Blé
O Banquete das Sombras e as Telhas de Ébano
A caminhada de volta para o casebre foi a experiência mais surreal da curta e medrosa vida de Lice. Flins não caminhava simplesmente; ele parecia estar em uma batalha constante contra as leis da física e da biologia humana. A cada poucos metros, seus joelhos dobravam em direções que joelhos não deveriam dobrar, ou ele esquecia de balançar os braços, mantendo-os rígidos ao lado do corpo como se fossem apêndices inúteis. No entanto, ele carregava o cervo enorme como se fosse uma almofada de penas, e a cesta de Lice pendia de seu dedo mindinho com uma delicadeza contrastante e bizarra.
— Lice — disse ele subitamente, parando de forma tão abrupta que ela quase colidiu com as costas dele, que eram duras como granito.
— O que foi agora? — Ela perguntou, recuperando o equilíbrio e limpando o suor da testa.
— Eu detectei um aumento na sua frequência cardíaca e uma dilatação nas suas pupilas. Meus cálculos sugerem duas possibilidades: ou você está desenvolvendo uma afeição profunda por minha forma física atual, ou há um perigo iminente nos arbustos à direita.
Lice sentiu o sangue fugir do rosto. Ela olhou para a folhagem densa, onde o sol poente criava sombras longas e distorcidas.
— Perigo? Que tipo de perigo? — Ela sussurrou, aproximando-se instintivamente dele.
Flins inclinou a cabeça, um movimento mecânico e rápido. Seus olhos de obsidiana pareceram girar levemente nas órbitas.
— Um predador de baixo nível. Um *Canis lupus*. Um lobo. Ele está com fome. Ele acredita que você é uma presa fácil devido à sua... — ele pausou, procurando a palavra certa no léxico humano que andava estudando — ...constituição física lamentável.
Antes que Lice pudesse processar o insulto implícito à sua força, um rosnado baixo e gutural emanou dos arbustos. Um lobo cinzento, de olhos amarelados e famintos, saltou para a trilha, mostrando os dentes. Lice soltou um grito sufocado e se escondeu atrás de Flins, agarrando-se ao tecido áspero de sua túnica.
Flins não se moveu. Ele nem sequer largou o cervo. Ele apenas olhou para o lobo.
— Criatura insignificante — murmurou Flins. Sua voz não saiu alta, mas carregava uma ressonância que fez as folhas das árvores vibrarem. — Você ousa desejar o que eu marquei como meu?
O lobo, que segundos antes parecia pronto para atacar, parou subitamente. Seus pelos se eriçaram e ele começou a ganir. O animal não via um homem pálido e desajeitado; ele sentia a presença de algo que existia antes das florestas, algo que cheirava a fogo primordial e morte antiga. O lobo deu meia-volta, com o rabo entre as pernas, e desapareceu na mata com uma velocidade desesperada.
Flins voltou-se para Lice, a expressão novamente fria e calculista.
— O lobo foi neutralizado. Sua segurança foi mantida. Podemos prosseguir para a sua habitação.
— Você... você falou com ele? — Lice perguntou, ainda trêmula, soltando a camisa dele.
— Eu não falo a língua dos latidos, Lice. Eu apenas projetei minha intenção de transformá-lo em cinzas se ele desse mais um passo. A maioria dos seres vivos entende a intenção de combustão espontânea.
Eles chegaram ao casebre de Lice quando o céu já estava tingido de um roxo profundo. A pequena cabana parecia ainda mais decrépita sob a luz do crepúsculo, mas, ao olhar para cima, Lice viu o que Flins mencionara. No telhado, onde antes havia buracos cobertos por palha podre, agora brilhavam placas escuras e lisas, cuidadosamente pintadas de um marrom fosco que não escondia totalmente o brilho vítreo por baixo.
— Minhas escamas são termorreguladoras — explicou Flins, depositando o cervo no alpendre com um baque surdo. — Elas manterão o calor interno durante o inverno e refletirão o excesso de radiação solar no verão. Você não vai mais tremer enquanto dorme. Eu observei que você treme muito. É ineficiente para o descanso.
— Flins, você não pode simplesmente... — Ela parou, suspirando. — Esquece. Obrigada. Mas como vou explicar para as pessoas da vila que meu telhado agora é feito de pedra indestrutível?
