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Castamar

O Eco das Promessas Profanas

A semana em Castamar arrastava-se com uma lentidão torturante para quem carregava o peso de uma conspiração sob as saias de seda. Clara movia-se pelos corredores do palácio como um fantasma de perfeição, observando Diego com uma mistura de piedade e desprezo. O irmão, mergulhado em seus livros de contabilidade e em seus encontros furtivos com a cozinheira, parecia cada vez mais vulnerável, um castelo de cartas esperando pelo sopro certo.

Na terça-feira, Clara posicionou-se estrategicamente na antessala do gabinete do Duque. Com um livro de poesias no colo, ela fingia ler enquanto seus ouvidos captavam cada palavra que escapava pelas frestas da pesada porta de madeira. Diego discutia com o Conde de Armara sobre as novas taxas que pretendia impor aos grandes latifundiários para aliviar o fardo dos camponeses. Era uma manobra nobre, mas politicamente suicida.

— Ele não sabe onde está se metendo — murmurou Clara para si mesma, os dedos apertando a capa de couro do livro.

Naquela mesma noite, conforme o combinado, ela aguardou que a casa silenciasse. O toque do sino da meia-noite ecoou como uma sentença de morte enquanto ela atravessava o pátio interno, protegida por uma capa escura que ocultava sua silhueta. A capela velha, um prédio de pedra cinzenta e vitrais opacos pelo tempo, ficava isolada em uma ala pouco frequentada dos jardins.

O cheiro de incenso rançoso e mofo a recebeu. O interior estava mergulhado em uma escuridão quase absoluta, quebrada apenas por um filete de luz lunar que atravessava uma fresta no teto.

— Pensei que o medo de Deus a impediria de vir, milady — a voz de Enrique surgiu das sombras, acompanhada pelo som metálico de suas esporas contra o chão de pedra.

Clara não se assustou. Ela se virou lentamente, encontrando o Marquês encostado em uma coluna, os braços cruzados e um sorriso que era puro veneno.

— Deus e eu temos um entendimento, Enrique — respondeu ela, aproximando-se dele. — Ele cuida das almas que já partiram, e eu cuido da minha vida enquanto ainda respiro.

Enrique deu um passo à frente, capturando a mão dela e levando-a aos lábios, mas não com a cortesia de um cavalheiro, e sim com a posse de um conquistador.

— E então? O que o nosso virtuoso Duque planeja para destruir o próprio legado?

— Ele vai apresentar o projeto na próxima reunião do conselho — disse Clara, a voz baixa e urgente. — Mas o mais importante são as cartas. Ele escreveu para o Ministro de Estado, pedindo apoio direto do Rei contra os nobres locais. Se essas cartas chegarem a Madrid, seus aliados serão esmagados antes mesmo de poderem reagir.

Enrique soltou um riso baixo, uma vibração que Clara sentiu no próprio peito.

— Ele é mais tolo do que eu imaginava. Acredita sinceramente que a coroa prefere a justiça social ao ouro dos marqueses. Onde estão as cartas, Clara?

— No cofre de carvalho no quarto dele. Ele as enviará com o mensageiro da manhã, às seis horas. Você tem poucas horas para agir.

Enrique a puxou pela cintura, colando o corpo dela ao seu. O calor dele era um contraste violento com o frio da capela.

— Você me deu a cabeça do seu irmão em uma bandeja de prata — sussurrou ele, os lábios roçando a orelha dela. — Por que, Clara? O que ele fez para merecer tamanha traição da própria carne?

Clara inclinou a cabeça para trás, encarando os olhos escuros de Enrique.

— Diego é um homem bom, Enrique. Mas homens bons são como âncoras; eles nos mantêm parados enquanto a maré sobe para nos afogar. Eu quero navegar. E você é o único que tem a coragem de enfrentar a tempestade.

— Ou de causá-la — corrigiu ele, antes de tomar os lábios dela em um beijo que sabia a urgência e perigo.

As mãos de Enrique tornaram-se impacientes, descendo pelas costas de Clara, explorando a curva de seus quadris com uma fome que parecia aumentar a cada encontro. Ele a empurrou contra a madeira fria e áspera do velho confessionário, o mesmo lugar onde gerações de Castamar haviam buscado perdão. Ali, Clara não buscava absolvição, mas a confirmação de sua própria força.

