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Cãozinho mandado

O Gosto Gelado do Ciúme e a Sombra da Proteção

O sol da manhã de Bangkok atravessava as cortinas de seda da cobertura, pintando o quarto com tons de dourado e âmbar. Engfa Waraha já estava acordada há horas, observando o peito de Charlotte subir e descer em um ritmo tranquilo. Ela não se atrevia a se mover; Charlotte estava abraçada ao seu braço esquerdo como se fosse um urso de pelúcia, e qualquer movimento brusco poderia interromper o descanso daquela que era o centro de seu universo.

De repente, Charlotte soltou um resmungo baixo e abriu os olhos castanhos, piscando algumas vezes antes de focar no rosto de Engfa, que a observava com uma adoração quase religiosa.

— Bom dia, Fa — a voz de Charlotte estava rouca de sono, um som que sempre fazia o coração da assassina falhar uma batida.

— Bom dia, meu amor — Engfa respondeu, inclinando-se para beijar a testa da namorada. — Dormiu bem?

Charlotte se espreguiçou, esticando o corpo de 1,69m sobre os lençóis caros, e então olhou fixamente para Engfa com uma expressão decidida.

— Eu dormi. Mas eu acordei com uma vontade específica. Você lembra do que me prometeu ontem à noite antes de eu apagar?

Engfa sorriu levemente, ajustando os óculos que haviam escorregado um pouco pelo nariz.

— O sorvete de baunilha com calda de morango. Eu nunca esqueceria um pedido seu, Charlotte.

— Então por que ainda estamos na cama? — Charlotte sentou-se abruptamente, empurrando os lençóis. — Eu quero o meu sorvete, Fa. Agora.

— Mas ainda é cedo, pequena. Muitas lojas nem abriram... — Engfa começou a dizer, mas parou no instante em que viu Charlotte cruzar os braços e arquear uma sobrancelha.

— Engfa Waraha, você está protestando? — O tom de Charlotte era desafiador, carregado daquela autoridade que só ela exercia sobre a mulher mais perigosa da Tailândia.

— Jamais — Engfa levantou-se imediatamente, a postura de 1,78m impondo respeito, embora seus olhos transmitissem total submissão à namorada. — Vou me trocar. Estaremos na sorveteria em quinze minutos.

Enquanto se preparava, Engfa vestiu sua armadura habitual: uma camisa social escura, calças de corte impecável e, claro, as luvas de couro negro. Ela odiava esconder as mãos de Charlotte, mas o mundo lá fora era um lugar sujo, e ela precisava estar pronta para qualquer eventualidade. A cicatriz em sua bochecha parecia mais nítida sob a luz do dia, um lembrete constante de que ela era uma predadora, mesmo quando estava agindo como motorista particular de uma jovem de 22 anos.

No carro, Charlotte cantarolava uma música que tocava no rádio, alheia à forma como Engfa monitorava constantemente os espelhos retrovisores, verificando se algum veículo as seguia. Para Charlotte, era apenas um passeio matinal; para Engfa, era uma operação de transporte de carga preciosa.

Ao chegarem à sorveteria artesanal favorita de Charlotte, o local estava relativamente calmo. Engfa estacionou o carro e abriu a porta para a namorada, segurando sua mão com firmeza.

— Fique aqui na mesa perto da janela, Charlotte. Eu vou fazer o pedido para evitarmos a fila — instruiu Engfa, o tom voltando a ser metódico e protetor.

— Tudo bem, Fa. Mas não esqueça: muita calda de morango. Se vier pouco, eu vou fazer você voltar lá — Charlotte brincou, sentando-se e pegando o celular para checar suas redes sociais.

Engfa caminhou até o balcão. Ela mantinha a cabeça baixa, os óculos escuros agora escondendo seus olhos calculistas. Enquanto esperava o atendente preparar o pedido elaborado de Charlotte, ela sentiu uma mudança na atmosfera atrás dela. Um grupo de três rapazes, aparentando pouco mais de vinte anos e exalando uma arrogância típica de herdeiros mimados, entrou na loja.

Eles não viram Engfa, ou se viram, a ignoraram. Mas eles viram Charlotte.

— Olha só aquela ali — um deles murmurou alto o suficiente para Engfa ouvir. — Sozinha e com cara de quem gosta de diversão.

Engfa sentiu o sangue ferver. Suas mãos, dentro das luvas, fecharam-se em punhos. Ela manteve a calma, respirando fundo. "Pela Charlotte", pensou ela. "Não faça uma cena a menos que seja necessário."

No entanto, o necessário aconteceu mais rápido do que ela esperava. Um dos rapazes, um tipo alto com um sorriso presunçoso, aproximou-se da mesa de Charlotte.

— Ei, gatinha. Está esperando alguém ou posso te fazer companhia? — perguntou o rapaz, debruçando-se sobre a mesa de Charlotte, invadindo o espaço pessoal dela.

Charlotte levantou os olhos do celular, a expressão alegre desaparecendo instantaneamente.

— Estou esperando minha namorada. E não, você não pode me fazer companhia. Por favor, saia.

O rapaz riu, trocando olhares com os amigos que observavam de longe.

