Blé
O Despertar do Ouro e o Dilema da Colher
A primeira manhã de Lice com um dragão em seu alpendre começou não com o canto dos pássaros, mas com o som de algo muito pesado tentando ser sutil. Quando ela abriu os olhos, a luz do sol filtrava-se pelas frestas das telhas de escamas, criando padrões geométricos perfeitos no chão de terra batida. O frio úmido que costumava castigar seus ossos havia desaparecido, substituído por um calor seco e reconfortante que parecia emanar das próprias paredes.
Ela se levantou, ajeitou o vestido remendado e caminhou até a porta. Ao abri-la, deparou-se com Flins. Ele estava agachado — ou algo próximo disso — observando uma fileira de formigas que atravessava o caminho. Ele ainda usava as roupas de camponês, que agora pareciam terrivelmente pequenas para sua estrutura, e seus olhos de obsidiana seguiam cada inseto com uma precisão assustadora.
— Elas são organizadas — comentou Flins, sem desviar o olhar. — Elas carregam dez vezes o seu próprio peso. Se os humanos tivessem essa proporção de força, você poderia carregar aquele cervo sozinha, Lice.
— Bom dia para você também, Flins — disse ela, bocejando e tentando ignorar o fato de que um predador milenar estava analisando a fauna do seu quintal. — Você dormiu?
Flins levantou-se em um movimento único, esticando o corpo como se fosse uma mola. O topo de sua cabeça quase tocou a viga do alpendre.
— Dragões não dormem da mesma forma que os mamíferos frágeis. Eu entrei em um estado de estase vigilante. Eu contei cada batida do seu coração durante a noite. Foram quarenta e três mil, duzentas e doze. Você teve um pesadelo por volta das três da manhã.
Lice sentiu um arrepio.
— Você... contou meus batimentos cardíacos? Flins, isso é...
— Útil — interrompeu ele. — Se o ritmo mudasse bruscamente, eu saberia que algo estava errado. Como um invasor. Ou uma parada respiratória. Eu estava pronto para intervir.
Lice suspirou, decidindo que não valia a pena explicar o conceito de "privacidade biológica" para alguém que via o mundo em termos de cálculos e sobrevivência.
— Certo. Bem, hoje temos muito o que fazer. Se você quer morar aqui, ou perto daqui, precisa parecer menos com um... bem, com um monstro disfarçado.
Flins inclinou a cabeça, fazendo aquele estalo seco no pescoço que sempre a assustava.
— Eu estou emulando um humano com 98% de precisão, Lice. Eu tenho pele, cabelo, dois braços e uma falta crônica de escamas visíveis. O que falta?
— Falta a alma da coisa, Flins! — Ela gesticulou para ele. — Você se move como se estivesse controlando um boneco por cordas. E você não pisca! Humanos piscam. E eles não dizem coisas como "consumo térmico" quando querem dizer "jantar".
— Piscar — repetiu ele. Ele começou a piscar freneticamente, um olho de cada vez, depois os dois juntos, em uma sequência rápida que o fazia parecer que estava tendo um espasmo facial.
— Para! — Lice riu, cobrindo os olhos. — Assim você parece um louco. Apenas... tente relaxar. Vamos começar com o café da manhã. Eu vou te ensinar a usar uma colher de verdade.
Eles entraram na cabana. Lice colocou uma tigela de mingau de aveia sobre a mesa — um luxo que ela só podia permitir graças à carne de cervo que agora sobrava, permitindo que ela guardasse suas poucas moedas. Ela entregou a Flins uma colher de madeira gasta.
Flins olhou para o objeto como se fosse uma relíquia amaldiçoada. Ele o segurou com a ponta dos dedos longos e pálidos, aplicando uma pressão tão mínima que a colher tremia.
— A alavancagem deste instrumento é ineficiente para o transporte de semissólidos para a cavidade oral — observou ele, sério.
— Apenas pegue um pouco e leve à boca, Flins. Sem usar magia. Sem usar a língua de forma... estranha.
Flins mergulhou a colher no mingau. Ele tentou levar o utensílio à boca, mas seu braço parecia esquecer onde terminava o cotovelo. Ele acabou batendo a colher no próprio queixo, sujando a pele alva de aveia.
— Falha na trajetória — murmurou ele, sua voz vibrando com uma ponta de irritação fria.
Lice se aproximou, pegando um pano limpo. Sem pensar muito na periculosidade do ser à sua frente, ela inclinou-se e limpou o rosto dele. A pele de Flins era tão branca que parecia brilhar sob a luz, e o contato fez Lice perceber o quão frio ele realmente era. Não um frio de cadáver, mas o frio de uma pedra profunda que nunca viu o sol.
