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Sinfonia de Explosões e Lantejoulas

A semana na Agência de Endeavor nunca mais foi a mesma. Embora Bakugo tivesse confiscado o drive original e ameaçado reduzir a cinzas qualquer um que mencionasse o termo "pop barroco", o estrago já estava feito. O segredo de que o aluno mais explosivo da U.A. possuía a alma lírica de uma diva galesa havia se espalhado entre o pequeno grupo de heróis profissionais como um incêndio em uma refinaria.

No refeitório da agência, Hawks estava sentado de cabeça para baixo em uma viga do teto, comendo espetinhos de frango e balançando as asas no ritmo de uma batida invisível.

— Sabe o que eu percebi? — Hawks comentou, olhando para Mirko, que estava destruindo um saco de cenouras na mesa abaixo. — O moleque não apenas escreve bem. Ele tem o que chamamos de "visão de era". A estética de "Electra Heart" é toda sobre arquétipos femininos aplicados à busca pela identidade. Ele adaptou isso para a crise de identidade dos aspirantes a heróis. É genial.

— Eu só sei que não consigo tirar "Bubblegum Bitch" da cabeça — Mirko respondeu, limpando o canto da boca. — Ontem eu estava chutando a cara de um vilão de baixo escalão e me peguei pensando: "I’m miss sugar pink, liquorice, neon drink". Combina com o meu estilo de luta, sabe? É doce, mas se você morder, explode.

Nesse exato momento, a porta do refeitório se abriu. Katsuki Bakugo entrou, parecendo mais mal-humorado do que o habitual, se é que isso era possível. Seus olhos percorreram a sala como radares em busca de qualquer sinal de deboche.

— — Se algum de vocês abrir a boca para cantar, eu juro que o próximo vilão que eu capturar vai ser usado como projétil contra essa mesa — rosnou Bakugo, pegando uma bandeja com movimentos bruscos.

— — Bom dia para você também, "Starring Role" — Hawks provocou, descendo graciosamente do teto. — Relaxa, bombinha. Estamos apenas admirando o seu... hã... processo criativo.

— — Não existe processo — Katsuki retrucou, sentando-se o mais longe possível deles. — São apenas rimas. É um exercício mental para manter o foco sob pressão. Nada mais.

— — Exercício mental? — Shoto Todoroki apareceu do nada, sentando-se à frente de Bakugo com sua expressão imperturbável de sempre. — Eu pesquisei sobre a música "Family Jewels". A letra fala sobre herança genética e as expectativas dos pais. Você estava pensando no meu pai quando escreveu aquilo ou na sua própria família?

Bakugo quase engasgou com o arroz. Ele olhou para Shoto com um misto de horror e fúria pura.

— — Eu não estava pensando em ninguém, Meio-a-Meio! — ele gritou, batendo os hashis na mesa. — E pare de analisar minhas letras como se fosse um crítico da Rolling Stone!

— — É que a metáfora sobre "don't wanna live my life in shadows" pareceu muito específica para a nossa turma — continuou Shoto, ignorando as faíscas que começavam a sair das mãos de Bakugo. — Eu até mostrei a letra para o Midoriya.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Hawks parou de mastigar. Mirko arregalou os olhos. Até o som da geladeira parecia ter morrido.

— — Você... o quê? — a voz de Bakugo saiu perigosamente baixa.

— — Eu mostrei para o Midoriya — repetiu Shoto. — Ele chorou por dez minutos e depois começou a escrever em um caderno novo chamado "Análise Musical de Kacchan: Volume 1". Ele disse que agora entende por que você o chama de Deku, algo sobre a estética do "Teen Idle" e o sentimento de perda da juventude...

— — EU VOU MATAR VOCÊS DOIS! — Bakugo explodiu, literalmente. Uma nuvem de fumaça e o som de uma detonação preencheram o refeitório.

Antes que ele pudesse pular no pescoço de Todoroki, uma fita de tecido azul o envolveu, prendendo seus braços ao corpo. Best Jeanist entrou no recinto, mantendo a calma absoluta.

— — Modo de agir, Katsuki — disse Jeanist, ajustando a gola. — Um artista deve saber lidar com o público e com a crítica. Embora o jovem Todoroki tenha sido... imprudente ao compartilhar sua obra sem autorização, você deve entender que sua arte tocou o coração das pessoas.

— — ME SOLTA, SEU ENTUSIASTA DE JEANS! — Bakugo se debatia. — Não é arte! É só... é só barulho!

— — Não é o que "Savages" diz — comentou Endeavor, cruzando o corredor e parando à porta do refeitório. Ele olhou para o estagiário com um respeito renovado, embora desajeitado. — Eu ouvi a faixa novamente hoje cedo. "Underneath it all, we're just savages". Você está certo, Bakugo. Mesmo nós, os heróis no topo, somos movidos por instintos primordiais. Você capturou a hipocrisia da sociedade de uma forma que eu levei décadas para entender.

Bakugo parou de lutar. Ele olhou para o Herói Número Um, depois para o seu mentor, para o herói alado e para o seu rival. Todos eles o olhavam não apenas como um moleque talentoso com uma individualidade forte, mas como alguém que possuía uma profundidade que eles negligenciaram.

— — Isso é ridículo — Bakugo murmurou, a raiva dando lugar a um constrangimento profundo que fazia seu rosto arder. — Eu só... eu precisava colocar aquilo em algum lugar. Se eu falasse essas coisas em voz alta, vocês achariam que eu estou ficando fraco.

