo, carregado de uma paixão que eu achei que nunca seria destinada a alguém como eu. Naquele momento, no silêncio da sala de estar, cercada pelo amor dos meus pais e pela devoção de Jaafar, eu percebi que a jornada seria longa e árdua. Eu ainda me olharia no espelho e veria imperfeições. Eu ainda teria que lutar contra a voz na minha cabeça que me dizia para não comer.
Mas, pela primeira vez, a voz de Jaafar era mais alta.
— Eu te amo, Rebeca Vale — ele disse contra meus lábios.
— Eu também te amo, Jaafar Jackson.
Ele sorriu, aquele sorriso que costumava me destruir, mas que agora me reconstruía.
— Sabe de uma coisa? — ele disse, levantando-se e me puxando junto. — Eu acho que aquele risoto ainda está na geladeira. O que você acha de tentarmos comer apenas algumas colheradas? Juntos. Sem pressa. Sem julgamento.
Eu olhei para a cozinha, o lugar que tinha se tornado meu campo de batalha pessoal. Respirei fundo.
— Juntos? — perguntei.
— Juntos — ele confirmou, entrelaçando seus dedos nos meus.
Caminhamos em direção à cozinha. O caminho ainda era incerto, e as sombras ainda espreitavam nos cantos, mas enquanto Jaafar segurasse minha mão, eu sentia que, finalmente, eu poderia começar a me alimentar de novo. Não apenas de comida, mas de esperança, de música e de um amor que eu finalmente estava começando a acreditar que merecia.
Eu era Rebeca Vale. Eu era ruiva, tinha sardas, e estava em processo de cura. E, ao lado de Jaafar Jackson, eu estava pronta para descobrir quem eu poderia ser quando parasse de tentar desaparecer.