Flins congelou. Seus olhos pretos fixaram-se nos dela, e por um momento, o ar na cabana pareceu ficar pesado, carregado de eletricidade.
— Você está me tocando — disse ele. Não era uma pergunta. Era uma constatação que parecia ter abalado seu sistema de processamento.
— Eu... desculpe. Você estava sujo — Lice gaguejou, afastando-se rapidamente, sentindo o rosto queimar.
— O contato dérmico não solicitado geralmente causa uma resposta de defesa em minha espécie — continuou Flins, observando-a intensamente. — Mas, quando você faz isso, meus núcleos de fogo não reagem com agressividade. Eles reagem com uma expansão térmica. É... perturbador.
— É apenas um gesto gentil, Flins. Humanos fazem isso.
— Eu não gosto de humanos. Mas eu gosto de você — ele declarou, com uma franqueza brutal que sempre deixava Lice sem palavras. — Eu decidi que vou dominar esta colher. Para que você não precise me limpar novamente. Ou talvez para que você precise. Meus cálculos ainda estão divididos sobre qual resultado é preferível.
Ele tentou novamente. Desta vez, com uma concentração maníaca, ele conseguiu levar uma pequena porção de mingau à boca. Ele mastigou lentamente, embora a aveia não precisasse de mastigação.
— Textura interessante — disse ele. — Falta o sabor metálico do sangue, mas é aceitável para uma dieta de camponesa.
— Que bom que o senhor dragão aprova minha comida de pobre — ironizou Lice, sentando-se à frente dele. — Agora, sobre a prata. Você mencionou que ia buscar prata.
Flins parou com a colher no ar.
— Sim. Eu localizei uma veia de metal puro na mina abandonada ao norte. Eu pretendia extraí-la hoje à noite, sob o manto da escuridão, para não alarmar os outros bípedes da vila.
— Flins, escute. Se você aparecer com barras de prata, vão pensar que eu roubei, ou que você é um bandido. Nós não podemos ser ricos do nada.
— Eu não entendo — disse ele, franzindo a testa. — A riqueza é um indicador de status e poder. Se eu lhe der prata, outros machos e fêmeas saberão que você está sob a proteção de um ápice predador. Eles sentirão inveja e medo. Isso é o ideal.
— Não no meu mundo! No meu mundo, isso atrai cobradores de impostos e ladrões. Se você quer me ajudar, precisamos de algo discreto. Talvez... talvez você possa me ajudar a consertar a cerca? Ou a preparar o solo para a plantação de primavera?
Flins olhou para as próprias mãos, mãos que podiam rasgar o aço e derrubar castelos.
— Você quer que eu... manipule terra?
— É o que camponeses fazem, Flins. Se você quer passar por um, precisa sujar as mãos. E parar de olhar para as pessoas como se estivesse decidindo qual parte delas é mais suculenta.
— Eu já decidi isso há muito tempo — murmurou ele, e Lice preferiu não perguntar a resposta.
O restante da manhã foi dedicado a uma tentativa desastrosa de jardinagem. Lice entregou uma enxada a Flins, que a segurou como se fosse um palito de dentes. Ele olhou para o terreno infértil atrás da casa com uma expressão de puro tédio aristocrático.
— O solo está compactado e carece de nutrientes — diagnosticou ele. — Eu poderia simplesmente incinerar a camada superficial e transmutar o carbono para enriquecer a terra.
— Não! Nada de fogo, Flins! Apenas cave. Como um homem faria.
Flins deu um suspiro pesado — um som que mais parecia o vento soprando em uma fenda de montanha — e golpeou a terra. A força foi tamanha que a enxada afundou inteira no chão, e o cabo de madeira quebrou instantaneamente.
— A ferramenta era defeituosa — disse ele, olhando para o pedaço de madeira em sua mão com uma frieza calculista.
— Não, a ferramenta era normal, você é que é forte demais! — Lice exclamou, sentando-se em um toco de árvore, derrotada. — Como eu vou te ensinar a ser normal se você não conhece o próprio peso?
Flins jogou o cabo quebrado de lado e caminhou até ela. Ele se ajoelhou na terra, ignorando a sujeira em suas calças, e olhou nos olhos dela. A estranheza de seus movimentos desapareceu por um momento, substituída por uma intensidade predatória que a fez prender a respiração.
