Com amor, Abel
Frequências Noturnas
O relógio digital embutido na parede da antessala marcava exatamente vinte e uma horas e quatorze minutos quando Geise empurrou a pesada porta acústica do Estúdio de Mixagem C.
Ela não havia se atrasado de propósito — o trânsito da La Cienega Boulevard parecia ter conspirado para testar seus nervos —, mas também não se apressara para chegar um minuto antes do combinado. Homens acostumados a terem o mundo aos seus pés desenvolviam uma péssima tendência a confundir pontualidade alheia com subserviência, e Geise não tinha a menor intenção de alimentar o ego de ninguém. Nem mesmo o de um artista que acumulava bilhões de reproduções nas plataformas de streaming.
Ao passar pela cortina de veludo que isolava o som, o ambiente revelou-se imerso em uma névoa de luz lilás e âmbar, recortada apenas pelo brilho verde e vermelho dos medidores da mesa de som SSL. O ar tinha cheiro de café expresso forte, madeira aquecida e o rastro inconfundível do perfume amadeirado que, Geise descobriu com certo incômodo ao longo do dia, havia ficado impregnado na manga de sua jaqueta.
Abel estava sozinho.
Ele estava inclinado sobre o console principal, descalço sobre o tapete persa desgastado, vestindo uma camiseta preta de algodão lavado e calças de moletom escuras. Os fones de estúdio de alta fidelidade repousavam em volta do pescoço, comprimindo a curva da mandíbula marcada pela barba escura e cerrada. Em uma das mãos, segurava um lápis de ponta fina; na outra, um copo baixo de vidro com gelo derretendo em água com gás e limão.
Ao lado dos faders de volume, havia um pequeno caderno de capa preta, surrado e cheio de anotações feitas à mão com caligrafia apressada e quase ilegível.
A batida em loop que ecoava pelos monitores de áudio Genelec era hipnótica, densa e cortante. Era uma linha de baixo sintetizada que reverberava direto no osso esterno de Geise, acompanhada por acordes menores de teclado analógico que soavam como uma noite chuvosa em uma cidade deserta.
Abel não se virou imediatamente, embora o reflexo dela no vidro escuro da cabine de gravação já tivesse denunciado sua chegada.
— Quatorze minutos — disse ele, a voz rascante deslizando por cima da linha de baixo com uma lentidão calculada.
Geise fechou a porta atrás de si com um clique suave, tirou a bolsa de couro do ombro e a colocou sobre um pufe próximo à entrada.
— Se você descontar o tempo que o segurança da recepção levou para checar minha credencial pela terceira vez hoje, cheguei no horário — rebateu ela, avançando em direção ao centro da sala com passos firmes. Usava uma calça jeans de cintura alta, sapatos baixos confortáveis e uma blusa de seda verde-escura que destacava o tom moreno de sua pele. — E boa noite para você também, Abel.
Ele soltou o lápis sobre a mesa de som e finalmente girou a cadeira giratória de couro para encará-la.
Havia olheiras sutis sob os olhos castanho-escuros dele, mas a intensidade com que a fitou não tinha nada de sonolenta. Era o mesmo olhar minucioso, quase cirúrgico, da noite anterior. Ele a analisou dos pés à cabeça, detendo-se por um segundo a mais nos cachos dela, que hoje caíam soltos sobre os ombros, antes de erguer uma das sobrancelhas bem desenhadas.
— Você fala com o segurança do mesmo jeito que fala comigo? — perguntou ele, apoiando os cotovelos nos braços da cadeira e entrelaçando os dedos longos em frente ao peito.
— O segurança foi mais simpático — provocou Geise, sustentando o olhar dele com um sorriso mínimo nos lábios. — Ele me ofereceu um café.
— O café da recepção é horrível — retrucou Abel, e o canto de sua boca curvou-se naquele meio sorriso discreto, quase invisível, que parecia escapar apenas quando ele baixava a guarda por uma fração de segundo. — Se você quisesse café descente, teria pedido para mim.
— Não misturo cafeína com negócios. Deixa o raciocínio acelerado demais, e para lidar com você eu preciso de toda a paciência que conseguir reunir.
Abel soltou uma risada baixa, rouca, que vibrou no peito antes de se perder no silêncio entre os compassos da música. Ele descruzou as mãos, apontando o queixo na direção do sofá de couro marrom encostado na parede lateral.
— Sente-se aí. Quero que você escute uma coisa.
Geise não obedeceu imediatamente. Em vez disso, puxou um tablet fino da bolsa, ativou a tela e colocou-o sobre a mesa de madeira auxiliar.
