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As crianças que sonham em ser piratas

O Crepúsculo da Guardiã e o Eco das Chamas

A luz que entrava pelas janelas reforçadas do *Aethelgard* não tinha mais o brilho vibrante dos mares tropicais. O navio agora navegava por uma zona de correntes frias, e o interior da suíte médica de Miu exalava um aroma constante de ervas medicinais, ozônio e o cheiro metálico de máquinas de suporte à vida. A bandeira do Governo Mundial, hasteada no mastro principal por ordem direta de Mary Geoise após a audiência, garantia que nenhum navio de guerra disparasse contra eles, mas o preço daquela paz era o silêncio que agora envolvia o quarto da capitã.

Miu estava pálida. Seus cabelos brancos, antes uma cascata viva de seda, pareciam agora fios de geada espalhados pelo travesseiro. Ela estava deitada há meses, seu corpo recusando-se a obedecer aos comandos de sua vontade de ferro. O diagnóstico de Trafalgar Law havia sido preciso e cruel: a "doença de estresse celular" não era algo que um bisturi pudesse simplesmente remover para sempre se a mente não encontrasse repouso. Cada vez que uma criança chorava no convés ou que um radar apitava, o coração de Miu se desgastava um pouco mais.

— — Você precisa comer, Miu-sama — disse Madame Rendas, aproximando-se com uma bandeja de sopa fumegante. A boneca de porcelana movia-se com uma delicadeza quase fúnebre, seus olhos de vidro refletindo a fragilidade da mulher na cama.

— — Eu não sinto fome, Rendas — sussurrou Miu, sua voz pouco mais que um sopro. — Como estão as coisas lá fora? O Número 1 está conseguindo manter a ordem?

— — O Número 1 é um líder nato, senhorita. Ele organizou os turnos de vigília e as crianças menores estão tendo aulas com os livros que a arqueóloga do Chapéu de Palha deixou. O navio está seguro sob a proteção do pacto.

Miu soltou um riso seco que terminou em uma tosse dolorosa.

— — Seguro... — Ela olhou para o teto, onde as sombras das engrenagens do navio dançavam. — Estamos seguros porque nos tornamos um símbolo da conveniência deles. É uma paz de vidro, Rendas. Um tropeço e tudo se estilhaça.

A porta do quarto abriu-se com um estrondo controlado. O Número 1 entrou, carregando um maço de jornais e cartazes de recompensa recém-entregues por um News Coo. Ele parecia mais velho; a responsabilidade de cuidar de 2993 irmãos havia esculpido linhas de seriedade em seu rosto jovem.

— — Miu, você precisa ver isso — disse ele, aproximando-se da cama. — As notícias de Dressrosa finalmente chegaram ao clímax. O mundo está um caos.

Miu forçou-se a sentar, apoiada pelos braços mecânicos de Madame Rendas. Seus olhos vermelhos, embora cansados, brilharam com uma centelha de interesse ao ver a foto na primeira página.

— — Luffy... — murmurou ela, pegando o jornal com mãos trêmulas.

A manchete era explosiva: "A QUEDA DO DEMÔNIO CELESTIAL: DONQUIXOTE DOFLAMINGO DERROTADO PELA ALIANÇA PIRATA". Havia fotos de prédios em ruínas, de uma gaiola de fios se desintegrando e, no centro de tudo, a imagem de seu irmão de criação, exausto mas vitorioso, cercado por uma multidão que o aclamava.

— — Ele conseguiu — disse Miu, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha pálida. — Ele realmente derrubou um dos pilares do submundo.

— — Não foi só isso — acrescentou o Número 1, apontando para uma coluna lateral do jornal. — Houve relatos de um homem usando os poderes da *Mera Mera no Mi*. Dizem que ele é o segundo em comando do Exército Revolucionário. Sabo.

Miu parou de respirar por um segundo. O nome ecoou em sua mente como um sino antigo. Ela se lembrou das histórias que Luffy contava durante as noites de vigília, sobre os três irmãos que beberam saquê sob a árvore, jurando liberdade. Ela se lembrou da dor constante que Luffy carregava pela perda em Marineford.

— — Então ele está vivo... — sussurrou ela, fechando os olhos por um momento para processar a informação. — Sabo está vivo e herdou a vontade das chamas.

Ela voltou a olhar para a janela circular do quarto. Através do vidro grosso, ela via o mar cinzento e as nuvens carregadas que pareciam refletir o estado de espírito do Novo Mundo. A bandeira do Governo Mundial lá fora parecia uma piada de mau gosto diante da coragem que seu irmão demonstrava a cada ilha que libertava.

