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Aquela noite

Fragmentos de Vidro e a Melodia do Amanhã

A música no clube estava alta, uma batida pulsante que vibrava no assoalho de madeira e subia pelas solas dos sapatos de Jade. O ambiente era saturado de luzes neon — azuis, roxas e rosas — que cortavam a penumbra como sabres de luz. Três anos atrás, Jade teria tido um ataque de pânico ao cruzar a porta. O excesso de estímulos, o cheiro de suor e perfume barato, o toque casual de estranhos nos ombros... tudo isso era combustível para o incêndio de sua ansiedade.

Mas hoje, enquanto ela se movia desajeitadamente entre Maya e Bia, sentia algo diferente. Era uma espécie de formigamento elétrico, uma adrenalina que não vinha do medo, mas da vida.

— Você está indo bem! — gritou Maya perto do seu ouvido, para ser ouvida acima do som. — Só relaxa os ombros, Jade!

Jade riu, sentindo o próprio cabelo balançar.

— Eu estou tentando! — respondeu ela, soltando um pouco mais os braços. — Mas o Leo está me distraindo com aquela dança de robô desengonçado!

Do outro lado da pequena roda que haviam formado, Leo estava realmente empenhado em uma performance duvidosa de "breakdance" que envolvia muitos movimentos de braço desconexos. Lucas, ao lado dele, tentava imitá-lo enquanto segurava sua pasta de desenhos como se fosse um tesouro nacional, rindo tanto que mal conseguia ficar em pé.

Era uma cena comum para qualquer grupo de jovens, mas para Jade, era um milagre. Cada risada era uma pequena vitória contra os fantasmas que gritavam em sua mente que ela nunca seria normal.

— Vou buscar água para a gente! — gritou Lucas, sinalizando para o balcão do bar. — Alguém quer algo mais forte?

— Só água por enquanto! — respondeu Bia, puxando Jade para mais perto. — Não queremos que a Jade desmaie de emoção antes da meia-noite!

Jade revirou os olhos, mas o sorriso não saía de seu rosto. Ela observou Lucas se afastar, abrindo caminho pela multidão com a confiança de quem acabara de conquistar o mundo. A aprovação na escola de artes não era apenas dele; era de todos eles. Eles eram um organismo único, uma família que se curava mutuamente.

No entanto, enquanto seus olhos seguiam Lucas, eles acabaram pousando em uma figura parada perto da saída de emergência. O coração de Jade deu um solavanco violento, errando uma batida.

Era um homem. Ele usava um casaco escuro, pesado demais para a temperatura do clube, e mantinha a cabeça baixa, mas o perfil... aquele contorno de mandíbula, a forma como ele segurava o cigarro apagado entre os dedos...

O ar pareceu faltar nos pulmões de Jade. O neon roxo subitamente se tornou frio, e a música, antes vibrante, transformou-se em um ruído branco ensurdecedor.

— Jade? — Maya tocou seu braço, a expressão mudando instantaneamente de alegria para preocupação. — O que foi? Você ficou pálida.

Jade não conseguia responder. Seus pés pareciam colados ao chão, mas sua mente já estava a quilômetros dali, em uma casa escura onde o silêncio era uma arma.

— Eu... eu achei que vi... — A voz de Jade saiu como um sussurro quebrado.

Ela piscou com força. Quando abriu os olhos novamente, a figura perto da porta havia se movido. O homem se virou para a luz, e Jade viu que era apenas um estranho. Um rapaz qualquer, talvez alguns anos mais velho, esperando por alguém. Não era *ele*. Não era o monstro de seus pesadelos.

Jade soltou o fôlego que não sabia que estava prendendo, seus joelhos tremendo levemente.

— Jade, olha para mim — disse Maya, segurando seu rosto com as duas mãos, forçando-a a focar em seus olhos castanhos e gentis. — Respira. Um, dois, três. Você está aqui. No clube. Com a gente.

— Eu sei — ofegou Jade, tentando recompor a postura. — Desculpa. Eu só vi alguém que... parecia.

Leo e Bia se aproximaram, o clima de festa sendo substituído por um círculo de proteção.

— Quer ir embora? — perguntou Leo, a voz agora desprovida de qualquer brincadeira. — A gente sai agora mesmo. Pizza e filme no meu apartamento, o que acha?

Jade olhou para os rostos deles. Eles estavam dispostos a abandonar a comemoração de Lucas, o momento de glória que tanto esperaram, apenas porque ela teve um vislumbre de um fantasma. Aquilo a tocou mais do que qualquer palavra de conforto.

— Não — disse Jade, firmando a voz. — Não vamos embora. Eu não vou deixar que um susto bobo estrague a noite do Lucas. Eu estou bem. Sério.

— Tem certeza? — insistiu Bia, passando o braço pela cintura de Jade. — Você sabe que não precisa ser forte o tempo todo para a gente.

— Eu sei — Jade sorriu, desta vez de forma mais contida, mas genuína. — Mas eu também sei que, se eu for embora toda vez que uma sombra aparecer, eu nunca vou sair do escuro. Eu quero ficar.

Lucas voltou com as garrafas de água, percebendo o clima tenso.

— O que eu perdi? — perguntou ele, entregando uma garrafa para Jade.

— Nada — respondeu ela, abrindo a tampa e tomando um gole generoso da água gelada, que ajudou a ancorá-la no presente. — Só um pequeno curto-circuito. Já passou.

