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Childhood rivalry

O Preço do Café e o Gosto do Ciúme

O motor do carro ainda emitia o calor da viagem matinal quando Engfa estacionou em frente ao bloco de Artes. A rotina era quase sagrada: Charlotte descia, fazia alguma exigência absurda sobre o horário da volta, e Engfa revirava os olhos enquanto secretamente memorizava cada detalhe do rosto da mais nova sob a luz da manhã.

— Não esqueça, P'Fa — Charlotte disse, ajeitando a alça da mochila que Engfa fora obrigada a carregar até a porta do carro. — Dez minutos mais cedo hoje. Tenho que passar na biblioteca antes que aquele bibliotecário ranzinza feche as portas.

— Eu não sou seu motorista particular, Austin — Engfa rebateu, embora já estivesse programando o alarme do celular mentalmente. — E se eu me atrasar, você que lute com o transporte público.

Charlotte apenas lançou um beijo no ar, um gesto que sempre desarmava as defesas de Engfa, e saiu saltitando em direção às escadarias de mármore. Engfa suspirou, ajustou os óculos no nariz e manobrou em direção ao bloco de Administração, sentindo que, apesar da provocação, o dia tinha começado bem.

No entanto, o destino — ou a distração crônica de Charlotte — tinha outros planos.

Quarenta minutos depois, Engfa estava no saguão principal do bloco de Administração. Ela não estava sozinha. Heidi, uma colega de classe alta, elegante e visivelmente interessada, havia a encurralado perto dos murais de aviso. Heidi falava sobre um projeto de consultoria, mas seu corpo estava inclinado de forma sugestiva, e uma de suas mãos brincava com o colarinho da camisa de Engfa, fingindo ajustar um fio solto.

Engfa, embora soubesse exatamente o que estava acontecendo, não se afastou. O orgulho de ser desejada era um combustível para seu ego, e Heidi era inteligente o suficiente para manter uma conversa interessante.

— Então, Waraha, o que me diz? Podemos revisar os gráficos na minha casa hoje à noite. Eu abro um vinho, pedimos algo... — Heidi dizia, a voz baixinha e carregada de segundas intenções.

Engfa deu um sorriso de canto, aquele que ela sabia que derretia corações.

— Vinho e planilhas? Parece perigoso, Heidi. Eu...

A frase de Engfa foi cortada não por palavras, mas por um furacão de cabelos castanhos e perfume cítrico.

Charlotte apareceu do nada, atravessando o saguão com passos firmes que ecoavam no piso de granito. Ela não parou a uma distância educada. Ela simplesmente marchou até Engfa e, com uma naturalidade possessiva que fez o queixo de Heidi cair, enlaçou o braço direito de Engfa, colando seus corpos.

— P'Fa! — Charlotte exclamou, a voz subindo dois oitavos para um tom de manha que Engfa conhecia muito bem. Era a "Charlotte Pirralha" em ação. — Eu procurei você por todo lugar! Você sumiu com a minha vida!

Engfa piscou, surpresa pela súbita aparição, mas sentindo o calor familiar de Charlotte contra seu braço.

— O que você está fazendo aqui, Charlotte? Suas aulas já começaram.

— Eu esqueci minha carteira no seu carro, sua boba! — Charlotte ignorou completamente a presença de Heidi, agindo como se a outra mulher fosse apenas parte da decoração. Ela se inclinou mais, apoiando o queixo no ombro de Engfa e olhando para ela com olhos grandes e pidões. — Como eu vou comer? Como eu vou viver? Você quer que sua pobre Nong morra de fome no meio do campus?

Heidi pigarreou, claramente desconfortável com a interrupção.

— Engfa, estávamos conversando sobre...

— Ela está ocupada agora — Charlotte cortou, lançando um olhar afiado para Heidi, um olhar que não tinha nada de "nong" e tudo de "predadora". — P'Fa tem que resolver uma emergência familiar. Não é, P'?

Engfa sentiu uma vontade imensa de rir. O ciúme de Charlotte era tão óbvio que chegava a ser palpável. Ela decidiu entrar no jogo, apenas para ver até onde a garota iria.

— É uma emergência grave, Heidi — Engfa disse, fingindo seriedade, embora seus olhos brilhassem atrás das lentes. — A pirralha aqui não consegue dar um passo sem a minha ajuda. Me dá cinco minutos, vou buscar a carteira no carro.

— Eu vou com você! — Charlotte declarou, apertando ainda mais o braço de Engfa. — Não posso ficar aqui sozinha, as pessoas neste bloco são estranhas.

Ela lançou um último olhar triunfante para Heidi antes de arrastar Engfa em direção à saída. Assim que cruzaram as portas de vidro, Engfa se soltou, cruzando os braços.

— Que show foi aquele, Austin? Você quase marcou território com urina no saguão.

