Ciúmes do melhor amigo
O Eco do Arrependimento
A noite em Seul parecia mais fria do que o normal quando Jungkook finalmente saiu do restaurante. O asfalto úmido refletia as luzes de neon da cidade, mas para ele, tudo estava desprovido de cor. Seus passos eram pesados, arrastados pela exaustão emocional que se seguiu ao surto de ciúmes. O silêncio no carro, durante o trajeto de volta ao dormitório, foi quebrado apenas pelos suspiros pesados de Namjoon, que dirigia com uma expressão de profunda decepção.
— Jungkook, você precisa entender que o mundo não gira em torno das suas inseguranças — disse Namjoon, sem tirar os olhos da estrada. — A S/N é uma mulher incrível, e ela escolheu estar com você. Mas ninguém escolhe ser prisioneiro de um relacionamento.
Jungkook não respondeu. Ele apenas encostou a testa no vidro frio da janela, observando os borrões das luzes passarem. Em sua mente, a imagem de S/N saindo com Taehyung se repetia como um filme de terror em câmera lenta. Ele sabia que Taehyung era seu irmão de alma, um dos seus melhores amigos, mas o "monstro verde" em seu peito sempre sussurrava que Taehyung tinha uma conexão com S/N que ele, Jungkook, nunca alcançaria através da arte e da sensibilidade.
Ao chegar no dormitório, o ambiente estava carregado. Os outros membros entraram em silêncio, cada um seguindo para seu quarto. Jungkook, no entanto, ficou parado no meio da sala, olhando para o celular. Ele queria ligar. Queria mandar mensagens. Queria implorar para que ela voltasse.
— Nem pense nisso — a voz de Yoongi veio da cozinha. O mais velho estava bebendo um copo d'água, observando-o com um olhar penetrante. — Se você mandar mensagem agora, vai ser apenas para se justificar ou para cobrar explicações sobre onde ela está. Você não está em condições de pedir desculpas genuínas.
— Eu só quero saber se ela chegou bem — mentiu Jungkook, a voz falhando.
— O Taehyung mandou mensagem para o grupo. Ela está em casa. Segura. Longe de você — Yoongi foi direto, como sempre. — Vá dormir, Jungkook. Se é que você consegue.
Jungkook subiu para o quarto e desabou na cama. O cheiro dela ainda estava no seu travesseiro, uma tortura doce e cruel. Ele fechou os olhos e tentou lembrar de como começaram a brigar na noite anterior. Tinha sido por causa de uma foto que Taehyung postara dela em seu Instagram, uma foto espontânea e linda. Jungkook tinha explodido, perguntando por que ela permitia que ele a fotografasse daquele jeito, com aquele olhar.
"É o olhar de quem confia em um amigo, Jungkook!", ela tinha gritado antes de sair de casa.
Agora, no escuro do quarto, as palavras dela ecoavam: *Isso não é amor. Isso é controle.*
A manhã seguinte trouxe uma ressaca emocional devastadora. Jungkook acordou com os olhos inchados e o coração apertado. Ele checou o celular: nenhuma mensagem de S/N. Ele entrou no chat dela, digitou "Me desculpa", apagou. Digitou "Eu te amo", apagou de novo. Como dizer que a amava se suas ações diziam o contrário?
No ensaio da tarde, o clima estava tenso. Taehyung estava lá, mas não olhava para Jungkook. O habitual "V-Min-Kook" que sempre brincava antes de começarem a coreografia estava desfeito. Taehyung conversava apenas com Jimin e Hobi, mantendo uma distância profissional de Jungkook.
Durante uma pausa, Jungkook não aguentou mais. Ele caminhou até Taehyung, que estava bebendo água em um canto da sala de ensaio.
— Tae... podemos conversar? — perguntou Jungkook, a voz quase um sussurro.
Taehyung abaixou a garrafa e olhou para o mais novo. Não havia raiva em seus olhos, o que era pior; havia apenas uma tristeza profunda.
— Eu não tenho nada para te dizer, Jungkook — respondeu Taehyung calmamente. — Você é meu irmão, e eu te amo. Mas o que você fez ontem... a forma como você tratou a S/N na frente de todo mundo... foi vergonhoso.
— Eu sei! Eu agi como um idiota — Jungkook admitiu, sentindo as lágrimas queimarem. — Eu só... eu sinto que estou perdendo ela, Tae. E quando vejo vocês dois tão próximos, eu sinto que não sou o suficiente para ela.
Taehyung suspirou, colocando a mão no ombro de Jungkook, mas sem a habitual leveza.
— Você está perdendo ela por causa disso, não por minha causa. A S/N passou a noite chorando no sofá dela, Jungkook. Eu fiquei lá até ela dormir, porque ela estava com medo da sua reação se ela voltasse para casa. Você entende a gravidade disso? Sua namorada tem medo da sua raiva.
Aquelas palavras foram como um soco no estômago de Jungkook. Ele cambaleou para trás, a realidade desabando sobre sua cabeça. Ele nunca quis que ela tivesse medo. Ele queria ser o porto seguro dela, não a tempestade.
— O que eu faço? — perguntou ele, desesperado.
— Você dá o espaço que ela pediu — disse Taehyung. — E você procura ajuda para lidar com essa insegurança. Se você realmente a ama, vai colocar o bem-estar dela acima do seu desejo de possuí-la.
