Brigas intrigas
Território Proibido
O silêncio dentro da SUV blindada de Gustavo era mais ensurdecedor do que qualquer som de paredão que havia ficado para trás na mansão de Buzeira.
O motor roncava baixo enquanto as luzes dos postes cortavam o para-brisa em intervalos ritmados, iluminando de tempos em tempos as feições duras do rapaz ao volante. Gustavo dirigia com apenas uma das mãos no topo do volante, os nós dos dedos esbranquiçados pela força do aperto. A outra mão repousava no câmbio, enquanto o maxilar continuava travado, rígido como pedra.
No banco de trás, acomodado na cadeirinha instalada às pressas pelo segurança antes da partida, Liam já começava a piscar os olhinhos pesados, embalado pelo balanço do carro e pelo murmúrio suave do ar-condicionado.
Ao lado de Gustavo, no banco do carona, Karen mantinha a postura ereta, os braços cruzados sobre o peito e o queixo empinado, com a cabeça deliberadamente virada para a janela. Ela recusava-se a olhar para ele. O reflexo no vidro escurecido, no entanto, mostrava a tempestade que rugia dentro de si. A humilhação de ter sido confrontada diante de tantas pessoas, a raiva pela audácia possessiva dele e, principalmente, a queimação corrosiva de ter visto outra mulher colada no corpo que fora seu por tanto tempo.
Gustavo soltou um suspiro pesado pelo nariz, mudando a marcha com uma rispidez desnecessária.
— Você não vai falar nada? — perguntou ele, quebrando a barreira do silêncio com a voz áspera, sem desviar os olhos do asfalto.
— Eu não falo com quem perdeu o juízo — disparou Karen, sem se mexer um único centímetro. — Minha conversa com você vai ser bem curta, Gustavo. Você vai devolver o meu filho, mandar entregar o meu carro e eu vou embora pro meu apartamento. E nunca mais você ouse colocar a mão em mim ou mandar na minha vida.
Gustavo soltou uma risada debochada, daquelas curtas e desprovidas de humor que sempre faziam o estômago de Karen revirar.
— Seu apartamento? O meu filho? — Ele jogou o carro na faixa rápida, ultrapassando um caminhão com impaciência. — Você é muito folgada, Karen. Acha mesmo que vai meter um vestido desse, colado até a garganta, mostrando cada curva que Deus te deu, e vai circular no meio de um monte de urubu como se não tivesse rabo preso com ninguém?
— Eu não tenho rabo preso com você! — Ela virou o tronco bruscamente em direção a ele, a fúria faiscando em seus olhos amendoados. — Quantas vezes eu vou ter que desenhar pra você entender? A gente terminou há sete meses! Eu não sou sua mulher!
— Você é a mãe do Liam!
— E isso me torna sua propriedade por acaso? — rebateu ela, apontando para o próprio peito com indignação. — Eu passei sete meses trancada cuidando de uma criança recém-nascida enquanto você continuava a sua vidinha de artista, desfilando por aí! Minha mãe viajou, eu fiquei sozinha, e a Hillary preparou uma estrutura impecável na casa dela pra que o Liam ficasse seguro enquanto eu respirava por duas míseras horas!
— Estrutura impecável numa festa de arromba regada a uísque e droga? — Gustavo bateu a mão no volante, a voz crescendo no habitáculo antes de baixar o tom conscientemente para não assustar o bebê no banco de trás. — Fala baixo, não acorda o moleque. Mas escuta aqui: não existe ambiente seguro pro meu filho que envolva aquele tipo de ambiente. E você sabe muito bem disso. Você foi pra me desafiar, não foi?
— Eu nem sabia que a porra da sua presença ia estragar a tarde de todo mundo! — retrucou Karen, entre dentes, sentindo o veneno ferver em sua língua. — Mas engraçado você falar de ambiente impróprio. Quem tava esfregando a bunda no seu colo à beira da piscina mesmo? Aquela garota faz parte da sua rotina de pai de família respeitável?
