Borusara
O Sussurro das Águas e o Peso do Amanhã
O silêncio que se seguiu ao êxtase era preenchido apenas pelo ritmo compassado de dois corações que tentavam encontrar sua cadência normal. A umidade do rio, que antes parecia um detalhe distante, agora se infiltrava suavemente no ar, refrescando a pele quente de Boruto e Sarada. Eles permaneciam ali, num emaranhado de pernas e braços, onde era difícil dizer onde um terminava e o outro começava.
Sarada sentia o peito de Boruto subir e descer contra sua bochecha. O som das águas, que há sete anos fora testemunha de uma descoberta juvenil e desajeitada, agora selava uma entrega madura, marcada por cicatrizes que não existiam daquela primeira vez. Ela traçou, com a ponta dos dedos, a marca de garra que cruzava o olho dele, uma lembrança constante de que o mundo lá fora não era gentil.
— No que você está pensando? — sussurrou Boruto, a voz vibrando dentro da caixa torácica dele contra o ouvido dela.
— No tempo — respondeu ela, fechando os olhos para gravar aquela sensação. — Em como a gente passou tanto tempo tentando ser forte, tentando ser o que Konoha precisava, que esquecemos como era simplesmente respirar.
Boruto soltou um riso curto, quase inaudível, e beijou a têmpora dela.
— Eu nunca esqueci. Às vezes, em noites frias demais em dimensões que eu nem sabia o nome, eu fechava os olhos e tentava lembrar exatamente da temperatura da sua pele. Era a única coisa que me mantinha humano.
Sarada ergueu o rosto, encontrando os olhos azuis dele. A luz da lua, filtrada pelas copas das árvores, dava a ele uma aura quase mística. Ela se sentia vulnerável, uma sensação que a Hokage raramente se permitia, mas com ele, a armadura de ferro da liderança simplesmente derretia.
— Você disse que não havia mais ninguém — começou ela, a insegurança de mulher lutando contra a racionalidade da ninja. — Mas e os boatos sobre aquela kunoichi da fronteira? Eu vi os relatórios, Boruto. Disseram que vocês eram inseparáveis.
Boruto suspirou, passando a mão pelos cabelos loiros e desalinhados. Ele se sentou, puxando a capa para cobrir os ombros de Sarada, protegendo-a do sereno que começava a cair.
— Inseparáveis porque estávamos tentando não morrer, Sarada. Ela era uma aliada estratégica, alguém que conhecia o terreno. Mas o meu coração... — Ele pegou a mão dela e a pressionou contra o próprio peito. — Ele sempre teve uma dona. Eu nunca dei a ela, nem a ninguém, o direito de entrar no lugar que é seu. As pessoas veem o que querem ver para preencher as lacunas da minha ausência.
Sarada sentiu um peso sair de seus ombros. Ela sabia que deveria ter confiado mais, mas a solidão da torre do Hokage às vezes criava fantasmas onde só havia sombras.
— Eu tive medo — admitiu ela, a voz baixa. — Medo de que, quando você voltasse, eu fosse apenas uma lembrança de infância. Uma responsabilidade política ou uma velha amiga, mas não... isso.
Boruto segurou o queixo dela, forçando-a a encará-lo com toda a intensidade de seu Sharingan desativado, apenas o preto profundo de suas íris naturais.
— Você nunca será apenas uma lembrança. Você é o meu sol, Sarada. Mesmo quando eu estava na escuridão total, eu orbitava ao seu redor.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas ouvindo o rio. A água batendo nas pedras parecia aplaudir a reconciliação. No entanto, o mundo real começava a bater à porta daquela bolha atemporal. O relógio biológico de um shinobi sempre alerta dizia a Sarada que a madrugada estava avançando.
— Precisamos nos vestir — disse ela, embora não fizesse menção de se mover. — Se alguém nos vir voltando juntos a esta hora...
— Que vejam — interrompeu Boruto, com aquela rebeldia característica que os anos de exílio não conseguiram apagar. — Eu sou um herói de guerra, você é a Hokage. Se decidirmos caminhar sob o luar, quem vai nos questionar?
— O conselho, os clãs, a opinião pública — enumerou ela, soltando um pequeno sorriso irônico. — Ser a mulher mais poderosa da vila tem um preço alto, Boruto. Cada passo meu é analisado. E você... você ainda é uma figura que desperta sentimentos mistos em muitos.
Boruto levantou-se, oferecendo a mão para ajudá-la a ficar de pé. A nudez entre eles agora não trazia vergonha, apenas uma aceitação profunda.
— Então vamos ser discretos por enquanto — concedeu ele, começando a recolher suas roupas espalhadas pela grama. — Não por medo, mas para preservar o que temos. Eu não quero que o nosso "nós" vire pauta de reunião de conselheiro velho.
Enquanto se vestiam, o clima mudou de romântico para uma cumplicidade tática. Sarada ajustou seu protetor de testa, sentindo o metal frio contra a pele, um lembrete do dever. Boruto vestiu sua capa preta, voltando a parecer o andarilho sombrio que a vila aprendera a respeitar e temer.
— O que acontece amanhã? — perguntou ela, enquanto prendia o cabelo.
Boruto parou de ajustar suas bandagens e olhou para ela.
