Castamar
O Labirinto de Lealdades e Desejos
O sol da manhã seguinte entrou pelas janelas de Castamar com uma insolência que Clara não estava pronta para enfrentar. Ela se sentou na cama, sentindo o leve desconforto entre as coxas, um lembrete físico e irrevogável de que a mulher que acordara naquele dia não era a mesma que se deitara na noite anterior. Ela já não era apenas a irmã do Duque; era uma mulher com um segredo que poderia incendiar toda a linhagem dos Castamar.
Enquanto sua criada, Rosalía, preparava o banho, Clara observava o jardim de inverno pela janela. De longe, parecia apenas um arranjo de vidro e plantas, mas para ela, agora era o cenário de sua própria libertação e, possivelmente, de sua ruína.
— A senhorita parece pálida — comentou Rosalía, testando a temperatura da água. — O baile foi exaustivo demais?
— Foi uma noite longa, Rosalía — respondeu Clara, levantando-se com uma graça que mascarava sua agitação interna. — Mas não foi o cansaço que me tirou o sono. Foi a percepção de que o mundo é muito maior do que estas paredes sugerem.
Enquanto isso, no coração de Madri, Enrique de Arcona não compartilhava da mesma serenidade contemplativa. Ele estava em seu gabinete, a luz das velas lutando contra a penumbra matinal. À sua frente, sobre a mesa de carvalho escuro, repousava o envelope lacrado com o selo de cera vermelha. Ali estavam as provas forjadas — e algumas perigosamente reais — de que Diego de Castamar conspirava contra a coroa em favor de interesses franceses.
Bastava um gesto. Um lacaio, uma cavalgada curta até o palácio real, e o Duque estaria nos calabouços antes do pôr do sol. Enrique ganharia o favor da Rainha, as terras confiscadas poderiam ser negociadas e sua vingança contra a família que sempre o olhara de cima estaria completa.
No entanto, o cheiro de jasmim e pele quente parecia impregnado em seus dedos.
— Senhor Marquês? — A voz de seu secretário, um homem magro e de olhos furtivos chamado Gabriel, quebrou o silêncio. — O mensageiro está aguardando. Ele deve levar os documentos para o Padre Juan agora, se quisermos que a denúncia chegue ao conselho ao meio-dia.
Enrique olhou para o envelope. Sua mente, sempre tão calculista, estava em guerra. Ele odiava Diego. Odiava a maneira como o Duque caminhava, como se a honra fosse um acessório nato de sua alma. Mas Clara... Clara tinha se entregado a ele com uma honestidade que o desarmara. Ela não era um joguete. Ela sabia quem ele era, ou pelo menos, via através da máscara de vilão que ele cultivava com tanto esmero.
— Mande o mensageiro embora — disse Enrique, sua voz soando mais rouca do que o normal.
Gabriel piscou, confuso.
— Senhor? Mas o plano... levamos meses para infiltrar os criados e obter as assinaturas.
— Eu disse para mandá-lo embora! — Enrique rugiu, batendo a mão na mesa. — O momento não é o adequado. Há variáveis que eu não previ. Preciso retornar a Castamar hoje.
— Mas o Duque o espera para a caçada de amanhã, não para hoje — insistiu o secretário.
— Então ele terá uma surpresa agradável — murmurou Enrique, pegando o envelope e guardando-o na gaveta trancada de sua escrivaninha. — Prepare minha carruagem. E Gabriel... se uma palavra sobre esses documentos vazar antes da minha ordem, eu mesmo garantirei que sua língua nunca mais articule um som.
O trajeto de volta a Castamar foi uma tortura de pensamentos conflitantes. Enrique sentia-se como um traidor de si mesmo. Ele sempre fora o predador, nunca a presa de sentimentos tão triviais quanto a afeição ou a luxúria persistente. No entanto, o desejo de ver Clara novamente, de confrontar o brilho desafiador em seus olhos, era mais forte do que sua sede de poder.
Ao chegar à propriedade, ele foi recebido por Diego no pátio principal. O Duque, sempre impecável, abriu um sorriso genuíno ao ver o "amigo".
— Enrique! Que surpresa excelente. Achei que só chegaria para o jantar.
— Não consegui resistir ao ar do campo, Diego — mentiu Enrique, descendo da carruagem e apertando a mão do homem que pretendia destruir. — E achei que poderíamos discutir alguns detalhes sobre as novas rotas de comércio antes da caçada.
— Perfeito. Clara está no solário. Ela comentou que a conversa de vocês ontem foi... iluminadora.