— Aqui, Enrique — ofegou ela, enquanto ele desfazia os laços de seu corpete com uma destreza pecaminosa.

— Você é um demônio, Clara de Castamar — murmurou ele contra a pele do pescoço dela. — E eu estou condenado por desejar você mais do que o poder que você me oferece.

— Então deixe-se queimar — retrucou ela, puxando-o para si.

O ato foi rápido, intenso e carregado de uma eletricidade que parecia ameaçar incendiar a madeira seca do confessionário. Cada gemido abafado era um segredo compartilhado, cada toque uma promessa de que não haveria volta. Para Enrique, possuir Clara era como possuir a própria essência de Castamar, mas uma versão distorcida, selvagem e infinitamente mais atraente do que a fachada de honra que a família ostentava.

Quando o silêncio retornou à capela, apenas a respiração pesada dos dois preenchia o espaço. Enrique ajudou-a a se recompor, seus dedos demorando-se nos ombros dela.

— O mensageiro não chegará à estrada principal — afirmou ele, a voz agora fria e calculista, o modo vilão reassumindo o controle. — Meus homens interceptarão a bolsa de couro. Diego pensará que foi um assalto comum, mas as cartas chegarão às mãos certas em Madrid, com as anotações certas nas margens.

— Certifique-se de que nada possa ser rastreado até mim — disse Clara, ajustando o cabelo com mãos firmes. — Diego está começando a confiar em mim para organizar seus documentos privados. Se ele suspeitar...

— Ele não suspeitará. Diego vê em você a pureza da mãe de vocês. Ele é cego para a escuridão que brilha nos seus olhos. — Enrique tocou o rosto dela, o polegar traçando o lábio inferior dela. — E quando ele cair, Clara... o que você fará?

— Eu estarei lá para confortá-lo — disse ela com um sorriso gélido. — E para garantir que a transição de poder para as suas mãos seja o mais suave possível. Castamar precisa de um governante que não tenha medo de se sujar. E eu preciso de um homem que saiba valorizar a rainha que o colocou no trono.

Enrique riu, um som genuíno de admiração.

— Você fala como se já tivéssemos vencido.

— Nós já vencemos, Enrique. No momento em que você entrou na biblioteca naquela noite, o destino de Diego foi selado. Ele só ainda não sabe disso.

Eles saíram da capela separadamente. Clara voltou para o palácio, subindo as escadas de serviço e deslizando para o seu quarto sem ser vista. Ela sentou-se diante do espelho, observando as marcas leves no pescoço que precisaria esconder com uma fita de veludo no dia seguinte.

Na manhã seguinte, o caos instalou-se em Castamar. A notícia de que o mensageiro pessoal do Duque havia sido atacado e deixado inconsciente na estrada chegou durante o desjejum. Diego estava pálido, as mãos tremendo levemente enquanto ouvia o relato do capitão da guarda.

— As cartas, Diego? — perguntou Clara, mantendo a voz carregada de uma preocupação fraternal perfeita. — Elas foram levadas?

— Sim — respondeu Diego, deixando-se cair na cadeira. — Tudo. Documentos confidenciais, Clara. Se caírem em mãos erradas...

— Quem faria tal coisa? — perguntou ela, aproximando-se e colocando uma mão reconfortante no ombro do irmão. — Quem teria interesse em seus assuntos privados?

Diego olhou para ela, os olhos cheios de uma angústia profunda.

— Há muitos inimigos nesta corte, irmã. Mas eu temo que isso não tenha sido um simples roubo. Alguém sabia exatamente o que aquele mensageiro carregava.

— Você deve descansar — sugeriu ela docemente. — Deixe que eu ajude a organizar os rascunhos que sobraram. Talvez possamos reconstruir o que foi perdido.

— Você é um anjo, Clara — murmurou Diego, beijando a mão dela. — Não sei o que faria sem sua lealdade.

Clara sentiu uma pontada de algo que poderia ser culpa, mas que foi rapidamente sufocada pela imagem de Enrique e pela promessa de liberdade.

— Eu sempre estarei ao seu lado, Diego. Até o fim.

À tarde, Clara recebeu um bilhete discreto, entregue por um lacaio que ela sabia estar na folha de pagamento do Marquês. Não havia assinatura, apenas uma frase curta: "O falcão está com a presa. O banquete começa ao amanhecer."

