Castamar
O Labirinto de Vidro e Fogo
A manhã em Castamar trazia uma luz pálida, quase fria, que se infiltrava pelas frestas das cortinas de veludo. Clara acordou com uma sensação de peso nos membros, uma lembrança física da tarde anterior que a fazia oscilar entre o espanto e uma súbita lucidez. Ela não era mais a mesma mulher que entrara na biblioteca buscando o conforto dos livros. O corpo, antes um território inexplorado, agora guardava o eco do toque de Enrique.
No entanto, ao contrário do que ele pudesse imaginar, Clara não estava perdida em devaneios românticos sem fim. A educação que Diego lhe proporcionara, embora a tivesse mantido protegida, também a dotara de uma mente analítica. Enquanto se vestia sem a ajuda de sua criada, observando as marcas leves em sua pele, uma centelha de pragmatismo começou a arder em seu peito. Enrique fora ardente, sim, mas havia uma pressa em sua partida, uma sombra em seu olhar que não condizia com a entrega total de um homem apaixonado.
Ela desceu para o desjejum, encontrando o irmão à mesa. Diego parecia cansado, cercado por mapas e correspondências oficiais.
— Bom dia, Clara — disse ele, levantando os olhos e forçando um sorriso. — Você parece... radiante hoje. Dormiu bem?
Clara sentiu um aperto no coração. A mentira era uma veste desconfortável, especialmente diante daquele que ela mais amava.
— Dormi bem, Diego. O ar de Castamar parece mais leve ultimamente — respondeu ela, sentando-se e servindo-se de um pouco de chá. — Mas você parece preocupado. Algum problema com as terras?
Diego suspirou, deixando de lado uma carta com o selo real.
— Assuntos de Estado e pequenas traições burocráticas, minha irmã. O carregamento de suprimentos para o norte está atrasado, e há rumores de que alguém está vazando nossas rotas para os saqueadores. Mas não se preocupe com isso. Enrique de Arcona prometeu me ajudar a investigar. Ele tem contatos que eu não possuo.
Clara segurou a xícara com firmeza para que suas mãos não tremessem. O nome dele, pronunciado com tanta confiança pelo irmão, soou como um alerta de perigo.
— Dom Enrique parece ser um homem de muitos talentos — comentou ela, com um tom de voz cuidadosamente neutro. — Mas ele é realmente tão leal quanto parece? Às vezes, as pessoas que mais conhecem nossos segredos são as que têm mais poder para nos ferir.
Diego riu, um som seco e breve.
— Você sempre foi mais perspicaz que os diplomatas do palácio, Clara. Mas Enrique é meu amigo. Ele não teria nada a ganhar com a minha queda.
Clara não respondeu. Ela amava o irmão, mas sabia que a nobreza de caráter de Diego às vezes o cegava para a malícia alheia. Ela, por outro lado, agora carregava o segredo de Enrique em seu próprio corpo. Se ele era capaz de seduzir a irmã de seu melhor amigo em uma tarde, o que mais ele seria capaz de esconder?
Mais tarde, Clara caminhava pelo jardim de ervas, um lugar onde costumava buscar refúgio. O cheiro de alecrim e lavanda a acalmava, mas seus pensamentos estavam longe. Ela não era uma tola apaixonada que esperaria por cartas de amor. Se Enrique queria jogar com sombras, ela aprenderia a enxergar no escuro.
— A senhorita parece estar cultivando mais do que apenas plantas — a voz de Enrique surgiu atrás dela, carregada daquela ironia suave que agora a deixava em alerta.
Clara não se virou imediatamente. Ela respirou fundo, ajustando sua máscara de serenidade.
— Dom Enrique. Achei que estivesse ocupado com os "assuntos na cidade" — disse ela, finalmente voltando-se para ele.
Ele estava impecável, vestindo um traje de montaria escuro que realçava sua postura altiva. Ele se aproximou, tentando buscar nos olhos dela a mesma submissão e o mesmo brilho de adoração que vira na biblioteca.
— Os assuntos foram resolvidos. Mas meu pensamento não saiu de Castamar. Ou melhor, de uma certa moradora deste castelo.
Ele tentou pegar a mão dela, mas Clara, com um movimento elegante, usou a mão para ajeitar uma mecha de cabelo, evitando o toque sem parecer rude.
— É lisonjeiro — disse ela, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Mas meu irmão mencionou que o senhor o ajudará com os problemas das rotas de suprimentos. É uma tarefa nobre. Exige muita confiança.
Enrique arqueou uma sobrancelha. Ele sentiu uma mudança na temperatura. Onde estava a jovem trêmula e fascinada?
— Diego e eu somos como irmãos, Clara. Proteger os interesses dele é proteger os meus.
— Que bom saber — respondeu ela, caminhando lentamente entre os canteiros. — Porque eu estava pensando... se alguém quisesse prejudicar Diego, o melhor caminho seria fingir-se de aliado. Ganhar acesso à sua casa, à sua família... à sua irmã.