Gustavo virou o rosto para encará-la rapidamente antes de voltar a atenção para o trânsito. O canto da boca dele curvou-se em um esgar de satisfação cínica.
— Eu sabia. — A voz dele desceu duas oitavas, ganhando um tom perigosamente íntimo. — A dor do seu cotovelo tá tão evidente que tá quase saindo pelo vidro, Karen.
— Vai se foder, Gustavo Henrique!
— Ela não tava esfregando porra nenhuma — justificou ele, embora o tom descontraído demonstrasse claramente que ele adorava vê-la queimar de ciúme. — Ela colou ali pra trocar uma ideia, pedir foto, e eu não dei moral nenhuma. Mas você... você desceu daquele carro parecendo uma miragem, atraindo os olhos de cada homem miserável que tava naquele quintal. Você acha que eu não vi os caras te medindo de cima a baixo? Acha que eu esqueci que cada centímetro dessa pele aí já foi meu?
— "Foi", Gustavo. Passado! — Ela enfatizou a palavra com o peso de uma bigorna. — Agora vira essa porra desse volante e me leva pra minha casa.
— Você vai entrar na minha casa, vai alimentar o meu filho e nós vamos conversar que nem gente — decretou ele, no tom autoritário que sempre fora o gatilho das maiores brigas do casal. — Depois a gente vê o que faz.
O condomínio fechado na Zona Oeste surgiu adiante, e o portão automático ergueu-se quase de imediato ao reconhecer o carro esportivo de Gustavo. Minutos depois, o veículo parava na garagem subterrânea da mansão imponente do rapaz. O motor silenciou, deixando apenas o som abafado da respiração descompassada dos dois preenchendo o ar.
Karen saltou imediatamente para o banco traseiro antes que Gustavo pudesse intervir. Com delicadeza extrema, desconectou o bebê-conforto e retirou Liam, aninhando o corpinho quente do menino contra seu colo. Liam soltou um murmúrio sonolento, mas acomodou a bochechinha gordinha no ombro da mãe, agarrando um pedaço do tecido terracota com a mãozinha fechada em concha.
Gustavo desceu do lado dele, pegou a bolsa grande com as coisas do bebê que o segurança havia colocado no porta-malas e parou diante dela. A diferença de altura entre os dois tornava a postura de Gustavo naturalmente dominante, mas Karen não vacilou.
— Anda — ordenou ele, apontando para o elevador privativo com a cabeça.
— Eu só tô subindo porque o Liam precisa do berço e do leite dele — avisou ela, encarando-o com fogo nos olhos. — Não ache que você tem qualquer controle sobre mim.
— Sobe logo, Karen — retrucou ele, já apertando o botão do elevador.
A porta espelhada abriu-se direto no hall de entrada da cobertura de Gustavo. O espaço era moderno, decorado em tons de cinza, preto e madeira nobre, com uma vista panorâmica de tirar o fôlego da cidade que começava a acender suas luzes noturnas. Era o mesmo lugar em que haviam feito planos, o mesmo lugar de onde ela saíra aos prantos sete meses atrás, decidida a nunca mais voltar. O aroma amadeirado do rapaz impregnava cada metro quadrado daquele imóvel, fazendo o coração de Karen bater em um ritmo angustiante.
— O quarto dele tá pronto — murmurou Gustavo, quebrando a rigidez ao indicar o corredor lateral. — Mandei montar exatamente com as mesmas coisas que ele tem lá na sua casa.
Karen engoliu em seco. Ela sabia que Gustavo havia montado um quarto para Liam, mas nunca tinha entrado ali. Caminhou em silêncio até o cômodo iluminado por uma luz amarela indireta. O berço de madeira escura com proteção acolchoada, o móbile em formato de pequenas nuvens, o trocador perfeitamente higienizado e abastecido de fraldas. Gustavo era muitas coisas — esquentado, possessivo, arrogante e dominador —, mas sua dedicação e cuidado com o filho beiravam o sagrado.
