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Até o amanhecer

O Ritmo Silencioso das Engrenagens

A segunda-feira na Tommen College sempre tinha o gosto amargo de café frio e a sensação de que o tempo se recusava a passar. Para Lúcia, era o dia em que o peso da realidade mais a esmagava. O cansaço acumulado do final de semana no Rusty Anchor, somado às madrugadas em claro com Otto, faziam com que cada passo nos corredores parecesse uma caminhada através de lama espessa.

Ela mantinha o capuz levantado, os olhos fixos nos próprios sapatos. A jaqueta de Patrick Feely estava lavada e dobrada dentro de sua mochila, um peso que parecia queimar contra suas costas. Ela precisava devolvê-la, mas a ideia de falar com ele novamente, de reconhecer que aquele momento de vulnerabilidade no beco realmente acontecera, a deixava nauseada de ansiedade.

— Lúcia! — O chamado foi baixo, quase um sussurro, mas ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar agora.

Ela parou diante de seu armário, os dedos trêmulos enquanto tentava girar o cadeado. Patrick estava ali, encostado na parede a poucos metros de distância. Ele não estava cercado pelos seus amigos barulhentos do time de rúgbi dessa vez. Ele estava sozinho, segurando uma alça da mochila, observando-a com uma expressão que não era de curiosidade, mas de algo muito mais perigoso: preocupação.

Lúcia não olhou para cima.

— Eu trouxe sua jaqueta — disse ela, a voz rouca. — Está na minha mochila.

— Não precisa de pressa — Patrick respondeu, aproximando-se lentamente, respeitando o espaço invisível que ela sempre desenhava ao seu redor. — Como está o pequeno? O... Otto?

Ouvir o nome do irmão saindo da boca de Patrick fez o coração de Lúcia dar um solavanco. Era como se, ao nomeá-lo, Patrick tivesse entrado em um círculo sagrado onde ninguém além de Joey Lynch era permitido.

— Ele está melhor. A febre passou — ela finalmente levantou o olhar, encontrando os olhos azuis dele. — Por que você está fazendo isso, Patrick?

— Isso o quê? — Ele inclinou a cabeça, um meio sorriso surgindo no canto dos lábios.

— Agindo como se... como se nos conhecêssemos. Como se fôssemos amigos. Você sabe quem eu sou nesta escola. Eu sou invisível. E é assim que eu preciso que continue.

Patrick suspirou, dando um passo que eliminou a distância entre eles. Ele era alto, imponente, mas havia uma suavidade em sua postura que desarmava a defensiva de Lúcia.

— Você não é invisível, Lúcia. Talvez você se esconda bem, mas eu vejo você. E depois de ouvir você cantar... — Ele fez uma pausa, baixando o tom de voz para que um grupo de segundanistas que passava não ouvisse. — Eu não consigo simplesmente fingir que você é apenas mais uma pessoa no corredor.

Lúcia sentiu o rosto esquentar. Ela abriu a mochila, tirou a jaqueta e a entregou a ele com movimentos bruscos.

— Obrigada por... por não contar para ninguém. Sobre o pub. Sobre o bebê.

— Eu cumpro minha palavra — ele disse, pegando a jaqueta, mas deixando seus dedos roçarem nos dela por um segundo a mais do que o necessário. — Vejo você depois da aula? No Joey?

Lúcia congelou.

— Como você sabe que eu trabalho lá?

Patrick riu, um som curto e genuíno que fez algumas garotas que passavam olharem em sua direção com inveja.

— Joey Lynch é praticamente uma lenda em Cork. E o meu pai leva o carro dele lá desde que eu nasci. Eu vi você lá na semana passada, debaixo de um Defender, coberta de graxa. Eu só não tinha certeza se era a mesma garota do fundo da sala de história até te ver no palco.

Lúcia não respondeu. Ela apenas fechou o armário e saiu apressada, o som dos batimentos cardíacos ecoando em seus ouvidos.