— Não seja nojenta, Waraha — Charlotte bufou, embora suas bochechas estivessem levemente coradas. — Eu só vim buscar o que é meu. A carteira. E você estava lá, toda sorridente para aquela mulher que parecia uma girafa de salto alto.

— O nome dela é Heidi. E ela é muito gentil.

— Ela estava tocando na sua camisa! — Charlotte rebateu, apontando para o colarinho de Engfa. — Ninguém toca na sua roupa a menos que eu deixe.

— Ah, é mesmo? E desde quando você manda no meu guarda-roupa ou em quem encosta em mim? — Engfa provocou, aproximando-se enquanto pegava as chaves do carro no bolso.

— Desde sempre. Agora abre o carro.

Engfa abriu a porta do passageiro e pegou a pequena carteira de couro que estava caída no tapete. Mas, antes de entregar, ela abriu o compartimento de notas. Estava vazio, exceto por alguns recibos antigos.

— Charlotte, você não tem um centavo aqui. Como pretendia almoçar? — Engfa perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— Eu ia pedir para alguém... — Charlotte começou, mas parou ao ver a expressão de Engfa.

Engfa suspirou, tirando sua própria carteira do bolso de trás da calça jeans. Ela tirou várias notas de mil bahts e as colocou dentro da carteira de Charlotte, fechando-a com um estalo.

— Toma. Para você não dizer que eu deixo você passar fome. Você está pateticamente pobre hoje, Austin. Onde gastou sua mesada? Com gloss e cadernos caros?

Charlotte pegou a carteira, sentindo o peso extra, e um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Ela adorava quando Engfa agia assim — protetora, generosa, agindo como se Charlotte fosse sua responsabilidade pessoal.

— Eu comprei um presente para uma pessoa, se você quer saber — Charlotte murmurou, guardando a carteira na bolsa. — Mas já que você está tão solícita e rica hoje... me paga um café? Agora.

— Eu tenho aula em quinze minutos, Charlotte.

— O café do bloco de Artes é melhor. E você me deve por ter me deixado esperando no sol — mentiu ela, já começando a caminhar.

Engfa olhou para o relógio, olhou para as costas de Charlotte e, como sempre, cedeu.

— Você é um pesadelo, sabia?

— O seu pesadelo favorito — Charlotte respondeu sem olhar para trás.

Minutos depois, elas estavam sentadas em uma mesa pequena no canto da cafeteria do curso de Artes. O ambiente era decorado com quadros abstratos e o cheiro de grãos torrados era reconfortante. Engfa observava Charlotte bebericar seu latte gelado, as sardas da garota parecendo mais evidentes sob a luz clara que entrava pela janela.

— Então... — Charlotte começou, tentando parecer casual enquanto mexia o canudo. — Quem era a "amiga" girafa?

Engfa deu um gole em seu café preto, sentindo o amargor na língua. Ela sabia que essa pergunta viria.

— O nome dela é Heidi, já falei. Ela é da minha sala. Estamos pensando em fazer um projeto juntas.

— "Projeto". Sei — Charlotte desdenhou. — Ela estava quase entrando dentro da sua camisa, Engfa. Você não tem nenhum filtro? Qualquer uma que sorri você já fica toda derretida?

— Eu não fiquei derretida — Engfa rebateu, inclinando-se para frente, os olhos fixos nos de Charlotte. — E mesmo se ficasse, por que isso te incomoda tanto? Não é da sua conta com quem eu falo ou deixo de falar.

— É da minha conta sim! Nós... nós somos... — Charlotte hesitou, procurando a palavra certa.

— Nós somos o quê, Charlotte? — Engfa pressionou, a voz baixando para um tom perigoso. — Vizinhas? Conhecidas? Inimigas que se aturam?

Charlotte sentiu o coração acelerar. Ela odiava quando Engfa usava aquele tom de lógica fria.

— Nós temos um acordo. Você é minha P'. E eu não quero você andando por aí com pessoas de baixo nível que não sabem respeitar o espaço pessoal alheio.

Engfa soltou uma risada curta e sem humor.

— Espaço pessoal? Você acabou de invadir meu bloco, me arrancar de uma conversa e agir como uma criança mimada. Onde está o respeito ao meu espaço, Charlotte?

— Eu sou diferente! — Charlotte exclamou, batendo levemente com a mão na mesa. — Eu tenho direitos adquiridos.

— Direitos de quê? Nós não namoramos, Char. Você não tem o direito de sentir ciúmes, nem de interrogar minhas colegas, e muito menos de decidir com quem eu saio para tomar vinho.

O silêncio que se seguiu foi pesado. A palavra "vinho" pareceu ecoar entre as xícaras de café. Os olhos de Charlotte escureceram, uma mistura de mágoa e fúria possessiva.

— Então você vai sair com ela? Vai tomar vinho na casa dela? — A voz de Charlotte agora era um sussurro trêmulo.

