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Aposta

O Peso do Silêncio e a Fragilidade do Vidro

Duas semanas haviam se passado desde que Kuro Hatake sentira o chão sumir sob seus pés no quarto de Tatsuyo. Duas semanas em que cada "eu te amo" dela soava como uma nota promissória que ele não tinha como pagar, e cada risada que ele arrancava dela parecia um crime contra a humanidade. Na escola, seus amigos o pressionavam. "E aí, Kuro? Já conseguiu as imagens?", "O relógio está correndo, Hatake, o dinheiro não vai ficar na mesa para sempre". Ele desconversava com seu habitual tom de deboche, mas por dentro, as engrenagens de seu orgulho estavam sendo moídas por algo muito mais forte: a proteção instintiva por aquela garota de porcelana.

Era uma tarde de sábado nublada. A casa de Kuro estava silenciosa; seus pais haviam viajado para um evento de negócios, deixando o refúgio perfeito para o que seus amigos chamariam de "o abate final". Mas, sentado no sofá da sala de estar, com Tatsuyo aninhada em seu peito enquanto assistiam a uma maratona de filmes de animação, a última coisa que Kuro sentia era a adrenalina da conquista.

Tatsuyo estava relaxada, ou o mais relaxada que uma garota com ansiedade generalizada poderia estar. Ela segurava a mão dele com força, os dedos entrelaçados, como se ele fosse o único ponto de gravidade em um mundo que tentava flutuar para longe.

— Esse filme foi tão lindo — sussurrou ela, quando os créditos começaram a subir na tela. — O jeito que ele cuidou dela, mesmo quando ela perdeu tudo... me lembrou você.

Kuro sentiu uma pontada aguda no peito. Ele desviou o olhar para o celular, que estava sobre a mesa de centro, estrategicamente posicionado. Ele havia pensado em esconder uma câmera no quarto, ou usar o próprio celular para gravar o áudio, como os termos da aposta exigiam. O plano original era simples: seduzir, gravar, lucrar, descartar.

— Eu só faço o que qualquer um faria, Tatsu — respondeu ele, a voz um pouco mais rouca que o normal.

— Não, não faria — ela se inclinou, ficando de frente para ele no sofá. Os olhos pretos dela brilhavam com uma intensidade que o desarmava. — As pessoas costumam fugir de gente como eu, Kuro. Eu sou "complicada". Eu tenho crises, eu choro sem motivo, eu me apego demais. Mas você... você ficou.

Kuro acariciou o rosto pardo de Tatsuyo. A pele dela era macia, e ele podia sentir o leve tremor que sempre a acompanhava. Ele a amava. A percepção agora não era mais um susto, era uma sentença de prisão perpétua. Ele amava a forma como ela cheirava a baunilha, amava o jeito que ela confiava nele cegamente, e odiava a si mesmo por ter permitido que essa confiança fosse construída sobre uma fundação de areia movediça.

— Tatsu... — Ele começou, aproximando o rosto do dela.

O beijo começou como todos os outros daquelas duas semanas: doce, exploratório, cheio de uma carência mútua. Mas, dessa vez, o clima mudou. O calor entre eles subiu, a respiração de Tatsuyo tornou-se mais curta e pesada. Kuro sentiu a urgência dela, uma necessidade de se fundir a ele para calar os demônios que gritavam em sua cabeça.

— Kuro — ela murmurou entre os beijos, as mãos subindo pelos braços definidos dele, apertando o tanquinho por cima da camiseta. — Eu quero... eu quero ser sua. De verdade.

Kuro parou por um segundo. A oportunidade estava ali. O quarto dele estava pronto. O celular estava à mão. Se ele fizesse isso hoje, a aposta estaria ganha. Ele teria o dinheiro, manteria seu status de "macho alfa" entre os amigos e poderia, quem sabe, tentar apagar o rastro da aposta depois.

