Bdsm ennead
O Labirinto de Vidro e a Sombra do Falcão
O retorno de Seth ao "Duat" na semana seguinte não foi anunciado por trombetas, mas pelo silêncio que se espalhava conforme ele atravessava o salão principal. Ele não usava mais o casaco de couro; optara por uma camisa de seda negra, levemente translúcida sob as luzes neon, e calças que abraçavam seus movimentos com uma precisão quase ofensiva. Ele não olhou para os lados. Seus olhos escarlates estavam fixos na área elevada, no trono de couro que, para sua irritação, estava vazio.
Seth bufou, encostando-se ao balcão de mármore do bar. Ele não precisou pedir nada. O barman, um homem robusto com tatuagens de hieróglifos nos antebraços, deslizou um copo de cristal com um líquido âmbar e uma única esfera de gelo esculpida.
— Cortesia do Mestre — disse o homem, com um aceno breve.
Seth arqueou uma sobrancelha, observando o reflexo do uísque.
— Ele é sempre tão atencioso com as pragas que infestam o estabelecimento dele? — Seth perguntou, a voz carregada de uma ironia que buscava uma reação que não veio.
— Ele disse que você reclamaria da qualidade. Esse é da reserva pessoal dele.
Seth deu um gole lento. Era excelente. Complexo, turfado, com um toque de fumaça que descia queimando a garganta de maneira prazerosa. Ele detestava o fato de que Horus o conhecia tão bem. Detestava ainda mais o fato de que estava ali, esperando como um súdito, apenas porque a memória do toque firme do sobrinho havia assombrado seus pensamentos durante toda a semana.
— Ele está esperando — o barman acrescentou, apontando com o queixo para a mesma porta de carvalho escuro do fundo.
Seth deixou o copo pela metade. Ele caminhou com uma languidez calculada, cada passo uma declaração de que ele estava ali por vontade própria, não por obediência. Ao abrir a porta, encontrou o quarto mergulhado em uma luz azulada, fria como o luar sobre o deserto. Horus estava de pé junto a uma mesa de ônix, organizando o que pareciam ser instrumentos de vidro e metal.
— Você se atrasou — disse Horus, sem se virar. Sua voz era um murmúrio calmo que cortava a tensão do ambiente.
— Um rei nunca se atrasa, Horus. Os outros é que chegam cedo demais — rebateu Seth, fechando a porta com o calcanhar. Ele cruzou os braços, observando as costas largas do mais novo. — E o que é tudo isso? Decidiu abrir uma farmácia ou vai finalmente tentar me dissecar?
Horus virou-se lentamente. Ele não usava as roupas formais da última vez; estava com uma túnica moderna, de corte reto, que deixava seus braços fortes expostos. O olhar que ele lançou a Seth foi direto, desprovido de qualquer julgamento, mas carregado de uma expectativa que fez o estômago de Seth dar um nó.
— Hoje não haverá cordas, Seth. Você disse que traria as suas, mas vejo que veio de mãos vazias.
— Esqueci no meu outro palácio — mentiu Seth, sustentando o olhar. — Achei que sua criatividade fosse suficiente para compensar minha falta de planejamento.
Horus deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Seth. O cheiro de sândalo agora estava misturado a algo mais fresco, como ozônio antes da chuva.
— Minha criatividade é vasta, mas ela exige algo de você que não seja apenas sarcasmo. Tire a camisa.
Seth soltou uma risada curta e seca.
— Começamos direto nas ordens? Sem um jantar? Sem um elogio sobre como eu fico bem sob essa luz ridícula?
— Você sabe que fica bem sob qualquer luz, e não precisa que eu diga o óbvio para alimentar seu ego — Horus rebateu, a voz mantendo aquela irritante estabilidade. — A camisa, Seth. Agora.
Seth sentiu a pulsação acelerar na base do pescoço. Ele começou a desabotoar a seda com dedos lentos, mantendo os olhos fixos nos de Horus. Era um ato de exibicionismo, um desafio silencioso. Quando a peça caiu no chão, ele estufou o peito de leve, exibindo a musculatura definida e as cicatrizes antigas que contavam histórias de guerras que Horus mal podia imaginar.
