Como quiseres
O Eco do Espelho e o Sangue de Marlene
A partida dos gêmeos Weasley deixou um vácuo barulhento em Hogwarts. Onde antes havia o som de explosões controladas e risadas conspiratórias, agora restava apenas o zumbido irritante dos decretos educacionais de Umbridge, que pareciam brotar nas paredes como fungos venenosos. Para Ju Black, no entanto, o silêncio era o que mais pesava.
Sentada à mesa da Grifinória durante o jantar, Ju cutucava sua torta de rins sem o menor apetite. Ao seu lado, Harry, Rony e Hermione discutiam em sussurros urgentes sobre a última visão de Harry. Ser da mesma idade que o "Eleito" significava estar no olho do furacão, mas ser filha de Sirius Black e Marlene McKinnon significava que o furacão estava no seu DNA.
— Ju, você está ouvindo? — Hermione tocou seu ombro, os olhos castanhos cheios de preocupação. — Eu estava dizendo que a Umbridge reforçou a guarda no corujal. Se você quiser enviar qualquer coisa para o Sirius ou para o... Fred... precisa ter cuidado.
Ju suspirou, sentindo o peso do espelho de comunicação guardado no bolso interno de suas vestes.
— Eu sei, Mione. Mas eu não uso corujas. Fred me deu um jeito de burlar o sistema antes de sair voando por aquelas portas. — Um pequeno sorriso triste surgiu em seus lábios. — Ele sempre foi um passo à frente dela.
— Ele faz falta — admitiu Harry, olhando para o lugar vazio onde os gêmeos costumavam se sentar para testar seus novos produtos em calouros incautos. — O castelo parece... mais cinza.
Ju assentiu. A ausência de Fred era uma dor física, como se um pedaço de sua própria sombra tivesse sido arrancado. Mas ela não tinha tempo para luto. Naquela noite, ela tinha um compromisso.
Após o jantar, Ju subiu para o dormitório feminino do quinto ano. Esperou que Lilá Brown e Parvati Patil estivessem profundamente imersas em uma conversa sobre o horóscopo da semana e se trancou nas cortinas de sua cama de dossel. Com as mãos trêmulas, ela puxou o pequeno espelho de moldura prateada.
— Fred Weasley — sussurrou ela, o coração batendo contra as costelas.
A superfície do espelho embaçou por um segundo, como se uma névoa passasse por ele, e então, o rosto sardento e iluminado de Fred apareceu. Ele parecia exausto, com uma mancha de fuligem na bochecha, mas o sorriso que ele abriu ao vê-la foi o suficiente para iluminar todo o dormitório escuro de Ju.
— Ora, se não é a minha Black favorita — a voz dele saiu abafada, mas clara o suficiente para fazer Ju querer atravessar o vidro. — Como vai a vida na prisão, Ju? A sapa já tentou te transformar em decoração de jardim?
— Ela está tentando, Fred — respondeu Ju, rindo baixinho enquanto limpava uma lágrima teimosa. — Mas eu sou mais difícil de quebrar do que ela imagina. Como estão as coisas no Beco Diagonal?
— Caóticas. Maravilhosas. Jorge e eu quase explodimos o estoque de Orelhas Extensíveis hoje de manhã. Mamãe nos enviou um berrador, é claro, mas papai mandou uma carta secreta dizendo que está orgulhoso. — Fred inclinou a cabeça, a expressão suavizando. — Mas sinto sua falta, Juçara. O Jorge é um ótimo sócio, mas ele não tem o seu cheiro de pergaminho e baunilha.
— Eu também sinto a sua falta. Harry está tendo visões de novo, Fred. As coisas estão ficando sérias. E Umbridge... ela está obcecada em encontrar qualquer ligação minha com o Sirius. Ela sabe que ele é meu pai, mas ela quer provar que ele está escondido em algum lugar que eu conheço.
Fred fechou o semblante, a mandíbula travada.
— Ela não vai encostar em você. Se ela tentar, eu juro que volto aí e transformo o escritório dela em um pântano permanente.
— Você já fez isso, Fred — ela lembrou, sorrindo.
— Eu faço de novo. Quantas vezes forem necessárias.
Eles conversaram por mais alguns minutos, um oásis de normalidade em meio ao caos. Fred contou sobre a nova loja e sobre como Sirius tinha enviado algumas ideias de "pegadinhas clássicas dos Marotos" através de Lupin. Mas, antes de desligar, a expressão de Fred mudou para algo mais profundo.
— Ju... eu estive pensando. Sobre sua mãe.
Ju ficou imóvel. Marlene McKinnon era um assunto sagrado. Ela morrera protegendo a família, uma das baixas mais cruéis da primeira guerra.
— O que tem ela? — perguntou Ju em voz baixa.
