Behind the scenes
O Despertar dos Segredos
O sol de Bangkok filtrava-se pelas frestas das cortinas pesadas do hotel, mas o ambiente ainda mantinha o calor residual da noite anterior. Engfa foi a primeira a despertar. Seu corpo parecia vibrar com uma energia mansa, uma satisfação que ia além do sucesso do show. Ao seu lado, o emaranhado de lençóis de seda escondia as duas mulheres que eram seu porto seguro. Charlotte dormia com o rosto aninhado no ombro de Faye, que, mesmo inconsciente, mantinha um braço protetor em volta da cintura da mais nova.
Engfa sorriu, sentindo o coração transbordar. Ela se levantou com cuidado, evitando fazer barulho, e caminhou até a varanda da suíte presidencial para sentir a brisa da manhã. A adrenalina do palco havia sido substituída por uma paz absoluta. No entanto, ela sabia que seus fãs — seus amados "Englot" e os seguidores de Faye — estariam ansiosos por notícias.
Com um impulso típico de sua personalidade energética, ela pegou o celular e decidiu abrir uma transmissão ao vivo. Ela queria agradecer, queria compartilhar um pouco daquela luz, mesmo que não pudesse (ainda) contar tudo o que havia acontecido entre aquelas quatro paredes.
— Bom dia, pessoal! — Engfa sussurrou para a câmera, ajustando o ângulo para que apenas seu rosto e a vista da cidade aparecessem, mantendo o quarto em um desfoque estratégico ao fundo. — Eu ainda estou meio sem voz, mas não podia deixar de passar aqui para agradecer por ontem. Foi mágico. Cada grito, cada luz... eu senti tudo.
O chat começou a subir em uma velocidade vertiginosa. Milhares de pessoas entraram em segundos, enviando corações, emojis de chamas e perguntas sobre como ela estava se sentindo após o concerto. Engfa, com seu sarcasmo amigável, ia respondendo a alguns comentários enquanto caminhava lentamente de volta para dentro do quarto, esquecendo-se por um momento de quão perigoso era o cenário atrás dela.
— Sim, eu descansei um pouco. Beber? Imagina, eu sou um anjo — ela brincou, piscando para a câmera e soltando uma risada rouca que fez o chat explodir.
Nesse exato momento, o movimento nos lençóis começou. Faye Malisorn, a personificação da preguiça elegante pela manhã, sentou-se na cama, os cabelos vermelhos bagunçados caindo sobre os olhos. Sem perceber o celular posicionado no tripé improvisado sobre a mesa, ela bocejou e esticou os braços.
— P'Fa... — a voz de Faye soou profunda, carregada de um carinho doméstico que raramente mostrava em público. — Por que você já está de pé, meu amor? Volta aqui, a Char ainda está dormindo e eu estou com frio.
Engfa congelou. Seus olhos se arregalaram e ela olhou para a tela. O chat parou por um milésimo de segundo antes de entrar em colapso total. "MEU AMOR?", "Faye?", "Elas estão juntas?!", "Onde está a Charlotte?".
Antes que Engfa pudesse reagir, Charlotte se espreguiçou, despertada pela voz de Faye. Ela se sentou, esfregando os olhos com as costas das mãos, parecendo uma criança adorável e perdida.
— Deixa ela, Faye... — Charlotte resmungou, a voz doce e sonolenta. — A nossa vida é ligada no 220v. Vem cá, vida, me dá um beijo de bom dia antes de começar a trabalhar.
Charlotte estendeu a mão na direção de Engfa, esperando o carinho habitual. O silêncio que se seguiu no quarto só não era mais alto que o barulho visual das mensagens na live de Engfa.
— Gente... — Engfa finalmente conseguiu falar, a voz falhando levemente. — Eu... eu estou em Live. Ao vivo. Para o mundo inteiro.
O efeito foi instantâneo. Faye, que estava prestes a se levantar para abraçar Engfa por trás, parou no meio do caminho como se tivesse levado um choque. Charlotte, cujas bochechas já eram naturalmente rosadas, tornou-se da cor dos cabelos de Faye em questão de segundos. Ela puxou o lençol até o queixo, os olhos castanhos arregalados de puro pânico.
— Você o quê? — Faye perguntou, sua voz recuperando a ironia defensiva, embora o rubor em seu pescoço a entregasse.
— Live, Faye. L-I-V-E — Engfa soletrou, tentando manter a compostura enquanto lia os comentários que perguntavam "O trio é real?", "Eu sabia!", "Elas se chamaram de vida e amor!".
— Ai, meu Deus — sussurrou Charlotte, escondendo o rosto nas mãos. — Engfa Waraha, eu vou te matar.
Engfa, recuperando seu espírito impulsivo e percebendo que o "estrago" já estava feito, deu um sorriso de lado, aquele que sempre desarmava qualquer um.
— Bom, parece que o segredo durou menos do que a gente planejou — Engfa disse para a câmera, virando o celular levemente para mostrar as duas, embora mantendo a decência da situação. — Sim, a Faye e a Charlotte estão aqui. Nós comemoramos o show juntas. Somos uma família, não é?