— Satisfeito, Mestre? — a palavra "Mestre" saiu com um veneno melífluo.
Horus não respondeu imediatamente. Ele estendeu a mão e tocou uma das cicatrizes no ombro de Seth, um traço fino que cruzava a clavícula. O toque foi leve, mas Seth estremeceu.
— Você é feito de cicatrizes e orgulho — comentou Horus. — Mas hoje, eu quero ver o que há por baixo disso. Ajoelhe-se.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Seth sentiu o sangue subir ao rosto. Ajoelhar-se era o limite que ele jurara nunca cruzar, nem mesmo naquele jogo.
— Você está brincando — sibilou Seth, o queixo erguido. — Eu não me ajoelho para ninguém. Nem para o seu pai, nem para você.
— Você não está se ajoelhando para um rei, Seth. Está se ajoelhando para a dinâmica. Está cedendo o controle para ver o que eu faço com ele. — Horus deu um passo atrás, cruzando as mãos atrás das costas. — Se não consegue fazer isso, a porta está logo atrás de você. Pode voltar para o seu uísque e para a sua solidão.
Seth cerrou os punhos. A passivo-agressividade de Horus era uma armadilha perfeita. Ele sabia que, se saísse, passaria o resto da eternidade se perguntando o que teria acontecido. Ele odiava a curiosidade. Odiava ainda mais a forma como Horus não implorava, não exigia com gritos. Ele apenas oferecia a escolha.
Lentamente, com uma expressão que prometia mil anos de sofrimento a Horus, Seth dobrou os joelhos. O impacto contra o tapete macio pareceu ecoar como um trovão em sua mente. Ele manteve o tronco ereto, as mãos repousando sobre as coxas, recusando-se a baixar a cabeça.
— Aí está — murmurou Horus, aproximando-se novamente. Ele colocou a mão sobre o topo da cabeça de Seth, os dedos embrenhando-se nos fios ruivos e rebeldes. — Não dói tanto quanto você imaginava, dói?
— Eu vou te matar enquanto você dorme — respondeu Seth, embora o tom de sua voz estivesse desprovido de qualquer ameaça real, soando mais como uma confissão íntima.
— Talvez. Mas agora, você vai fechar os olhos.
Seth hesitou, mas acabou cedendo. A escuridão trouxe consigo uma agudeza sensorial. Ele ouviu o tilintar de metal contra vidro na mesa atrás dele. Sentiu o deslocamento do ar quando Horus se moveu.
— O que você está fazendo? — perguntou Seth, a voz falhando minimamente.
— Shhh. Sem perguntas. Apenas sinta.
De repente, algo gelado tocou a pele do peito de Seth. Ele deu um sobressalto, os olhos se abrindo por instinto, mas a mão de Horus em sua nuca o manteve no lugar, firme e inabalável.
— Feche os olhos, Seth. Confie.
Seth obedeceu novamente, a respiração curta. O objeto gelado — uma pedra de gelo, ele percebeu — deslizava por seus mamilos, descendo pelo abdômen, deixando um rastro de arrepios e umidade. Antes que o frio se tornasse insuportável, ele sentiu algo quente. Muito quente.
Era cera.
Seth soltou um chiado entre os dentes conforme as gotas de cera de uma vela de baixa temperatura atingiam sua pele. O contraste entre o gelo e o calor era como um curto-circuito em seu sistema nervoso.
— Você... seu pequeno... — Seth tentou formular uma ofensa, mas Horus pressionou o polegar contra seus lábios, calando-o.
— Eu disse para não falar. Apenas sinta a transição. O frio que retrai, o calor que expande. Você vive nos extremos, Seth. Eu estou apenas te mostrando o mapa do seu próprio corpo.
Horus continuou o processo com uma precisão cirúrgica. Ele alternava entre o gelo, que entorpecia a pele, e a cera, que trazia uma queimação doce e persistente. Seth sentia-se flutuar. A humilhação de estar ajoelhado estava sendo engolida por uma onda de endorfinas que ele não conseguia controlar. Ele começou a se inclinar em direção ao toque de Horus, uma busca inconsciente por mais.
— Isso — incentivou Horus, a voz suave como veludo. — Pare de lutar. Deixe o peso do mundo lá fora. Aqui, você não precisa ser o Deus da Guerra. Você não precisa carregar o deserto nas costas.
