Chopper e jinbe
O Eco do Mar e o Calor do Lar
O sol da tarde começava a descer no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e violeta, mas a calmaria no Thousand Sunny era apenas aparente. Embora a cozinha já estivesse devidamente limpa — graças ao esforço conjunto de um tritão paciente e uma rena arrependida —, o espírito de travessura de Chopper parecia ter se renovado com a energia de um lanche rápido.
Jinbe estava sentado no convés, observando o horizonte com a serenidade de quem já enfrentou as piores tempestades da Grand Line. No entanto, sua paz foi interrompida por um som peculiar de algo sendo arrastado. Ele virou o rosto levemente, apenas o suficiente para ver Chopper tentando equilibrar uma pilha imensa de livros de medicina enquanto caminhava em sua forma Brain Point.
— Chopper, o que você está planejando agora? — perguntou Jinbe, com um tom de voz que misturava diversão e precaução.
— Eu estava pensando, Jinbe! — Chopper exclamou, deixando os livros caírem no gramado com um baque surdo. — Você disse que o castigo acabou, mas eu ainda sinto que não aprendi a lição totalmente. E se... e se a gente fizesse um "treinamento de resistência"?
Jinbe arqueou uma sobrancelha, seus olhos pequenos brilhando de curiosidade.
— Treinamento de resistência?
— Sim! — Chopper pulou animado. — Você senta em cima de mim de novo, mas dessa vez eu tento ler meus livros de medicina ao mesmo tempo! Assim eu treino meu foco sob pressão e a gente pode continuar conversando. O que você acha? Por quarenta e cinco minutos!
O tritão soltou uma risada profunda, que fez seu peito vibrar. Ele sabia muito bem que Chopper não estava preocupado com "foco sob pressão". O pequeno médico simplesmente sentia falta do contato físico e da segurança que o peso de Jinbe proporcionava. Para Chopper, aquele não era um fardo, era um escudo de carne e osso.
— Quarenta e cinco minutos, é? — Jinbe levantou-se lentamente, ajustando seu quimono. — Bem, como seu "pai" neste navio, creio que é meu dever ajudar em sua educação médica. Mas desta vez, não vou facilitar. Vou me sentar de um jeito que você realmente sinta o peso da responsabilidade.
Chopper soltou um gritinho de alegria e rapidamente se deitou de bruços no gramado macio, abrindo um de seus livros de anatomia à sua frente.
— Estou pronto! Pode vir, Jinbe!
Jinbe aproximou-se com passos pesados e deliberados. Ele se posicionou atrás da rena e, com um movimento fluido, acomodou-se. Ele sentou-se diretamente sobre o traseiro e a parte inferior das costas de Chopper, sentindo a maciez do pelo contra sua pele azulada. Diferente das três horas anteriores, onde ele buscou um equilíbrio suave, desta vez ele deixou um pouco mais de seu peso real descansar sobre o pequeno.
— Ugh! — Chopper soltou um som abafado, o rosto sendo levemente pressionado contra as páginas do livro. — Nossa... você... você é realmente muito grande, Jinbe!
— Você pediu por isso, pequeno médico — disse Jinbe, cruzando os braços e fechando os olhos, aproveitando a brisa marinha. — Quarenta e cinco minutos de castigo das panquecas... parte dois. O cronômetro começa agora.
O silêncio caiu sobre o convés por alguns instantes, quebrado apenas pelo som das páginas do livro sendo viradas com certa dificuldade pelos cascos de Chopper. Jinbe sentia a respiração rítmica da rena sob ele. Era uma sensação reconfortante para ambos. Para Jinbe, que passou grande parte da vida carregando o peso do mundo e das expectativas de seu povo nos ombros, ter alguém que voluntariamente queria carregar o *seu* peso era uma mudança de perspectiva emocionante.
— Jinbe? — a voz de Chopper soou pequena, vindo debaixo dele.
— Sim, meu filho?
— Você... você sentia muita solidão antes de entrar para o bando? — Chopper perguntou, parando de fingir que lia sobre o sistema circulatório. — Eu me lembro de quando eu estava sozinho na Ilha Drum. Eu achava que o mundo era um lugar frio e que ninguém nunca ia querer um monstro como eu. Você, sendo um tritão... as pessoas também foram malvadas com você?
Jinbe suspirou, um som que pareceu uma onda quebrando na praia. Ele se ajeitou um pouco, dando uma leve rebolada para se encaixar melhor nas costas de Chopper, o que arrancou um risinho abafado da rena.
— O mundo pode ser muito cruel com o que ele não entende, Chopper — começou Jinbe, olhando para as nuvens. — Os tritões e os humanos têm uma história longa de dor. Por muito tempo, eu carreguei um ódio que não era meu, mas sim uma herança de sofrimento. Eu me sentia sozinho mesmo cercado por meus irmãos de armas, porque sentia que a paz era um sonho impossível.
— Mas agora você não se sente mais assim, certo? — Chopper tentou virar um pouco o pescoço para olhar para trás, mas o traseiro massivo de Jinbe o mantinha firmemente no lugar.