Enrique sentiu um aperto no estômago.
— Foi, de fato. Ela é uma jovem de intelecto raro.
— Às vezes me preocupo com ela — disse Diego, enquanto caminhavam para dentro. — Ela é audaciosa demais para o seu próprio bem. Precisa de um marido que a entenda, mas que também a proteja.
— Talvez ela não precise de proteção, Diego. Talvez precise apenas de espaço para ser quem é.
Enrique deixou o Duque e seguiu em direção ao solário. Ele sabia que estava sendo imprudente. Agir de forma tão óbvia atrairia suspeitas. Mas ele precisava vê-la.
Clara estava sentada perto da janela, um livro de poesias aberto no colo, mas seus olhos estavam perdidos na paisagem. Quando ela ouviu os passos dele, não se virou imediatamente. Ela sabia quem era. O ritmo daquelas botas estava gravado em sua memória.
— O Marquês de Soto não consegue ficar longe de suas vítimas por muito tempo, ao que parece — disse ela, com um tom de voz que misturava diversão e desafio.
— Eu não chamaria você de vítima, Dona Clara — Enrique aproximou-se, fechando a porta atrás de si. — Uma vítima não teria as unhas tão afiadas.
Clara levantou-se e caminhou até ele. O sol banhava seu rosto, revelando a determinação em suas feições.
— Por que voltou? Meu irmão disse que você só viria mais tarde.
— Eu não conseguia parar de pensar no que você disse — Enrique deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles até que pudessem sentir o calor um do outro. — Sobre eu ser um homem de muitas faces. E sobre você ser a única a ver a verdadeira.
— E eu estava certa? — perguntou ela, estendendo a mão para tocar a gola do casaco dele.
Enrique segurou o pulso dela, mas não com força. Ele levou a mão de Clara aos lábios, beijando a palma com uma intensidade que a fez estremecer.
— Você é um perigo para os meus planos, Clara. Você me faz querer ser o homem que seu irmão acredita que eu sou. E isso é uma fraqueza que eu não posso permitir.
— Então por que está aqui? — ela sussurrou, aproximando o rosto do dele. — Se sou uma fraqueza, deveria ter ficado em Madri e terminado o que quer que estivesse tramando.
Enrique sentiu um frio na espinha. Ela era inteligente demais.
— Você sabe — disse ele, não como uma pergunta, mas como uma constatação.
— Eu sei que você odeia o poder que meu irmão detém. Sei que você frequenta círculos que Diego despreza. Mas eu também sei como você me tocou ontem à noite. Um homem que só busca poder não toca uma mulher com aquela... reverência desesperada.
— Reverência? — Enrique soltou uma risada amarga. — Eu a levei contra uma parede em um jardim, Clara. Não houve nada de reverente nisso.
— Houve tudo — insistiu ela. — Você parou. Você me avisou. Você me deu a escolha. Meu irmão me trata como uma propriedade valiosa. Você me tratou como uma igual.
Enrique a puxou para um abraço repentino, escondendo o rosto no pescoço dela. O conflito interno o estava rasgando. Ele queria possuí-la novamente, queria fugir com ela, e ao mesmo tempo, queria esmagar os Castamar para provar que ninguém era superior a ele.
— Eu vou trair seu irmão, Clara — ele confessou, a voz mal audível. — Há documentos. Há planos em movimento que não podem ser parados facilmente.
Clara se afastou o suficiente para olhar nos olhos dele. Ela não parecia chocada, apenas triste.
— Eu sei. Eu sempre soube que você era o vilão da história de Diego. Mas eu não sou a história dele. Eu sou a minha própria.
— Se eu prosseguir, você me odiará.
— Se você prosseguir, você perderá a única pessoa que realmente conhece o seu coração — disse ela, com uma calma gélida. — Diego sobreviveria à ruína. Ele é um homem de resiliência. Mas você... você não sobreviveria à solidão de ter vencido e descoberto que não sobrou ninguém para admirar sua vitória.
Enrique sentiu as palavras dela como golpes. O desejo por ela ardeu novamente, uma mistura de paixão e necessidade de silenciar aquela lógica implacável. Ele a beijou com fúria, e Clara retribuiu, empurrando-o em direção a um divã escondido nas sombras do solário.
Ali, à luz do dia, o risco era imenso. Qualquer criado poderia entrar, o próprio Diego poderia procurá-los. Mas o perigo apenas aumentava a urgência. Enrique despiu-a com mãos trêmulas, admirando a pele alva que agora ele conhecia tão bem. Quando ele entrou nela desta vez, não houve dor, apenas uma conexão avassaladora que parecia transcender a traição e a política.
