Ant Pile
Entre o Eco e o Etéreo
A névoa de Cairnholm não era apenas um fenômeno meteorológico; para Beatrice Portman, parecia um véu entre a sanidade e o impossível. Enquanto subiam a colina em direção à carcaça esquelética da mansão que seu avô Abe tanto descrevera, Bea sentia o peso do cardigã úmido contra os ombros. Ela olhou para Jacob, que caminhava alguns passos à frente, com os ombros tensos e o olhar fixo.
— Jacob, você tem certeza disso? — sussurrou Bea, a voz falhando levemente. Ela mexeu nervosamente na manga da blusa, um hábito que sempre surgia quando o medo apertava. — O vilarejo... as pessoas lá embaixo agem como se este lugar estivesse amaldiçoado.
Jacob parou e olhou para trás. Ele viu a hesitação nos olhos castanhos da irmã, as sardas que pareciam mais pálidas contra a pele alva.
— O vovô não morreu por nada, Bea. Ele deixou aquelas pistas para nós. Para mim. — Ele hesitou por um segundo. — Se você quiser voltar para o hotel, eu entendo.
— Nem pensar — retrucou ela, endireitando a postura. — Você não vai enfrentar monstros sozinho, Jacob Portman. Mesmo que eu ainda ache que o vovô exagerava um pouquinho no tamanho dos tentáculos.
Mas a bravura de Bea foi testada no momento em que atravessaram a fenda. A sensação foi como mergulhar em água gelada e emergir em um dia ensolarado de verão. O cheiro de poeira e abandono foi substituído pelo perfume de madressilva e grama recém-cortada. A casa, antes uma ruína bombardeada, erguia-se majestosa e intacta diante deles.
O encontro com as crianças foi um borrão de rostos curiosos e habilidades que desafiavam a lógica. Bea sentiu o mundo girar quando viu uma menina flutuar a poucos centímetros do chão e outra carregar uma rocha dez vezes o seu tamanho. Ela se encolheu atrás de Jacob, o rosto queimando de vergonha sob o olhar atento de tantos desconhecidos.
— Sejam bem-vindos ao Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares — disse uma voz firme e melodiosa.
Uma mulher de aparência impecável, com um vestido azul-escuro perfeitamente alinhado e um olhar que parecia enxergar através da alma, aproximou-se. Srta. Peregrine. Bea sentiu um alívio imediato ao ver a autoridade materna da mulher, mas a confusão ainda reinava em sua mente.
— Jacob... — Bea murmurou, puxando a manga do irmão —... o que está acontecendo? Aquela menina... ela está segurando um fogo que não queima?
— É a Emma — respondeu Jacob, embora ele mesmo parecesse em transe.
Foi então que uma figura menor se aproximou. Era Bronwyn, a menina que Bea vira carregando a rocha. Ela tinha um rosto doce e olhos que brilhavam com uma bondade genuína.
— Você parece assustada — disse Bronwyn, aproximando-se com cautela. — Não precisa ter medo. Aqui é seguro. Eu sou a Bronwyn.
Bea olhou para a menina. Bronwyn era visivelmente mais nova, mas havia uma força nela — e não apenas física — que fez Bea relaxar os ombros.
— Eu sou a Beatrice. Mas pode me chamar de Bea. — Ela sorriu timidamente, sentindo uma onda instintiva de proteção. Mesmo sabendo que Bronwyn poderia derrubar uma parede com um soco, Bea sentiu o desejo de cuidar daquela criança.
Enquanto Jacob era arrastado por Emma para explorar os arredores, Bea ficou no jardim, observando as crianças. Foi quando sentiu um olhar pesado sobre si. Sentado em um banco de pedra, afastado do grupo, estava um garoto de cabelos loiros bagunçados e uma expressão de tédio profundo que beirava a arrogância.
— Outra Portman — disse Enoch O'Connor, sua voz arrastada e sarcástica. — O que o avô de vocês fez? Decidiu enviar a árvore genealógica inteira para nos incomodar?
Bea corou instantaneamente, desviando o olhar para os próprios pés.
— Nós só queríamos saber o que aconteceu com ele — respondeu ela em voz baixa.
— E o que aconteceu foi que ele ficou velho e morreu, ou foi comido por algo que você não pode ver — Enoch deu de ombros, voltando sua atenção para um pequeno boneco de barro em suas mãos. — Pelo menos o seu irmão serve para alguma coisa. Ele vê os Etéreos. E você? É só uma garota comum que fica vermelha toda vez que alguém fala com ela?
