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Bastidores

Entre o Pecado e o Roteiro

O som dos pincéis de maquiagem caindo no chão de linóleo do camarim pareceu um estrondo diante do silêncio carregado de luxúria que envolvia Karol e Ruggero. O metal da penteadeira estava frio contra as coxas de Karol, mas o calor que emanava do corpo de Ruggero era o suficiente para incendiar todo o estúdio da Disney. Ela sentia a respiração dele, quente e errática, contra a pele do seu pescoço, e cada lugar onde os dedos dele tocavam parecia deixar uma trilha de brasas.

Dez anos. Eles haviam passado dez anos tentando convencer o mundo, e a si mesmos, de que o que viveram em 2016 fora apenas uma paixonite de juventude, um subproduto da convivência intensa de uma turnê mundial. Mas, enquanto Ruggero a pressionava contra o espelho, as mãos dele subindo perigosamente pelas suas pernas, Karol percebeu que a mentira havia desmoronado.

— Ruggero... para... — Ela tentou dizer, mas o som saiu como um gemido baixo, uma súplica que ele claramente interpretou como um incentivo.

— Você não quer que eu pare, Karol — ele murmurou contra a curva da orelha dela, a voz vibrando em um tom que a fazia perder o juízo. — Eu sinto como você está tremendo. Eu sinto como o seu corpo ainda reconhece o meu.

Ele se afastou apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. O castanho dos olhos de Ruggero estava escuro, quase negro, tomado pelo desejo. Ele não era mais o garoto de vinte e dois anos que se escondia atrás de contratos e da sombra de uma namorada controladora. Ele era um homem que sabia exatamente o que queria. E, naquele momento, ele queria retomar o que era dele por direito.

Karol, por sua vez, lutava contra a imagem de Diego que insistia em surgir em sua mente. Diego era o porto seguro. Ele era o homem que a esperava com um jantar pronto, que não entendia nada de atuação, mas entendia tudo de lealdade. Mas Diego nunca a fizera sentir que o mundo poderia acabar em cinco minutos e que isso seria aceitável, desde que ela estivesse nos braços dele.

— Isso é loucura — disse ela, recuperando um pouco de fôlego, as mãos espalmadas no peito de Ruggero, sentindo o coração dele martelar contra sua palma. — Nós temos vidas agora. Você tem a Camila. Ela é uma mulher incrível, Ruggero. Como você pode fazer isso com ela?

Ruggero soltou uma risada amarga, encostando a testa na dela.

— A Camila é maravilhosa, sim. Mas ela sabe, Karol. No fundo, ela sempre soube que havia uma parte de mim que ela nunca conseguiu tocar. Porque essa parte ficou trancada em 2016, em um quarto de hotel no México, com uma garota de olhos verdes que me prometeu que nunca me esqueceria.

— Eu era uma criança! — Karol exclamou, as lágrimas voltando a arder. — Você me deixou, Ruggero. Você escolheu a segurança. Você escolheu a Candelária na época porque era mais fácil do que enfrentar o escândalo de estar com a sua co-protagonista menor de idade.

— Eu fui um covarde — ele admitiu, a voz carregada de um arrependimento genuíno. — Eu me odeio todos os dias por não ter tido coragem de te esperar. Por não ter lutado por você. Mas agora... agora não há mais desculpas de idade. Não há mais produtores nos ameaçando. Somos só nós.

— Não somos só nós! — Ela o empurrou, conseguindo finalmente descer da penteadeira. Ela ajeitou o vestido de Luna, as mãos trêmulas enquanto tentava recompor a fachada de profissionalismo. — Existe uma equipe inteira lá fora. Existe o público que nos idolatra. E existem as pessoas que amamos e que estão em casa esperando por nós. Eu não vou ser a "outra" de novo, Ruggero. Eu não vou viver nas sombras.

Ruggero a observou, o desejo em seu rosto dando lugar a uma determinação fria. Ele cruzou os braços, encostando-se na porta trancada, bloqueando a saída dela.

— O Diego sabe? — ele perguntou, mudando de assunto abruptamente.

— Sabe o quê? — Karol franziu o cenho.

— Sabe que o seu primeiro beijo de verdade foi comigo? Sabe que a primeira vez que você se entregou a alguém foi em um camarim exatamente como este, enquanto a equipe montava o cenário lá fora? Ele sabe que, toda vez que você canta "Alas", você ainda pensa em como a minha mão se encaixava na sua cintura durante a coreografia?

— Cala a boca! — Karol avançou, desferindo um tapa no peito dele. — Você não tem o direito de falar dele. Você não o conhece.

— Eu conheço você — ele rebateu, segurando os pulsos dela com firmeza, mas sem machucar. — E eu vi como você me beijou naquela varanda agora há pouco. Aquilo não foi a Luna. Aquilo foi a Karol. A minha Karol.