Enrique parou, o olhar endurecendo por um breve segundo antes de retomar a fachada de charme.
— Está sugerindo que minhas intenções não são puras? Ontem, na biblioteca, não me pareceu que a senhorita duvidasse de mim.
O golpe foi direto, uma tentativa de lembrá-la de sua vulnerabilidade. Mas Clara não recuou.
— Ontem foi uma lição, Dom Enrique — disse ela, parando diante dele. — Uma lição sobre o prazer e sobre como os sentidos podem nos enganar. Eu sou virgem em experiência, não em intelecto. O que aconteceu entre nós foi... interessante. Mas não pense que isso me torna uma peça no seu tabuleiro.
Enrique sentiu um misto de irritação e uma admiração involuntária. Ele esperava lágrimas, promessas de amor eterno ou pedidos de casamento secretos. Não esperava um desafio intelectual.
— Você é mais perigosa do que eu imaginei, Clara de Castamar.
— Eu sou uma Castamar — corrigiu ela. — E nós protegemos o que é nosso. Meu irmão confia no senhor. Eu, por outro lado, decidi que vou observar.
— Observar o quê? — perguntou ele, aproximando-se, sua voz baixando para um tom perigosamente íntimo. — O quanto eu posso te fazer sentir? Ou o quanto você deseja que eu volte a te tocar?
Clara sentiu o impacto da proximidade dele. O cheiro de couro e tabaco, o calor que emanava de seu corpo... tudo nela clamava pela repetição do que viveram. Mas a mente de Clara era agora uma sentinela.
— Vou observar se o seu serviço a Diego é tão impecável quanto o seu beijo — respondeu ela, mantendo a voz firme. — Se o senhor for o amigo que diz ser, terá em mim uma aliada. Se não for... bem, os segredos que compartilhamos podem queimar as mãos de quem tenta usá-los.
Enrique soltou uma gargalhada curta, genuína.
— Você está me ameaçando? Logo após ter se entregado a mim?
— Não é uma ameaça, Dom Enrique. É um esclarecimento de termos. Eu gostei do que aconteceu. Não nego. Mas meu coração não é um prêmio que se ganha em uma tarde de luxúria. Ele pertence a esta casa.
Enrique a olhou com uma intensidade nova. Ele viera para Castamar para destruir Diego, e Clara era inicialmente apenas um meio para um fim. Mas agora, ao vê-la ali, com o queixo erguido e os olhos desafiadores, ele sentiu algo que não planejava: um desejo que ia além da carne. Era o desejo de dominar aquela vontade férrea.
— Muito bem — disse ele, fazendo uma reverência exagerada. — Veremos quem é o melhor observador. Mas não se engane, Clara. O que começou na biblioteca não terminará com palavras duras num jardim.
— Veremos — repetiu ela.
Enrique se afastou, mas antes de sair do jardim, parou e olhou para trás.
— Só mais uma coisa. Diego me pediu para acompanhá-la em sua cavalgada amanhã. Ele estará ocupado com os conselheiros. Espero que sua "observação" inclua uma boa montaria.
Clara esperou que ele desaparecesse de vista antes de soltar o ar que nem sabia que estava prendendo. Suas pernas fraquejaram levemente. Ela estava jogando um jogo perigoso. Enrique era um mestre na dissimulação, e ela acabara de admitir que sabia que havia algo errado.
Ao entrar no castelo, ela cruzou com Dona Mercedes, a governanta, que a observou com olhos astutos.
— A senhorita parece ter visto um fantasma — comentou a mulher.
— Não um fantasma, Mercedes. Apenas um homem que pensa que as sombras são seu único domínio — respondeu Clara, subindo as escadas.
Enquanto isso, em uma taverna afastada da estrada principal de Castamar, Enrique encontrava-se com um homem encapuzado.
— O carregamento passará pelo desfiladeiro ao amanhecer de depois de amanhã — disse Enrique, sua voz agora desprovida de qualquer charme. — Certifique-se de que nada chegue ao destino. Diego ficará desacreditado perante a Coroa.
— E a irmã dele? — perguntou o homem com um sorriso lascivo. — Dizem que é uma joia escondida.
O olhar de Enrique tornou-se gélido, uma fúria súbita atravessando seus traços.
— A irmã dele não é assunto seu. Se tocar em um fio de cabelo de Clara, eu mesmo garantirei que você não tenha mãos para contar o dinheiro que vou te pagar.
O homem recuou, surpreso com a violência no tom de Enrique.
— Como queira, Dom Enrique. Apenas os suprimentos.
Enrique saiu da taverna e montou em seu cavalo. Ele pensou em Clara. Ela não era a ingênua que ele imaginara. Ela era inteligente, observadora e, de alguma forma, o vira através da máscara. Isso o irritava e, ao mesmo tempo, o incendiava. Ele precisava derrubar Diego. Era a sua missão. Mas a imagem de Clara na biblioteca começava a criar uma rachadura em sua determinação.