— Sirius me contou uma coisa, quando fui buscar umas coisas na sede. Ele disse que você tem o mesmo brilho nos olhos que ela tinha quando estava prestes a lutar. Marlene não recuava, Ju. E você também não. Só... tome cuidado. Não tente ser heroína sozinha.
— Eu não estou sozinha, Fred. Eu tenho o Harry, o Rony, a Mione... e tenho você, mesmo que seja através de um vidro.
— Sempre — prometeu ele, antes da imagem desaparecer.
Ju guardou o espelho, sentindo-se revigorada. Mas o destino em Hogwarts naquele ano raramente permitia que a paz durasse.
No dia seguinte, durante a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, o clima estava mais pesado do que o normal. Dolores Umbridge caminhava entre as fileiras de mesas como uma predadora, seu casaco rosa choque parecendo uma ferida aberta na sala de aula.
— Senhorita Black — disse ela, a voz fina e afetada parando logo atrás da cadeira de Ju. — Eu estava revisando os arquivos do Ministério. É fascinante como a sua árvore genealógica é... problemática.
Ju manteve os olhos fixos no livro *Teoria da Defesa Mágica*. Ela sentia o olhar de Harry sobre ela, alerta.
— Minha família é assunto meu, Diretora — respondeu Ju, a voz fria como o gelo de um inverno escocês.
— Oh, mas quando se trata de um assassino em massa foragido e de uma mulher como Marlene McKinnon, que se envolveu com tipos tão... deploráveis... torna-se assunto do Ministério. — Umbridge inclinou-se, o cheiro de perfume barato de flores sufocando Ju. — Você sabia que sua mãe foi considerada uma traidora do sangue muito antes de morrer? Ela escolheu o lado errado. Assim como você está escolhendo agora ao apoiar o Sr. Potter em suas mentiras.
Ju sentiu o sangue ferver. Ela conseguia suportar insultos contra si mesma, mas falar de Marlene, a mulher que dera a vida para que Ju pudesse respirar, era cruzar uma linha sem volta.
— Minha mãe morreu como uma heroína — disse Ju, levantando-se lentamente. A sala inteira ficou em silêncio. — Ela lutou contra o que havia de mais podre no nosso mundo. E se o "lado errado" significa estar contra pessoas que usam o medo e a tortura para governar, então eu tenho muito orgulho de estar exatamente onde estou.
O rosto de Umbridge passou de um rosa pálido para um vermelho púrpura.
— Detenção, senhorita Black! — gritou ela, a voz perdendo a compostura melosa. — Hoje à noite, na minha sala. E creio que precisaremos de uma pena mais... persistente para o seu caso.
— Ju, não vá — sussurrou Hermione no corredor, após a aula. — Ela está perdendo o controle. Ela vai descontar em você tudo o que o Fred e o Jorge fizeram.
— Eu preciso ir, Mione — disse Ju, limpando uma mancha de tinta nos dedos. — Se eu não for, ela vai ter um motivo para me expulsar. E eu não vou dar esse prazer a ela. Além disso... eu sou filha de Sirius Black. Se ele aguentou doze anos em Azkaban, eu aguento uma noite com aquela sapa.
Às oito horas da noite, Ju bateu na porta do escritório de Umbridge. O lugar era um pesadelo de pratos pintados com gatinhos que miavam e móveis rendados.
— Sente-se, querida — disse Umbridge, apontando para uma pequena mesa de madeira escura. Não havia tinta, apenas um pergaminho em branco. — Você vai escrever para mim: *Honrarei o legado do Ministério.*
Ju pegou a pena negra e longa. Ela já sabia o que viria. Na primeira frase, a dor aguda rasgou o dorso de sua mão esquerda. O corte era profundo, a magia da pena sugando seu próprio sangue para escrever no papel.
*Honrarei o legado do Ministério.*
Ju não gritou. Ela nem sequer gemeu. Ela pensou em Fred. Pensou no sorriso dele, no cheiro de pólvora e na promessa de um futuro onde eles poderiam andar de mãos dadas pelo Beco Diagonal sem medo. Pensou em seu pai, Sirius, rindo nas fotos antigas da Ordem da Fênix, e em Marlene, com seus cabelos escuros ao vento, empunhando a varinha com uma bravura que fazia os Comensais da Morte tremerem.
— Algum problema, senhorita Black? — perguntou Umbridge, saboreando uma xícara de chá.
— Nenhum, Diretora — respondeu Ju, olhando-a nos olhos. — Só estava pensando em como o seu chá deve estar amargo. Deve ser difícil viver com tanto ódio.
