Casamento arranjado
O Segredo sob a Seda e o Gosto de Baunilha
A luz da manhã em Gotham City era, como de costume, uma névoa cinzenta que lutava para atravessar as pesadas cortinas de veludo da Mansão Wayne. No interior do quarto principal, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico da respiração de Bruce. Ele estava acordado há algum tempo, observando o teto, a mente já traçando rotas de patrulha e analisando relatórios financeiros da Wayne Enterprises. No entanto, algo o mantinha imóvel: o peso suave de Sophia adormecida em seu braço.
Bruce virou o rosto levemente, inalando o perfume de baunilha que emanava da pele dela. Desde o casamento, a mansão não parecia mais um mausoléu de memórias tristes; havia vida, cor e uma doçura que ele ainda estava aprendendo a aceitar. Mas, nos últimos dias, ele notara uma mudança. Sophia estava mais silenciosa, suas bochechas rosadas pareciam pálidas ao amanhecer e ela evitava o café forte que Alfred preparava com tanto esmero.
De repente, Sophia se mexeu. Ela soltou um gemido baixo, não de prazer, mas de desconforto. Antes que Bruce pudesse perguntar se ela estava bem, ela se sentou abruptamente, cobrindo a boca com a mão. Seus olhos castanhos, geralmente brilhantes, estavam arregalados e turvos de náusea.
— Sophia? — Bruce sentou-se rapidamente, estendendo a mão para as costas dela.
Ela não respondeu. Em um movimento ágil, ela saltou da cama e correu em direção ao banheiro. Bruce a seguiu, o instinto de proteção disparando. Ele a encontrou ajoelhada no chão de mármore frio, os ombros tremendo. Ele se aproximou silenciosamente, segurando os cabelos escuros e cacheados dela para longe do rosto, enquanto passava a outra mão em círculos reconfortantes por suas costas.
— Está tudo bem — sussurrou ele, sua voz de Batman dando lugar a uma suavidade que só ela conhecia. — Eu estou aqui.
Depois de alguns minutos, Sophia se levantou, apoiando-se na pia para lavar o rosto. Ela olhou para o reflexo no espelho: a pele bronzeada parecia opaca e havia uma vulnerabilidade em seu olhar que apertou o coração de Bruce.
— É a terceira vez esta semana, não é? — perguntou ele, entregando-lhe uma toalha limpa.
— Eu não queria te preocupar — disse ela, a voz fraca. — Achei que fosse algo que comi no jantar com os acionistas. Aquelas ostras não pareciam muito frescas.
— Sophia, o jantar foi há quatro dias — observou Bruce, cruzando os braços e encostando-se no batente da porta. Seu olhar analítico estava funcionando a pleno vapor. — Você tem estado cansada. Ontem, você dormiu durante a leitura do poema que tanto queria terminar.
— Gotham drena as energias de qualquer um, Bruce — tentou ela, com um sorriso fraco que não chegou aos olhos.
— Não tente me despistar, Sophia. Eu sou o maior detetive do mundo, lembra-se? — Ele caminhou até ela, diminuindo a distância e segurando suas mãos pequenas entre as dele. — Você está comendo mais frutas cítricas e o cheiro do meu perfume habitual parece te incomodar. O que está acontecendo?
Sophia baixou a cabeça, os lábios rosados tremendo levemente. O perfume de baunilha dela parecia mais intenso para os sentidos aguçados de Bruce, ou talvez fosse apenas a proximidade.
— Eu não tenho certeza — sussurrou ela. — Eu... eu sinto que meu corpo não me pertence mais, Bruce. É como se houvesse uma mudança constante, um formigamento... e essa náusea que não passa.
Bruce sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com o clima frio de Gotham. Uma possibilidade começou a se formar em sua mente, algo que ele nunca se permitiu planejar ou desejar seriamente. Um herdeiro. Um filho de Gotham. Um filho dele.
— Alfred! — chamou Bruce, sua voz ecoando pelo corredor.
— Não precisa gritar, Bruce — pediu Sophia, encostando a cabeça no peito dele. — Estou apenas um pouco enjoada.
