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Comédia

O Grande Assalto à Geladeira de Mister

A cozinha de Mister parecia o cenário de um crime de guerra, mas com mais farelos de salgadinho e menos dignidade. Eram três da manhã, e o grupo de amigos estava reunido com o propósito solene que move a humanidade desde os tempos das cavernas: a larica absoluta.

Mister, o dono da casa, estava parado no centro da cozinha com os braços cruzados, tentando manter uma autoridade que ele claramente não possuía.

— Eu já disse, ninguém toca na torta de frango que a minha tia mandou! — exclamou Mister, apontando um batedor de ovos para Lorenzo. — É meu café da manhã de amanhã. Se alguém encostar nela, eu mudo a senha do Wi-Fi.

Lorenzo, que já estava com a mão na maçaneta da geladeira, congelou.

— Mister, meu caro, meu irmão de alma — disse Lorenzo, com uma mão no peito —, você está falando de comida enquanto o Villani está prestes a desmaiar de desnutrição. Olhe para ele!

Villani estava sentado no chão, encostado no armário, abraçado a um pacote vazio de biscoitos.

— Eu vejo luzes, Lorenzo... — sussurrou Villani, dramaticamente. — Acho que estou indo para o lugar onde as batatas fritas são infinitas.

Bola, que até então estava tentando abrir um pote de azeitonas com os dentes, parou a operação para opinar.

— Se o Villani morrer, eu fico com o tênis dele. — Ele deu de ombros. — Mas o Mister tem razão. A torta é sagrada. O problema é que o Júlio e o JM sumiram com o resto do estoque de pizza.

Nesse exato momento, um barulho de algo caindo veio do corredor. Júlio e JM apareceram, tentando esconder caixas de papelão atrás das costas.

— O que vocês estão escondendo? — perguntou Babi, surgindo do nada com Clara, ambas parecendo as únicas pessoas lúcidas no recinto.

— Nada! — responderam Júlio e JM em coro, com as vozes subindo três tons de oitava.

— É uma intervenção artística — explicou JM, com a testa suada. — Estamos fazendo uma escultura de papelão e... molho de tomate.

Clara cruzou os braços e arqueou a sobrancelha.

— Devolvam as fatias. Agora. A Gabi e a Anita estão lá na sala tentando decidir se comem o estofado do sofá ou se pedem um delivery de três mil reais.

— Três mil e duzentos — corrigiu Gabi, entrando na cozinha com o celular na mão. — A Anita quer incluir um combo de sushi que vem com um barco de madeira de brinde.

— A gente não tem onde guardar um barco, Gabi! — gritou Júlia do corredor, onde tentava impedir Nicole de tentar fritar um ovo usando apenas a luz do sol (que nem existia naquele horário).

— Mas é um barco, Júlia! — rebateu Anita, aparecendo logo atrás. — Imagina a gente no Tietê. A gente ia ser a elite do naufrágio!

Enquanto a discussão sobre a logística naval de um combo de sushi ganhava corpo, Totó, o membro mais silencioso e imprevisível do grupo, passou por todos eles como um ninja. Ele não disse uma palavra. Ele apenas abriu a geladeira, pegou a torta de frango do Mister e saiu correndo em direção ao quintal.

Houve um segundo de silêncio absoluto.

— PEGUEM O TOTÓ! — berrou Mister, perdendo toda a compostura.

A perseguição que se seguiu poderia ser descrita como um épico de ação, se não fosse pelo fato de que metade do grupo estava de meia e o chão tinha sido recentemente encerado.

— Cuidado com a curva! — gritou Nicole, enquanto Lorenzo derrapava e batia com o quadril na mesa de jantar.

— Ele entrou no bunker! — gritou Villani, referindo-se à casinha de ferramentas no fundo do quintal.

O grupo se amontoou na porta da casinha. Totó estava sentado em cima de um saco de adubo, com a torta no colo, segurando um garfo de plástico como se fosse uma arma.

— Nem mais um passo — avisou Totó, com um olhar selvagem. — Eu divido, mas só se a Babi parar de tentar me vender aquele curso de marketing digital dela.

— Ei! — protestou Babi. — É uma oportunidade única de ser seu próprio chefe, Totó!

— Silêncio! — ordenou Mister, tentando recuperar o fôlego. — Totó, coloque a torta no chão e ninguém se machuca.

— A gente está com fome, Mister! — reclamou Clara. — A Nicole tentou comer um guardanapo agora pouco.

— Era um guardanapo decorativo! — defendeu-se Nicole. — Tinha desenho de fruta, meu cérebro se enganou.

Júlio, sempre o diplomata, deu um passo à frente.

