Autismo
Marcas de Pânico e o Peso do Orgulho
O treino de sexta-feira era sempre o mais intenso. O som dos discos atingindo as tabelas de acrílico ecoava como tiros de canhão, e o cheiro de gelo seco e suor impregnava o ar. Kuro Hatake liderava o time com uma energia contagiante, mas, entre um exercício e outro, seus olhos castanhos sempre buscavam o canto superior da arquibancada. Tatsuyo estava lá, como de costume, encolhida em seu casaco, os fones abafadores firmes sobre as orelhas.
Desta vez, porém, o ambiente estava mais carregado. Era dia de "portas abertas" para olheiros de universidades locais, e a arena estava mais cheia do que o normal. O barulho das conversas, os gritos dos torcedores e a música alta que saía dos alto-falantes da escola criavam uma cacofonia que Kuro sabia ser perigosa para Tatsuyo.
Nico Nakamura estava nervoso. Como um dos jogadores mais novos, ele sentia a pressão de impressionar os olheiros. Ele patinava com uma agressividade desnecessária, tentando se destacar a qualquer custo. Para ele, aquela tarde era decisiva para seu futuro no esporte.
— Vamos lá, Nakamura! Mais velocidade nessas pernas! — gritou Kuro, passando por ele como um raio.
Nico assentiu, o rosto suado e vermelho. Ao deslizar para perto do banco, ele viu um grupo de alunos populares do segundo ano rindo e apontando para as arquibancadas. Entre eles estava uma garota que Nico tentava impressionar há semanas.
— Ei, Nico — chamou um dos garotos, rindo de lado. — Sua irmã está tendo um treco lá em cima ou ela está só tentando se morder inteira?
Nico parou bruscamente, as lâminas dos patins levantando uma nuvem de gelo. Ele olhou para cima.
Tatsuyo estava em pleno colapso. O excesso de estímulos da arena lotada tinha rompido suas defesas. Ela não estava mais desenhando. Suas mãos estavam travadas na frente do peito, e ela cravava as unhas com uma força brutal na pele sensível das costas das mãos, puxando as cutículas e os pequenos ferimentos que mal haviam cicatrizado desde o último episódio. Ela balançava o corpo para frente e para trás, os olhos fechados com força, tentando desesperadamente se manter em silêncio para não atrair atenção.
Mas a atenção já estava nela.
— Ela é meio... especial, né? — a garota que Nico gostava comentou, com um tom de deboche que fez o estômago de Nico revirar.
Nico sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço. Não era compaixão, nem medo pela irmã. Era uma vergonha pura, ácida e paralisante. Ele olhou para os olheiros nas cadeiras de honra, depois para os colegas que riam, e por fim para a irmã que parecia estar se desintegrando à vista de todos.
— Eu nem sei por que ela veio hoje — mentiu Nico, a voz saindo falha. — Ela é... instável. É um saco ter que lidar com isso o tempo todo.
Kuro, que se aproximava para pegar uma garrafa de água, ouviu as palavras de Nico. Ele parou, a expressão endurecendo instantaneamente. Ele olhou para Tatsuyo e viu o sangue começando a manchar o dorso das mãos dela. Ela estava prestes a começar a gritar.
— Nico, o que você disse? — Kuro perguntou, sua voz soando como um trovão baixo, ignorando os alunos que riam.
— Nada, capitão. Só... continua o treino. Eu vou falar para ela ir embora — Nico disse, tentando se afastar, mas Kuro segurou seu protetor de ombro.
— Você não vai a lugar nenhum com essa atitude — rosnou Kuro. — Olha para ela. Ela está sofrendo.
Nesse momento, o limite de Tatsuyo estourou. O som de um apito estridente do treinador foi o gatilho final. Ela soltou um grito agudo, um som de agonia pura que cortou o barulho da arena. Ela se jogou para o lado, cobrindo a cabeça com as mãos ensanguentadas, e começou a chorar de forma convulsiva.
A arena ficou em silêncio por um segundo, antes que os sussurros e risadinhas recomeçassem.
— Que bizarro — alguém comentou alto.
Nico Nakamura sentiu vontade de desaparecer. Em vez de correr para ajudar a irmã, ele se virou de costas, batendo o taco de hóquei no gelo com raiva.
— Que vergonha... — sussurrou Nico para si mesmo, baixo o suficiente para que apenas Kuro ouvisse. — Por que ela não pode ser normal?
Kuro Hatake não disse mais nada. Ele largou o taco, saltou a mureta de proteção com a agilidade de um atleta e começou a subir as arquibancadas de dois em dois degraus, ainda usando os patins, o que produzia um som metálico e urgente no concreto.
Ele chegou até Tatsuyo em segundos. Ela estava caída entre os bancos, as mãos feridas e o rosto banhado em lágrimas. O pânico era tão grande que ela não conseguia nem respirar direito.
— Tatsuyo! Sou eu! — Kuro se ajoelhou, ignorando o desconforto dos patins no chão firme. — Respira comigo, pequena. Por favor, olha para mim.
Ele não tentou tocá-la imediatamente. Ele sabia que, naquele estado, qualquer toque físico poderia ser interpretado pelo cérebro dela como um ataque. Ele tirou as luvas pesadas de hóquei e as colocou no chão, mostrando as mãos vazias.