Eles voltaram a dançar, mas de uma forma mais contida, mantendo Jade no centro, como se formassem uma barreira invisível contra o resto do mundo. Jade sentia-se grata, mas uma parte dela ainda lutava com a frustração. Por que o passado tinha que ser tão persistente? Por que, mesmo depois de tanto progresso, uma simples semelhança física podia desmoronar suas defesas?

Horas depois, quando o clube começou a esvaziar e o cansaço físico finalmente superou a adrenalina, eles caminharam pelas ruas úmidas da madrugada. O cheiro de asfalto molhado ainda estava lá, mas o céu começava a clarear em tons de cinza e azul pálido.

— Aquela escola de artes não sabe o que a espera — comentou Leo, quebrando o silêncio confortável. — O Lucas vai transformar as paredes daquele lugar em murais psicodélicos em menos de um mês.

— E eu vou ser a modelo principal, obviamente — brincou Bia, jogando o cabelo para trás.

— Só se você prometer ficar parada por mais de cinco minutos — retrucou Lucas, rindo.

Jade caminhava um pouco mais atrás, observando-os. Ela sentia que sua mente estava processando o susto de mais cedo. O medo ainda estava lá, uma pequena semente no fundo do estômago, mas ele não estava crescendo. Ela estava aprendendo a podá-lo.

— Jade? — Maya diminuiu o passo para caminhar ao lado dela. — Você está muito quieta. No que está pensando?

— No que o Leo disse na cafeteria hoje cedo — confessou Jade, olhando para o horizonte onde o sol ameaçava surgir. — Sobre a superação não ser apagar o passado, mas construir algo bonito por cima.

— E?

— E eu percebi que o susto que eu tive... ele não foi um retrocesso — continuou Jade, sentindo uma clareza nova. — Antigamente, se eu visse alguém parecido com ele, eu teria corrido para casa, me trancado no quarto e passado uma semana sem falar com ninguém. Hoje, eu fiquei. Eu bebi água, eu respirei e eu continuei dançando com vocês.

Maya sorriu, uma expressão de puro orgulho.

— Isso se chama resiliência, Jade. Você não parou de sentir medo, você só parou de deixar o medo dirigir o carro.

— É — concordou Jade. — Acho que o meu passado é como um daqueles vasos de vidro que se quebram em mil pedaços. Eu passei anos tentando colar tudo de volta para parecer que nunca quebrou, mas as rachaduras sempre apareciam.

— E agora? — perguntou Maya.

— Agora eu acho que não quero mais que ele pareça novo — disse Jade, gesticulando com as mãos. — Eu quero pegar esses cacos e fazer um mosaico. Vai ser diferente, vai ter marcas, mas vai ser algo novo. Algo meu.

As duas alcançaram os outros no topo de uma pequena colina que dava vista para a cidade. O sol finalmente começou a despontar, pintando as nuvens de dourado e laranja. Era o início de um novo dia, literal e metaforicamente.

— Olhem só para isso — sussurrou Lucas, pegando um pequeno caderno de esboços do bolso, incapaz de conter o impulso artístico. — As cores... são perfeitas.

— É como se o mundo estivesse pedindo desculpas pela chuva de ontem — comentou Bia, encostando a cabeça no ombro de Leo.

Jade sentiu o calor do sol atingir seu rosto. Ela fechou os olhos por um momento, sentindo a brisa leve. O passado ainda estava lá, em algum lugar nas profundezas de sua memória, mas ele não tinha o poder de apagar o brilho daquela manhã.

— Pessoal — disse Jade, chamando a atenção deles.

Todos se viraram para ela.

— Obrigada — disse ela, a voz embargada pela emoção. — Por não me deixarem para trás. Por me ensinarem que eu sou mais do que as coisas que me aconteceram.

Leo se aproximou e passou o braço pelo pescoço dela, bagunçando seu cabelo.

— A gente não fez nada, Jade. A gente só segurou a lanterna. Quem caminhou pelo túnel foi você.

— E a propósito — acrescentou Lucas, sem tirar os olhos de seu desenho —, você vai ser a primeira pessoa que eu vou pintar na escola. "A Garota que Dançou com as Sombras". O que acha do título?

Jade riu, uma risada clara que ecoou pelo ar matinal.

— Acho um pouco dramático demais. Que tal "A Garota que Escolheu as Cores"?

— Fechado — concordou Lucas com um aceno de cabeça.

Enquanto o sol subia, iluminando cada canto da cidade, Jade sentiu uma paz profunda. As cicatrizes em seus pulsos e em sua alma ainda estavam lá, e talvez sempre estivessem. Mas, como as manchas de tinta em uma tela, elas agora faziam parte de uma obra muito maior e mais complexa.

Ela não era mais a menina trancada no quarto esperando o próximo grito. Ela era a mulher que caminhava sob o sol, cercada por amigos que eram sua verdadeira casa. O passado não havia sido esquecido — isso seria impossível —, mas ele havia sido finalmente silenciado pelo som das risadas e pela promessa de um futuro que ela mesma estava começando a pintar.

— Vamos para casa? — sugeriu Bia, bocejando. — Eu estou morrendo de sono.

— Vamos — disse Jade, dando o primeiro passo ladeira abaixo.

Ela não olhou para trás. Não precisava. Tudo o que importava estava bem ali, ao seu lado, caminhando em direção à luz. E pela primeira vez, Jade não tinha apenas a esperança de que tudo ficaria bem; ela tinha a certeza.