Ela queimou o papel na lareira de seu quarto, observando as chamas consumirem a prova de sua traição. O plano estava avançando mais rápido do que ela esperava. Enrique não estava apenas interessado em derrubar Diego; ele estava manobrando para que o próprio Rei retirasse o título de Castamar por "traição e conspiração contra a estabilidade do reino".

No entanto, Clara não era boba. Ela sabia que Enrique de Arcona era um homem que devorava seus aliados assim que eles deixavam de ser úteis. Enquanto observava as cinzas do bilhete, ela traçou seu próprio plano de contingência.

— Você quer o reino, Enrique — sussurrou ela para o quarto vazio. — Mas você se esqueceu de que eu sou a única que conhece as passagens secretas, tanto as de pedra quanto as da alma.

A noite caiu novamente sobre Castamar, mas desta vez o ar parecia mais pesado, carregado com a eletricidade de uma tempestade iminente. Clara sabia que o próximo encontro com Enrique não seria apenas sobre desejo ou troca de informações. Seria sobre o preço final.

Ela vestiu seu melhor vestido de seda verde-escura, a cor da inveja e das florestas profundas. Se Enrique queria uma rainha, ela lhe mostraria que uma rainha também poderia ser uma carrasca se fosse contrariada.

Enquanto caminhava para o ponto de encontro, Clara cruzou com Diego no corredor. Ele parecia ter envelhecido dez anos em um único dia.

— Clara? Onde vai a esta hora? — perguntou ele, estranhando a elegância da irmã para uma hora tão tardia.

— Não consegui dormir, irmão. Vou até a estufa buscar algumas ervas para um chá calmante. Para você e para mim.

Diego sorriu fracamente, tocando o rosto dela.

— Você cuida tanto de mim. Às vezes sinto que não mereço tamanha dedicação.

— Não diga isso, Diego. Você merece exatamente o que o destino lhe reservou.

Ela o deixou parado no corredor, uma sombra de um homem que já foi poderoso. Ao chegar à estufa, que ficava no caminho para a capela, ela encontrou Enrique esperando entre as plantas exóticas. O luar refletia-se nas vidraças, criando um ambiente surreal.

— As cartas já estão a caminho de Madrid — disse Enrique, sem preâmbulos. — Em dois dias, Diego receberá uma convocação que não poderá recusar. E ele não voltará como Duque.

— Excelente — respondeu Clara, aproximando-se dele. — E quanto ao meu lugar nisso tudo? Você prometeu que eu não seria atingida pela queda dele.

Enrique a envolveu em seus braços, seu olhar fixo no dela.

— Você será a viúva de um ducado caído, protegida pelo novo senhor de Castamar. Eu providenciarei para que suas terras pessoais sejam preservadas. Você terá sua fortuna e sua liberdade, Clara. E terá a mim.

— Ter você... — Clara passou a mão pelo peito dele, sentindo a adaga oculta sob o casaco dele. — É uma promessa tentadora, Marquês. Mas o que impede você de me trair assim que Diego for removido? Afinal, se eu traí meu próprio sangue, o que eu faria com um amante?

Enrique riu, apertando-a com mais força.

— É exatamente isso que me encanta em você. A consciência de que somos ambos monstros. Não há confiança entre nós, Clara. Há necessidade. Eu preciso da sua mente, e você precisa da minha força. É o pacto mais honesto que existe.

— Um pacto de sangue — murmurou ela.

— Sim. — Enrique inclinou-se, beijando-a com uma intensidade que beirava a dor. — De sangue e de sombras.

Naquela noite, sob o teto de vidro da estufa, cercados pelo cheiro de terra úmida e flores noturnas, eles selaram novamente sua aliança profana. Clara entregava-se ao prazer, mas sua mente permanecia alerta, calculando cada movimento, cada palavra. Ela sabia que a traição contra o irmão era apenas o primeiro passo. O verdadeiro jogo começaria quando Enrique pensasse que era o mestre do tabuleiro.

Enquanto Castamar dormia, o destino de uma linhagem era desfeito por mãos que deveriam protegê-la. E no centro de tudo, Clara de Castamar sorria na escuridão, sabendo que, no fim, não seria o amor ou a honra que venceria, mas a fria e calculista ambição de quem aprendeu a amar o veneno.