Alfred apareceu na porta momentos depois, impecável como sempre, mas com um olhar de preocupação paternal que ele reservava apenas para a família.
— Sim, patrão Bruce? Deseja que eu cancele a reunião com a Lucius Fox?
— Chame a Dra. Thompkins — ordenou Bruce, sem desviar os olhos de Sophia. — Agora. Diga a ela que é uma emergência pessoal.
— Bruce, não seja exagerado — protestou Sophia, embora se deixasse ser carregada de volta para a cama nos braços fortes de seu marido.
— Eu não corro riscos com você — disse ele, depositando-a com cuidado sobre os lençóis de seda.
A hora seguinte foi uma agonia de espera. Leslie Thompkins chegou com sua maleta médica e uma expressão de quem já estava acostumada com os dramas da família Wayne. Bruce foi expulso do quarto, o que o deixou andando de um lado para o outro no corredor, como um animal enjaulado.
— O senhor vai acabar abrindo um buraco no tapete persa, senhor — comentou Alfred, oferecendo-lhe uma xícara de chá.
— Ela está pálida, Alfred. E se for algum tipo de retaliação? Algum veneno de efeito retardado de um dos meus inimigos? — Bruce apertou os punhos. — Eu não deveria ter deixado que ela ficasse tão exposta.
— Patrão Bruce, com todo o respeito — disse Alfred, com um brilho divertido nos olhos —, há condições médicas que não envolvem supervilões ou toxinas do medo. O senhor é um homem inteligente. Considere todas as variáveis.
Antes que Bruce pudesse responder, a porta do quarto se abriu. Leslie saiu, retirando as luvas e olhando para Bruce com um sorriso enigmático.
— Ela vai sobreviver, Bruce. Mas acho que você vai precisar de um novo tipo de treinamento para os próximos meses.
— O que isso significa, Leslie? — perguntou ele, a voz tensa.
— Vá falar com sua esposa. Ela está esperando por você.
Bruce entrou no quarto com passos cautelosos. Sophia estava sentada contra os travesseiros, a luz da manhã agora iluminando seu rosto angelical. Ela parecia estar em um estado de choque suave, mas havia uma doçura renovada em seu sorriso.
— Bruce... — chamou ela, estendendo a mão.
Ele se sentou na beira da cama, segurando a mão dela como se fosse feita de vidro.
— O que ela disse? É algum vírus? Alguma infecção?
Sophia soltou uma risada curta, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha.
— Não é uma doença, Bruce. É... é um milagre. Ou talvez seja apenas a consequência daquela noite na ilha que você disse que seria inesquecível.
Bruce sentiu o tempo parar. O ar em seus pulmões pareceu congelar.
— Você está dizendo que...
— Eu estou grávida — disse ela, a voz clara e vibrante. — Nós vamos ter um bebê, Bruce.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Para um homem que sempre tinha uma resposta, um plano e uma saída, Bruce Wayne estava completamente desarmado. Ele olhou para o ventre ainda plano de Sophia, coberto pela seda da camisola, e sentiu uma onda de emoção tão avassaladora que seus olhos azuis arderam.
— Um bebê — repetiu ele, a palavra soando estranha e maravilhosa em sua boca.
— Você está bravo? — perguntou Sophia, a timidez voltando por um instante. — Eu sei que não estava no nosso "contrato" e que sua vida é... complicada.
Bruce envolveu-a em um abraço protetor, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Bravo? Sophia, eu nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer para alguém como eu. Eu passo minhas noites tentando salvar o futuro de estranhos... mas agora, o futuro está aqui. Dentro de você.
Ele se afastou um pouco, segurando o rosto dela com as duas mãos.
— Eu vou proteger vocês dois com tudo o que eu sou. Nada neste mundo vai encostar em você ou nesse filho.
— Eu sei — disse ela, sorrindo e acariciando o rosto dele. — Mas você vai ter que se acostumar com o fato de que, por enquanto, eu vou precisar de muito mais do que proteção. Vou precisar de biscoitos de gengibre e que você pare de usar esse perfume amadeirado. O cheiro me faz querer desmaiar.
Bruce soltou uma risada, uma das poucas que nasciam do fundo de sua alma.
— Eu jogarei todos os frascos fora hoje mesmo.
