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Competição familiar

O Dilema de um Cão de Caça: Entre a Discrição e o Caos Familiar

Vikir van Baskerville encarava a folha de papel timbrado em sua mesa com uma expressão que, para qualquer observador comum, pareceria indiferença gélida, mas que, no fundo, era puro desespero contido. Ao seu redor, a sala de aula da Academia Colosso fervilhava com a empolgação dos jovens nobres. O anúncio do diretor ainda ecoava nas paredes de pedra: em dois dias, a "Competição de Integração Familiar" aconteceria.

Era para ser uma pausa. Vikir havia se infiltrado na academia sob o disfarce de um plebeu talentoso, mas comum, buscando um descanso da carnificina constante e das responsabilidades políticas da Casa Baskerville. Mas o destino — ou melhor, sua família — parecia determinado a sabotar sua paz.

— Outro pacote, Vikir? — Sinclair, sua colega de classe, aproximou-se com um olhar curioso. — Esse selo de cera... parece ouro puro.

Vikir rapidamente cobriu a caixa de madeira de sândalo que acabara de chegar. Dentro dela, ele sabia que havia uma adaga forjada em mithril negro, um "mimo" de seu irmão mais velho, Osíris, para que ele não se sentisse "desprotegido" na escola.

— É do meu irmão — respondeu Vikir, sua voz plana e sem emoção. — Ele exagera às vezes.

— "Às vezes"? — Tudor, que passava por perto, soltou uma risada ruidosa. — Cara, na semana passada ele te mandou um conjunto de penas feitas com as asas de um Grifo Real. Quem é esse seu irmão? Um imperador escondido?

Vikir não respondeu. Ele apenas guardou a carta que acompanhava o presente — dez páginas de Osíris detalhando como sentia falta de treinar com ele e como Hugo, o patriarca, estava "estranhamente silencioso", o que significava que ele estava apenas afiando espadas em vez de falar.

O problema agora era a competição. O diretor fora claro: "Escolham um ou dois familiares para responder perguntas sobre vocês. Uma demonstração de laços e afeto!".

Vikir massageou as têmporas. Se ele chamasse Hugo, o Patriarca de Ferro dos Baskerville, a academia provavelmente seria colocada sob lei marcial em dez minutos. Se chamasse Osíris, o jovem gênio da espada, o nível de proteção seria tão sufocante que Vikir não conseguiria nem ir ao banheiro sem uma escolta de sombras. Mas não havia escolha. Negar a participação seria levantar suspeitas, e os Baskerville eram competitivos demais para aceitar serem deixados de fora.

***

Dois dias depois, o pátio central da Academia Colosso estava decorado com as cores das grandes casas. Pais orgulhosos e irmãos elegantes conversavam, exibindo suas linhagens. No entanto, o clima mudou drasticamente quando uma carruagem negra, puxada por quatro cavalos de guerra cujos olhos brilhavam com uma inteligência sinistra, parou diante do portão.

Vikir sentiu um calafrio. Ele viu a porta se abrir e, de lá, saíram Hugo Le Baskerville e Osíris van Baskerville. A pressão que emanava dos dois era tão densa que os alunos mais próximos recuaram instintivamente.

— Vikir — disse Hugo, sua voz como o som de pedras sendo esmagadas. Ele olhou ao redor com desdém. — Este lugar parece... frágil.

— Irmãozinho — Osíris sorriu, embora seus olhos vermelhos estivessem escaneando cada pessoa no pátio como se estivesse decidindo quem matar primeiro. — Você parece mais magro. Eles não estão te alimentando? Eu devia ter mandado mais daquela carne de Wyvern.

— Eu estou bem — murmurou Vikir, sentindo os olhares de seus colegas queimando em suas costas. — Por favor, tentem ser... normais.

— Normais? — Hugo arqueou uma sobrancelha. — Viemos para vencer. Os Baskerville não ficam em segundo lugar, nem mesmo em "brincadeiras" acadêmicas.

A competição começou em um palco elevado. Vikir estava sentado de um lado, enquanto Hugo e Osíris ocupavam o outro, prontos para responder às perguntas do diretor diante de toda a escola.

— Primeira pergunta! — anunciou o diretor, limpando o suor da testa. A presença de Hugo o deixava visivelmente nervoso. — Qual é a comida favorita do aluno Vikir?

Vikir fechou os olhos, rezando para que eles tivessem inventado algo simples como "pão" ou "sopa".

— Carne de monstro Rank S, preferencialmente de um Behemoth recém-abatido — declarou Hugo com firmeza.

— E bolo de chocolate — acrescentou Osíris, com um brilho nostálgico. — Ele come o bolo com a mesma seriedade com que decapita um inimigo.

O silêncio caiu sobre a plateia. Sinclair e Tudor olharam para Vikir com os olhos arregalados.

— Carne de... Rank S? — gaguejou o diretor. — Bem, passemos para a próxima. Qual o passatempo favorito do jovem Vikir?