— Amanhã, eu vou à sua sala logo cedo. Oficialmente, para entregar o relatório detalhado da missão no País do Vento. Extraoficialmente... para ver se você ainda tem aquele brilho nos olhos que só eu sei provocar.
Sarada riu, uma risada clara que pareceu espantar as últimas sombras da noite.
— Você é impossível, Boruto Uzumaki.
— Sou o seu impossível — retrucou ele, aproximando-se para um último beijo, desta vez casto, mas carregado de promessas.
Eles começaram a caminhar de volta pela trilha oculta, a mesma que haviam percorrido sete anos atrás. Naquela época, eles corriam e tropeçavam, rindo do perigo de serem pegos. Agora, moviam-se como sombras, silenciosos e eficientes, dois predadores de elite que conheciam cada centímetro daquela floresta.
Ao chegarem perto dos portões laterais de Konoha, Boruto parou sob a sombra de uma grande árvore de carvalho.
— Vá primeiro — disse ele. — Eu entro pelo setor norte em dez minutos.
Sarada assentiu, mas antes de partir, segurou a gola da capa dele.
— Boruto.
— Sim?
— Obrigada por voltar. Por não ter esquecido o caminho do rio.
Ele sorriu, aquele sorriso de lado que sempre fazia o coração dela errar a batida.
— Eu sempre volto para casa, Sarada. E minha casa é onde você estiver.
Ela desapareceu em um borrão de velocidade, deixando-o sozinho com o som do vento nas folhas. Boruto respirou fundo, sentindo o cheiro de Sarada ainda impregnado em sua pele. Ele olhou para as mãos, as mesmas mãos que haviam empunhado espadas e moldado o Rasengan para destruir ameaças divinas, e sorriu ao lembrar de como elas haviam tremido ao tocar a pele dela.
Dez minutos depois, ele cruzava a fronteira da vila. Konoha estava silenciosa, mergulhada em um sono profundo que ignorava a revolução emocional que acabara de ocorrer em seus arredores.
Ao chegar em seu apartamento temporário, Boruto não acendeu as luzes. Ele foi até a janela e olhou na direção do Monumento dos Hokage. O rosto esculpido de seu pai parecia observar a vila, mas seus olhos buscaram a luz ainda acesa na torre administrativa.
Ele sabia que Sarada estaria lá, provavelmente fingindo revisar papéis enquanto seu coração ainda batia no ritmo do rio.
— Sete anos — murmurou ele para a escuridão. — E parece que o rio nunca parou de correr.
Na manhã seguinte, o sol nasceu tingindo o céu de laranja e roxo. Sarada estava sentada em sua mesa, uma xícara de café intocada ao seu lado. Seus olhos estavam fixos em um documento, mas sua mente estava presa na sensação do corpo de Boruto contra o seu, no som da água e na promessa de que não haveria mais despedidas permanentes.
Houve uma batida na porta. Uma batida rítmica, específica, que ela reconheceria em qualquer lugar.
— Entre — disse ela, sua voz recuperando a autoridade de Hokage, mas com uma suavidade nova que ninguém mais notaria.
A porta se abriu e Boruto entrou. Ele parecia impecável, o rosto sério, o porte de um shinobi de elite. Ele caminhou até a mesa e colocou um pergaminho sobre a madeira polida.
— Relatório de missão, Nanadaime... digo, Hokage-sama — corrigiu ele com um brilho travesso nos olhos.
Sarada pegou o pergaminho, seus dedos roçando propositalmente nos dele. O contato elétrico foi instantâneo, uma faísca que os transportou de volta para a margem do rio por um breve segundo.
— Obrigada, Shinobi Boruto — respondeu ela, mantendo a fachada profissional. — Alguma observação adicional que não esteja no papel?
Boruto inclinou-se levemente para a frente, diminuindo a distância entre eles o suficiente para que apenas ela pudesse ouvir.
— Apenas que o clima na floresta leste está excelente nesta época do ano. Recomendo visitas mais frequentes.
Sarada sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar.
— Vou levar sua recomendação em consideração. Agora, retire-se. Tenho muito trabalho a fazer.
Boruto fez uma reverência exagerada e caminhou em direção à porta. Antes de sair, ele parou e olhou por cima do ombro.
— Sarada.
— Sim?
— A gente se vê no jantar? Ou o rio ainda está chamando?
Ela sorriu, um sorriso que iluminou toda a sala e fez o peso do chapéu de Hokage parecer leve como uma pena.
— No jantar, Boruto. Mas guarde o rio para o fim de semana. Eu ainda tenho uma vila para governar.
Ele riu e saiu, fechando a porta atrás de si. Sarada recostou-se na cadeira, olhando para o teto. O mundo adulto era complicado, cheio de regras, expectativas e perigos. Mas ali, naquele pequeno espaço entre o dever e o desejo, ela finalmente encontrara seu equilíbrio. O rio continuaria correndo, as estações mudariam, mas o que fora revivido naquela noite era eterno.
Ela pegou a caneta e começou a assinar os documentos, mas, pela primeira vez em anos, ela não estava apenas sobrevivendo ao dia. Ela estava vivendo para o próximo encontro, para o próximo sussurro e para a próxima vez que o rio os chamasse de volta para casa.