— Primeiro, o trabalho visual — disse ela, mantendo a postura ereta e a voz estritamente profissional. — Eu passei a tarde inteira renderizando os testes de cor daquelas fotos que tiramos às duas da manhã. Se nós vamos manter a estética do claro-escuro, precisamos alinhar o tom da fotografia com a iluminação do palco para o clipe de abertura.
Abel não se moveu para olhar o tablet. Apenas continuou observando-a, a cabeça ligeiramente inclinada, fascinado pelo jeito como ela assumia o controle do espaço sem pedir licença. Ninguém entrava no estúdio dele dando ordens ou estabelecendo prioridades. As pessoas geralmente esperavam que ele falasse, que ele decidisse quando a sessão começava e quando terminava.
— Você sempre pensa tanto antes de respirar? — murmurou ele, a voz descendo para um tom aveludado e íntimo.
— Eu penso antes de gastar meu tempo — corrigiu Geise, cruzando os braços sobre o peito. Ela sentiu o coração acelerar um milímetro sob a blusa de seda, traído pela proximidade e pelo tom provocador dele, mas manteve a expressão neutra. — E o seu tempo custa caro demais para a gravadora desperdiçar comigo parada aqui olhando para a sua cara.
— O tempo é meu — devolveu ele com uma calma desarmante, deslizando a cadeira para mais perto da mesa de som e estendendo a mão para o controle de volume master. — A gravadora só paga a conta de luz. Agora, cale a boca e escute.
Geise cerrou os dentes de leve, a veia teimosa pulsando na têmpora. Ela odiava receber ordens tanto quanto odiava admitir que a presença dele tinha a densidade de um campo gravitacional. No entanto, cedeu, sentando-se na beirada do sofá de couro e apoiando os cotovelos nos joelhos.
Abel puxou um fader analógico para cima.
A música preencheu a sala. Não era apenas alta; era envolvente, construída em camadas milimétricas de texturas sonoras. Começava com uma linha de baixo profunda, quase subaquática, sobre a qual sua voz surgia — limpa, etérea, carregada de uma dor elegante e luxuriosa que ele dominava como ninguém no mundo. Era uma canção sobre perdas evitáveis, noites vazias em hotéis caros e a incapacidade crônica de se deixar amar sem destruir o outro no processo.
Enquanto a música tocava, Abel não olhava para a tela dos computadores nem para os botões do mixer. Ele mantinha os olhos fixos nela.
Ele observava a reação de Geise com uma atenção quase predatória. Ele queria ver onde a respiração dela mudava de ritmo, queria notar o momento exato em que os olhos castanhos dela deixariam a frieza profissional de lado para absorver o impacto da melodia.
Geise tentou resistir. Fechou os olhos por alguns segundos para se concentrar apenas na mixagem, mas a voz dele preenchia cada canto escuro de sua mente. Era desleal. O homem sentado à sua frente, com os pés descalços e o cabelo crespo desalinhado de quem não dormia direito há dias, tinha a capacidade de traduzir a solidão humana em frequências sonoras tão precisas que chegavam a machucar.
Quando a última nota do sintetizador analógico se dissipou no ar, restou apenas o zumbido estático dos amplificadores.
O estúdio parecia pequeno demais.
Abel manteve os dedos pousados sobre a mesa de alumínio, esperando. Ele não pediu aplausos; não fez a pergunta óbvia que a maioria dos artistas faria. Apenas esperou.
Geise respirou fundo, soltando o ar devagar pela boca. O perfume floral suave dela pareceu se expandir no silêncio repentino.
— A transição do segundo verso para o refrão está errada — disse ela, quebrando o feitiço com uma precisão cirúrgica.
Abel piscou. Seus olhos faiscaram, uma mistura perigosa de choque genuíno e divertimento ácido.
— O que você disse?
— A transição — repetiu ela, apontando vagamente para as caixas de som com o queixo, recusando-se a demonstrar o quanto a música a havia atingido por dentro. — A linha de baixo é pesada demais antes da virada. Você está tentando sufocar o ouvinte com graves porque tem medo de deixar a voz vulnerável demais naquele trecho.
Um silêncio pesado tomou conta da sala de mixagem.
Abel ergueu-se da cadeira lentamente. A estatura média, a postura relaxada e a solidez dos ombros faziam com que ele parecesse ocupar muito mais espaço do que fisicamente ocupava. Ele deu a volta na bancada do console, caminhando sem ruído pelo tapete persa até parar a dois passos do sofá onde ela estava sentada.
— Medo? — perguntou ele, a voz tão baixa que quase competia com o zumbido dos aparelhos. Ele parou diante dela, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, olhando-a de cima com um sorriso meio irônico, meio desafiador. — Você acha que eu tenho medo da minha própria música?