Bea sentiu uma pontada de irritação superar a timidez.
— Eu não sou comum — murmurou ela, embora não soubesse exatamente o que a tornava diferente, além de ter crescido em um mundo que não fazia mais sentido.
Nos dias que se seguiram, a rotina no loop de 3 de setembro de 1943 tornou-se estranhamente familiar. Bea passava a maior parte do tempo com Bronwyn. As duas tornaram-se inseparáveis. Bea ajudava Bronwyn com as lições e contava histórias sobre o futuro, enquanto Bronwyn mostrava a Bea os cantos escondidos do jardim.
— Você é como uma irmã mais velha, Bea — disse Bronwyn certa tarde, enquanto descansavam sob uma árvore. — Mas você se preocupa demais. Eu sou forte, lembra?
— Eu sei que é, pequena — Bea acariciou o cabelo da menina. — Mas a força física não protege o coração. E este lugar... é maravilhoso, mas sinto que algo está espreitando nas sombras.
Enoch, por sua vez, parecia ter feito da provocação a Bea seu passatempo favorito. Ele a observava durante o jantar, fazia comentários ácidos sobre sua hesitação em provar as comidas da época e, ocasionalmente, a assustava com suas criações reanimadas. No entanto, Bea começou a notar as rachaduras na armadura dele. Ela o viu cuidando da pequena Claire com uma paciência que ele negava a qualquer outro, e percebeu que o sarcasmo era apenas uma barricada.
Certa tarde, enquanto Jacob e Emma investigavam os arredores da costa, Bea estava no andar de cima da mansão com Enoch e Millard. Enoch estava ocupado dando vida a um par de esqueletos de ratos, reclamando do clima.
Subitamente, Bea parou.
O ar ao seu redor pareceu esfriar. Não era um frio físico, mas uma pressão no peito, um zumbido agudo na base do crânio que a fez perder o fôlego. Ela parou de falar no meio de uma frase e olhou fixamente para a janela que dava para a floresta.
— O que foi agora? — perguntou Enoch, sem levantar os olhos de seu trabalho. — Viu um fantasma? Ah, espere, o Millard está bem ali, você só não o vê.
Bea não respondeu. Ela se aproximou da janela, as mãos tremendo levemente.
— Tem algo vindo — sussurrou ela.
Jacob entrou no quarto naquele exato momento, parecendo agitado.
— Bea? O que houve?
— Jacob... — ela se virou, os olhos castanhos grandes e cheios de uma certeza aterrorizante. — Está perto. Muito perto. Atrás das árvores mortas, na borda do pântano.
Jacob correu para o lado dela, estreitando os olhos para a folhagem.
— Eu não vejo nada ainda... — Ele começou a dizer, mas então parou. — Espere. Agora eu vejo.
Um vulto distorcido, uma massa de membros desproporcionais e tentáculos sibilantes, emergiu da linha das árvores. Era um Etéreo.
Enoch se levantou, a expressão sarcástica desaparecendo instantaneamente.
— Como você soube? — perguntou ele, olhando de Bea para o monstro lá fora. — O Jacob só o viu quando ele saiu da cobertura. Você apontou para o lugar antes dele aparecer.
— Eu não sei — disse Bea, a voz trêmula, mas firme. — Eu apenas... eu sinto o espaço ficando vazio. É como se houvesse um buraco no mundo se movendo em nossa direção.
Srta. Peregrine, que entrara no quarto atraída pelo silêncio súbito, observou a cena com gravidade.
— Uma peculiaridade sensorial — murmurou a Ymbryne. — Jacob vê o que está lá. Beatrice sente o que está por vir. Juntos, vocês são um sistema de alerta que nunca tivemos.
A partir daquele momento, a seriedade da situação caiu sobre os irmãos Portman como uma avalanche. Eles descobriram sobre Barron, sobre os Wights e sobre o plano sinistro para colher almas peculiares. Bea sentia o perigo aumentar a cada dia, uma pressão constante em sua mente que a deixava exausta.
A relação com Enoch mudou drasticamente. Ele parou de provocá-la sobre sua timidez. Em vez disso, ele começou a aparecer sempre que ela estava sozinha.