O dia na oficina foi particularmente exaustivo. Joey a colocou para trocar o sistema de freios de um caminhão antigo, um trabalho pesado que exigia força física que ela mal possuía naquele dia. Seus braços tremiam e o cheiro de fluido de freio estava começando a lhe dar dor de cabeça.

No fundo da oficina, em um cercadinho improvisado entre caixas de ferramentas e pneus empilhados, Otto brincava com um mordedor de borracha. Joey passava por ele de vez em quando, fazendo uma careta engraçada que arrancava uma risada banguela do bebê.

— Você está pálida, pequena — Joey comentou, limpando as mãos em um pano encardido. — Vá descansar um pouco. Eu termino isso.

— Eu preciso do dinheiro, Joey. Você sabe que o aluguel vence na quarta.

— Eu não disse que ia descontar do seu pagamento — Joey resmungou, embora seus olhos brilhassem com afeição paternal. — Vá cuidar do garoto. Ele está começando a ficar inquieto.

Lúcia soltou a chave inglesa com um suspiro de alívio. Ela caminhou até Otto, pegando-o no colo e sentindo o peso reconfortante dele. O cheiro de bebê, misturado levemente com o ambiente da oficina, era o seu único consolo.

Foi então que o som de um motor conhecido ecoou na entrada. Um jipe preto estacionou, e Patrick Feely saltou do banco do motorista. Ele não estava com o uniforme da escola, mas com uma calça de moletom e uma camiseta simples.

— Boa tarde, Joey! — gritou Patrick, entrando na oficina com a confiança de quem conhecia o lugar.

— Feely! O que traz você aqui? O carro do seu velho quebrou de novo? — Joey perguntou, com um sorriso largo.

— Não, só vim ver se vocês precisavam de uma mão extra. Ou de café.

Patrick levantou uma sacola de papel com o logotipo de uma cafeteria local. Ele caminhou em direção ao fundo da oficina, parando quando viu Lúcia sentada em um banco de madeira, com Otto no colo.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do rádio ao fundo tocando uma balada antiga de rock. Patrick olhou para Lúcia, depois para o bebê, e seus olhos se suavizaram de uma forma que ela nunca vira em nenhum garoto da sua idade.

— Então esse é o seu público mais importante? — ele perguntou, aproximando-se com cautela.

Lúcia apertou Otto um pouco mais forte contra o peito.

— Este é o Otto.

Patrick se agachou na frente deles. Ele estendeu um dedo, e Otto, com a curiosidade típica de um bebê de um ano, agarrou-o imediatamente, levando-o à boca.

— Ei, carinha! Eu sou o Patrick — ele disse, rindo baixinho enquanto Otto tentava morder seu dedo. — Ele é forte, hein?

— Ele é... muito ativo — Lúcia respondeu, sentindo uma barreira dentro de si desmoronar.

Ver Patrick ali, no meio da sujeira e do óleo, agachado no chão de cimento para brincar com seu irmão, era algo que seu cérebro não conseguia processar. Os meninos da Tommen eram cruéis, ou indiferentes. Eles não se importavam com órfãos ou com garotas que cheiravam a metal.

— Trouxe um chocolate quente para você — Patrick disse, colocando um copo de papel no banco ao lado dela. — E um chá para o Joey. Imaginei que você estivesse cansada.

— Por que você veio aqui, Patrick? — ela perguntou novamente, a voz mais suave desta vez.

Patrick olhou para ela, a brincadeira com Otto cessando por um momento.

— Eu queria ter certeza de que você chegou bem. E... eu queria ver se o que eu vi no pub era real.

— O que você viu?

— Uma garota que carrega o mundo nas costas e ainda consegue cantar como se tivesse asas — ele respondeu honestamente. — Eu não estou aqui para te julgar, Lúcia. Ou para contar seus segredos. Eu só... eu gostaria de ajudar. De verdade.