A detenção durou horas. Quando Ju finalmente foi liberada, sua mão estava uma massa de carne viva e sangue. Ela caminhou pelos corredores desertos, sentindo o mundo girar levemente. Ao chegar ao quadro da Mulher Gorda, ela quase caiu, mas braços fortes a seguraram.
— Eu sabia que você estaria em um estado deplorável.
Ju piscou, tentando focar a visão. Não era Fred, mas sim Rony e Harry, que a esperavam escondidos sob a Capa da Invisibilidade.
— O que vocês estão fazendo aqui? — murmurou ela.
— Hermione nos mandou — disse Rony, ajudando-a a entrar no Salão Comunal. — Ela preparou a essência de murtlap. Harry disse que você não ia querer que ninguém visse, mas nós não íamos te deixar sozinha.
Eles a sentaram perto da lareira, que ainda mantinha algumas brasas acesas. Hermione apareceu das sombras com uma tigela de líquido amarelado e bandagens limpas. Ao ver a mão de Ju, a garota soltou um arquejo de horror.
— Ela foi mais fundo desta vez — sussurrou Hermione, as mãos tremendo enquanto mergulhava o pano na solução. — Ju, isso é tortura. Precisamos contar ao Dumbledore ou ao...
— Dumbledore não pode fazer nada agora — cortou Ju, sentindo o alívio frio do murtlap. — Ele está sendo caçado pelo Ministério. E se contarmos ao meu pai, ele vai invadir o castelo e ser capturado. Não. Nós aguentamos.
— Você é igualzinha ao Fred — disse Harry, com um meio sorriso triste. — Ele disse a mesma coisa quando ela o pegou na primeira vez. "Não dê a ela a satisfação de ver que dói".
Ju sorriu, apesar da dor latejante.
— É por isso que nos damos bem.
Após ser devidamente cuidada, Ju subiu para o quarto. Ela estava exausta, mas precisava de uma última coisa antes de dormir. Ela pegou o espelho.
— Fred? — chamou baixinho.
Demorou um pouco mais desta vez. Quando Fred apareceu, ele estava de pijama, o cabelo mais bagunçado do que o normal.
— Ju? Aconteceu alguma coisa? São duas da manhã!
Ela hesitou, escondendo a mão enfaixada sob o cobertor.
— Só queria ouvir sua voz. Foi uma noite longa.
Fred estreitou os olhos. Ele a conhecia bem demais.
— Mostre-me a mão, Juçara.
— Fred, está tudo bem...
— Ju. Mostre. A. Mão.
Lentamente, ela levantou a mão esquerda, envolta em gaze branca. O silêncio do outro lado do espelho foi aterrador. Fred não gritou, não praguejou. Mas seus olhos... o brilho divertido havia sido substituído por uma escuridão fria e calculista que lembrou a Ju que Fred Weasley, apesar de toda a alegria, era um bruxo extremamente poderoso e perigoso quando provocado.
— Ela vai pagar — disse ele, a voz num tom perigosamente baixo. — Eu e Jorge estávamos guardando um carregamento especial de Pântano Portátil e Fogos de Artifício Drasconianos para o final do ano... mas acho que vamos enviar um "presente anônimo" para o escritório dela um pouco antes.
— Fred, não se arrisque...
— Não é risco, Ju. É investimento. — Ele suavizou o olhar, encostando os dedos no vidro do espelho, como se pudesse tocar o rosto dela. — Durma agora, minha pequena Marota. Sonhe com a nossa loja. Sonhe com o dia em que o único sangue que você verá será o de algum nariz sangrento de um cliente que testou um de nossos doces. Eu te amo.
— Eu te amo, Fred.
Ju adormeceu com o espelho sob o travesseiro. Naquela noite, ela sonhou com Marlene McKinnon. No sonho, sua mãe não estava lutando; ela estava rindo, em um campo de flores, e Sirius estava ao seu lado, jovem e livre. E, ao longe, ela via Fred e Jorge transformando o céu de Hogwarts em um arco-íris eterno.
A guerra estava chegando, e o Ministério podia tentar gravar suas mentiras na pele de Ju, mas eles nunca conseguiriam tocar no que era real: a lealdade de seus amigos, o amor de Fred e o sangue de Marlene que corria em suas veias, lembrando-a, a cada batida do coração, que os Black nunca se curvam diante de tiranos.
No dia seguinte, um pacote misterioso chegou ao corujal, endereçado a "Diretora Dolores Umbridge". Quando ela o abriu em seu escritório, uma explosão de fumaça rosa e roxa tomou conta de toda a ala leste do castelo, e o som de gargalhadas gravadas de Fred e Jorge ecoou pelos corredores por três dias seguidos.
Ju, sentada na aula de Transfiguração, trocou um olhar cúmplice com Harry. A resistência estava apenas começando. E, como Fred dissera, eles fariam tudo com muito, muito estilo.