Horus largou a vela e o gelo. Ele segurou o rosto de Seth com ambas as mãos, forçando-o a abrir os olhos. A proximidade era tamanha que Seth podia ver as nuances de dourado nas íris de Horus.
— Olhe para mim — ordenou Horus.
Seth olhou. Não havia o escárnio habitual. Havia uma vulnerabilidade crua, uma fome que ele tentava esconder sob a máscara de agressividade.
— Você é magnífico quando para de tentar ser um monstro — disse Horus, o polegar acariciando a maçã do rosto de Seth.
— Eu sou o que eu preciso ser para sobreviver — rebateu Seth, a voz rouca. — E você... você é apenas um garoto que pensa que pode domar o sol.
— Eu não quero domar o sol, Seth. Eu quero que ele brilhe sem queimar tudo ao redor.
Horus inclinou-se e pressionou os lábios contra a testa de Seth, um gesto de uma ternura tão inesperada que Seth sentiu as lágrimas arderem no canto dos olhos. Ele odiou aquilo. Odiava como Horus o desarmava, não com violência, mas com uma aceitação que ele nunca recebera de ninguém.
— Levante-se — disse Horus, soltando-o e oferecendo a mão.
Seth ignorou a mão. Ele se levantou sozinho, as pernas um pouco instáveis. Ele sacudiu os restos de cera endurecida do peito com um gesto brusco, tentando recuperar sua dignidade.
— Já chega de truques de salão por hoje — declarou Seth, embora não fizesse menção de ir embora. — O que vem a seguir? Vai me fazer ler poesias?
Horus sorriu, aquele sorriso calmo que agora Seth começava a entender como sua maior arma.
— Poesia não combina com você. Mas acho que você ainda tem muita energia acumulada.
Horus caminhou até uma parede onde um conjunto de algemas de couro estava preso a trilhos metálicos. Ele apontou para elas.
— Você disse que queria ver o que eu faço quando alguém não se ajoelha por vontade própria. Bem, você já se ajoelhou. Agora, quero ver como você se comporta quando não pode recuar nem um milímetro.
Seth caminhou até as algemas com uma expressão de tédio fingido.
— Você é obcecado por restrições, Horus. Algum trauma de infância que eu deveria saber?
— A restrição é o que permite a liberdade de sentir sem medo — respondeu Horus, prendendo os pulsos de Seth nas algemas. Ele ajustou a altura para que os braços de Seth ficassem esticados para os lados, em uma cruz de tensão. — Quando você não pode fugir, você é forçado a enfrentar o que está sentindo.
Seth testou a resistência do couro. Era sólido. Ele estava esticado, o peito exposto, os pés firmemente plantados no chão.
— Estou enfrentando o fato de que você é um tediante — provocou Seth, embora seu corpo estivesse vibrando de antecipação.
Horus não respondeu com palavras. Ele pegou uma venda de seda preta e a amarrou ao redor dos olhos de Seth.
— Agora — sussurrou Horus no ouvido de Seth —, o jogo muda. Eu vou te tocar, e você vai ter que adivinhar com o quê. Se errar, haverá uma consequência. Se acertar... talvez eu te dê o que você realmente veio buscar.
— Eu vim buscar diversão, não um quiz — reclamou Seth, mas sua voz estava carregada de uma expectativa sombria.
— Veremos.
Seth sentiu algo roçar seu abdômen. Era macio, leve, como uma pena, mas deixava um rastro de eletricidade.
— Uma pena de falcão — chutou Seth, um sorriso irônico nos lábios. — Muito clichê, Horus.
— Errado — disse Horus. — Era a ponta de um pincel de caligrafia.
Seth sentiu uma leve picada no ombro, como se uma agulha o tivesse tocado por um segundo.
— Isso foi a consequência? — perguntou Seth, tentando não demonstrar que o susto o fizera saltar internamente.
— Foi apenas um aviso. Próximo.
Desta vez, algo frio e metálico deslizou por sua garganta, parando logo acima da jugular. Seth congelou. O cheiro de aço era inconfundível.