— Acho que você se esconde atrás da produção impecável — retrucou Geise, recusando-se a encolher-se. Ela ergueu a cabeça, olhando diretamente nos olhos escuros dele. — É fácil ser intocável quando você coloca dez camadas de sintetizador oitenta e oito para mascarar o que você realmente estava sentindo quando escreveu essa letra. Você quer que o público ache você perigoso, Abel. Mas essa música não é sobre perigo. É sobre estar sozinho às quatro da manhã e odiar cada segundo disso.
Abel travou a mandíbula. Por um milésimo de segundo, a máscara do superstar global trincou. Uma sombra de crueza passou por suas feições — a mesma vulnerabilidade nua que Geise havia capturado na fotografia na noite anterior.
Ele deu mais um passo à frente, diminuindo a distância até que os joelhos dele quase tocassem os dela.
— Você é muito atrevida para alguém que está aqui há menos de quarenta e oito horas — murmurou ele. Havia um calor magnético emanando dele, e o cheiro de madeira e especiarias tornou-se quase sufocante de tão próximo.
Geise sentiu o ar escapar de seus pulmões. Quando ficava nervosa, o mecanismo de defesa clássico de seu cérebro assumia o volante: ela começava a falar.
— Eu não sou atrevida, sou prática — disse ela depressa demais, as palavras atropelando-se levemente, os olhos castanhos brilhando sob a penumbra lilás. — Você me chamou aqui para dizer o que estava horrível. Não está horrível, está genial, mas está covarde no meio. E se você queria alguém para puxar seu saco e dizer que cada suspiro seu é uma obra-prima sagrada, você errou de sala, de prédio e de diretora visual. Eu não me importo com quantos prêmios você tem na prateleira da sua casa em Bel-Air. Meu trabalho é garantir que a imagem converse com a verdade do som, e se o som for desonesto, a imagem vai parecer vazia, e eu me recuso a assinar um projeto vazio só porque o nome The Weeknd está estampado nele com letras douradas e...
— Geise.
A voz dele interrompeu o fluxo de palavras como um corte limpo de tesoura.
Abel havia se inclinado para a frente, apoiando uma das mãos no encosto do sofá, ao lado da cabeça dela. Ele estava tão perto que ela conseguia ver a textura minuciosa de sua pele, os fios individuais de sua barba escura e a forma como a luz âmbar desenhava o contorno de seus lábios grossos e entreabertos.
Ele a encarava com um misto de fascínio, volúpia contida e zombaria pura.
— O quê? — sussurrou ela, odiando a si mesma por ter ficado sem fôlego.
— Você fala rápido demais quando está desconfortável — disse ele, a voz rascante vibrando quase encostada na orelha dela.
— Eu não estou desconfortável.
— Está — afirmou ele, deslizando o olhar deliberadamente pelos lábios dela antes de retornar aos olhos grandes e expressivos. — O seu perfume ficou mais forte porque a sua pele esquentou. E as suas mãos estão apertando o tecido da calça há quase dois minutos.
Geise olhou para baixo involuntariamente e percebeu que os nós de seus dedos estavam brancos de tanto pressionar o jeans. Ela soltou a respiração em um muxoxo irritado e forçou os dedos a relaxarem sobre o colo.
— Você repara em coisas idiotas — murmurou ela, empurrando o ombro dele com a ponta do indicador para fazê-lo recuar. O tecido da camiseta dele era macio, e o músculo sob ele era firme e quente.
Abel não recuou. Ele apenas riu baixo, achando graça da audácia dela de empurrá-lo, mas endireitou o corpo o suficiente para aliviar a pressão opressiva sobre o espaço pessoal dela.
— Eu reparo em detalhes — corrigiu ele, caminhando com passos calmos de volta para a bancada. Ele pegou o caderno de anotações preto, rabiscou algo com o lápis e depois bateu a ponta de grafite duas vezes sobre o papel. — Você tem razão sobre a ponte.
Geise piscou, surpresa com a concessão súbita.
— O quê?
— O baixo está alto demais antes da virada — disse ele, sem erguer os olhos da anotação, o tom profissional reassumindo o comando como se nada tivesse acontecido. — Eu estava tentando cobrir uma falha na afinação da voz principal que não consegui consertar ontem. Estava com preguiça de regravar os vocais.
— Preguiça? — Geise soltou uma risada sarcástica, levantando-se do sofá e ajeitando a barra da blusa de seda. — O perfeccionista supremo admitindo preguiça? Se eu contasse isso para a Rolling Stone, eles não acreditariam.
Abel ergueu a cabeça e fixou os olhos nos dela. A expressão era fria, mas havia um aviso silencioso por trás daquele olhar escuro. A mística, o segredo e a privacidade eram o território mais sagrado de sua existência.
— Você não vai contar para ninguém — disse ele, a certeza absoluta em seu tom.