— — Nosso irmãozinho está ficando bem forte, não é? — perguntou ela, embora não houvesse mais ninguém na sala além de Rendas e do Número 1. — Você viu isso, Ace?

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som das ondas batendo contra o casco. Miu sentia a presença de Ace em cada raio de sol que conseguia penetrar a névoa, em cada centelha de esperança que ela via nos olhos das crianças. Ela sabia que, em algum lugar além do véu da vida, o irmão mais velho estava rindo, orgulhoso do caos que Luffy estava causando em nome da justiça.

— — Miu, o Law mandou uma mensagem — disse o Número 1, interrompendo seus pensamentos. — Ele disse que vai tentar passar por aqui novamente em algumas semanas. Ele não está feliz com os relatórios de saúde que Madame Rendas enviou. Ele disse que, se você não parar de tentar "sentir" o navio inteiro o tempo todo, ele vai vir aqui e "cortar sua conexão com a realidade" pessoalmente.

— — Ele sempre tão gentil — comentou Miu com um sorriso fraco. — Mas ele tem razão. Eu sinto cada engrenagem, 1. Eu sinto quando um parafuso se solta no setor de máquinas. Eu sinto quando uma das crianças tropeça no corredor. O *Aethelgard* sou eu. Como eu posso descansar se meu corpo tem quilômetros de extensão?

O Número 1 ajoelhou-se ao lado da cama, segurando a mão de Miu.

— — Deixe-nos ser os parafusos por um tempo. Deixe-nos ser o motor. Você nos deu a vida e a liberdade, Miu. Agora, deixe que a gente proteja o seu descanso. Se você morrer, este navio não passa de uma tumba de metal. Nós precisamos da nossa mãe, não de uma capitã-máquina.

Miu sentiu um aperto no peito que não era causado pela doença. Era o peso do amor e da lealdade que ela mesma cultivara. Ela olhou para o Número 1 e viu nele o reflexo de toda a luta que tiveram para chegar até ali.

— — Está bem — aceitou ela, recostando-se nos travesseiros. — Eu vou tentar. Vou fechar os olhos e fingir que o mundo lá fora não existe por algumas horas.

— — Ótimo — disse o Número 1, levantando-se e entregando o jornal para Madame Rendas. — Vou avisar aos outros. Hoje será um dia de silêncio no convés superior.

Quando ele saiu, Miu ficou sozinha com seus pensamentos. Ela olhou novamente para a foto de Luffy. Ele parecia tão livre, tão radiante em sua determinação. Ela sentia uma inveja santa daquela liberdade, mas ao mesmo tempo, uma satisfação profunda por saber que o sacrifício dela — a reclusão, o pacto com o Governo, a saúde debilitada — era o que permitia que aquelas 2994 crianças pudessem um dia sonhar em ser tão livres quanto o Chapéu de Palha.

— — Você ouviu, Ace? — repetia ela em pensamento, sentindo o sono da exaustão finalmente vencê-la. — O Sabo voltou. O Luffy está vencendo. O mundo está mudando, e nós estamos aqui... apenas esperando o momento em que não precisaremos mais de bandeiras de governos ou de Yonkous para nos proteger.

As horas passaram. O sol começou a se pôr, pintando o céu de um laranja que lembrava o fogo. No convés do *Aethelgard*, as crianças caminhavam na ponta dos pés, os brinquedos guardiões vigiavam em silêncio absoluto, e o gigante de aço deslizava pelas águas como um fantasma protetor.

No quarto, Miu dormia um sono sem sonhos, mas com um leve sorriso nos lábios. Ela sabia que a luta de Luffy em Dressrosa era apenas o começo de algo muito maior. E embora seu corpo estivesse falhando, sua alma estava em paz. Ela havia feito o que era necessário. Ela havia garantido o amanhã de seus filhos.

— — Durma bem, pequena justiceira — sussurrou Madame Rendas, cobrindo-a com uma manta de lã feita pelas crianças do setor de tecelagem. — O mundo pode esperar. O seu jardim está seguro.

Lá fora, o vento soprava forte, levando consigo o eco das risadas de Luffy e o calor das chamas de Sabo, atravessando os oceanos até chegar àquele santuário de aço, onde uma jovem de cabelos brancos sonhava com o dia em que todos os seus filhos poderiam, finalmente, ver o sol sem medo.