O silêncio que se seguiu foi interrompido por batidas fortes na porta.

— Karol? Ruggero? Estão aí? — Era a voz de uma das assistentes de produção. — O diretor quer rever o cronograma das cenas de amanhã. Precisamos de vocês no set para as marcações de luz da cena do quarto.

Karol empalideceu. A "cena do quarto" era uma das mais comentadas do novo roteiro. Luna e Matteo, agora adultos, passariam a noite juntos pela primeira vez após o reencontro. Era uma cena coreografada para ser sensual, artística, mas profundamente íntima.

— Já estamos saindo! — Ruggero gritou de volta, sua voz soando perfeitamente normal, o que irritou Karol profundamente. Como ele conseguia mudar de "amante desesperado" para "ator profissional" em segundos?

Ele soltou os pulsos dela e deu um passo para trás, abrindo espaço. Ruggero buscou um lenço de papel e limpou um borrão de batom que havia ficado no canto de sua própria boca, observando Karol pelo reflexo do espelho.

— É melhor você retocar o batom, Sevilla — ele disse, com um sorriso de canto que era puro veneno e mel. — A menos que queira que todos saibam que o "Mauricinho" ainda sabe como tirar o fôlego da "Menina Delivery".

Karol respirou fundo, pegando seu batom rosa característico e aplicando-o com mãos que ainda insistiam em tremer. Ela se recusava a olhar para ele.

— Isso não vai se repetir, Pasquarelli. Amanhã, no set, seremos apenas colegas de trabalho. Se você tentar qualquer gracinha fora do script, eu juro que falo com a produção e peço um dublê de corpo para as cenas íntimas.

Ruggero soltou uma risada curta e seca enquanto girava a chave da porta.

— Você pode tentar se enganar, Karol. Mas nós dois sabemos que, quando as luzes se apagarem e a câmera começar a rodar amanhã... você não vai querer um dublê. Você vai querer a mim. Porque ninguém te conhece como eu.

Ele abriu a porta e saiu, deixando-a sozinha com o aroma de seu perfume e o caos de seus próprios sentimentos.

Karol desabou na cadeira giratória, cobrindo o rosto com as mãos. O coração ainda batia em um ritmo frenético. Ela pegou o celular e viu uma mensagem de Diego: *"Bom trabalho hoje, meu amor. Mal posso esperar para você voltar para casa. Comprei aquele vinho que você gosta. Te amo."*

Uma lágrima solitária escorreu, manchando a maquiagem perfeita. Ela amava Diego. Ou, pelo menos, amava a paz que ele representava. Mas Ruggero... Ruggero era a guerra. E Karol, por mais que tentasse negar, sempre fora uma soldada pronta para o combate.

O resto do dia passou como um borrão. As interações no set foram mínimas. Ruggero manteve uma distância respeitável, conversando com outros atores e rindo com a equipe de som, como se nada tivesse acontecido. Aquela indiferença fingida feria Karol mais do que ela gostaria de admitir. Ela se sentia exposta, como se todos pudessem ler em sua pele as marcas invisíveis das mãos dele.

Ao chegar em casa naquela noite, o apartamento luxuoso em Buenos Aires parecia frio, apesar do aquecimento central. Diego a recebeu com um beijo terno e o vinho prometido.

— Como foi o primeiro dia de gravação com o italiano? — Diego perguntou, servindo as taças enquanto se sentavam no sofá de couro.

Karol sentiu um nó na garganta.

— Foi... produtivo — ela respondeu, tentando manter a voz estável. — O Ruggero é um bom profissional. A química de cena ainda está lá, o que facilita as coisas para o diretor.

— Imagino — Diego comentou, sem qualquer traço de ciúme. Ele confiava nela cegamente, o que tornava tudo dez vezes pior. — Deve ser estranho voltar a atuar com alguém de tanto tempo atrás. Mas fico feliz que vocês se deem bem. Afinal, é apenas trabalho, certo?

— Certo — mentiu ela, dando um gole generoso no vinho, sentindo o líquido queimar sua garganta. — Apenas trabalho.

Naquela noite, Karol demorou a dormir. Toda vez que fechava os olhos, via o rosto de Ruggero. Sentia a pressão do corpo dele contra o seu. O roteiro da cena do dia seguinte estava sobre o criado-mudo, e as palavras pareciam saltar das páginas: *"Matteo acaricia o rosto de Luna, aproximando-se com uma urgência que os anos não puderam apagar. Eles se entregam um ao outro, finalmente em casa."*

Ela sabia que aquela cena seria o seu fim. Ou talvez, um novo e perigoso começo.