Jungkook passou o resto do dia em transe. Ele não conseguia focar nos passos, não conseguia acertar as notas. No final do ensaio, ele tomou uma decisão. Ele não iria até a casa dela. Ele não ligaria. Ele escreveria.
Ele passou horas em sua mesa de produção, mas não para compor uma música. Ele escreveu uma carta, à mão, onde derramou tudo o que estava sentindo. Ele não se justificou. Ele não culpou Taehyung. Ele admitiu que estava doente de ciúmes e que precisava mudar.
*“S/N, eu não espero que você me perdoe hoje, nem amanhã. Eu percebi que meu amor se tornou algo tóxico para você, e isso é a última coisa que eu queria. Vou procurar ajuda. Vou aprender a ser o homem que você merece, alguém que te olha com orgulho quando você brilha, e não com medo de que alguém te roube de mim. Você é livre, e eu preciso aprender a amar essa sua liberdade. Vou te dar o tempo que precisar. Estarei aqui, tentando ser melhor.”*
Ele enviou a carta por um motorista da empresa, junto com as flores favoritas dela.
Dois dias se passaram. Dois dias de silêncio absoluto. Jungkook sentia que estava morrendo por dentro, mas ele se manteve firme. Ele não a seguiu, não checou as redes sociais dela. Ele focou no trabalho e em suas conversas com Namjoon, que estava sendo seu mentor nessa jornada de autoconhecimento.
No terceiro dia, após o ensaio, Jungkook estava saindo da empresa quando viu uma figura familiar encostada em um carro no estacionamento. Seu coração deu um salto. Era ela.
S/N estava usando um casaco longo e tinha os cabelos presos. Ela parecia cansada, mas seus olhos não tinham mais aquele gelo do restaurante.
— Oi — disse ela, quando ele se aproximou, mantendo uma distância respeitosa.
— Oi — respondeu Jungkook, as mãos tremendo dentro dos bolsos da jaqueta. — Você recebeu a carta?
— Recebi — ela assentiu, desviando o olhar por um momento. — Foi a primeira vez em muito tempo que eu senti que você realmente me ouviu, Jungkook.
— Eu sinto muito, S/N. De verdade. Eu vi o que eu estava me tornando e eu odiei.
S/N deu um passo à frente, diminuindo um pouco a distância entre eles.
— Eu não vim aqui para dizer que está tudo bem — disse ela seriamente. — Porque não está. O que aconteceu no restaurante me machucou muito. Me senti humilhada. E eu ainda amo o Taehyung como um irmão, e não vou abrir mão da minha amizade com ele por causa de uma insegurança sua.
— Eu sei — Jungkook disse, com sinceridade. — Eu entendo isso agora. Eu não vou mais pedir para você escolher. Eu é que tenho que escolher confiar em você.
S/N suspirou, uma lágrima solitária escorrendo pelo seu rosto. Jungkook teve o impulso de limpá-la, mas se conteve. Ele precisava ganhar esse direito de novo.
— Eu quero acreditar que você pode mudar — continuou ela. — Mas eu preciso de tempo. E eu preciso que você continue com o que prometeu na carta. Eu não quero um namorado que me vigia, Jungkook. Eu quero um parceiro.
— Eu vou ser esse parceiro — ele prometeu, a voz embargada. — Eu vou fazer o que for preciso.
— Então... comece pedindo desculpas para o Taehyung de forma adequada. Não só por ontem, mas por todos os meses em que você o tratou mal por minha causa.
Jungkook assentiu vigorosamente.
— Eu já comecei a falar com ele, mas vou fazer melhor. Eu prometo.
S/N olhou para ele por um longo tempo, como se estivesse lendo sua alma. Finalmente, ela deu um pequeno passo e envolveu os braços na cintura dele, escondendo o rosto em seu peito. Jungkook congelou por um segundo, antes de abraçá-la com toda a ternura que possuía, enterrando o rosto em seu pescoço.
— Eu senti tanto a sua falta — ele sussurrou.
— Eu também senti a sua — ela respondeu baixinho. — Mas não me faça me arrepender de te dar essa chance, Jungkook.
— Eu não vou. Eu juro.
Eles ficaram ali, sob a luz fraca do estacionamento, por um longo tempo. Não era um final feliz definitivo, mas era um recomeço. Jungkook sabia que o caminho seria longo e que o "monstro" do ciúme ainda tentaria aparecer, mas agora ele tinha as ferramentas para combatê-lo. Ele olhou para cima e viu Taehyung saindo do prédio.
Taehyung parou ao ver os dois. Jungkook, ainda abraçado a S/N, levantou uma mão e fez um sinal de agradecimento para o amigo. Taehyung sorriu, um sorriso pequeno mas sincero, e acenou de volta antes de seguir seu caminho.
Pela primeira vez em muito tempo, Jungkook não sentiu uma pontada de raiva ao ver o amigo. Ele sentiu gratidão. Gratidão por Taehyung ter cuidado dela quando ele mesmo não foi capaz, e gratidão por S/N ainda estar ali, disposta a ensiná-lo a amar da maneira certa.
— Vamos para casa? — perguntou ele suavemente.
— Vamos — ela respondeu, pegando a mão dele.
Desta vez, Jungkook não apertou a mão dela como se estivesse tentando prendê-la. Ele apenas a segurou, sentindo o calor da pele dela contra a sua, caminhando lado a lado em direção ao futuro que eles teriam que reconstruir, tijolo por tijolo, com base na confiança e no respeito que ele finalmente começara a entender.