Continuação amor sombrio
O Último Recurso da Carne e o Sangue das Estrelas
A névoa de New Jersey rastejava pelos vitrais da mansão Addams como dedos esqueléticos, mas o frio que Tyler sentia não vinha do clima. Vinha do centro do seu peito, um buraco negro que nem mesmo a fúria do Hyde conseguia preencher. Wandinha o havia reduzido a nada na estufa. Suas palavras, precisas como bisturis, haviam removido a última camada de dignidade que ele tentava manter.
Ele estava no laboratório do porão, cercado por frascos de venenos antigos e instrumentos de tortura que Wandinha considerava relíquias. O silêncio era absoluto, exceto pelo gotejar rítmico de uma torneira enferrujada. Tyler olhou para a adaga de obsidiana sobre a bancada — a mesma que Wandinha usara para selar o pacto de sangue entre eles.
— Se eu sou apenas uma ferramenta — sussurrou ele, a voz embargada —, então uma ferramenta quebrada deve ser descartada.
Ele pegou a lâmina. O toque do vidro vulcânico era gélido. Tyler não queria que o Hyde o salvasse; ele queria o fim daquela oscilação torturante entre ser um monstro e ser um homem que amava uma estátua de gelo. Ele posicionou a ponta da adaga contra o próprio pulso, onde as veias pulsavam com o sangue Addams que o mantinha vivo e escravizado.
— PARE!
O grito rasgou o ar do laboratório. Tyler deu um sobressalto, a lâmina cortando apenas superficialmente a pele antes de ele se virar. Wandinha estava parada na soleira da porta, o rosto mais pálido do que o habitual, os olhos arregalados em uma expressão que Tyler nunca vira: terror genuíno.
— O que você está fazendo, seu idiota imbecil? — ela avançou, a voz tremendo em uma oitava que ela não conseguia controlar.
Tyler deu um passo para trás, rindo de forma histérica, as lágrimas finalmente transbordando.
— O que parece, Wandinha? Estou fazendo a manutenção! Você disse que eu era uma ferramenta, não disse? Ferramentas velhas são jogadas fora!
— Largue essa adaga agora! — ordenou ela, mas havia uma nota de súplica por trás da autoridade.
— Por que? Para você ter mais um dia de diversão me humilhando? — Tyler gritou, a voz falhando enquanto ele desabava no chão, a adaga caindo de suas mãos trêmulas. — Eu não aguento mais! Eu matei por você, eu me transformei em um pesadelo por você! Eu sinto o seu vazio, Wandinha, eu sinto cada centímetro da sua indiferença e isso dói mais do que qualquer transformação! Você me trata como se eu não passasse de um experimento de ciências!
Wandinha parou a poucos centímetros dele. Ela olhou para o pequeno corte no pulso dele e depois para o rosto devastado de Tyler. O silêncio que se seguiu não era frio; era pesado, carregado com algo que Wandinha vinha tentando enterrar desde que saíram de Jericó.
— Você acha que é o único que sofre? — perguntou ela, e para o choque de Tyler, uma lágrima solitária e pesada escorreu pelo rosto de mármore dela. — Você acha que é fácil carregar o peso de saber que eu sou a única coisa que te mantém são? Que se eu falhar, você se perde para sempre?
— Então por que me trata assim? — Tyler soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. — Por que me afasta?
— Porque eu não sei como fazer de outro jeito! — Wandinha explodiu, ajoelhando-se diante dele na sujeira do porão. — Eu sou uma Addams! Nós amamos a morte, o escuro e a dor! Eu não sei como amar algo que respira, que chora, que... que me olha do jeito que você olha!
Ela chorava abertamente agora, um espetáculo que faria seus antepassados se revirarem nos túmulos, mas que para Tyler era a visão mais linda que já tivera. Ela agarrou a frente da camisa dele, puxando-o para perto.
— Se você morrer — sussurrou ela contra os lábios dele —, eu juro que vou queimar o mundo inteiro só para encontrar a sua alma e te trazer de volta para eu mesma te matar por ter me deixado sozinha.
Tyler não esperou. Ele a puxou para um beijo que era puro desespero, uma colisão de dentes e línguas que provava sangue e sal. Wandinha respondeu com uma ferocidade que rivalizava com a do Hyde. Não havia mais mestre ou monstro; havia apenas dois seres quebrados tentando se fundir em um só.