Osíris não hesitou:

— Matar monstros nas profundezas das montanhas, treinar comigo até que um de nós não consiga mais levantar a espada e, ocasionalmente, testar novos métodos de tortura em prisioneiros de guerra para extrair informações.

Vikir cobriu o rosto com a mão. Ele podia ouvir os sussurros agora: "Tortura?", "Que tipo de plebeu é esse?".

— Próxima pergunta! — O diretor tentou desesperadamente mudar o tom. — Qual o animal favorito dele?

— Cães de caça — respondeu Hugo. — Fortes, leais e implacáveis. Como ele.

— E o objeto favorito?

— Uma espada rara Rank SS que ele ganhou após sobreviver a uma provação que mataria qualquer outro homem nesta sala — disse Osíris, lançando um olhar desafiador para os outros pais nobres.

A essa altura, o disfarce de Vikir não estava apenas rachado; ele estava em pedaços no chão. Ele olhou para seus amigos e viu que eles o encaravam como se ele fosse um alienígena. Vikir suspirou e, momentaneamente, seu olho direito tremeu.

— Oh, vejam! — apontou Osíris para o público. — Ele está irritado. A mania principal dele: o olho direito treme quando o humor azeda.

— Sim — completou Hugo, observando o filho com uma ponta de orgulho mal disfarçado. — Mas se ele estivesse feliz, o nariz dele mexeria levemente. E se estivéssemos servindo aquela carne de Rank S agora, ele passaria exatamente três minutos avaliando a textura antes de dar a primeira garfada, para maximizar o prazer do sabor.

O diretor, agora pálido, fez a pergunta que todos os alunos estavam ansiosos para ouvir:

— E quem é a pessoa favorita do jovem Vikir?

Osíris estufou o peito, um sorriso convencido cruzando seu rosto.

— Eu, é claro. Ele não admite, mas eu sou o modelo que ele segue.

Vikir não contestou. Era verdade, de certa forma, embora a "admiração" fosse misturada com uma exaustão profunda pela intensidade do irmão.

— E como ele demonstra carinho? — perguntou o diretor, já esperando algo violento.

— Através de ações — disse Hugo. — Ele protege o que é dele com unhas e dentes. Mas, raramente... muito raramente... ele concede um abraço. É como ganhar uma medalha de honra.

— E para encerrar — o diretor olhou para o cartão final —, o jovem Vikir já teve algum interesse romântico? Ele já beijou alguém?

Um silêncio mortal caiu sobre o pátio. A aura de Hugo e Osíris subiu vários graus, tornando o ar pesado e difícil de respirar. Vikir sentiu que, se a resposta fosse errada, alguém morreria ali mesmo.

— Sim — respondeu Osíris, sua voz subitamente fria. — Ele já ficou com duas garotas. Eu pessoalmente investiguei o histórico de ambas até a quinta geração para garantir que eram dignas de respirar o mesmo ar que ele.

— Elas não eram — resmungou Hugo, cruzando os braços. — Mas Vikir tem seus próprios critérios.

Vikir levantou-se abruptamente, sua cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.

— Acho que já ouvimos o suficiente por hoje — disse ele, sua voz saindo mais fria do que o normal.

Ele caminhou até o centro do palco, ignorando o choque coletivo. Ele olhou para Hugo e Osíris, que pareciam genuinamente satisfeitos com o desempenho deles.

— Vocês — começou Vikir, encarando o pai e o irmão — são impossíveis.

— Ganhamos? — perguntou Hugo, ignorando completamente o tom de Vikir.

— Sim, vocês ganharam — suspirou Vikir. — Agora, por favor, saiam antes que o diretor tenha um ataque cardíaco e eu tenha que explicar por que meu "irmão plebeu" conhece técnicas de tortura de alto nível.

Osíris riu e deu um tapinha pesado no ombro de Vikir.

— Não se preocupe, irmãozinho. Mandaremos mais presentes semana que vem. Ouvi dizer que você gosta de colares de dentes de dragão?

Vikir não respondeu. Ele apenas virou as costas e começou a caminhar em direção aos dormitórios. Ele sabia que, a partir de amanhã, sua vida "tranquila" na academia seria tudo, menos calma. Seus amigos teriam milhares de perguntas, seus inimigos teriam medo de chegar a dez metros dele e seu disfarce de plebeu estava morto e enterrado.

Mas, enquanto caminhava, um pequeno detalhe não passou despercebido por Hugo e Osíris, que o observavam de longe.

— Viu aquilo? — perguntou Osíris com um sorriso.

— O quê? — Hugo manteve a expressão severa.

— O nariz dele. Mexeu um pouco. Ele está feliz por estarmos aqui.

Hugo não disse nada, mas o aperto em sua espada relaxou. Vikir van Baskerville podia ser o cão de caça mais implacável do império, mas, diante daquela família absurdamente competitiva e protetora, ele ainda era apenas o filho e irmão que eles fariam qualquer coisa para ver no topo — mesmo que isso significasse arruinar sua vida social escolar no processo.