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Continuação

Entre Sombras e Berços

O Pequeno Palácio nunca pareceu tão opressor e, ao mesmo tempo, tão estranhamente acolhedor. Para Clara, o retorno forçado não foi o pesadelo de masmorras que ela imaginara, mas sim uma gaiola de ouro onde as grades eram feitas de seda e a vigilância era constante. Aleksander — o General, o Darkling, o homem que agora reivindicava cada centímetro de sua existência — havia cumprido sua promessa. Ela estava de volta aos seus antigos aposentos, agora ampliados para incluir um berçário que ostentava o luxo de um príncipe.

Clara caminhava pelo quarto, sentindo o peso de seu próprio corpo. Ela sempre fora uma mulher de curvas generosas, mas a maternidade lhe dera uma nova plenitude. Suas mãos, habilidosas na arte de ler mentes e manipular o sangue, agora passavam a maior parte do tempo trocando fraldas de linho fino e segurando o pequeno bebê.

— Ele está dormindo? — A voz de Kirigan surgiu da entrada, baixa e desprovida da frieza cortante que ele usava com seus subordinados.

Clara se sobressaltou, virando-se para vê-lo. Ele não usava o kefta de guerra; estava com uma túnica simples de seda preta, o cabelo levemente desalinhado. Ele se aproximou do berço de ébano esculpido com motivos de corvos e sombras.

— Acabou de pegar no sono — sussurrou Clara, observando-o. — Você não deveria estar no conselho de guerra? Ou com a Conjuradora do Sol?

Kirigan ignorou a farpa sobre Alina. Ele se inclinou sobre o berço, e Clara prendeu a respiração. Era um contraste absurdo: o homem que comandava as sombras e inspirava terror em dois continentes estava ali, estendendo um dedo longo para que o bebê, mesmo dormindo, o segurasse por instinto.

— Ele tem um aperto forte — comentou Kirigan, e havia um brilho genuíno de fascínio em seus olhos escuros. — E o batimento cardíaco... é rítmico, poderoso. Ele é um Sangria, como você, Clara. Mas sinto a escuridão nele também. Ele será o equilíbrio perfeito.

— Ele é um bebê, Aleksander — disse ela, aproximando-se e sentindo o cheiro de sândalo que emanava dele. — Não tente transformá-lo em um soldado antes que ele aprenda a falar.

Kirigan endireitou o corpo, olhando para Clara. Por um momento, a possessividade que a fizera fugir para o Grande Palácio brilhou em seu olhar, mas logo foi substituída por algo mais complexo.

— Eu não quero um soldado. Quero um herdeiro. Alguém que não precise temer o tempo como os mortais temem. Alguém que entenda o que é ser eterno.

Clara sentiu a mente dele se abrir levemente. Para sua surpresa, não encontrou apenas planos de conquista. Havia um vazio profundo que o bebê parecia preencher de uma forma que ela nunca conseguira. Kirigan estava sendo, contra todas as expectativas, um pai presente. Ele visitava o quarto várias vezes ao dia, trazia brinquedos de madeira feitos pelos melhores artesãos de Ravka e, às vezes, passava horas apenas observando o filho dormir.

— Você precisa descansar, Clara — disse ele, a mão descendo para repousar no ombro dela. — Você está pálida.

— É difícil descansar quando não sei qual será o meu futuro. Ou o dele.

— O futuro dele é ao meu lado. E o seu também.

Ele a puxou para perto. Clara tentou resistir, mas o corpo dela se lembrava do dele com uma traição dolorosa. Ela era uma Sangria; podia sentir como o sangue dele acelerava quando ele a tocava.

— Você ainda está zangada por eu ter trazido você de volta — murmurou ele contra seu cabelo. — Mas admita... você prefere estar aqui, onde posso protegê-los, do que ser uma peça no jogo da Rainha.

— Lá eu tinha liberdade — rebateu ela, embora a voz soasse fraca.

— Liberdade é uma ilusão para pessoas como nós, Clara. Aqui, você tem poder. E tem a mim.

Ele a beijou na testa — um gesto que ele repetia com frequência agora — antes de se retirar silenciosamente. Clara ficou parada, o coração batendo forte. Ela odiava o quanto ele a conhecia. Odiava o fato de que, apesar de toda a frieza dele com o mundo, ele tratava o bebê com uma ternura que ela nunca vira o General demonstrar por ninguém.

Os dias se transformaram em semanas. O pequeno Aleksander — que Kirigan insistia em chamar pelo nome completo, enquanto Clara preferia apenas "meu amor" — crescia rápido. Suas bochechas eram tão grandes e macias que os criados Grisha não resistiam a sorrir quando passavam por ele. Ele era o sol secreto do Pequeno Palácio, escondido de todos, exceto dos mais leais ao General.