— Agora — Jinbe sorriu, uma expressão de pura paz —, eu sinto que encontrei meu porto seguro. Ver você aqui, tentando estudar enquanto um velho tritão o usa como almofada, me faz perceber que o ódio não tem chance contra a pureza de um coração como o seu. Você não é um monstro, Chopper. Você é a alma deste navio.
Chopper sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ele sempre fora muito sensível a elogios, mas vindo de Jinbe, as palavras tinham um peso maior que o próprio corpo do tritão.
— Você também é a alma do navio, Jinbe! — Chopper exclamou, batendo os cascos no chão. — Você é como o vovô que sabe tudo, ou o pai que protege a gente de tudo. Quando o Luffy está em perigo, você sempre está lá. Quando eu estou com medo, você me acalma.
— É o meu papel — respondeu Jinbe, sentindo um calor no peito. — Um timoneiro não serve apenas para guiar o navio pelas ondas, mas para guiar a família através das tempestades emocionais. E você, pequeno, me ensina que não preciso ser apenas um guerreiro. Posso ser apenas... o Jinbe.
Eles continuaram conversando enquanto os minutos passavam. Jinbe contava histórias sobre as correntes marítimas profundas e sobre as cidades de coral que brilhavam no escuro, enquanto Chopper falava sobre as ervas medicinais que queria cultivar no jardim do Sunny.
A certa altura, Chopper começou a se mexer de forma engraçada, tentando encontrar uma posição onde o peso de Jinbe massageasse suas costas.
— Jinbe, sobe um pouquinho mais... isso! — Chopper suspirou de alívio. — Você é tão quentinho. É muito melhor que qualquer cobertor que o Nami-san tenha.
— Ora, não deixe que ela ouça isso, ou o próximo castigo será dela, e receio que não será tão confortável quanto o meu — brincou Jinbe, soltando uma risada que fez Chopper vibrar contra o chão.
— Você acha que o Luffy vai ficar bravo porque a gente não guardou nenhuma panqueca? — perguntou Chopper, de repente preocupado.
— Luffy ficaria bravo se soubesse que houve comida e ele não participou — Jinbe ponderou. — Mas, considerando que a maior parte da massa acabou no teto e nas suas orelhas, acho que ele vai entender que foi um acidente de percurso. Além disso, Sanji provavelmente fará um banquete quando souber da bagunça que fizemos.
— É verdade! — Chopper riu. — O Sanji-kun sempre reclama, mas ele adora cozinhar para a gente.
O tempo parecia voar. Os quarenta e cinco minutos estavam chegando ao fim, mas nenhum dos dois parecia ter pressa. Jinbe estava apreciando a companhia silenciosa e a sensação de pertencimento. Ele olhou para baixo e viu que Chopper tinha finalmente relaxado tanto que sua cabeça estava apoiada sobre o livro aberto, os olhos pesados de sono.
— Chopper? — chamou Jinbe suavemente.
— Hmm? — a rena murmurou, quase dormindo sob o peso reconfortante.
— O tempo acabou.
— Já? — Chopper tentou se levantar, mas Jinbe ainda não havia se movido. — Só mais cinco minutinhos... está tão bom aqui embaixo.
Jinbe riu, sentindo-se genuinamente lisonjeado.
— Se eu ficar mais tempo, suas pernas vão formigar e você vai ter que se auto-medicar.
Com um movimento cuidadoso e lento, para não assustar ou machucar o pequeno, Jinbe levantou-se. Ele esticou os braços para o alto, sentindo os ossos estalarem, e depois olhou para baixo, onde Chopper estava agora rolando de costas, espreguiçando-se como um gatinho na grama.
— Minhas costas estão ótimas! — Chopper exclamou, pulando de pé e voltando à sua forma híbrida de sempre. — Você é o melhor aplicador de castigos do mundo, Jinbe!
Jinbe inclinou-se e deu um leve toque no nariz de Chopper com o dedo indicador, um gesto de carinho que ele raramente mostrava aos outros, mas que com Chopper era natural.
— E você é o melhor filho que um tritão ranzinza poderia pedir. Agora, vamos recolher esses livros. Se a Robin vir seus livros de medicina espalhados pelo gramado, o próximo castigo será para nós dois.
Chopper riu e começou a empilhar os livros apressadamente.
— Jinbe? — chamou ele, enquanto caminhavam de volta para a cabine.
— Sim?
— Da próxima vez que eu aprontar... a gente pode fazer o castigo da "almofada de tritão" de novo?
Jinbe olhou para o horizonte, onde o Sunny cortava as ondas com graciosidade, e sorriu de orelha a orelha, mostrando suas presas de forma amigável.
— Eu contaria com isso, Chopper. Eu contaria com isso.
E assim, sob a luz do entardecer, os dois seguiram para dentro do navio, unidos por um laço que ia muito além de tripulação e capitão, ou mestre e aprendiz. Eram pai e filho, encontrando no peso um do outro a leveza de uma verdadeira família.