— Namorada? Que desperdício. Você é bonita demais para ficar presa a uma mulher. Por que não vem dar uma volta com a gente? Eu posso te mostrar o que é um homem de verdade.

Ele estendeu a mão, tentando tocar o cabelo castanho-claro de Charlotte. Charlotte recuou, seu rosto mostrando um misto de irritação e desconforto.

— Não me toque — ela disse, sua voz firme, mas Engfa detectou a nota de ansiedade nela.

Foi o suficiente.

Antes que os dedos do rapaz pudessem sequer roçar um fio de cabelo de Charlotte, uma mão envolta em couro negro surgiu do nada, agarrando o pulso dele com a força de um torno mecânico.

O som do osso estalando foi abafado pelo grito súbito de dor do rapaz. Engfa não disse uma palavra. Ela apenas girou o pulso dele, forçando-o a se ajoelhar no chão da sorveteria. Os óculos de Engfa haviam escorregado levemente, revelando olhos que brilhavam com uma fúria assassina e fria.

— Eu acredito que ela disse para você não tocá-la — a voz de Engfa era um sussurro gélido que fez os outros dois amigos do rapaz congelarem onde estavam.

— Meu... meu pulso! Você quebrou meu pulso! — o rapaz urrou, o rosto vermelho de agonia.

— Considere-se sortudo por eu ter parado no pulso — Engfa disse, aumentando a pressão apenas um pouco mais, sentindo o rádio e a ulna se deslocarem sob sua força. — Se você respirar na direção dela novamente, eu garanto que você nunca mais sentirá nada abaixo do pescoço.

— Fa! — a voz de Charlotte chamou.

Engfa olhou para a namorada. Charlotte não estava horrorizada; ela estava acostumada com a proteção feroz de Engfa, mas sabia que o local era público demais para um cadáver.

— Solte ele, Fa. O sorvete já está pronto.

Como um cão treinado que ouve o comando de seu dono, a fúria de Engfa dissipou-se. Ela soltou o pulso do rapaz com desprezo, deixando-o desabar no chão, segurando a mão visivelmente deformada. Engfa pegou o copo de sorvete do balcão, que o atendente trêmulo acabara de colocar ali, e caminhou até Charlotte.

— Vamos, meu amor. O ambiente aqui ficou desagradável — disse Engfa, sua voz agora doce e solícita, como se não tivesse acabado de mutilar um homem.

Elas saíram da loja sob o olhar aterrorizado dos presentes. Assim que entraram no carro, Engfa pegou o celular. Ela precisava limpar a bagunça antes que as câmeras de segurança ou testemunhas causassem problemas desnecessários.

Ela discou um número que poucos tinham.

— Alô? — uma voz feminina atendeu após o segundo toque. Era uma voz cansada, mas alerta.

— Faye. Sou eu — disse Engfa, ligando o motor.

— Engfa? O que você fez agora? — Faye Malisorn, uma policial de alto escalão infiltrada na corporação de Bangkok e uma das poucas "amigas" ou aliadas de confiança de Engfa, suspirou do outro lado da linha.

— Tive um pequeno incidente na sorveteria da rua 12. Um civil foi... indelicado com a Charlotte. Ele provavelmente vai precisar de um cirurgião ortopédico. Cuide das câmeras e certifique-se de que nenhum relatório chegue à central.

— Engfa, você sabe que eu corro riscos cobrindo você — Faye murmurou, embora já fosse possível ouvir o som de teclas de computador ao fundo. — Mas, considerando que é pela Charlotte... eu dou um jeito. Só tente não quebrar ninguém nas próximas vinte e quatro horas, ok?

— Não prometo nada — Engfa desligou e guardou o celular.

Ela olhou para o lado e viu Charlotte começando a comer o sorvete, parecendo perfeitamente satisfeita.

— Você foi um pouco bruta, não acha? — Charlotte perguntou, embora houvesse um sorriso malicioso em seus lábios. Ela pegou uma colherada de sorvete e levou à boca de Engfa. — Experimenta. Está uma delícia.

Engfa aceitou o sorvete, o sabor doce e gelado contrastando com a adrenalina que ainda corria em suas veias.

— Ele tentou tocar em você, Charlotte. Ninguém toca no que é meu.

Charlotte riu e aproximou-se, beijando a bochecha de Engfa, exatamente sobre a cicatriz.

— Eu sei, minha assassina protetora. Por isso eu deixo você mandar em todo mundo, desde que continue obedecendo a mim. Agora, dirija. Quero ver o pôr do sol no parque e quero que você segure minha mão o tempo todo. Sem as luvas.

Engfa suspirou, sentindo toda a sua frieza derreter sob o comando daquela jovem mulher. Ela retirou a luva da mão esquerda, revelando as cicatrizes que Charlotte tanto amava beijar, e entrelaçou seus dedos aos dela.

— Como você desejar, Charlotte. Sempre como você desejar.

Enquanto o carro se afastava, deixando para trás a confusão e a dor, Engfa Waraha sabia que, para o resto do mundo, ela era o pesadelo que caminhava entre os vivos. Mas ali, dentro daquele veículo, ela era apenas o escudo e o brinquedo de Charlotte Austin. E ela não aceitaria nenhuma outra posição no mundo.