— Fique comigo — ele ofegou, enquanto se moviam em uníssono. — Escondidos, se for preciso. Mas não me deixe voltar para aquela escuridão sozinho.
Clara envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para um beijo profundo.
— Eu estou aqui, Enrique. Mas não serei seu prêmio de consolação por uma traição. Escolha. Castamar ou eu. Você não pode ter os dois.
O clímax veio como uma explosão de sentidos, deixando-os ofegantes e suados. Enrique permaneceu deitado sobre ela por um longo tempo, ouvindo as batidas do coração de Clara. Ele nunca se sentira tão vivo e, ao mesmo tempo, tão vulnerável.
Horas depois, Enrique estava de volta ao seu quarto de hóspedes, vestindo-se para o jantar. Ele olhou para o espelho e viu um homem que não reconhecia. Onde estava o Marquês implacável? Onde estava o mestre da intriga?
Ele pegou uma pequena adaga decorativa sobre a mesa e observou o próprio reflexo.
— Ela vai me destruir — murmurou para si mesmo. — E o pior é que eu vou deixar.
O jantar foi uma provação. Diego falava sobre a caçada, sobre o futuro da Espanha e sobre como estava feliz por ter Enrique como aliado. Clara permanecia em silêncio, trocando olhares furtivos com Enrique que faziam o sangue dele ferver. Cada sorriso de Diego era uma facada na consciência de Enrique, não por lealdade ao Duque, mas pelo peso da escolha que Clara lhe impusera.
Após o jantar, enquanto os homens tomavam conhaque na biblioteca, Enrique tomou uma decisão. Ele se desculpou, alegando uma leve indisposição, e retirou-se. Mas ele não foi para o seu quarto. Ele foi para o estábulo.
Ele escreveu um bilhete rápido e entregou a um de seus homens de confiança.
— Leve isso para Madri. Diga a Gabriel para queimar o envelope na gaveta trancada. Tudo o que houver lá. Agora.
O homem assentiu e partiu na calada da noite. Enrique sentiu um alívio momentâneo, mas sabia que o perigo não terminara. Ele havia destruído as provas, mas os seus aliados na corte ainda esperavam por sangue. Ele teria que jogar um jogo muito mais perigoso agora: o de proteger o homem que odiava para manter a mulher que amava.
Ao voltar para o palácio, ele encontrou Clara no corredor escuro que levava aos quartos. Ela parecia uma aparição, envolta em um robe de seda escura.
— Você fez? — perguntou ela.
— Mandei destruir tudo — respondeu Enrique, aproximando-se. — Você venceu, Clara. Eu sou um traidor do meu próprio plano.
Clara sorriu, um sorriso que iluminou a penumbra do corredor. Ela se aproximou e sussurrou em seu ouvido.
— Você não traiu a si mesmo, Enrique. Você se encontrou.
Ele a puxou para um beijo rápido e possessivo.
— Não pense que isso me torna um santo, Clara. Eu ainda sou o homem que você conheceu no jardim. E eu ainda pretendo ter você todas as noites, mesmo que tenhamos que mentir para o mundo inteiro.
— As mentiras são um preço pequeno para o que temos — respondeu ela, recuando para o seu quarto. — Mas tenha cuidado, Marquês. Meu irmão pode ser cego para a sua vilania, mas ele tem olhos de lince para a honra da irmã.
Enrique observou-a fechar a porta. Ele sabia que o caminho à frente estava cheio de espinhos. Ele teria que enganar a Rainha, manobrar seus inimigos e manter a fachada de amigo de Diego, tudo isso enquanto vivia um romance proibido e ardente com a irmã do Duque.
Ele caminhou em direção ao seu próprio quarto, um sorriso de canto surgindo em seus lábios. Pela primeira vez em anos, ele não estava entediado. O vilão de Castamar tinha um novo propósito, e ele era muito mais excitante do que qualquer coroa ou título. Ele tinha o fogo de Clara, e por esse fogo, ele estava disposto a queimar o mundo inteiro, começando pelas suas próprias ambições.
A noite em Castamar estava silenciosa, mas sob a superfície, a traição e o desejo continuavam a sua dança perigosa. E Enrique de Arcona, o homem de muitas faces, finalmente tinha encontrado uma que valia a pena manter — mesmo que apenas nas sombras, nos braços da única mulher que ousara desafiá-lo.