— Por que você insiste tanto na normalidade, Lice? — A voz dele era um sussurro vibrante. — O mundo é um lugar cruel para os normais. Eu vi impérios caírem e civilizações serem reduzidas a pó porque eram "normais". Você é frágil. Qualquer lobo, qualquer febre, qualquer inverno pode apagar sua vida. Por que você não aceita o que eu ofereço? Eu posso fazer de você uma rainha sobre uma montanha de ossos e ouro.
Lice olhou para as mãos dele, grandes e capazes de tanta destruição, e depois para o rosto pálido e belo que ele havia criado apenas para persegui-la.
— Porque eu não quero uma montanha de ossos, Flins. Eu quero uma vida onde eu não tenha medo de acordar amanhã. E se eu me tornar essa rainha que você diz, eu não seria mais a Lice que você... que você se interessou. Eu seria apenas mais um dos seus tesouros. E tesouros não têm voz.
Flins permaneceu em silêncio, processando as palavras dela com uma velocidade que Lice não conseguia acompanhar. Ele inclinou a cabeça para o lado, e uma mecha de cabelo preto caiu sobre seus olhos de obsidiana.
— Você teme perder sua essência — concluiu ele. — Meus cálculos não levaram em conta a importância da identidade individual no bem-estar humano. Eu assumi que a segurança física era o único parâmetro relevante.
— Não é, Flins.
Ele se levantou, limpando a terra das mãos com um gesto rápido.
— Entendido. Eu vou ajustar meu comportamento. Eu serei o camponês mais medíocre que este reino já viu. Eu vou quebrar menos ferramentas. Eu vou usar a colher com 100% de eficiência. E eu vou... — ele hesitou — ...vou tentar não olhar para o padeiro como se ele fosse um aperitivo.
Lice sorriu, e desta vez o sorriso foi genuíno.
— Isso já é um começo.
— Mas — disse Flins, erguendo um dedo longo — eu ainda vou buscar a prata. Não para você ostentar. Eu vou escondê-la sob o assoalho da sua casa. Será o nosso segredo. Um fundo de reserva para o caso de sua "normalidade" falhar.
Lice ia protestar, mas viu a determinação nos olhos dele. Para um dragão, não ter um tesouro por perto era como não ter ar para respirar. Era o compromisso dele entre dois mundos.
— Tudo bem — cedeu ela. — Sob o assoalho. Mas apenas um pouco!
— Eu calcularei uma quantia que não cause um colapso na economia local — prometeu ele, com um brilho quase travesso nos olhos.
Naquela tarde, enquanto Lice colhia ervas na borda da floresta, ela percebeu que Flins não estava mais a vinte passos de distância. Ele estava ao seu lado, tentando imitar seu caminhar, tropeçando ocasionalmente de propósito apenas para ver se ela sorria. Ele começou a assobiar, um som que ele ouvira de um passarinho, embora o tom fosse um pouco metálico e estranhamente melódico.
— Lice — chamou ele, parando diante de uma flor silvestre azulada.
— Sim?
— Esta planta tem propriedades curativas ou é apenas ornamental?
— É apenas bonita, Flins.
Ele a colheu com uma delicadeza que Lice não achava que ele possuía. Seus dedos, que podiam esmagar pedras, mal tocaram a haste frágil. Ele estendeu a flor para ela.
— Ornamental — repetiu ele. — Como você. Não tem uma função prática imediata na cadeia alimentar, mas sua presença melhora o ambiente visual.
Lice pegou a flor, sentindo o rosto esquentar novamente.
— Você está ficando bom nisso, Flins. Quase fofo.
— Fofo — ele testou a palavra em sua língua de fogo. — Eu vou arquivar esse adjetivo como uma vitória. Meus cálculos indicam que "fofo" é o primeiro passo para "amado". E eu sou um ser muito determinado, Lice.
Lice olhou para o homem-dragão ao seu lado, para o telhado de escamas que brilhava ao longe e para a flor em sua mão. Ela ainda era medrosa, ainda era pobre e ainda era uma órfã sem futuro. Mas, pela primeira vez, ela sentiu que o futuro não era algo a ser temido, mas algo a ser moldado, mesmo que fosse com a ajuda de um monstro desajeitado que ainda estava aprendendo a não morder a colher.
— Vamos para casa, Flins — disse ela suavemente. — Temos um cervo para terminar de comer e uma cerca para, quem sabe, não quebrar amanhã.
— Eu caminharei ao seu lado — prometeu ele, ajustando seu passo ao dela. — E eu não vou rugir. A menos que alguém tente colher sua flor ornamental. Nesse caso, todos os cálculos de normalidade serão suspensos.
Lice riu, e o som ecoou pela floresta, um som de vida e de uma estranha, perigosa e maravilhosa esperança.