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Consequências no mechico

Entre a Ressaca e o Refrão

O silêncio que se seguiu à batida da porta foi pior do que qualquer grito que Pato pudesse ter dado. Karen permaneceu imóvel no sofá, as mãos trêmulas pressionadas contra o rosto, enquanto o mundo ao seu redor parecia girar em uma velocidade lenta e cruel. O cheiro de tequila, que horas antes parecia o perfume da liberdade, agora era um lembrete nauseante de sua imprudência. Ela se levantou cambaleante, cada movimento enviando uma pontada aguda através de seu crânio, e caminhou até o banheiro.

No espelho, a imagem que a refletia não era a da modelo internacional que estampava capas de revistas. O batom vermelho estava borrado, os olhos escurecidos pelo rímel escorrido e a pele, geralmente radiante, estava pálida sob as luzes fluorescentes. Ela lavou o rosto com água gelada, tentando desesperadamente remover não apenas a maquiagem, mas a sensação de fracasso que a envolvia.

— Que droga, Karen... — sussurrou para si mesma, a voz falhando.

Ela se deitou na cama imensa, mas o sono não veio. A cada vez que fechava os olhos, via o olhar de decepção de Pato. Ela conhecia aquele olhar; era o olhar de quem depositara toda a confiança em alguém e recebera em troca o descaso. O sol começou a nascer sobre a Cidade do México, pintando o céu de um laranja metálico, e Karen ainda estava acordada, ouvindo o som abafado do tráfego matinal lá fora.

Por volta das dez da manhã, um som de batidas suaves na porta a fez pular da cama. Seu coração disparou, esperando que fosse Pato. Ela abriu a porta com pressa, mas encontrou Gastón, o irmão mais velho de Pato, segurando dois copos de café e um saco de papel com o logo de uma padaria local.

— Posso entrar? — perguntou Gastón, sua expressão era neutra, mas seus olhos carregavam uma pitada de compreensão paternal.

— Claro, Gastón. Entra — Karen deu passagem, sentindo-se pequena sob o olhar dele.

Gastón colocou o café sobre a mesa de centro e sentou-se na poltrona.

— O Pato me contou o que aconteceu. Ou melhor, ele não precisou contar muito. O estado em que ele chegou no quarto do Guido ontem dizia tudo.

— Eu sei que errei — começou Karen, as lágrimas voltando a inundar seus olhos. — Eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto. Eu só... eu queria relaxar.

— Karen, escuta — Gastón suspirou, entregando-lhe um dos cafés. — Nós amamos você. Você faz bem ao Pato, e ele é louco por você. Mas você sabe como ele é antes de um show desse tamanho. Ele fica com os nervos à flor da pele. Ele não vê a banda apenas como um trabalho, é a vida dele. Quando ele sentiu que você não deu importância para o que ele pediu, ele se sentiu desprotegido.

— Ele não vai me perdoar, vai? — ela perguntou, a voz sumida.

— Ele é o Pato. Ele tem o temperamento forte, mas o coração é mole — Gastón deu um meio sorriso. — Mas hoje o dia vai ser difícil. Ele está no Auditório Nacional agora para a passagem de som. Ele não dormiu quase nada e está de um humor terrível.

— Eu preciso falar com ele, Gastón. Eu preciso explicar que eu valorizo o que ele faz.

— Agora não é o momento — aconselhou o cunhado, levantando-se. — Deixe ele descarregar essa energia na guitarra. Se você for lá agora, vai ser pior. Vá ao show à noite. Fique nos bastidores, ou na pista, onde ele possa te ver. Mostre que você está lá por ele. O resto a gente resolve depois que a poeira baixar.

Karen acatou o conselho, embora cada fibra de seu ser quisesse correr para o Auditório. Ela passou o dia em um estado de limbo, forçando-se a comer algo e tentando descansar, embora a ansiedade fosse uma companhia constante. Ela enviou uma mensagem para Pato: "Eu sinto muito. Estarei lá hoje, aplaudindo você mais alto que qualquer um. Eu te amo."

A mensagem foi visualizada, mas não houve resposta.

