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Autismo

O Calor de um Lar Silencioso

A semana que se seguiu ao incidente na arena de hóquei foi, no mínimo, atípica para Kuro Hatake. O capitão do time, conhecido por suas piadas de duplo sentido e sua autoconfiança inabalável, sentia-se estranhamente distraído. Seus olhos, que antes vagavam pela escola em busca de diversão fácil, agora buscavam constantemente a silhueta encolhida de Tatsuyo Nakamura. Ele a observava de longe, notando como ela se encolhia quando o sinal tocava ou como seus dedos tamborilavam nervosamente na mesa durante as aulas de física.

Nico, por outro lado, estava agindo de forma estranha. O garoto parecia dividido entre a gratidão por Kuro ter ajudado sua irmã e o ressentimento por ter sido exposto em sua fraqueza fraternal. A tensão entre o capitão e o ala era palpável no gelo, mas Kuro decidiu que era hora de quebrar esse gelo de uma vez por todas.

Naquela tarde de sexta-feira, após um treino exaustivo onde Nico parecia mais aéreo do que o normal, Kuro tomou uma decisão impulsiva.

— Ei, Nico! — gritou Kuro, jogando a toalha úmida sobre o ombro enquanto saía do chuveiro, exibindo o abdômen definido que costumava ser o centro das atenções no vestiário. — Esqueci meu caderno de táticas na sua bolsa quando estávamos revisando os jogos ontem. Vou passar na sua casa para pegar.

Nico travou enquanto amarrava o tênis. A pele morena pareceu empalidecer.

— Ah... eu posso levar para você na segunda, Kuro. Não precisa se incomodar. Minha casa está... uma bagunça.

Kuro deu um sorriso de lado, aquele que desarmava qualquer um, mas seus olhos castanhos eram perspicazes.

— Relaxa, cara. Eu não sou sua sogra. E além disso, quero ver como a Tatsuyo está. As mãos dela estavam bem melhores ontem, mas quero ter certeza.

Nico suspirou, derrotado. Ele sabia que, quando Kuro colocava algo na cabeça, era impossível tirar.

— Tudo bem. Mas não repara em nada. O meu pai... bom, ele provavelmente vai estar trancado no quarto.

A viagem até a casa dos Nakamura foi silenciosa. Kuro dirigia seu carro com uma mão no volante, enquanto Nico olhava pela janela, claramente desconfortável. Quando chegaram, Kuro notou que a casa era simples, mas bem cuidada por fora. Havia pequenos vasos de flores na janela que pareciam ser a única nota de cor em um bairro cinzento.

Assim que Nico abriu a porta, o cheiro de amaciante de roupas e chá de camomila atingiu Kuro. Era um contraste absurdo com o ambiente estéril e frio da escola.

— Tatsuyo? Cheguei. O Kuro está comigo — anunciou Nico, a voz perdendo o tom defensivo que usava na escola e assumindo algo mais suave, quase infantil.

Kuro entrou e observou o ambiente. A sala era modesta, mas extremamente organizada. Não havia poeira, e os objetos pareciam estar dispostos com uma precisão cirúrgica — provavelmente uma das necessidades sensoriais de Tatsuyo.

Tatsuyo apareceu na porta da cozinha. Ela usava um avental por cima de um moletom largo e seus cabelos pretos estavam presos em um coque frouxo. Ao ver Kuro, ela parou, os olhos pretos arregalando-se por um segundo antes de ela baixar a cabeça, as bochechas ganhando um tom rosado.

— Oi, Kuro — ela sussurrou, as mãos escondidas atrás das costas, um gesto que agora Kuro sabia ser um mecanismo de defesa.

— Oi, boneca — Kuro respondeu, mas desta vez o apelido soou mais como um carinho do que como uma provocação. — Vim ver se você não está se maltratando hoje.

Tatsuyo balançou a cabeça negativamente e estendeu as mãos para frente, mostrando as palmas e os dorsos. As feridas estavam cicatrizando, restando apenas marcas avermelhadas que em breve sumiriam.

— Eu estou bem. O Nico me ajudou a passar a pomada que você sugeriu — disse ela, lançando um olhar amoroso para o irmão mais novo.