— Uma faca — disse Seth, a voz firme. — Uma de suas adagas de cerimônia.
Houve um silêncio. Seth sentiu a lâmina pressionar levemente a pele, não o suficiente para cortar, mas o suficiente para lembrá-lo da fragilidade da vida.
— Correto — murmurou Horus. — Você sempre reconhece o perigo, não é?
— É o meu habitat natural.
A lâmina foi afastada. Seth sentiu o calor das mãos de Horus em suas coxas, subindo lentamente. O toque era possessivo, carregado de uma autoridade que não precisava de cordas ou facas para ser sentida.
— Você gosta disso, Seth? — a voz de Horus estava mais baixa, mais rouca. — Gosta de ser o centro do meu mundo, mesmo que seja através de uma venda e de algemas?
— Eu gosto de ver você tentar me dominar — respondeu Seth, inclinando-se para a frente o máximo que as algemas permitiam. — Gosto de ver o esforço que você faz para manter essa fachada de retidão enquanto suas mãos tremem de vontade de me rasgar ao meio.
Horus parou o movimento das mãos. Ele retirou a venda de Seth com um movimento brusco. Os olhos de Seth demoraram um segundo para se ajustar, mas quando o fizeram, ele viu que Horus não estava sorrindo. O sobrinho o observava com uma intensidade que beirava a fome predatória.
— Minhas mãos não tremem, Seth — disse Horus, a voz soando como um comando divino. — Se eu quisesse te rasgar ao meio, você já estaria em pedaços. Mas eu prefiro você inteiro. Inteiro e consciente de que, neste momento, não existe Egito, não existe trono, não existe passado. Existe apenas este quarto. E as minhas regras.
Seth sentiu um arrepio de puro prazer. Aquela era a versão de Horus que ele queria ver. O mestre que não pedia licença, o falcão que reivindicava sua presa.
— Então me mostre — desafiou Seth, um sorriso selvagem cruzando seu rosto. — Pare de falar e me mostre o que você faz com o que é seu.
Horus não hesitou. Ele selou os lábios de Seth com um beijo que era uma batalha por si só. Não havia gentileza ali; era uma colisão de dentes, línguas e séculos de ressentimento transformados em desejo puro. Seth retribuiu com a mesma ferocidade, puxando as algemas contra o metal, o som do tilintar preenchendo o quarto como uma trilha sonora de guerra.
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Horus encostou a testa na de Seth, suas respirações se misturando.
— Você é impossível — murmurou Horus.
— E você é persistente — rebateu Seth, seus olhos vermelhos brilhando com um triunfo sombrio.
Horus soltou as algemas de Seth. Assim que seus braços caíram, Seth não atacou. Ele apenas envolveu o pescoço de Horus com as mãos, puxando-o para mais perto, o corpo ainda marcado pela cera e pelo gelo, uma obra de arte caótica criada pelas mãos do sobrinho.
— A sessão acabou? — perguntou Seth, a voz baixa.
— Por hoje, sim — respondeu Horus, recuperando sua calma, embora seus olhos ainda estivessem escuros. — Mas você sabe o caminho de volta.
Seth soltou-o e caminhou até sua camisa no chão. Ele a vestiu sem pressa, observando Horus reorganizar a mesa como se nada tivesse acontecido. A passivo-agressividade de Seth estava lá, pronta para ser usada, mas ele sentia uma leveza que não experimentava há eras.
— O uísque da próxima vez — disse Seth, parando na porta — tem que ser melhor que esse. Eu não me ajoelho por nada menos que um single malt de trinta anos.
Horus olhou para ele, um brilho de diversão cruzando seu rosto.
— Vou providenciar, tio. Mas traga as cordas. Eu quero ver se os seus nós são tão bons quanto a sua língua.
Seth soltou uma risada que ecoou pelo corredor conforme ele saía. Ele ainda era a tempestade, e Horus ainda era o horizonte. Mas, por uma noite, a tempestade decidira seguir o ritmo do vento, e o horizonte descobrira que não havia nada mais fascinante do que o caos contido.
O "Duat" continuava pulsando lá fora, mas para Seth, o verdadeiro jogo estava apenas começando. E ele mal podia esperar para ver quem seria o primeiro a quebrar na próxima rodada.