À noite, o Auditório Nacional estava cercado por uma multidão fervorosa. O nome "AIRBAG" brilhava nos letreiros, e o som dos fãs gritando o nome dos irmãos Sardelli podia ser ouvido a quarteirões de distância. Karen entrou pelos fundos, usando suas credenciais de acesso total. O ambiente nos bastidores era um caos controlado: técnicos correndo com cabos, seguranças em posição e o som distante da bateria de Gastón sendo testada.

Ela avistou Guido perto do buffet de frutas. Ele a viu e apenas balançou a cabeça negativamente.

— Ele está no camarim trancado com a guitarra — disse Guido, aproximando-se. — Karen, sério, a vibe está tensa. Ele nem falou com a gente direito hoje.

— Eu só quero que ele saiba que eu vim — disse ela, apertando a alça da bolsa.

— Ele sabe. Ele viu sua mensagem — Guido deu um tapinha no ombro dela. — Vai para o canto do palco. Quando as luzes se apagarem, ele vai procurar você.

Karen se posicionou em uma área reservada, escondida pelas cortinas laterais, mas com uma visão clara do microfone central. Quando as luzes do auditório se apagaram, o rugido de dez mil pessoas foi ensurdecedor. O frio na barriga de Karen não era apenas pela grandiosidade do evento, mas pelo medo do que viria a seguir.

As primeiras notas de "Jinetes Cromados" explodiram nos alto-falantes. Pato entrou no palco como um furacão, a guitarra pendurada no corpo como se fosse uma extensão de seus próprios braços. Ele estava magnífico, vestindo preto, o cabelo caindo sobre o rosto enquanto seus dedos voavam pelas cordas. Mas Karen, que o conhecia tão bem, notou a diferença. Não havia o sorriso habitual que ele trocava com o público nos primeiros minutos. Seu rosto estava endurecido, uma máscara de concentração absoluta e, talvez, de uma raiva canalizada para a música.

Durante a primeira metade do show, ele não olhou para o lado onde ela estava. Ele interagia com Guido, brincava com Gastón, mas evitava o lado esquerdo do palco. O coração de Karen afundava a cada música. Ela se sentia invisível, um fantasma de um erro cometido em uma noite de embriaguez.

Foi durante a introdução de uma balada mais lenta que as coisas mudaram. Pato se aproximou do microfone e começou a dedilhar os acordes de "Cae el Sol". O público acendeu as luzes dos celulares, criando um mar de estrelas dentro do auditório.

— Essa cidade sempre nos recebe com uma energia incrível — disse Pato ao microfone, a voz ecoando com uma profundidade que fez Karen estremecer. — Mas às vezes, a noite nos prega peças. Às vezes, a gente se perde em meio às luzes e esquece o que realmente importa.

Ele fez uma pausa, e por um breve segundo, seus olhos se desviaram para a lateral do palco. Ele a viu. Karen estava ali, com as mãos entrelaçadas, os olhos brilhando com lágrimas que ela não conseguia mais conter. O olhar dele permaneceu nela por um tempo que pareceu uma eternidade, um misto de mágoa e uma saudade que nenhum dos dois sabia como expressar em palavras.

Ele começou a cantar, e a letra parecia um recado direto para ela. Cada verso sobre desencontros e buscas ganhava um novo significado. Karen sentiu que o ar lhe faltava. Ela percebeu que, para Pato, o problema não era apenas a hora que ela chegou ou a tequila; era o fato de que, em um momento em que ele precisava se sentir seguro para enfrentar aquele palco, ela havia se tornado uma fonte de incerteza.

O show terminou em um clímax de distorção e aplausos em pé. Os irmãos agradeceram, abraçaram-se e saíram do palco sob uma chuva de confetes. Karen permaneceu onde estava, incapaz de se mover, até que a equipe de produção começou a desmontar os equipamentos.

Ela caminhou lentamente em direção aos camarins. O corredor estava cheio de gente, mas ela só tinha olhos para a porta que ostentava o nome de Pato. Ela hesitou antes de bater. Antes que pudesse levar a mão à madeira, a porta se abriu.

Pato estava lá, sem a jaqueta, o suor fazendo sua camisa grudar no corpo, uma toalha pendurada no pescoço. Ele parecia exausto.

— Você veio — disse ele, a voz quase um sussurro.

— Eu prometi que viria — ela respondeu, dando um passo à frente. — Você foi incrível, Pato. Como sempre.