Com movimentos suaves, Karen trocou a fralda do pequeno, enquanto Gustavo permanecia encostado no batente da porta, observando cada gesto em silêncio. Seus olhos passeavam da criança para as mãos ágeis de Karen, e depois subiam pelas costas nuas da mulher, expostas pelo corte profundo do vestido terracota. A respiração dele pesava a cada movimento dela.
— Ele tomou a última mamadeira há três horas — comentou Karen, tentando manter a voz neutra enquanto ajeitava o macacãozinho azul de Liam. — Tá quase na hora da próxima.
— Tem leite e fórmula na cozinha — respondeu Gustavo, a voz mais baixa e rouca do que o habitual. — E tem um frasco esterilizado do lado da máquina de café. Eu preparei tudo ontem achando que você ia deixar eu pegar ele hoje.
Karen parou por um segundo, com o bebê nos braços, e olhou para ele.
— Eu nunca impedi você de ver o Liam, Gustavo. Quem colocou essa regra imbecil de só vir me ver quando a minha mãe estivesse presente foi você, pelo seu orgulho machucado.
— Não era por orgulho, caralho — retrucou ele, dando um passo para dentro do quarto infantil, quebrando a distância de segurança. — Era porque eu sabia que se eu te visse todo santo dia, eu ia fazer exatamente o que eu tô com vontade de fazer agora.
A eletricidade no ar estalou. Karen sentiu o peso daquele olhar descer pelo seu colo, queimar em sua cintura e fincar-se nos seus lábios. Ela apertou Liam com mais firmeza, recuando um passo milimétrico em direção à poltrona de amamentação.
— Não começa, Gustavo.
— Não começo o quê? — Ele se aproximou mais um pouco, parando a menos de um metro dela. — Você vem até a porra de uma festa onde todos os meus parceiros estão reunidos, usando um pano que não esconde nada, esperando que eu aja como um amigo distante? Você sabe o efeito que você tem em mim, Karen. Sempre soube.
— Eu não fui lá pra você! — sussurrou ela, tentando controlar a própria respiração que teimava em descompassar. — O mundo não gira ao seu redor! A Hillary é minha amiga, ela me chamou e jurou que você tava longe. Eu só queria esquecer um pouco essa prisão em que você me meteu!
— Eu te meti numa prisão? — Gustavo estreitou os olhos, a indignação reacendendo em suas feições. — Eu dou a vida por vocês dois! Não falta um centavo nessa porra, a melhor estrutura, a melhor segurança! Eu só exigi que o meu filho não fosse criado por gente estranha! Isso é prisão?
— É prisão quando você quer controlar quem pode e quem não pode cuidar dele, me sobrecarregando de propósito pra que eu não tenha vida própria além de ser a mãe do seu filho! — Karen cuspiu as palavras, a mágoa explodindo em seu peito. — Você não quer uma babá não é por zelo, Gustavo. É porque com uma babá eu teria liberdade. E liberdade é a única coisa que você não suporta ver na minha mão!
Gustavo travou. As palavras dela acertaram um ponto vulnerável em sua armadura, mas em vez de se desculpar, o instinto possessivo dele reagiu com a agressividade habitual de quem odeia perder o domínio.
— Minha intenção nunca foi te sufocar, porra! — disparou ele, abaixando a voz no último segundo ao perceber que Liam começava a se remexer incomodado.
Gustavo estendeu as mãos grandes, puxando delicadamente a criança para o próprio peito. Karen, mesmo a contragosto, permitiu. Liam aninhou a cabeça no pescoço tatuado do pai, sentindo o calor e o ritmo familiar dos batimentos de Gustavo, e em menos de um minuto soltou um longo suspiro, adormecendo profundamente.
Gustavo caminhou com calma até o berço, depositou o menino sobre o lençol macio com um cuidado quase reverente, puxou a manta de algodão até o peito do pequeno e ligou a babá eletrônica. Durante aqueles poucos instantes, a fera descontrolada da beira da piscina deu lugar ao pai devoto.
Karen observou a cena com um nó na garganta. Odiava o quanto aquela imagem ainda a desarmava. Od