— O barulho vai parar. Eu vou tirar você daqui — prometeu Kuro, sua voz calma sendo o único ponto de ancoragem no mundo dela. — Mas você precisa soltar suas mãos. Você está se machucando muito, Tatsuyo.
Ela soluçava, o corpo tremendo violentamente.
— Dói... tudo dói... as luzes... o barulho... — ela gemia, as unhas ainda cravadas na carne viva.
Kuro olhou para baixo e viu Nico parado no gelo, olhando para eles com uma expressão de puro desprezo e constrangimento. A raiva de Kuro ferveu, mas ele a guardou para depois. Sua prioridade era a garota à sua frente.
— Eu vou te levar para um lugar silencioso — disse Kuro. — Vou te levar para a sala de música, onde ninguém vai te incomodar. Você confia em mim?
Tatsuyo abriu os olhos minimamente. Através das lágrimas, ela viu o rosto preocupado de Kuro. Não havia julgamento ali. Não havia a vergonha que ela via nos olhos do irmão ou o deboche que sentia vindo dos outros alunos. Havia apenas uma bondade genuína e protetora.
Lentamente, ela relaxou a pressão das unhas. Kuro viu as marcas profundas, o sangue fresco escorrendo pelos pulsos dela. Ele sentiu uma pontada de dor no próprio peito ao ver o quanto ela se sacrificava apenas para tentar se conter.
— Isso... muito bem — elogiou ele. — Agora, eu vou te ajudar a levantar.
Kuro a ajudou a se erguer, colocando o braço dela sobre seus ombros largos para dar apoio. Ele a guiou para fora da arena, passando pelo corredor onde todos os olheiros e alunos observavam. Ele caminhava de cabeça erguida, protegendo Tatsuyo com seu próprio corpo, agindo como um escudo humano contra os olhares maldosos.
Quando passaram por Nico, Kuro parou por um breve segundo.
— O treino acabou para mim, Nakamura — disse Kuro, o tom de voz gélido. — E se eu fosse você, começaria a pensar muito bem no tipo de homem que você quer ser. Porque, agora, você não passa de um covarde.
Nico ficou estático no gelo, sentindo o peso daquelas palavras diante de todo o time. A garota que ele queria impressionar agora o olhava com estranheza, mas por um motivo diferente: a crueldade que ele demonstrara com a própria irmã.
Kuro levou Tatsuyo até a sala de música, que ficava em um prédio anexo e estava vazia. Ele a sentou em um sofá de couro velho e foi buscar o kit de primeiros socorros que sempre ficava no corredor.
O silêncio da sala foi imediato. Tatsuyo começou a se acalmar, embora os soluços ainda sacudissem seus ombros de vez em quando. Kuro voltou e se sentou no chão, à frente dela.
— Posso limpar suas mãos? — perguntou ele, mantendo a voz baixa.
Tatsuyo assentiu timidamente, estendendo as mãos trêmulas. Kuro pegou um algodão com antisséptico e começou a limpar os ferimentos com uma delicadeza extrema.
— Desculpa... pelo meu irmão — sussurrou ela, a voz quase inaudível. — Ele me odeia.
— Ele não te odeia, Tatsuyo — respondeu Kuro, sem desviar os olhos do trabalho. — Ele só é imaturo e egoísta. Ele está tão preocupado com o que os outros pensam que esqueceu o que realmente importa. Mas isso é problema dele, não seu. Você não tem culpa de nada.
Tatsuyo olhou para Kuro. Ele estava concentrado em colocar curativos adesivos sobre os cortes que ela mesma havia feito.
— Por que você faz isso? — perguntou ela. — Você é o capitão. Todo mundo gosta de você. Você não precisava sair do treino por minha causa.
Kuro terminou de colocar o último curativo e olhou nos olhos pretos dela, dando aquele sorriso de lado que sempre desarmava qualquer um.
— Porque eu prefiro mil vezes estar aqui com você do que jogando hóquei com pessoas que não entendem o valor de uma pessoa como você. Você é corajosa, Tatsuyo. Você luta contra o mundo inteiro todos os dias só para estar aqui. Isso é muito mais impressionante do que marcar um gol.
Tatsuyo sentiu um calor diferente no peito. Não era o calor do pânico ou da vergonha, mas algo suave e reconfortante. Ela olhou para as mãos cobertas por curativos coloridos que Kuro tinha encontrado no kit.
— Obrigada, Kuro — disse ela, e desta vez, um sorriso pequeno, mas verdadeiro, apareceu em seu rosto.
— De nada, pequena. Agora, que tal a gente ficar aqui um pouco mais? Eu te conto sobre como o treinador quase caiu no gelo hoje tentando fazer uma manobra de efeito.
Kuro continuou falando, transformando o trauma da crise em uma tarde de risadas baixas e segurança. Ele sabia que Nico teria muito o que explicar quando chegassem em casa, mas ali, naquele momento, o mundo era silencioso e seguro. E, pela primeira vez, Tatsuyo sentiu que não precisava mais usar as unhas para se segurar na realidade; a mão de Kuro, pousada gentilmente perto da sua, era âncora o suficiente.