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Avatar

Entre o Céu e o Sal

O vento de Pandora nunca fora tão íntimo. Para Kuro, que passara dezesseis anos sentindo apenas o ar filtrado e reciclado de uma máscara de plástico, a sensação das correntes térmicas chicoteando sua nova pele azul era quase avassaladora. Ele inclinou o corpo para a esquerda, sentindo os músculos poderosos de seu Ikran responderem instantaneamente através do vínculo da *tsaheylu*.

— Uou! — gritou Kuro, a voz ecoando mais grave e potente do que ele estava acostumado. — Vocês sentiram isso? O ar... ele tem gosto! É como se eu estivesse bebendo a brisa!

Logo atrás dele, voando no mesmo Ikran que Kiri, Tatsuyo segurava-se com força na cintura da amiga. Ela ainda não tinha seu próprio animal, mas a experiência de estar ali, sem o peso do tanque de oxigênio nas costas e sem a barreira de vidro diante dos olhos, era transformadora. Ela observava Kuro com uma mistura de diversão e preocupação.

— Tenta não cair, Hatake! — exclamou Tatsuyo, rindo enquanto o vento bagunçava suas ondas pretas. — Seria uma vergonha sobreviver a uma transferência de alma só para virar comida de predador marinho porque você resolveu fazer graça!

— Ela tem razão, cara! — Lo’ak passou voando por eles, fazendo uma manobra arriscada que quase tocou as asas do Ikran de Kuro. — Você ainda parece um filhote de Ikran tentando sair do ovo. Todo desengonçado.

— Desengonçado? — Kuro fingiu indignação, ajeitando seu cabelo branco que agora contrastava fortemente com o azul vibrante de sua testa. — Eu sou a definição de agilidade, meu caro. Só estou... calibrando o novo equipamento. Olha só para esses dedos!

Ele levantou uma das mãos, flexionando os cinco dedos. Era um detalhe que o diferenciava dos Na’vi puros, mas que o unia a Jake e aos seus filhos.

— Cinco dedos para te dar um cascudo melhor, Lo’ak! — brincou Kuro.

Neteyam, que voava um pouco mais acima mantendo o olhar atento ao horizonte e aos pais que lideravam a formação, desceu o nível de voo para se juntar à conversa. Ele parecia mais relaxado do que nos dias anteriores, embora a responsabilidade de ser o filho mais velho ainda pesasse em seus ombros.

— Deixem ele, Lo’ak. Kuro e Tatsuyo estão processando mais informação sensorial em uma hora do que nós em um ano — disse Neteyam, oferecendo um sorriso encorajador para Tatsuyo. — Como você está se sentindo, Tats? A conexão com a Kiri está estável?

Tatsuyo assentiu, os olhos negros brilhando com uma intensidade nova.

— É estranho, Neteyam. É como se eu pudesse ouvir a floresta ficando para trás e o oceano chamando lá na frente. E a Kiri... ela sente coisas que eu nem sabia que existiam.

Kiri, que mantinha os olhos semicerrados, conectada profundamente com o ambiente, inclinou a cabeça para trás para olhar para Tatsuyo.

— Você está começando a ouvir a música de Eywa, Tats. Sem o filtro das máquinas dos seus pais, você finalmente faz parte da orquestra.

— Eu só queria que a orquestra não fosse tão barulhenta — comentou Kuro, tentando coçar a ponta da cauda com o pé, uma manobra que o fez quase perder o equilíbrio no selim. — Sério, essa cauda tem vontade própria? Ela não para de chicotear!

— Ela reage ao seu humor, idiota — explicou Lo’ak, rindo da luta de Kuro com o próprio corpo. — Se você está agitado, ela fica agitada. Tenta relaxar, ou você vai acabar dando um tapa na cara do seu próprio Ikran.

Lá na frente, Jake Sully olhou para trás, observando a interação dos jovens. Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto de Olo’eyktan. Ele sabia o quanto aquela transição era difícil, mas ver Kuro e Tatsuyo integrados, brincando com seus filhos como se tivessem nascido Na’vi, trazia-lhe uma paz momentânea em meio ao caos da fuga.

Neytiri, no entanto, mantinha o olhar fixo no horizonte. Tuk estava agarrada a ela, observando os irmãos com os olhos arregalados de admiração.

— Eles fazem muito barulho — murmurou Neytiri, a voz baixa, mas audível para Jake. — O Povo do Céu, mesmo em corpos de verdade, ainda não conhece o silêncio da prudência.

— Eles são jovens, Neytiri — respondeu Jake suavemente. — E estão vivos. Deixe que aproveitem o ar puro enquanto podem. O mar vai exigir muito deles em breve.

A viagem continuou por horas. A paisagem de Pandora mudava drasticamente conforme as montanhas flutuantes e as densas florestas de Hometrees davam lugar a planícies costeiras e, finalmente, à vastidão azul.

Kuro estava fascinado com sua nova visão. As cores eram mais nítidas, os detalhes das flores bioluminescentes que começavam a brilhar com o entardecer eram como explosões de luz. Ele olhou para Tatsuyo e notou como ela parecia mais... certa. O corpo Na’vi, embora novo, parecia honrar a inteligência que ela sempre demonstrara. Ela observava as correntes de ar, calculando mentalmente a distância e a velocidade, seus olhos negros absorvendo cada detalhe geográfico.