— Diga que foi um milagre — sugeriu ele, tentando dar de ombros, mas acabando por elevar apenas um ombro até a altura da orelha. — Humanos parecem aceitar milagres como explicação para qualquer coisa que não compreendem. É um mecanismo de defesa mental fascinante.
Lice abriu a porta rangente e entrou, sendo seguida pela figura imponente de Flins, que teve de se curvar quase ao meio para passar pela soleira. O espaço interno era minúsculo: uma mesa capenga, uma cadeira, uma lareira de pedra e um amontoado de panos que servia de cama.
Flins olhou ao redor com um desdém mal disfarçado.
— Este ninho é subdimensionado. Como você armazena seus tesouros aqui?
— Eu não tenho tesouros, Flins. Eu tenho uma panela furada e dois pares de meias.
O homem-dragão franziu a testa, os olhos pretos percorrendo cada centímetro do quarto.
— Isso é inaceitável. Um ser de sua importância deveria ter, no mínimo, uma pilha de prata para repousar a cabeça. Eu providenciarei isso amanhã. Há uma mina abandonada a três quilômetros daqui. Eu vou extrair o minério necessário.
— Não! — Lice exclamou, jogando as mãos para o alto. — Você não pode sair por aí minerando ou roubando prata! As pessoas vão notar! Eu só quero... eu só quero sobreviver sem ser devorada por lobos ou vizinhos desconfiados.
Flins sentou-se na cadeira de madeira. O móvel gemeu sob seu peso, e por um momento Lice teve certeza de que ele terminaria no chão, mas ele parecia estar usando algum tipo de magia para não esmagar a mobília.
— Sobreviver — repetiu ele, saboreando a palavra. — Uma meta modesta. Mas eu sou um dragão, Lice. Eu não faço coisas modestas. Eu conquisto. Eu acumulo. Eu protejo o que é meu com fogo e fúria. E, por razões que ainda estou processando em meus núcleos lógicos, decidi que você é o centro do meu território.
Lice sentiu um calafrio que não era de medo, mas de uma estranha confusão emocional. Ela se aproximou da lareira e começou a acender um pequeno fogo com alguns gravetos secos.
— Por que eu, Flins? De verdade. Eu sou covarde. Eu fujo de sombras. Eu não sou corajosa como as heroínas das lendas.
Flins observou as chamas crescendo. O reflexo do fogo em seus olhos de obsidiana os fazia parecer poços de lava.
— As heroínas das lendas são previsíveis — disse ele, a voz tornando-se mais suave, quase humana. — Elas lutam porque acham que devem. Elas são barulhentas. Você... você é silenciosa. Você cuida de coisas pequenas. Você pediu desculpas a uma pedra, Lice. Eu vivo há milênios e nunca vi um ser com tanta empatia desnecessária. Isso me intriga. Isso me faz querer ver o que você fará a seguir.
Ele estendeu a mão pálida em direção ao fogo, mas não para se aquecer. As chamas pareceram se inclinar em sua direção, como se o reconhecessem como seu mestre.
— E você é bonita — acrescentou ele, como se fosse um fato matemático incontestável. — Seus olhos têm a cor da terra fértil após a chuva. Sua pele tem o cheiro de ervas silvestres. Eu passei séculos cheirando apenas enxofre e ouro velho. Você é... refrescante.
Lice ficou em silêncio por um longo tempo, o rosto corado pelo calor da lareira e pelas palavras dele. Ela pegou uma faca pequena e sem corte da mesa.
— Bem... se você vai ficar por aqui, precisa me ajudar com esse cervo. Eu não sei como limpar um animal desse tamanho.
Flins levantou-se, sua altura dominando o ambiente novamente.
— Limpar? — Ele perguntou, confuso.
— Tirar a pele, cortar a carne, separar o que presta do que não presta.
— Ah. Processamento de matéria orgânica. Deixe comigo.
Ele saiu para o alpendre. Lice o seguiu e ficou boquiaberta. Flins não usou a faca. Ele simplesmente passou a mão sobre o animal morto. Um brilho tênue e escuro emanou de seus dedos, e a pele do cervo se soltou com uma precisão cirúrgica, como se o animal estivesse se despindo. Em segundos, a carne estava dividida em cortes perfeitos, organizados em pilhas sobre a madeira limpa do alpendre.