— — Fraqueza? — Mirko deu uma gargalhada alta, levantando-se e indo até ele. — Garoto, escrever "I'm gonna live, I'm gonna fly, I'm gonna fail, I'm gonna die" em uma batida de sintetizador de alta energia é a coisa mais corajosa que eu já vi. Você não está se escondendo. Você está se expondo. Isso é força.

Hawks se aproximou, colocando a mão no ombro de Bakugo, que por milagre não explodiu o herói.

— — Olha, a gente sabe que você quer ser o número um — disse Hawks com um tom mais sério. — Mas o mundo não precisa apenas de um herói que vença vilões. Às vezes, as pessoas precisam de alguém que entenda o que elas sentem no escuro. Suas músicas fazem isso.

Bakugo desviou o olhar, encarando os próprios pés.

— — Se o Deku mostrar aquilo para o resto da sala 1-A, eu mudo de país — ele avisou, embora a ameaça soasse sem convicção.

— — Tarde demais — Shoto disse, pegando o celular. — O Midoriya já criou um grupo no chat da sala. O nome é "Fã Clube Oficial do Electra Bakugo". A Ashido está tentando decidir qual figurino combina mais com "Froot".

O grito que Bakugo soltou foi ouvido em três quarteirões de distância.

Nas horas seguintes, a agência de Endeavor se tornou um caos criativo. Contra todas as expectativas, Bakugo não destruiu o prédio. Em vez disso, após ser exaustivamente provocado e, estranhamente, incentivado, ele se viu sentado em uma sala de som com Hawks e Best Jeanist.

— — O baixo em "Are You Satisfied?" precisa ser mais pesado — Bakugo resmungava, mexendo nos controles de um software que ele parecia dominar com maestria. — Se é para essa porcaria ser ouvida, que seja com a mixagem correta.

— — Viu só? — Hawks sorriu, batendo as asas. — O perfeccionismo dele se traduz perfeitamente na produção musical.

— — Katsuki — Jeanist interveio —, a letra de "Lies". Você escreveu: "You're never gonna love me, so are you gonna trust me?". Isso é sobre a sua relação com a aceitação pública ou sobre alguém específico?

Bakugo parou de mexer nos controles. O silêncio na sala de som ficou denso. Ele olhou para o gráfico de ondas sonoras na tela, as luzes LED refletindo em seus olhos vermelhos.

— — É sobre o fato de que as pessoas só amam a ideia de um herói — ele disse, a voz sem a agressividade habitual. — Elas amam o símbolo, a vitória, o poder. Mas ninguém quer amar a parte feia. A parte que erra, a parte que sente medo, a parte que quer mandar tudo para o inferno. Elas não amam quem eu sou, elas amam o que eu posso fazer por elas. Então, se não vão me amar, pelo menos vão ter que confiar que eu sou o melhor.

Hawks e Jeanist se entreolharam. Não havia mais espaço para piadas sobre divas pop ou ritmos contagiantes. Ali, naquela pequena sala, estava o núcleo do que tornava Katsuki Bakugo quem ele era.

— — Marina ficaria orgulhosa dessa interpretação — Hawks disse suavemente. — Você pegou o conceito dela e o tornou visceral para a nossa realidade.

— — Tanto faz — Bakugo resmungou, voltando a clicar nos arquivos. — Agora escutem isso. É a demo de "Ancient Dreams in a Modern Land". Eu mudei o tom para algo mais... estridente. Como uma explosão de nitroglicerina pura no início do refrão.

A música começou. Era diferente de tudo o que tinham ouvido antes. Era épica, cinematográfica, com uma batida que parecia um exército marchando para a guerra. A voz de Bakugo entrava como uma navalha, questionando a existência, o destino e a própria natureza da humanidade.

"You don't have to be like everybody else... You don't have to fit into the norm..."

Enquanto a música preenchia a sala, do lado de fora, na área de treinamento, Mirko e Shoto assistiam através do vidro. Eles não podiam ouvir a letra, mas podiam ver a expressão de Bakugo. Ele não parecia o garoto raivoso que gritava com todos no corredor. Ele parecia... em paz.

— — Ele realmente é um gênio, não é? — perguntou Mirko, cruzando os braços.

— — Sim — respondeu Shoto. — Mas não diga isso a ele. Ele já tem um ego grande o suficiente.

— — Tarde demais, Todoroki — disse Endeavor, aparecendo atrás deles, também observando a cena. — Um herói que consegue transformar sua dor em algo que outros podem cantar é um herói que nunca será esquecido. O mundo precisa de explosões, mas às vezes, precisa de uma melodia.

Lá dentro, Bakugo aumentou o volume. Pela primeira vez em muito tempo, ele não estava preocupado em ser o número um, em superar o All Might ou em calar o Deku. Ele estava apenas ouvindo a própria voz, clara e potente, dizendo ao mundo exatamente quem ele era.

E, se o mundo quisesse dançar enquanto ele o incendiava, que assim fosse.

— — "I am not my body, not my mind or my brain" — ele cantarolou baixo, fechando os olhos enquanto a música chegava ao clímax. — "I am the observer, I'm a witness of life".

Naquela tarde, a Agência de Endeavor não produziu apenas relatórios de crimes e estratégias de patrulha. Produziu o início de uma lenda que não seria contada apenas nos livros de história dos heróis, mas também nas paradas de sucesso de um mundo que finalmente começou a ouvir o que o garoto das explosões tinha a dizer.

E, como Hawks previu, Bakugo realmente ia matá-los no dia seguinte. Mas, por aquela noite, a trilha sonora da vitória tinha um ritmo pop e um brilho de diamantes.