Engfa sentiu uma pontada de culpa ao ver o brilho de umidade nos olhos da mais nova, mas seu orgulho era maior. Ela precisava que Charlotte admitisse o que sentia, precisava quebrar aquela barreira de provocações constantes.

— Talvez eu vá. Ela é inteligente, bonita e, ao contrário de certas pessoas, ela não passa o dia tentando me irritar ou me fazendo carregar mochilas pesadas.

Charlotte levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.

— Ótimo. Vá tomar seu vinho com a girafa. Espero que a safra seja péssima.

Ela se virou para sair, mas Engfa foi mais rápida. Ela alcançou o pulso de Charlotte, segurando-a com firmeza, mas sem machucar.

— Senta, Charlotte. Eu não terminei.

— Me solta, Waraha! Vá procurar sua colega.

— Charlotte, senta agora — Engfa usou sua voz de comando, aquela que raramente falhava.

Charlotte, bufando de raiva, sentou-se novamente, cruzando os braços e desviando o olhar para a janela. Engfa suspirou, soltando o pulso dela e passando a mão pelo cabelo, visivelmente frustrada.

— Você é impossível — Engfa murmurou. — Eu não vou à casa dela. Eu nem dei uma resposta. Eu só estava sendo educada.

Charlotte olhou de soslaio, a guarda ainda alta.

— Você parecia bem mais do que "educada".

— Porque eu gosto de atenção, você sabe disso. Sou competitiva. Se alguém me quer, meu ego sobe. Mas isso não significa que eu queira ela.

— E quem você quer, P'Fa? — Charlotte perguntou, a voz subitamente suave, voltando a atenção total para a mulher à sua frente.

Engfa sentiu o ar faltar por um segundo. Charlotte tinha esse poder: ela passava de uma criança birrenta para uma mulher fatal em questão de segundos. Os olhos castanhos da Austin estavam cravados nos dela, exigindo uma verdade que Engfa vinha escondendo atrás de cadeados rompidos e bilhetes sarcásticos.

Engfa inclinou-se sobre a mesa, diminuindo a distância até que pudesse sentir o calor da respiração de Charlotte.

— Eu quero a pessoa que me dá mais trabalho — Engfa sussurrou, a voz rouca. — A pessoa que rouba meus óculos, que me faz carregar mochilas e que aparece no meu bloco fazendo cena só porque não suporta me ver conversando com outra mulher.

Charlotte sustentou o olhar, um sorriso lento e vitorioso começando a surgir em seus lábios. Ela esticou a mão sobre a mesa, tocando a ponta dos dedos de Engfa.

— Essa pessoa parece ser muito inteligente. E muito bonita.

— Ela é uma pirralha irritante — corrigiu Engfa, mas não retirou a mão. — E ela precisa parar de testar minha paciência, ou eu vou acabar fazendo algo de que não vamos nos arrepender.

— E o que seria, P'? — Charlotte desafiou, a voz carregada de uma promessa silenciosa.

Engfa não respondeu com palavras. Ela simplesmente apertou a mão de Charlotte, um gesto de posse que dizia mais do que qualquer declaração.

— O café acabou — Engfa disse, levantando-se e puxando Charlotte junto. — E você tem aula. E eu tenho que descobrir como explicar para a Heidi que o nosso "projeto" foi cancelado por motivo de força maior.

— "Força maior", gostei disso — Charlotte riu, entrelaçando seus dedos aos de Engfa enquanto caminhavam para fora da cafeteria.

Elas caminharam pelo campus assim, de mãos dadas, ignorando os olhares curiosos. Para qualquer pessoa de fora, parecia o início de algo doce. Mas, para quem as conhecia, era apenas o prelúdio de uma nova fase da guerra.

Ao chegarem na porta da sala de Charlotte, a mais nova parou e se virou para Engfa.

— P'Fa?

— O que foi agora?

Charlotte se aproximou e, desta vez, não foi um beijo na bochecha. Ela pressionou os lábios rapidamente contra os de Engfa — um selinho casto, mas que carregava o peso de anos de tensão acumulada. Foi rápido, mas o suficiente para deixar Engfa sem chão.

— Não se atrase para me buscar — Charlotte piscou, entrando na sala e deixando Engfa parada no corredor, com o coração martelando contra as costelas.

Engfa tocou os próprios lábios, um sorriso bobo finalmente vencendo sua expressão séria. Ela ajustou os óculos, respirou fundo e começou a caminhada de volta para o seu bloco.

Ela ainda odiava perder. Mas, se o prêmio por perder para Charlotte Austin fosse aquele, Engfa Waraha estava disposta a ser a maior perdedora da história da universidade. Pelo menos até o dia seguinte, quando ela pretendia esconder a chave da sala de Charlotte só para ver a garota implorar por ajuda.

Afinal, a competição nunca terminava. E elas não trocariam aquela guerra por paz nenhuma no mundo.

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