— Eficiência — disse ele, voltando-se para ela com um lampejo de orgulho nos olhos. — Eu também removi os parasitas e as impurezas bacterianas. Está pronto para o consumo térmico.
— Você é... muito útil — admitiu Lice, pegando um pedaço de carne. — Mas você precisa aprender a fazer as coisas do jeito humano se quiser que ninguém descubra quem você é. Humanos usam facas. Eles sujam as mãos.
Flins olhou para as próprias mãos pálidas e limpas.
— Sujar as mãos propositalmente parece um erro de cálculo. Mas, se isso a agrada, eu farei. Posso simular imperfeição.
Ele se aproximou dela, ficando tão perto que Lice podia sentir o calor antinatural que emanava de seu corpo, apesar de sua pele parecer fria. Ele era uma contradição ambulante. Um monstro que tentava ser homem, um predador que queria ser um companheiro.
— Você ainda tem medo de mim? — Ele perguntou, inclinando a cabeça para o lado oposto desta vez, seus cabelos pretos caindo sobre a testa.
Lice olhou para ele. Viu a força capaz de reduzir o reino a cinzas e viu a desajeitada tentativa de um sorriso que ainda parecia um pouco assustadora, mas que agora ela reconhecia como um esforço genuíno.
— Um pouco — confessou ela. — Mas acho que tenho mais medo de ficar sozinha do que de você, Flins.
— Você nunca mais estará sozinha — afirmou ele, com uma intensidade que fez o chão vibrar levemente. — Eu marquei sua alma com a minha essência. Mesmo que você tente fugir para as terras além do mar, eu a encontraria pelo batimento do seu coração.
— Isso soa um pouco como uma ameaça — disse Lice, embora houvesse um pequeno sorriso em seus lábios.
— É uma promessa de monitoramento constante — corrigiu ele. — Agora, prepare a proteína. Eu desejo observar como os humanos transformam matéria bruta em sustento.
Lice riu, uma risada clara que pareceu desarmar a tensão no ar. Ela entrou na cabana e começou a preparar a carne, enquanto Flins se sentava no chão, ocupando quase todo o espaço disponível, observando cada movimento dela com uma atenção devota e maníaca.
Enquanto a carne assava na lareira, o cheiro preenchendo o pequeno espaço, Lice sentiu uma paz que nunca conhecera. O mundo lá fora era perigoso e cruel para uma órfã pobre, mas ali dentro, sob o teto de escamas de dragão e protegida pelo olhar de um monstro apaixonado, ela se sentia invencível.
— Flins? — Ela chamou, enquanto mexia no fogo.
— Sim, Lice?
— Você disse que tem montanhas de ouro.
— Sim. Três montanhas, para ser preciso. E uma colina de pedras preciosas que eu achei esteticamente agradáveis.
— Você trocaria tudo isso por... sei lá, um ensopado de carne e um lugar para dormir que não seja uma caverna fria?
Flins ponderou a pergunta. Ele pensou no ouro frio e sem vida que guardara por eras. Pensou na solidão dos picos nevados e no silêncio dos séculos. Depois, olhou para Lice, para a luz do fogo dançando em seu rosto e para a vida vibrante que emanava dela.
— O ouro não tem sabor — disse ele finalmente. — E o ouro não ri. Eu farei a troca. Mas eu ainda vou trazer a prata para o seu travesseiro. Eu insisto na prata.
Lice balançou a cabeça, servindo um prato de carne para ele.
— Tudo bem, Flins. Mas nada de minerar amanhã. Amanhã você vai aprender a usar uma colher. E a não quebrar a cadeira.
— Duas tarefas complexas — murmurou o dragão, pegando a colher como se fosse uma arma perigosa. — Mas eu sou um mestre da adaptação. Meus cálculos indicam que, em breve, eu serei o humano mais exemplar desta região.
Lice olhou para ele tentando, sem sucesso, coordenar os dedos longos em volta do talher, e sentiu que, talvez, a sorte finalmente tivesse decidido olhar para ela. De um jeito muito, muito estranho, mas definitivamente poderoso.