— Uma família muito unida — Faye interveio, recuperando a postura de "Queen Malisorn". Ela se aproximou de Engfa, aparecendo na live com um sorriso provocador, embora seus olhos ainda brilhassem com o nervosismo da exposição. — Eu só chamo ela de "meu amor" porque ela me obrigou depois de ganhar uma aposta ontem à noite. Não se iludam, fãs.
— E eu chamei de "vida" porque... porque... — Charlotte apareceu timidamente ao lado delas, já tendo colocado um roupão por cima da camisola. — Porque a Engfa é a vida de muita gente, né? Eu me confundi com os apelidos dos fãs!
O chat não comprou a desculpa por um segundo sequer. As perguntas sobre por que as três estavam dividindo o mesmo quarto de hotel e a intimidade óbvia entre elas eram incessantes. A tensão entre as três, que na noite anterior era puramente erótica e afetiva, agora era uma mistura de adrenalina e diversão por terem sido "pegas no pulo".
— Pessoal, eu preciso ir — Engfa disse, rindo da tentativa falha de Charlotte de disfarçar. — Eu tenho duas mulheres famintas por café da manhã e, aparentemente, por explicações. Obrigado por tudo ontem. Amo vocês!
Ela encerrou a transmissão e jogou o celular sobre a poltrona, soltando um suspiro longo. O silêncio que se seguiu no quarto foi quebrado pela risada escandalosa de Faye.
— "Apelido dos fãs", Charlotte? Sério? — Faye se jogou na cama, rindo tanto que seus olhos lacrimejaram. — Essa foi a pior desculpa da história das desculpas.
— Eu entrei em pânico! — Charlotte exclamou, jogando um travesseiro em Faye. — Você também chamou ela de "meu amor" com aquela voz de quem acabou de fazer coisas nada santas!
Engfa caminhou até elas, sentando-se na beirada da cama. Ela olhou para as duas, sentindo uma felicidade genuína. O que o mundo pensaria agora era um problema para suas equipes de gerenciamento de crise. Ali, naquele momento, o que importava era a verdade que compartilhavam.
— Bom, agora o chat do Twitter deve estar em chamas — Engfa comentou, passando a mão pelos cabelos de Charlotte e depois pelos de Faye. — Mas quer saber? Eu não me importo. Eu cansei de esconder o quanto eu amo vocês duas.
Charlotte relaxou, encostando a cabeça no ombro de Engfa.
— Você é muito impulsiva, P'Fa. Mas... eu também estou cansada de segredos. Só não esperava que o mundo inteiro fosse acordar com a gente hoje.
— O mundo inteiro está com inveja de mim — Faye disse, recuperando sua possessividade carinhosa. Ela puxou Engfa e Charlotte para um abraço coletivo. — Eu tenho as duas mulheres mais desejadas da Tailândia na minha cama, me chamando de amor. Deixem que falem.
— Você é muito convencida, Malisorn — Engfa riu, dando um selinho rápido em Faye e depois um mais demorado em Charlotte. — Mas você está certa.
— O que vamos fazer agora? — Charlotte perguntou, observando as duas. — Nossos managers vão ligar em cinco minutos.
— Vamos fazer o seguinte — Engfa propôs, seus olhos brilhando com uma ideia travessa. — Vamos pedir o maior café da manhã que este hotel tiver. Vamos comer, rir das teorias dos fãs e, depois... bem, depois a gente decide se confirma que somos um trio ou se deixamos eles loucos com a dúvida por mais uns dias.
— Eu voto em deixar eles loucos — Faye levantou a mão, sorrindo de forma predatória. — A tensão é sempre mais interessante.
— Eu só quero café — Charlotte murmurou, embora um sorriso elegante brincasse em seus lábios. — E quero que vocês parem de me olhar assim, porque se continuarem, o café vai esfriar e a gente não vai sair desse quarto hoje.
Engfa e Faye trocaram um olhar cúmplice. A noite de álcool e desejo havia passado, mas a manhã trazia uma promessa de algo muito mais sólido. A "brincadeira" de Faye, o carinho de Engfa e a doçura de Charlotte haviam se fundido em algo único.
— Quem disse que a gente quer sair daqui? — Engfa perguntou, puxando Charlotte para mais perto e sentindo o perfume de sua pele.
— Exatamente — Faye concordou, debruçando-se sobre as duas. — O show acabou, o mundo já sabe demais, e nós temos o dia inteiro para nós três.
A tensão no cômodo voltou a subir, mas desta vez era suave, carregada de uma intimidade que não precisava de luzes vermelhas ou álcool para se sustentar. Engfa olhou para suas "namoradinhas" e soube que, não importa o caos que a Live tivesse causado lá fora, ali dentro, elas eram um universo perfeito.
— Eu amo vocês — Engfa sussurrou, e desta vez não havia câmeras, não havia fãs e não havia segredos.
— Nós também amamos você — responderam Charlotte e Faye, selando aquela manhã com a promessa de que, independentemente do que o futuro reservasse, elas enfrentariam tudo juntas, entre beijos, risadas e a deliciosa confusão de serem três corações batendo como um só.