Kuro percebeu então a mudança na dinâmica. Na escola, Nico era o atleta popular que tinha vergonha da irmã "estranha". Aqui, dentro daquelas quatro paredes, os papéis se invertiam. Nico parecia relaxar os ombros, perdendo a postura de jogador de hóquei, enquanto Tatsuyo assumia uma aura de autoridade gentil.

— Você já comeu, Nico? — perguntou ela, aproximando-se do irmão e passando a mão pelo cabelo dele, tirando uma mecha que caía sobre os olhos. — Fiz aquele ensopado que você gosta. O papai já pegou o prato dele e voltou para o quarto.

— Ainda não, Tats — respondeu Nico, fechando os olhos por um momento sob o toque da irmã. — Vou só trocar de roupa. Kuro, senta aí. Eu já volto com o caderno.

Nico subiu as escadas, deixando Kuro e Tatsuyo sozinhos na sala. O silêncio poderia ser constrangedor, mas para a surpresa de Kuro, ele se sentia em paz.

— Você cuida muito dele, não é? — perguntou Kuro, encostando-se no portal da sala.

Tatsuyo assentiu, começando a arrumar algumas almofadas no sofá.

— Ele é o meu bebê. Desde que a mamãe se foi e o papai... bom, o papai ficou no mundo dele... eu tive que cuidar. O Nico finge que é durão, mas ele tem medo do escuro e odeia ficar sozinho.

Kuro sentiu um nó na garganta. Ele imaginou aquela menina, com todas as suas dificuldades sensoriais e crises de pânico, tendo que ser o pilar de uma casa desmoronada.

— Você é incrível, Tatsuyo. Eu não acho que conseguiria fazer metade do que você faz.

Ela parou o que estava fazendo e olhou para ele, um sorriso tímido e genuíno iluminando seu rosto pardo.

— Você é bom em patinar. Isso também é difícil.

Kuro riu, um som rico e vibrante que pareceu preencher a sala.

— É, acho que cada um tem seu talento.

Nico desceu as escadas vestindo um pijama de flanela, algo que Kuro nunca imaginaria o ala agressivo do time usando. Ele entregou o caderno para Kuro, mas o capitão não parecia com pressa de ir embora.

— Está passando aquele filme de ficção científica que a gente comentou no treino, Nico — disse Kuro, apontando para a TV. — Se importam se eu ficar para ver o começo?

Nico olhou para Tatsuyo, que deu de ombros, parecendo confortável com a presença de Kuro.

— Tudo bem — disse Nico. — Mas a Tatsuyo sempre senta no meio. É a regra.

Eles se acomodaram no sofá grande. Tatsuyo sentou-se no centro, com Kuro à sua direita e Nico à sua esquerda. O filme começou, mas Kuro logo percebeu que a tela era o que menos importava ali.

À medida que os minutos passavam, a dinâmica familiar dos Nakamura se revelava em sua forma mais pura. Tatsuyo pegou uma manta e cobriu as pernas de Nico. O garoto, sem qualquer sinal da vergonha que demonstrava na escola, bocejou e inclinou o corpo para o lado.

Kuro observou, hipnotizado, enquanto Nico deitava a cabeça no peito de Tatsuyo. O jogador de 1,76m se encolhia como uma criança, passando o braço pela cintura da irmã e agarrando a barra do moletom dela. Tatsuyo, por sua vez, não pareceu surpresa. Pelo contrário, ela envolveu o irmão com um braço, enquanto a outra mão começava um movimento rítmico e suave, fazendo cafuné nos cabelos pretos de Nico.

— Ele sempre dorme no primeiro ato — sussurrou Tatsuyo para Kuro, mantendo o olhar fixo no irmão com uma ternura infinita.

Kuro engoliu em seco. A cena era tão íntima, tão carregada de um amor resiliente, que ele se sentiu um intruso, mas ao mesmo tempo, sentiu uma vontade desesperada de fazer parte daquilo. Ele viu como Tatsuyo buscava o contato físico com o irmão; parecia que a pele de Nico era o seu porto seguro, o lugar onde o caos sensorial dela finalmente encontrava um filtro.

— Você não se incomoda? — perguntou Kuro em voz baixa, aproximando-se um