— Você está pálida — disse ele em uma noite, encontrando-a no corredor. — Aquele zumbido na sua cabeça está piorando?
— Está — admitiu Bea, abraçando os próprios braços. — Eles estão circulando o loop, Enoch. Estão procurando uma brecha.
Enoch deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. Por um momento, Bea achou que ele diria algo sarcástico, mas ele apenas colocou uma mão pesada em seu ombro.
— Se eles entrarem — disse ele, os olhos escuros fixos nos dela —, não saia de perto de mim. Eu não posso lutar como a Bronwyn, mas tenho meus métodos.
— Você está preocupado comigo? — Bea perguntou, sentindo o rosto esquentar, apesar do medo.
— Estou preocupado com a nossa detetora de monstros — retrucou ele, voltando ao tom ácido, mas não retirou a mão do ombro dela. — Seria um desperdício perder você agora que aprendi seu nome.
O ataque aconteceu ao amanhecer. O céu de 1943 foi rasgado não por bombas, mas pelo grito inaudível dos Etéreos rompendo as defesas. O caos se instalou.
— Bronwyn! — gritou Bea, vendo a menina correr em direção a um dos monstros que derrubara o portão do jardim. — Não! É muito perigoso!
Bea tentou correr atrás dela, mas uma mão forte a agarrou pelo braço e a puxou para trás de uma pilastra de pedra.
— Ficou louca?! — Enoch rugiu, o rosto vermelho de uma emoção que Bea nunca vira nele: puro terror. — Você não tem força sobre-humana, Beatrice! Você vai ser esmagada!
— Ela é só uma criança, Enoch! — Bea tentava se soltar, as lágrimas escorrendo. — Eu tenho que ajudá-la!
— Você ajuda ficando viva para nos dizer onde o próximo vai aparecer! — Ele a sacudiu levemente, forçando-a a olhá-lo. — Fique aqui. Por favor.
Foi a primeira vez que ele usou aquela palavra. Bea paralisou, vendo a angústia nos olhos dele. Ela assentiu, e Enoch correu para ajudar Claire e os outros, usando seus corações orgânicos para despertar guardiões de pedra que atrasassem as criaturas.
A batalha foi um borrão de fogo de Emma, abelhas de Hugh e a força bruta de Bronwyn. Jacob estava no centro de tudo, gritando direções, enquanto Bea, do seu refúgio, apontava para os pontos cegos.
— Jacob! À esquerda, no telhado! — gritava ela.
— Emma, agora! — Jacob comandava.
Apesar de seus esforços, a Srta. Peregrine foi capturada em sua forma de ave. O loop estava colapsando. O mundo que conheceram por apenas alguns dias estava desaparecendo.
Na praia, enquanto as crianças se preparavam para os barcos, o clima era de desespero e determinação. Jacob olhou para o horizonte, sabendo que a jornada estava apenas começando. Ele olhou para Bea, esperando encontrar a irmã tímida que queria voltar para o hotel.
Em vez disso, ele encontrou Beatrice Portman com o queixo erguido. Ela estava ao lado de Bronwyn, segurando a mão da menina menor, enquanto Enoch permanecia logo atrás dela, como uma sombra protetora.
— Nós vamos buscá-la — disse Bea. Não era um pedido, era uma promessa.
Enoch aproximou-se dela enquanto empurravam os barcos para a água gelada.
— Você sabe que isso vai ser um desastre, não sabe? — murmurou ele, embora estivesse ajudando-a a subir no barco com uma delicadeza incomum.
— Provavelmente — respondeu Bea, oferecendo-lhe um pequeno sorriso corajoso. — Mas você vai estar lá para reclamar de tudo, então acho que ficaremos bem.
Enoch soltou um curto riso seco, sentando-se ao lado dela.
— É, eu vou. E é bom você continuar sentindo esses buracos no mundo, Portman. Não pretendo deixar você virar comida de monstro tão cedo.
Enquanto remavam para longe da ilha de Cairnholm, deixando para trás as ruínas e o tempo congelado, Bea olhou para Jacob e depois para o grupo de crianças peculiares que agora eram sua família. O medo ainda estava lá, vibrando em seus ossos, mas a timidez fora substituída por um propósito. Ela não era apenas a neta de Abe ou a irmã de Jacob. Ela era a bússola deles no escuro, e enquanto estivessem juntos, nenhum Etéreo permaneceria invisível por muito tempo.