— Tem certeza? — perguntou ele, olhando fixamente nos olhos dela. — Não precisamos correr, Tatsu.

— Eu tenho certeza — ela disse, embora suas mãos estivessem tremendo visivelmente. — Com você, eu me sinto segura. É a primeira vez que eu não sinto que o mundo vai desabar se eu fechar os olhos.

Eles subiram para o quarto de Kuro. O ambiente era masculino, com cheiro de perfume caro e uma organização impecável. Kuro sentou-se na cama e puxou-a para o seu colo. Quando ele começou a levantar a barra da camiseta dela, sentiu o corpo de Tatsuyo retesar completamente.

Ela começou a hiperventilar.

— Ei, ei... olha para mim — Kuro parou imediatamente, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Tatsu, respira. O que foi?

— Eu... eu não sei — ela disse, as lágrimas começando a inundar os olhos. — Meu coração está muito rápido. Eu tenho medo de não ser o suficiente, de você me achar feia, ou de eu ter uma crise de pânico bem agora e estragar tudo para você.

Kuro sentiu um nó na garganta. A vulnerabilidade dela era tão crua que doía. Ele olhou para o criado-mudo, onde o celular poderia estar gravando cada palavra, cada soluço. A ideia de expor aquele momento de fragilidade extrema para cinco idiotas rirem enquanto bebiam cerveja pareceu, de repente, a coisa mais nojenta que ele já havia concebido.

— Escuta — disse ele, a voz firme e doce —, você nunca vai estragar nada. Se você quiser parar agora, a gente para. A gente pode só deitar e dormir. Eu não estou aqui por "isso", Tatsu. Eu estou aqui por você.

Tatsuyo respirou fundo, tentando controlar o tremor.

— Você é tão bom para mim, Kuro. Por favor... não para. Eu só preciso de um minuto.

Ele a abraçou, balançando-a levemente como se ela fosse algo precioso que pudesse quebrar com um sopro. Ele esperou. Esperou dez, quinze minutos, até que os batimentos dela se acalmassem contra o seu peito. Durante esse tempo, Kuro tomou uma decisão silenciosa. Ele não gravaria nada. Ele não seria o monstro que eles queriam que ele fosse. O orgulho dele ainda ardia com a ideia de perder a aposta e ser ridicularizado, mas o amor por Tatsuyo era um incêndio que consumia qualquer outra consideração.

Quando eles finalmente voltaram ao que estavam fazendo, tudo foi feito com uma lentidão quase sagrada. Kuro a despia como se estivesse revelando um segredo milenar. Tatsuyo mantinha os olhos fechados na maior parte do tempo, confiando no toque dele para guiá-la através do nevoeiro de sua ansiedade.

— Você é linda, Tatsu — sussurrou ele, beijando a curva do ombro dela. — Cada detalhe seu.

Quando o momento da entrega total chegou, Kuro foi o mais delicado que sua constituição de 1,80m permitia. Ele sentiu quando ela tencionou, a expressão de dor cruzando o rosto pardo.

— Dói... — ela sibilou, agarrando-se aos ombros dele, as unhas cravando-se levemente em sua pele.

— Shhh, vai passar. Eu estou aqui. Estou com você.

Kuro parou, esperando que ela se acostumasse, beijando sua testa e limpando as lágrimas que escapavam pelos cantos de seus olhos. Quando ele finalmente se moveu novamente, foi com uma reverência que ele nunca imaginou possuir.

Alguns minutos depois, quando o mundo ao redor deles pareceu finalmente encontrar seu eixo novamente, Tatsuyo se encolheu sob o lençol, o rosto escondido no travesseiro.

— Kuro... — ela chamou, a voz abafada.

— Oi?

— Eu... eu sujei o lençol. Me desculpa. Eu estou com tanta vergonha.

Kuro olhou para baixo e viu as pequenas manchas de sangue no tecido branco, o sinal inequívoco da primeira vez dela. Ele sentiu uma onda de proteção tão avassaladora que quase o deixou sem fôlego. Ela estava pedindo desculpas por algo natural, por ter entregado a ele sua pureza e sua confiança mais profunda.