Eles se moveram como um único organismo. Tyler a levantou, as costas de Wandinha batendo contra a mesa de carvalho pesada, derrubando pergaminhos e frascos que se estilhaçaram no chão. O cheiro de ervas e poeira misturava-se ao calor da pele deles. As mãos de Tyler percorriam o corpo pequeno de Wandinha com uma urgência febril, enquanto as unhas dela cravavam-se nos ombros dele, marcando-o como seu.
— Tyler... — ela arquejou, o nome dele soando como uma oração profana.
— Eu sou seu — disse ele, a voz rouca, mergulhando o rosto no pescoço dela. — Sempre fui seu.
O que se seguiu foi uma noite de amor que teria horrorizado a sociedade, mas que nas sombras da mansão Addams, parecia um rito de passagem. Foi bruto, intenso e carregado de uma entrega que nenhum dos dois acreditava ser capaz. Tyler, em seu ápice de possessividade e paixão, marcou a pele pálida de Wandinha com lábios e dentes, deixando manchas arroxeadas e rubras ao longo de seu pescoço e clavícula, como constelações de um céu sombrio.
Quando a madrugada começou a tingir o céu de cinza, eles estavam deitados sobre um tapete de pele de urso diante da lareira moribunda do laboratório. Wandinha estava aninhada no peito de Tyler, a respiração finalmente calma.
— Você é um monstro terrível — murmurou ela, passando os dedos pelos cabelos dele.
— Você me treinou bem — Tyler sorriu, beijando o topo da cabeça dela. — O que fazemos agora?
— Agora — disse ela, recuperando um pouco de sua secura habitual, embora ainda envolta nos braços dele —, nós enfrentamos o café da manhã. E eu sugiro que você não se desculpe por nada.
Algumas horas depois, Wandinha desceu para a sala de jantar. Ela não se deu ao trabalho de usar uma gola alta; seu vestido preto de corte quadrado deixava as marcas no seu pescoço perfeitamente visíveis. Tyler a seguia, tentando manter uma expressão neutra, mas com um brilho de satisfação nos olhos que ele não conseguia ocultar.
Morticia e Gomez já estavam à mesa, bebendo o que parecia ser café com arsênico e trocando olhares apaixonados. Quando Wandinha se sentou, o silêncio caiu sobre a mesa. Gomez parou com a xícara no ar, seus olhos saltando para as marcas no pescoço da filha.
Morticia inclinou a cabeça, um sorriso enigmático e orgulhoso surgindo em seus lábios pintados de carmim.
— Wandinha, querida — começou Morticia, a voz aveludada —, vejo que o seu treinamento com o jovem Tyler atingiu um nível... biológico muito interessante.
Gomez soltou uma gargalhada exuberante, batendo com a mão na mesa.
— Minha pequena tempestade! — exclamou ele, os olhos brilhando de alegria. — Vejo que você finalmente entendeu o que eu sempre disse: não há nada mais revigorante para a alma do que uma noite de tormento mútuo! Tyler, rapaz, você tem dentes excelentes!
Tyler ficou vermelho até a raiz dos cabelos, pigarreando e sentando-se rapidamente.
— Obrigado, Sr. Addams. Eu... nós estávamos apenas discutindo a estabilização do Hyde.
— Ah, sim — disse Wandinha, pegando uma torrada queimada com uma calma imperturbável. — A estabilização foi um sucesso absoluto. Os resultados são visíveis, como podem notar.
Morticia estendeu a mão e tocou a mão de Gomez por cima da mesa, ambos olhando para a filha com uma aprovação que beirava a adoração.
— É maravilhoso ver as tradições de família sendo mantidas — comentou Morticia. — Marcar o que nos pertence é fundamental para evitar confusões com o mundo exterior.
Wandinha olhou para Tyler por cima da mesa. Não houve palavras, mas no fundo de seus olhos escuros, ele viu algo que valia mais do que qualquer declaração: um reconhecimento. Ela não o via mais como uma ferramenta. Ela o via como o único ser capaz de sobreviver ao seu caos e, mais do que isso, de habitá-lo.
— O Círculo de Sangue pode mandar quem quiser agora — disse Wandinha, levando a xícara aos lábios. — Eles vão descobrir que não enfrentam apenas um monstro e sua mestre.
— Eles enfrentam dois Addams — completou Gomez, piscando para Tyler.
Tyler sorriu, sentindo o Hyde e o homem finalmente em paz. Ele olhou para Wandinha, para as marcas que ele deixara nela e para as marcas que ela deixara em sua alma, e soube que, por mais terrível que o futuro pudesse ser, ele nunca mais estaria sozinho no escuro.