No dia seguinte, o set estava mais silencioso do que o normal. A equipe sabia que as cenas de intimidade exigiam concentração e um ambiente controlado. O quarto de Luna havia sido redesenhado para parecer o quarto de uma mulher adulta, com tons mais sóbrios, mas ainda mantendo alguns toques de nostalgia.

Ruggero já estava lá, vestindo apenas uma calça de linho e uma camisa entreaberta. Karol entrou usando uma camisola de seda que fazia parte do figurino, sentindo-se vulnerável sob as luzes fortes do estúdio.

O diretor, um homem pragmático chamado Jorge, aproximou-se deles.

— Tudo bem, pessoal. Vocês conhecem a coreografia. Começamos com a conversa na beira da cama, Ruggero puxa Karol para perto, e então entramos na sequência de beijos. Eu quero que o público sinta que esses dois esperaram a vida inteira por este momento. Ruggero, você é o caçador. Karol, você é a que finalmente para de fugir. Alguma dúvida?

— Nenhuma — disse Ruggero, sua voz soando como veludo. Ele olhou para Karol, e ela viu o desafio em seus olhos.

— Vamos lá. Silêncio no set! — gritou o assistente. — Gravando!

— Eu não consigo mais fingir, Luna — Ruggero começou, entrando no personagem com uma facilidade assustadora. — Cada dia longe de você foi uma mentira que eu contei para mim mesmo.

Karol sentiu a mão dele tocar seu rosto. O toque era suave, mas carregado de uma eletricidade que a fez esquecer instantaneamente de Diego, do vinho da noite anterior e de todas as suas promessas de seriedade.

— Matteo, nós temos caminhos diferentes agora... — Ela disse a fala, mas sua mão subiu para cobrir a dele em seu rosto, um gesto que não estava no roteiro.

— Nossos caminhos sempre levam um ao outro — Ruggero improvisou novamente, aproximando-se. — Diga que me quer. Não como Luna. Diga que você me quer agora.

O diretor não cortou. Ele estava hipnotizado pela intensidade que emanava dos dois.

Karol olhou para Ruggero e, naquele momento, a barreira entre ficção e realidade evaporou. Ela não via Matteo. Ela via o homem que a amou quando ela era apenas uma menina, o homem que a ensinou o que era o desejo e que agora, dez anos depois, a estava reivindicando com cada fibra de seu ser.

— Eu te quero — ela sussurrou, a voz embargada. — Eu sempre te quis.

Ruggero a puxou para um beijo que foi muito além de qualquer instrução técnica. Ele a deitou na cama cenográfica, o corpo dele cobrindo o dela com uma urgência que fez a equipe prender a respiração. As mãos de Karol se enterraram nos cabelos dele, puxando-o para mais perto, enquanto a perna de Ruggero se encaixava entre as dela.

O calor era insuportável. O prazer de sentir o contato físico novamente, após uma década de repressão, era como uma droga injetada diretamente em suas veias. Karol sentiu o quadril de Ruggero pressionar o seu, e um gemido involuntário escapou de seus lábios, sendo abafado pela boca dele.

Eles estavam em um estúdio cercados por trinta pessoas, mas poderiam estar sozinhos no universo. Ruggero desceu os beijos para o pescoço dela, e Karol arqueou o corpo, entregando-se completamente. Cada toque dele era uma lembrança; cada carícia era uma promessa de que o passado não estava morto.

— Corta! — A voz do diretor soou distante, como se viesse de outra dimensão. — Corta! Perfeito! Excelente!

Ruggero não se afastou imediatamente. Ele permaneceu sobre ela por alguns segundos extras, a respiração pesada contra o seu ombro.

— Você ouviu o que você disse? — ele sussurrou apenas para ela, enquanto a equipe começava a se movimentar para mudar as câmeras de posição.

— Eu estava atuando, Ruggero — ela mentiu, embora seu corpo ainda estivesse pulsando sob o dele.

— Não, você não estava — ele disse, levantando-se e oferecendo a mão para ajudá-la a se levantar. — E o melhor de tudo é que agora está gravado. O mundo inteiro vai ver o que você sente por mim, Karol Sevilla. Inclusive o seu jogador.

Karol sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela olhou para os monitores onde a cena estava sendo reproduzida. A entrega em seu rosto, a forma como ela se agarrava a ele... não havia como negar.

A quarta temporada de "Sou Luna" não seria apenas um retorno triunfal para os fãs. Seria o campo de batalha onde dois corações tentariam, desesperadamente, não se destruir enquanto redescobriam que algumas chamas são simplesmente impossíveis de apagar. E, enquanto Ruggero caminhava em direção ao buffet de café com aquele andar confiante, Karol soube que sua vida estável com Diego acabara de se tornar uma contagem regressiva para o desastre.