Cachoeira
Entre Promessas e Picadas de Inseto
O caminho de volta da cachoeira sempre parecia mais curto, mas não menos traiçoeiro. O corpo de Cecilia estava relaxado pelo banho gelado, mas o cansaço do jogo de vôlei de dois dias atrás e da trilha de subida começava a cobrar seu preço nas panturrilhas. Ela caminhava um pouco mais devagar agora, observando as costas de Vinicius, que mantinha um ritmo constante, mas sempre parava para garantir que ela não estivesse ficando para trás.
— Sabe, Vini, eu estava pensando... — começou ela, desviando de uma raiz proeminente. — Se a gente sobreviver a esse verão sem você ter um ataque cardíaco de tanta preocupação, a gente devia tentar aquela trilha da Pedra Furada em janeiro.
Vinicius parou bruscamente e se virou, arqueando uma sobrancelha. Ele apoiou as mãos nos quadris, olhando para ela com aquela expressão de "você só pode estar brincando" que Cecilia conhecia tão bem.
— Pedra Furada? Cecilia, aquela trilha tem trechos de escalada de baixo nível. Você quase escorregou em uma pedra plana com um pouco de lodo hoje. Se eu te levar lá, vou precisar de um seguro de vida e de um estoque de calmantes.
— Ah, para de ser dramático! — Ela passou por ele, dando um tapinha em seu braço. — Eu escorreguei porque estava distraída com a sua beleza radiante, não por falta de habilidade.
Vinicius soltou uma risada curta, voltando a caminhar logo atrás dela, mantendo-se perto o suficiente para segurá-la se necessário.
— Engraçado como a sua "distração" sempre coincide com os lugares onde eu digo para você ter cuidado. É quase como se você fizesse de propósito para testar meus reflexos.
— Talvez eu faça — admitiu ela, por cima do ombro, com um sorriso travesso. — Ver você todo tenso, agindo como um guarda-costas de filme de ação, é um dos meus passatempos favoritos. Você fica muito bonito quando está concentrado em não me deixar morrer.
— Que bom que meu sofrimento te diverte — resmungou ele, embora o sorriso em seu rosto entregasse que ele não estava realmente incomodado. — Mas agora, sério, olha por onde pisa. O sol está baixando e as sombras estão começando a enganar a profundidade dos buracos.
Eles continuaram descendo em um silêncio confortável por alguns minutos, interrompido apenas pelo som do vento nas copas das árvores e pelo estalar de galhos secos sob seus pés. No entanto, o destino parecia querer dar razão a Vinicius. Um enxame de mosquitos, atraído pela umidade do fim de tarde, decidiu que o casal era o banquete perfeito.
— Ai! — Cecilia deu um tapa na própria coxa. — Malditos! Eu sabia que devia ter passado mais repelente.
Vinicius parou imediatamente e começou a mexer na mochila.
— O que foi que eu disse no começo da trilha? "Cecilia, o mato está alto, os bichos estão famintos". Mas não, a senhorita "força da natureza" achou que os mosquitos teriam medo dos músculos de jogadora de vôlei dela.
— Não começa, Vinicius — ela resmungou, batendo no braço agora. — Eles estão me comendo viva!
— Vem cá — disse ele, tirando o frasco de repelente da rede lateral da mochila. — Para de se bater, senão você vai acabar se machucando.
Ele se aproximou e, com uma delicadeza que contrastava com suas palavras provocadoras, começou a passar o spray nas pernas dela. Cecilia ficou imóvel, observando o topo da cabeça dele enquanto ele se agachava para garantir que não sobrasse nenhum centímetro de pele exposta nos tornozelos dela.
— Pronto — disse ele, levantando-se e guardando o frasco. — Agora, se você prometer não sair correndo como uma doida, a gente chega no carro em vinte minutos.
— Eu prometo — murmurou ela, sentindo um calorzinho no peito que não tinha nada a ver com o clima. — Obrigada, Vini. De verdade.
Ele deu um beijo rápido na ponta do nariz dela.
— Não me agradeça ainda. Você ainda tem que aguentar o meu "eu avisei" durante todo o caminho de carro.
— Ah, eu retiro o que disse! Você é um chato! — Ela tentou empurrá-lo, mas ele a puxou para um abraço rápido, prendendo-a contra o peito.
— Sou o chato que te salvou de ser carregada por uma nuvem de pernilongos — ele sussurrou perto do ouvido dela. — Admite, você não duraria dois dias na selva sem mim.
— Eu duraria — ela rebateu, embora estivesse sorrindo contra a camiseta dele. — Mas seria muito menos engraçado. E eu provavelmente estaria muito mais cheia de hematomas.
Eles retomaram a caminhada, agora de mãos dadas sempre que o caminho permitia. A luz do entardecer filtrava-se entre as árvores, pintando a floresta de tons alaranjados e dourados. Era aquele momento mágico do dia em que tudo parecia em paz, e Cecilia sentiu uma onda de gratidão por ter Vinicius ao seu lado. Eles tinham dezessete anos, um mundo de pressões escolares e competições esportivas pela frente, mas ali, na trilha, nada disso importava.
— Vini? — chamou ela, suavemente.
— Hum?
— Você acha que a gente vai estar fazendo isso daqui a dez anos? Trilhas, clubes, implicando um com o outro por causa de picolé e mosquitos?
Vinicius parou por um segundo, olhando para o horizonte onde a trilha finalmente se abria para a estrada de terra onde o carro estava estacionado. Ele apertou a mão dela com um pouco mais de força, um gesto silencioso de segurança.
— Daqui a dez anos eu provavelmente vou estar te lembrando de levar um casaco porque vai estar frio na montanha, e você vai estar me dizendo que é uma "força da natureza" e que não precisa de casaco nenhum.
Cecilia riu, imaginando a cena.
— E você vai estar certo, como sempre?
— Provavelmente — ele sorriu, abrindo a porta do passageiro para ela assim que chegaram ao carro. — Mas eu não me importo de estar certo, desde que você esteja lá para me dizer que eu sou um chato.
Ela entrou no carro, jogando a cabeça para trás no encosto do banco, sentindo o ar condicionado começar a refrescar o ambiente. Vinicius deu a volta, sentou-se no banco do motorista e, antes de ligar o motor, olhou para ela com um brilho suave nos olhos.
— Foi um dia bom, Ceci. Apesar dos sustos.
— Foi o melhor dia — ela concordou, esticando a mão para bagunçar o cabelo dele. — Mas amanhã, no treino, eu não vou ter pena de você. Aquele ponto final de sexta-feira foi sorte, e eu vou provar isso.
Vinicius ligou o carro, rindo.
— É o que veremos, "mulher maravilha". É o que veremos.
Enquanto o carro se afastava da entrada da trilha, deixando a poeira baixar para trás, Cecilia fechou os olhos, já planejando a próxima aventura, sabendo que, não importa o quão perigosa ou íngreme fosse a subida, haveria sempre uma mão firme pronta para segurá-la antes que ela pudesse cair. E, claro, um comentário sarcástico logo em seguida para manter o equilíbrio perfeito de quem eles eram.