Ele deu espaço para ela entrar e fechou a porta, bloqueando o barulho das comemorações lá fora. O camarim estava silencioso, exceto pelo zumbido do ar-condicionado.

— Eu não queria ter dito aquelas coisas ontem — Karen começou, as palavras saindo em um fluxo desesperado. — Eu fui egoísta. Eu estava feliz por estar aqui, feliz por ver minhas amigas, e eu simplesmente... eu não pensei. Eu não pensei em como isso afetaria você. Eu te amo mais do que qualquer coisa, e me dói saber que eu fui a causa da sua noite sem sono.

Pato sentou-se no sofá de couro, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele ficou em silêncio por um longo tempo, olhando para as próprias mãos.

— O problema, Karen, é que eu conto os dias para estar com você — ele disse finalmente, sem olhar para ela. — A turnê é exaustiva. É muita pressão, muita gente querendo um pedaço de nós. Você é meu porto seguro. Quando eu estou em uma cidade estranha e sei que você está no quarto de hotel me esperando, eu sinto que posso enfrentar qualquer coisa.

Ele levantou o olhar, e Karen viu que a raiva havia desaparecido, dando lugar a uma vulnerabilidade que ele raramente mostrava.

— Ontem, quando deu duas, três da manhã e você não atendia... eu não fiquei apenas bravo. Eu fiquei com medo. Eu me senti sozinho. E eu odiei sentir que a pessoa que deveria estar cuidando do nosso futuro estava sendo descuidada com o presente.

Karen caminhou até ele e ajoelhou-se no chão, segurando suas mãos. As mãos dele estavam frias, apesar do calor do show.

— Eu nunca mais vou fazer você se sentir assim — ela prometeu, beijando os nós de seus dedos. — Eu errei a mão. Eu me deixei levar. Mas eu estou aqui agora. Eu sou sua noiva, e eu quero ser o seu porto seguro, não a sua tempestade.

Pato soltou um longo suspiro, o peso dos ombros parecendo diminuir. Ele estendeu a mão e acariciou o rosto dela, limpando uma lágrima que escapava.

— A tequila mexicana é perigosa, Karen — ele disse, com o primeiro vestígio de um sorriso aparecendo no canto da boca.

— Eu aprendi a lição da pior maneira possível — ela riu, um riso de alívio. — Da próxima vez, eu fico na água tônica.

— Não precisa ser tão radical — Pato a puxou para cima, fazendo-a sentar em seu colo. — Só... me avisa. Me deixa saber que você está bem. Eu preciso saber que você está bem para eu poder estar bem.

— Eu prometo — disse ela, selando a promessa com um beijo que começou lento e carregado de desculpas, transformando-se em algo mais profundo, que apagava o amargor das últimas vinte e quatro horas.

Eles ficaram ali abraçados por um tempo, o silêncio do camarim agora sendo um refúgio, não uma prisão.

— Então — disse Pato, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela —, o que você achou do solo de "Cae el Sol"? Eu mudei o final pensando em você.

— Eu percebi — Karen sorriu, encostando a testa na dele. — Foi a conversa mais bonita que a gente teve o dia todo.

— É — ele concordou, apertando-a mais forte. — Mas agora eu prefiro as palavras. E prefiro que você não saia de perto de mim pelo resto da noite.

— Não vou a lugar nenhum — garantiu ela.

Lá fora, a Cidade do México continuava sua festa eterna, mas dentro daquele pequeno camarim, o ritmo era outro. Era o ritmo de dois corações tentando se ajustar novamente após uma nota fora do tom. A turnê continuaria, os shows seriam muitos, e a tequila continuaria nas prateleiras dos bares do Polanco. Mas Karen sabia que, dali em diante, nenhuma diversão valeria o preço de ver o brilho desaparecer dos olhos do homem que ela amava.

Pato se levantou, ainda segurando a mão dela.

— Vamos. Os garotos querem ir jantar. E dessa vez, eu vou escolher a bebida.

— Justo — Karen riu, seguindo-o. — Contanto que não seja algo que me faça esquecer que horas são.

— Eu te lembro — ele disse, dando um beijo rápido em sua têmpora antes de abrir a porta. — Eu sempre vou te lembrar o caminho de volta para casa.