— E as patrulhas, Bruce? — perguntou ela, a preocupação surgindo. — Agora é diferente.
— Eu serei mais cuidadoso. Prometo. — Ele beijou a testa dela. — Mas agora, você precisa descansar. Alfred vai preparar algo leve para você comer.
— Ele já sabe, não sabe? — perguntou Sophia, notando a sombra de Alfred na porta entreaberta.
— O Sr. Alfred sempre sabe de tudo antes de todos, minha senhora — disse o mordomo, entrando com uma bandeja que continha chá de camomila e torradas integrais. — Meus parabéns. A Mansão Wayne precisava de um pouco de choro de bebê para espantar os fantasmas.
Sophia comeu um pouco, sentindo-se melhor sob o olhar vigilante e amoroso de Bruce. Ele não saiu do lado dela o dia todo. Desmarcou reuniões, ignorou o sinal do computador na caverna e apenas ficou ali, lendo poesias para ela e ocasionalmente colocando a mão sobre o ventre dela, como se pudesse sentir a vida que começava a florescer.
No entanto, conforme a noite caía sobre Gotham, a realidade da vida dupla de Bruce batia à porta. O bat-sinal cortou as nuvens, um chamado silencioso e imperioso.
Bruce olhou para a janela e depois para Sophia.
— Vá — disse ela, segurando a mão dele. — Eu e o pequeno "Wayne" estamos seguros aqui. Mas a cidade precisa de você para garantir que o mundo onde ele vai nascer seja um pouco melhor.
— Eu volto logo — prometeu ele, inclinando-se para um beijo demorado que tinha gosto de promessa e esperança.
— Bruce? — chamou ela quando ele já estava na porta.
— Sim?
— Traga baunilha quando voltar. Eu sinto que vou precisar de um banho bem doce para compensar o cheiro de Gotham.
Ele sorriu, o olhar de Batman já começando a se formar, mas suavizado pela humanidade que Sophia lhe trouxera.
— Eu trarei o que você quiser, Sophia. Sempre.
Bruce desceu para a Batcaverna, mas seus movimentos eram diferentes. Havia uma nova urgência, uma nova camada de cautela. Ele vestiu o traje, sentindo o peso do kevlar e das placas de metal, mas seu coração estava leve.
— Alfred — disse ele, enquanto ajustava o capuz.
— Sim, senhor?
— Prepare o quarto ao lado do de Sophia. Quero que seja reformado. Nada de cinza ou preto. Quero cores... quentes. E providencie a melhor segurança eletrônica que a Wayne Tech puder criar.
— Já estou com o catálogo de tintas e os diagramas de sensores em mãos, senhor — respondeu Alfred, com um orgulho indisfarçável.
O Batman saiu para a noite, saltando pelos telhados com uma agilidade renovada. Ele lutou contra criminosos comuns e impediu um assalto a banco, mas sua mente estava em casa. Ele via a cidade não apenas como um campo de batalha, mas como o berço de seu filho.
Ao retornar, horas depois, ele entrou no quarto em silêncio. Sophia estava dormindo profundamente, um braço sobre o travesseiro dele. Ele retirou o traje e, após um banho minucioso para retirar qualquer vestígio de fumaça ou poluição, deitou-se ao lado dela.
Sophia se mexeu no sono, aproximando-se do calor de seu corpo.
— Você voltou — murmurou ela, sem abrir os olhos.
— Eu sempre volto para você — disse ele, puxando-a para seus braços.
Ele colocou a mão sobre o ventre dela novamente, fechando os olhos. O bilionário playboy era uma fachada. O Batman era um dever. Mas ali, naquela escuridão perfumada de baunilha, Bruce Wayne descobriu seu verdadeiro propósito. Ele não estava apenas protegendo Gotham; ele estava protegendo sua família.
E enquanto o sol começava a surgir novamente sobre a cidade, Bruce adormeceu com um sorriso, sabendo que o capítulo mais desafiador e maravilhoso de sua vida estava apenas começando. O contrato nupcial fora transformado em um pacto de sangue e amor, e Gotham, por mais sombria que fosse, nunca parecera tão cheia de luz.