Lúcia sentiu uma lágrima solitária escapar e descer por sua bochecha. Ela a limpou rapidamente com o ombro, envergonhada.

— Eu não preciso de caridade.

— Não é caridade — Patrick se levantou, cruzando os braços. — É parceria. Eu sou bom em carregar coisas pesadas. E você parece que não larga o peso nem para respirar.

Joey, que observava tudo de longe enquanto fingia ajustar um carburador, soltou uma tosse seca.

— Lúcia, o garoto é insistente. Deixe ele te ajudar a organizar o estoque de peças lá no fundo. Assim você pode dar a janta para o Otto em paz.

Lúcia olhou de Joey para Patrick. Ela estava exausta, com fome e assustada. Mas, pela primeira vez em meses, o medo não era a única coisa que ela sentia. Havia um pequeno calor no peito, uma centelha de algo que ela não ousava chamar de esperança.

— Tudo bem — ela murmurou. — Mas se você quebrar alguma coisa, o Joey vai te cobrar.

Patrick abriu um sorriso radiante, aquele que iluminava o corredor da escola, mas que agora parecia direcionado apenas para ela.

— Pode deixar, chefe.

As horas seguintes passaram em um ritmo estranho e novo. Patrick realmente ajudou. Ele carregou caixas pesadas de óleo, organizou as prateleiras de ferramentas e, o mais surpreendente, não reclamou do cheiro ou da sujeira. Entre uma tarefa e outra, ele fazia perguntas simples. Qual era a cor favorita dela? (Azul meia-noite). Há quanto tempo ela dançava? (Desde os cinco anos, com a mãe).

Lúcia respondia com cautela, mas cada resposta era um tijolo que ela removia de sua muralha.

Quando a noite caiu sobre Cork, Patrick se ofereceu para levá-los para casa. Lúcia quis recusar, o instinto de preservação gritando em sua mente, mas Otto estava dormindo profundamente em seu colo e a caminhada até o ponto de ônibus parecia uma tortura insuportável.

— Só desta vez — ela cedeu.

O trajeto até o pequeno apartamento de Lúcia foi silencioso. Patrick dirigia com cuidado, como se soubesse que levava algo precioso. Quando ele parou em frente ao prédio antigo e descascado, ele não saiu do carro imediatamente.

— Lúcia? — ele chamou, quando ela começou a soltar o cinto de segurança de Otto.

— Sim?

— Amanhã, na escola... você não precisa se esconder de mim. Eu não vou te expor, mas eu gostaria de poder dizer 'oi'.

Lúcia olhou para o prédio escuro, para a vida difícil que a esperava lá dentro, e depois para o garoto ao seu lado.

— Um 'oi' está bem, Patrick.

Ele sorriu, satisfeito.

— Então, até amanhã.

Lúcia subiu as escadas com Otto, o coração batendo em um ritmo diferente. Ao entrar no apartamento, o silêncio não parecia tão opressor. Ela colocou o irmão no berço e foi até a janela, vendo o jipe de Patrick se afastar.

Ela sabia que a vida dela era um campo minado. Sabia que o passado poderia voltar para assombrá-la a qualquer momento e que o futuro era uma incógnita perigosa. Mas, naquela noite, enquanto ela lavava a graxa das mãos, ela se pegou cantarolando a melodia daquela canção que Patrick tanto gostara.

O romance entre eles era um botão que se recusava a abrir com pressa. Era feito de olhares furtivos, de jaquetas emprestadas e de um entendimento silencioso de que algumas feridas levam tempo para fechar. Patrick Feely não era apenas o garoto popular da Tommen; ele era o primeiro raio de sol que conseguia atravessar as nuvens pesadas de Cork para tocar a pele de Lúcia.

E, pela primeira vez, ela não se encolheu para longe da luz. Ela apenas fechou os olhos e, por um breve e fugaz momento, permitiu-se sentir o calor.