— Ei, olha para mim — ele a puxou para perto, ignorando o lençol. — Não ouse pedir desculpas por isso. É normal, Tatsu. Não tem nada de errado. Eu vou cuidar disso depois, não se preocupe com nada.

— Você não me odeia? — perguntou ela, com a lógica distorcida da depressão. — Eu fiz uma bagunça...

— Eu nunca poderia te odiar — ele disse, e dessa vez, a palavra "amor" estava na ponta da língua, mas ele a engoliu. Ele sentia que não tinha o direito de dizer "eu te amo" enquanto a sombra daquela aposta ainda estivesse pairando sobre eles como uma guilhotina.

Ele a envolveu em seus braços, sentindo o calor do corpo dela contra o seu. Tatsuyo logo adormeceu, exausta pela descarga emocional e física. Kuro, no entanto, permaneceu acordado, encarando o teto do quarto escuro.

O silêncio da casa parecia amplificar os pensamentos em sua mente. Ele havia falhado na missão. Ele não gravou. Ele não tinha provas para mostrar aos amigos. Ele sabia que, na segunda-feira, Hiro e os outros viriam cobrar resultados. Se ele dissesse que não tinha gravado, eles ririam dele. Se ele dissesse que desistiu, eles o chamariam de covarde. E o pior de tudo: se ele tentasse sair da aposta agora, eles poderiam muito bem ir até Tatsuyo e contar tudo, apenas para vê-lo sofrer por ter "amolecido".

Ele olhou para a garota dormindo ao seu lado. Ela parecia tão em paz, uma paz que ela raramente conhecia. Os cartazes no quarto dela, o irmãozinho que o via como um herói, a mãe que o agradecia com bolos... tudo isso pesava sobre ele.

— O que eu fiz? — sussurrou para a escuridão.

Kuro percebeu que estava em uma armadilha que ele mesmo ajudara a construir. Ele a amava de verdade, mas esse amor era uma faca de dois gumes. Se ele continuasse com a farsa para protegê-la da verdade, ele viveria uma mentira eterna. Se ele contasse a verdade, ele a destruiria. E se ele simplesmente tentasse ganhar a aposta para depois "terminar" como combinado, ele estaria matando a única coisa que o fazia se sentir humano novamente.

Ele se recusava a desistir dela. O orgulho de Kuro Hatake, antes voltado para a conquista e para o ego, agora estava se transformando em algo diferente: o orgulho de ser o único homem capaz de mantê-la inteira. Ele não deixaria que Hiro ou qualquer outro tocasse nela, nem com palavras, nem com a verdade cruel de sua aposta idiota.

— Eu vou dar um jeito — prometeu ele, beijando o topo da cabeça de Tatsuyo. — Eu vou te proteger, mesmo que o vilão de quem eu precise te proteger seja eu mesmo.

Naquela noite, Kuro Hatake não dormiu. Ele ficou vigiando o sono da garota que ele deveria ter quebrado, mas que, ironicamente, foi a única capaz de consertar o que estava quebrado dentro dele. A aposta ainda existia, o dinheiro ainda estava na mesa, e o perigo era mais real do que nunca. Mas, enquanto sentia o coração de Tatsuyo batendo calmo contra o seu peito, Kuro sabia que não havia quantia no mundo que valesse a luz que ele acabara de ver nos olhos dela.

Ele teria que jogar o jogo mais perigoso de sua vida: manter a mentira para salvar o amor. E ele sabia que, se falhasse, o sangue no lençol seria o menor dos danos que ele causaria a Tatsuyo Nakamura. Ele teria que ser o melhor mentiroso do mundo, ou o homem mais corajoso que já existiu. E, no momento, ele não tinha certeza de qual dos dois seria necessário para evitar o desastre iminente.