— Gente, vamos ser razoáveis. Temos uma torta, quatro fatias de pizza escondidas pelo JM, e o barco de sushi da Anita que deve chegar em quarenta minutos. Se a gente unir forças, todos sobrevivem até o amanhecer.

— E as azeitonas? — perguntou Bola, ainda segurando o pote fechado.

— Ninguém liga para as azeitonas, Bola! — gritaram todos em uníssono.

A tensão diminuiu um pouco. Totó entregou a torta, e o grupo voltou para a cozinha em uma procissão solene. Mister, resignado, começou a cortar a torta em pedaços milimetricamente iguais para evitar uma guerra civil.

— JM, entregue a pizza — ordenou Mister.

JM suspirou e tirou duas fatias de dentro da blusa.

— Cara, isso está morno de um jeito perturbador — comentou Gabi, fazendo uma careta.

— É calor humano — justificou JM.

Enquanto comiam, a conversa voltou ao nível normal de caos.

— Vocês já pararam para pensar que, se a gente fosse um grupo de heróis, o nosso poder seria a irritação extrema? — perguntou Villani, mastigando um pedaço de massa.

— O Villani seria o "Homem-Luzes" — riu Lorenzo. — O poder dele seria ver flashes de fome e desmaiar no meio da batalha.

— E o Mister seria o "Capitão Wi-Fi" — adicionou Anita. — "Renda-se ou eu mudo a senha!"

— A Babi ia tentar vender Hinode para o vilão até ele cometer suicídio — brincou Clara, fazendo todos caírem na risada, inclusive Babi.

— Riam, riam — disse Babi, apontando para Clara com um pedaço de pizza. — Mas quando eu estiver rica com o meu barco de sushi, vocês vão implorar por um convite.

A campainha tocou.

— O BARCO CHEGOU! — gritou Nicole, pulando da cadeira.

O que se seguiu foi uma cena digna de um documentário da National Geographic. O entregador de sushi parecia genuinamente assustado quando dez pessoas avançaram na direção da porta como se ele estivesse carregando a cura para todas as doenças da humanidade.

— É... é para uma "Anita"? — perguntou o rapaz, segurando uma estrutura de madeira enorme envolta em plástico filme.

— Sou eu! — Anita pegou o barco com uma reverência. — Pode deixar, jovem guerreiro. Sua missão foi cumprida.

Eles voltaram para a sala e colocaram o barco de sushi no centro da mesa de centro. Era magnífico. Tinha tanto salmão que Júlio jurou ter visto um deles piscar.

— Certo — disse Mister, sentando-se no chão. — Regras para o sushi: nada de usar o hashi como palito de dente, Lorenzo. E Totó, se você esconder um niguiri no bolso de novo, você está expulso do grupo.

— Foi uma vez! — defendeu-se Totó. — E foi para emergências!

— Que emergência exige um peixe cru no bolso às quatro da manhã? — questionou Gabi, rindo.

Conforme a madrugada avançava, o cansaço começou a bater. A euforia da comida deu lugar àquela moleza clássica pós-banquete. Villani já estava quase dormindo no ombro de Bola, que finalmente tinha conseguido abrir o pote de azeitonas, mas agora ninguém mais queria.

— Sabe de uma coisa? — disse Clara, olhando para os amigos espalhados pela sala. — A gente é muito idiota.

— Com certeza — concordou Nicole, bocejando. — Mas somos idiotas com um barco de madeira. Isso conta muito.

— Onde a gente vai colocar esse barco amanhã? — perguntou JM, fechando os olhos.

— Na piscina do condomínio — sugeriu Júlio, quase dormindo. — A gente coloca o Villani dentro e vê se ele flutua.

— Eu não... eu não sou um marinheiro... — resmungou Villani entre sonhos.

Mister olhou para sua cozinha destruída, para o pote de azeitonas aberto no colo de Bola e para os seus amigos, que eram, sem dúvida, as pessoas mais barulhentas e sem noção que ele já conhecera. Ele sorriu, apagando a luz da cozinha.

— Amanhã o Lorenzo limpa tudo — sussurrou Mister para si mesmo.

— EU OUVI ISSO! — gritou Lorenzo da sala, mesmo estando de olhos fechados.

— Como? — Mister se espantou.

— Eu tenho audição seletiva para trabalho escravo! — rebateu Lorenzo.

E assim, entre risadas abafadas, planos de navegação urbana e o cheiro persistente de torta de frango, o grupo finalmente se calou, esperando pelo próximo desastre que, com certeza, aconteceria no café da manhã. Porque, com eles, até fritar um ovo era um esporte de risco.