Na manhã seguinte, a cavalgada levou-os para longe dos olhos de Castamar. O pavilhão de caça, uma estrutura de pedra e madeira escondida entre carvalhos centenários, serviu de refúgio quando uma chuva súbita e torrencial começou a cair.
— Parece que o destino quer nos manter isolados — disse Enrique, ajudando Clara a descer do cavalo.
As roupas dela estavam úmidas, coladas ao corpo, revelando as curvas que ele tanto cobiçava. Clara entrou no pavilhão, tremendo levemente de frio, mas também da tensão elétrica que parecia carregar o ar entre eles.
— O destino ou a sua conveniência, Dom Enrique? — perguntou ela, retirando as luvas de couro.
Enrique fechou a porta pesada, deixando o som da chuva como um pano de fundo abafado. Ele se aproximou dela, o fogo da lareira apagada não era nada comparado ao calor que emanava de seu olhar.
— Por que continua a me chamar de Dom Enrique? — perguntou ele, a voz rouca. — Ontem, você gritou meu nome de uma forma que nenhum título poderia descrever.
Clara sentiu o rosto queimar.
— Ontem eu não sabia quem você era. Hoje, eu suspeito. E minhas suspeitas me dizem que eu deveria estar longe de você.
— Então por que não foge? — Ele estava a centímetros dela. — Por que não corre para Diego e conta que seu "amigo" a desonrou?
— Porque eu não sou uma vítima — disse ela, os olhos brilhando com uma coragem feroz. — E porque, por mais que eu o odeie por sua falsidade, meu corpo... meu corpo ainda não aprendeu a mentir como você.
Enrique não aguentou mais. Ele a puxou pela cintura, prensando-a contra a parede de madeira. O beijo não foi gentil; foi uma batalha de vontades. Clara respondeu com a mesma intensidade, suas mãos agarrando os ombros dele, puxando-o para mais perto.
— Você quer a verdade, Clara? — murmurou ele contra os lábios dela, enquanto suas mãos desciam para desamarrar o corpete do traje de montaria. — A verdade é que eu deveria te odiar. Você é o sangue dele. Mas quando estou com você, Castamar deixa de existir. Só existe este momento.
Ele a levantou, e Clara entrelaçou as pernas em sua cintura, sentindo a urgência dele contra ela. Eles se moveram para um tapete de peles diante da lareira fria. Ali, sob a luz cinzenta que vinha das frestas, Enrique a possuiu novamente, mas desta vez não havia a surpresa da primeira vez. Havia uma fome consciente.
Clara explorou o corpo dele com uma audácia que o surpreendeu. Ela não era mais a aluna passiva; ela buscava o prazer com uma determinação que o deixava sem fôlego. Cada gemido dela era como um prego no caixão de sua vingança, mas ele não conseguia parar. A pele dela tinha cheiro de chuva e desafio.
— Enrique... — sussurrou ela, as unhas cravadas nas costas dele enquanto o clímax os atingia como uma onda avassaladora.
Eles ficaram deitados por um longo tempo, os corações batendo em uníssono. Enrique olhou para o teto, sentindo o peso da traição que planejava para o dia seguinte. Ele a amava? Ou era apenas o desejo de possuir o que Diego mais valorizava?
— Você voltará para casa e esquecerá o que eu disse no jardim? — perguntou ele, a voz baixa.
Clara sentou-se, cobrindo-se com o casaco dele que estava jogado ao lado. Ela o olhou com uma tristeza profunda.
— Eu nunca esqueço, Enrique. E agora que conheço o seu toque tão bem quanto conheço a minha própria alma, eu saberei quando você estiver mentindo. Se você ferir meu irmão, você me perderá. E suspeito que, agora, isso seja um preço que você não quer pagar.
Enrique não respondeu. Ele se levantou e começou a se vestir, a máscara de conspirador voltando ao lugar. Ele não podia desistir agora. O marquês de Soto esperava por ele. O plano estava em marcha.
— A chuva parou — disse ele, sem olhar para ela. — Precisamos voltar antes que Diego envie uma patrulha.
Clara levantou-se, sua dignidade intacta apesar da nudez parcial. Ela sabia que a batalha por Castamar e pelo coração daquele homem estava apenas começando. Ela entregara seu corpo, mas guardara sua vigilância.
Enquanto cavalgavam de volta, Enrique mantinha o olhar fixo na estrada, evitando os olhos de Clara. Ele era um mestre em esconder segredos, mas pela primeira vez em sua vida, o segredo que ele carregava — o de que talvez estivesse se apaixonando pela irmã de seu inimigo — era o que mais o aterrorizava.
A tragédia de Castamar estava desenhada nas estrelas, mas Clara, em sua recém-descoberta força, estava pronta para lutar contra o destino, mesmo que tivesse que queimar o mundo de Enrique para salvar o seu.