Certa tarde, o calor dentro dos aposentos tornou-se insuportável. Clara sentia-se sufocada. Ela precisava de ar, de ver o céu sem as molduras das janelas de seus aposentos. Sabendo que Kirigan estava em uma demonstração pública com Alina nos jardins inferiores, Clara decidiu levar o bebê para um passeio pelos terraços superiores, uma área geralmente deserta durante aquele horário.

Ela envolveu o menino em um xale de seda e saiu. A brisa de outono era refrescante contra seu rosto. Ela caminhou devagar, sentindo-se mais leve. No entanto, sua habilidade de ler mentes começou a captar fragmentos de pensamentos vindos do pátio logo abaixo do baldaquino de pedra onde ela se encontrava.

*Esperança... luz... o destino de Ravka...*

Eram os pensamentos de Alina Starkov. Eram brilhantes, mas cheios de dúvida e uma admiração cega.

Clara aproximou-se da borda do terraço, escondendo-se atrás de uma videira trepadeira. Lá embaixo, no jardim privativo que Kirigan costumava dizer que era "delas" nos tempos em que eram amantes, ele estava com a Conjuradora do Sol.

Alina parecia radiante em seu kefta dourado, o rosto corado pelo esforço de uma demonstração de luz. Kirigan estava parado à frente dela, as mãos nos ombros da garota.

— Você é a chave, Alina — a voz dele subiu, carregada daquela sedução magnética que Clara conhecia tão bem. — Sem você, o mundo continua em trevas. Com você... eu posso finalmente trazer a paz.

Clara sentiu uma pontada de náusea. Ela já ouvira aquelas palavras. Ela já fora o "tesouro" dele, a "única capaz de entender seu fardo".

— Eu quero ajudar — disse Alina, a voz trêmula de emoção. — Eu quero ser o que você precisa que eu seja.

Kirigan sorriu. Não era o sorriso terno que ele dava ao bebê no berço. Era o sorriso de um predador que finalmente encurralou sua presa. Ele inclinou o rosto, aproximando-se de Alina.

Clara deveria ter desviado o olhar. Ela deveria ter voltado para o quarto e protegido seu coração. Mas ela ficou paralisada.

Lá embaixo, o General Kirigan tomou os lábios de Alina Starkov em um beijo. Foi um beijo lento, possessivo, desenhado para selar a lealdade da garota e prendê-la irrevogavelmente à sua vontade.

O mundo de Clara girou. O bebê em seus braços soltou um pequeno resmungo, e ela o apertou contra o peito, sentindo as lágrimas queimarem seus olhos. A traição não era nova — ela sabia que ele estava usando a Conjuradora —, mas ver a cena, ver o homem que horas antes a abraçara e jurara proteção a ela e ao filho beijando outra mulher com tanta facilidade, foi como uma facada em sua alma de Sangria.

Ela recuou das sombras da videira, o coração disparado. Ela não precisava ler a mente dele para saber o que estava acontecendo. Kirigan era um mestre em manter cada pessoa em sua devida caixa. Alina era a arma, o poder, a face pública de sua nova era. Clara... Clara era o segredo, o conforto, a mãe de seu herdeiro.

Ele achava que podia ter as duas. Ele achava que a possessividade dele sobre Clara era suficiente para mantê-la satisfeita enquanto ele buscava a luz de outra.

Clara voltou para seus aposentos quase correndo. Ela trancou a porta e colocou o bebê no berço. O menino abriu os olhos — olhos tão escuros e profundos quanto os do pai — e sorriu para ela, exibindo as gengivas lisinhas.

— Ele não vai ter você — sussurrou Clara, as lágrimas caindo sobre o lençol do berço. — Ele não vai transformar sua vida nessa rede de mentiras.

Ela sentiu uma presença do outro lado da porta. Não precisou de seus dons para saber quem era. O cheiro de sombras e o peso da autoridade o denunciavam.

Kirigan entrou minutos depois, usando sua chave mestra. Ele parecia revigorado, o olhar brilhante.

— Você saiu — disse ele, sem preâmbulos. — Eu senti sua falta nos jardins.

— Eu vi você, Aleksander — disse Clara, a voz fria como gelo, virando-se para encará-lo. — Eu vi você com ela.

O General não vacilou. Ele não demonstrou culpa. Em vez disso, caminhou até ela com uma calma exasperante.

— Alina é uma necessidade política, Clara. Eu já lhe disse isso. Ela é a luz que Ravka exige.

— E o beijo? Também foi uma necessidade política?

Kirigan parou a poucos centímetros dela. Ele estendeu a mão para tocar o rosto de Clara, mas ela desviou.