— Claro que não — rebateu ela, e a seriedade em sua resposta fez com que a tensão evaporasse tão rápido quanto havia surgido. — Minha ética profissional não está à venda. Nem por um furo de reportagem, nem por você.
Abel sustentou o olhar dela por um longo instante. Uma faísca de respeito genuíno passou pelas pupilas dele. Em Los Angeles, lealdade e ética eram moedas raras, geralmente descartadas na primeira oportunidade de autopromoção. Mas Geise carregava uma integridade crua, quase teimosa, que não se dobrava ao glamour que o cercava.
Ele fechou o caderno com um estalo seco.
— Mostre-me o que você trouxe no tablet — pediu ele, apontando para a mesa auxiliar com uma naturalidade tranquila.
Geise se aproximou, destravando a tela e colocando as imagens em exibição. Pelos próximos quarenta minutos, a dinâmica entre eles transformou-se em uma dança de mentes criativas. Ela explicou a transição de cores frias para tons quentes, sugerindo que o clipe começasse com uma iluminação esparsa de tungstênio e mergulhasse na penumbra conforme a narrativa visual se desenrolasse.
Abel ouvia com atenção absoluta. Ele fazia perguntas precisas, citava cenas de filmes dos anos setenta, sugeria ângulos de câmera que desafiavam as convenções visuais convencionais e rebatia as ideias dela com uma sagacidade impressionante. Ele era rápido, brilhante e implacável em sua busca pela melhor forma de arte.
Quando terminaram de analisar o último storyboard, Geise sentiu um cansaço bom tomar conta de seus ombros.
— É isso — disse ela, desligando o tablet. — Se a produção concordar com o cronograma de iluminação, começamos a montar o set na quinta-feira.
Abel estava encostado na mesa de mixagem, segurando o copo d'água com gelo derretido. Ele a observava guardar os pertences com a precisão metódica que parecia fazer parte de tudo o que ela fazia.
— Você quer ir a algum lugar? — perguntou ele de repente.
A mão de Geise congelou sobre o zíper da bolsa. Ela ergueu a cabeça, os olhos semicerrados em desconfiança imediata.
— Como?
— Eu preciso dirigir — explicou ele, dando de ombros com uma indiferença ensaiada, embora os olhos estivessem atentos a cada reação dela. — Fico aqui dentro por doze horas e minha cabeça começa a girar em círculos. Pensei em pegar a Pacific Coast Highway até Malibu. Ar fresco.
O alarme interno de Geise disparou em volume máximo.
*Regra número um: nunca se envolva com alguém cuja vida pertence aos holofotes.*
Ir para um passeio noturno pelas colinas de Los Angeles com Abel Tesfaye não era uma reunião de alinhamento criativo. Era o tipo de convite que desmontava barreiras profissionais e transformava a relação em algo muito mais perigoso, muito mais pessoal. Ela sabia exatamente onde estradas desertas de madrugada costumavam terminar.
— Eu tenho que acordar cedo amanhã — mentiu ela com elegância, jogando a alça da bolsa sobre o ombro. — E você deveria regravar aquele verso em vez de gastar gasolina na rodovia.
Abel não pareceu surpreso com a recusa. Na verdade, a rejeição parecia apenas alimentar a curiosidade implacável que ele sentia por ela. Ele deixou o copo sobre o console e deu dois passos lentos em sua direção, os sapatos finalmente calçados, a postura elegante e imponente.
— Você tem medo de mim, Geise? — perguntou ele, usando a mesma palavra que ela havia usado contra ele mais cedo, o humor sarcástico pingando de cada sílaba.
Geise sorriu, um sorriso afiado, bonito e perigosamente seguro de si.
— De você? Nenhum um pouco — respondeu ela, dando um passo em direção à porta e parando com a mão na maçaneta de metal frio. Ela olhou para trás, sustentando o impacto magnético daquele olhar que dominava multidões. — Eu só tenho medo de perder meu sono por causa de um homem que acha que o mundo inteiro é o palco dele. Boa noite, Abel.
Ela abriu a porta acústica e saiu, deixando o aroma suave de flores frescas para trás, cortando o ar lilás da sala de mixagem.
Abel permaneceu imóvel no centro do estúdio. Ele passou a mão pela barba, balançando a cabeça devagar enquanto uma risada curta e fascinada escapava por entre seus dentes.
Ele pegou o lápis sobre a mesa, abriu o caderno preto e escreveu, em uma linha solitária na folha em branco:
*Ela não tem medo da sombra. Ela tem medo da luz que a sombra atrai.*
Com um clique no interruptor, ele desligou os monitores de áudio, colocou a jaqueta escura e saiu para a noite de Los Angeles, ciente de que as próprias regras que havia criado para se proteger do mundo estavam prestes a se desintegrar.