— Tats, olha aquilo! — Kuro apontou para um grupo de criaturas aladas que mergulhavam no oceano lá embaixo. — São Ilus? O Norm me mostrou fotos, mas ao vivo... caramba, são enormes!

— São lindos — sussurrou Tatsuyo. Ela sentiu uma pontada de tristeza ao pensar que seus pais nunca viram aquilo daquela forma, mas a sensação foi rapidamente substituída pelo calor da mão de Kiri sobre a sua.

— Você vai nadar com eles logo, Tatsuyo — disse Kiri. — Eywa tem um lugar para vocês no recife também.

De repente, Lo’ak acelerou seu Ikran, mergulhando em direção a uma nuvem de spray marítimo.

— O último a chegar na linha do horizonte é um rabo de verme! — gritou ele, desafiando os irmãos.

— Lo’ak, volte aqui! — ordenou Neteyam, mas não conseguiu esconder o brilho de competição nos olhos. — Kuro, tente acompanhar!

Kuro soltou um grito de empolgação e cutucou os flancos de seu Ikran.

— Você ouviu o rapaz, amigão! Vamos mostrar para esse povo da floresta o que um ex-humano musculoso pode fazer!

— Kuro, não! — gritou Tatsuyo, mas ela estava rindo. — Ele vai se matar, Kiri! Segue ele!

A perseguição lúdica trouxe uma leveza necessária. Kuro, apesar de ainda estar se adaptando à envergadura do Ikran e ao peso de seu novo corpo, tinha um instinto natural para o movimento. Ele girava e mergulhava, sentindo o sal do mar salpicar sua pele azul. A liberdade era inebriante.

— Ei, Tats! — gritou Kuro enquanto emparelhava com o Ikran de Kiri por um momento. — Eu andei pensando... agora que eu tenho três metros de altura, será que eu finalmente sou mais alto que o seu ego?

Tatsuyo revirou os olhos, mas seu sorriso era radiante.

— No seu caso, Hatake, a altura só serve para a queda ser maior. E seus olhos continuam amarelos de bobo, enquanto os meus são a cor da inteligência pura!

— Seus olhos são pretos porque você é uma alienígena dentro de uma alienígena — rebateu ele, piscando para ela. — Mas admite, eu fico bem de azul, não fico?

— Você fica menos feio, admito — ela respondeu, fazendo Kiri soltar uma risadinha.

A brincadeira foi interrompida quando Jake sinalizou para que todos diminuíssem a velocidade. As ilhas flutuantes do recife começavam a surgir no horizonte, raízes gigantescas de árvores que cresciam diretamente da água, criando um labirinto de beleza indescritível. O clã Metkayina estava perto.

Kuro sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com o voo. Ele olhou para suas mãos de cinco dedos e depois para Tatsuyo. Eles eram diferentes. Eram avatares permanentes, uma anomalia genética e espiritual. O povo do mar os aceitaria?

Tatsuyo pareceu ler seus pensamentos. Ela se inclinou para frente, ignorando por um segundo a beleza da paisagem para focar no amigo de infância.

— Nós vamos conseguir, Kuro. Se sobrevivemos ao laboratório e àquela dor insuportável da transferência, a gente sobrevive a alguns Na’vi desconfiados.

— É — disse Kuro, recuperando sua postura confiante. — E se eles não gostarem da gente, eu mostro meus músculos e você explica para eles por que eles estão errados usando palavras difíceis que ninguém entende.

— Combinado — ela riu.

Conforme se aproximavam das águas cristalinas do clã Metkayina, o grupo se fechou em formação. O sol estava se pondo, pintando o céu de Pandora com tons de roxo, laranja e rosa neon.

Kuro respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar úmido e salgado. Ele não sentia mais o aperto da máscara. Não sentia mais o medo de ser um intruso frágil em um mundo de gigantes. Pela primeira vez, ele se sentia parte da paisagem.

— Ei, Lo’ak! — chamou Kuro.

— Fala, "Avatar"! — respondeu Lo’ak, usando o termo com carinho.

— Como é que se diz "eu vim em paz, mas se me irritar eu te derrubo" na língua do mar?

Neteyam riu, balançando a cabeça.

— Apenas fique quieto e deixe meu pai falar, Kuro. Tente não derrubar ninguém nos primeiros cinco minutos.

— Vou tentar — prometeu Kuro, embora sua cauda estivesse chicoteando de excitação. — Mas não prometo nada se a água estiver muito gelada.

Tatsuyo olhou para baixo, vendo as sombras dos grandes animais marinhos nadando sob a superfície. Ela sentiu uma conexão vibrante, uma curiosidade intelectual e espiritual que a queimava por dentro. Ela era Tatsuyo Nakamura, filha de cientistas da Terra, mas agora, ela era algo muito mais vasto.

— Kiri — sussurrou Tatsuyo. — Obrigada. Por não nos deixar para trás.

Kiri olhou para ela com aqueles olhos profundos que pareciam ver a alma.

— Vocês nunca estiveram atrás, Tatsuyo. Vocês só estavam esperando o corpo certo para alcançar a gente.

Com um último mergulho das asas dos Ikrans, o grupo começou a descida final em direção à vila flutuante. O destino de Kuro e Tatsuyo estava prestes a mudar novamente, mas agora, eles o enfrentariam com cinco dedos, sangue azul e, pela primeira vez, pulmões que pertenciam verdadeiramente a Pandora.

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