— Foi um meio para um fim — respondeu ele, a voz baixando para um tom perigosamente suave. — Alina Starkov é uma criança brincando com o sol. Ela precisa de direção, de um vínculo que a impeça de fugir. O que eu tenho com ela é estratégia. O que eu tenho com você...

— O que você tem comigo é uma prisioneira — interrompeu Clara. — E um filho que você usa para me manter aqui.

Kirigan soltou um suspiro impaciente, mas então olhou para o berço. O bebê começou a agitar as perninhas gordinhas, reconhecendo a voz do pai. O rosto do Darkling suavizou-se instantaneamente, uma mudança de expressão que sempre desarmava Clara.

— Eu não quero que você seja uma prisioneira — disse ele, voltando-se para ela, e desta vez ele segurou seu rosto com ambas as mãos, forçando-a a olhar para ele. — Mas eu não vou perder vocês. Nem para a Rainha, nem para o mundo, nem para a sua própria teimosia.

— Você a beijou, Aleksander. Você deu a ela o que um dia me prometeu.

— Eu dei a ela uma ilusão — afirmou ele com uma convicção assustadora. — Eu dou a você a realidade. Dou a você o meu filho. Dou a você este palácio. Se você quer que eu pare de vê-la, sabe que é impossível. Mas saiba que, quando as luzes se apagam e a guerra termina, é para cá que eu volto. É este cheiro que eu busco.

Ele a beijou então. Não foi o beijo calculado que ele dera a Alina no jardim. Foi um beijo faminto, desesperado, carregado de uma possessividade que beirava a loucura. Clara tentou odiá-lo. Ela tentou empurrá-lo. Mas ela era uma Sangria e podia sentir o quanto o corpo dele ansiava pelo dela, o quanto a mente dele, embora cheia de sombras e traições, estava ancorada nela naquele momento.

Ele se afastou apenas o suficiente para sussurrar contra seus lábios:

— Deixe-me ser o General lá fora, Clara. Deixe-me fazer o que é necessário para garantir que nosso filho nunca tenha que lutar uma guerra. Mas aqui dentro... aqui eu sou apenas seu.

— Você mente tão bem que quase acredita em si mesmo — soluçou ela.

— Eu não minto sobre o que sinto por ele. Ou por você.

Ele se afastou e foi até o berço. Pegou o pequeno Aleksander nos braços, sustentando o peso do bebê com uma facilidade natural. O menino agarrou a gola do kefta preto de Kirigan e soltou uma gargalhada borbulhante.

— Veja — disse o General, um sorriso raro e verdadeiro iluminando seu rosto. — Ele não se importa com conjuradores de sol ou rainhas. Ele sabe quem nós somos.

Clara observou os dois. O homem mais perigoso do mundo ninando um bebê gordinho e cheiroso que era sua cópia exata. Era uma imagem de paz construída sobre um alicerce de mentiras e sombras.

Ela sabia que não podia fugir. Não enquanto Kirigan amasse o filho daquela maneira — uma maneira que era, ao mesmo tempo, sua maior virtude e seu pecado mais sombrio.

— Você vai destruí-la, não vai? — perguntou Clara, referindo-se a Alina.

Kirigan olhou para ela por cima do ombro, a frieza retornando aos seus olhos por um breve segundo antes de focar novamente no bebê.

— Eu vou fazer o que for preciso para que ele herde um império, não uma ruína.

Clara sentou-se na cama, sentindo o peso de sua escolha. Ela ficaria. Ela seria a sombra atrás do trono, a mulher que lia os pensamentos do Darkling e curava seu sangue quando a guerra o feria. Ela suportaria ver Alina Starkov brilhar ao lado dele sob o sol, contanto que, ao cair da noite, ele voltasse para o berço de ébano e para os braços dela.

Era um preço alto. Era uma vida de migalhas de afeto misturadas com o luxo absoluto. Mas enquanto olhava para o filho nos braços do pai, Clara percebeu que, em Ravka, o amor nunca era simples. Ele era sempre uma negociação com a escuridão.

— Traga-o aqui — pediu ela suavemente.

Kirigan obedeceu, sentando-se ao lado dela na cama com o bebê entre os dois. Por um momento, a traição no jardim pareceu um sonho distante. Ali, no silêncio dos aposentos protegidos, eles eram apenas uma família. Uma família construída sobre segredos, mas unida por um sangue que nenhum deles podia negar.

— Ele vai ser grande — murmurou Kirigan, beijando o topo da cabeça do filho.

— Ele vai ser amado — corrigiu Clara, pegando a mãozinha do bebê. — Isso é o que importa.

Kirigan não discutiu. Ele apenas a puxou para mais perto, envolvendo-os em sua capa de sombras, criando um mundo onde apenas os três existiam, enquanto lá fora, o sol da Conjuradora começava a se pôr.