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Pés de Seda e Saltos de Vidro
A manhã de segunda-feira nasceu com uma névoa densa cobrindo os arranha-céus, refletindo o clima pesado que ainda pairava sobre a cobertura de Emanuel. Após o desastroso episódio da festa, o silêncio entre os três era quase sólido. Emanuel, movido por uma mistura de culpa e uma necessidade desesperada de restaurar a ordem em seu harém particular, decidiu que a solução seria um "dia de paz". E, no mundo de Emanuel, a paz muitas vezes era comprada com cartões de crédito sem limite.
— Eu não quero ir, Emanuel — murmurou Eduarda, sentada à mesa do café, os olhos baixos focados na xícara de porcelana. — Eu só queria ficar em casa, ler meus livros...
— Você vai, Duda — Emanuel respondeu, sua voz firme, embora não agressiva. Ele estava vestindo um terno sob medida, pronto para enfrentar o dia, mas seus olhos mostravam o cansaço de quem não dormira bem. — Precisamos sair desse ambiente. Vou levar vocês ao shopping. Comprem o que quiserem. Considerem um pedido de desculpas pelo que aconteceu.
— Um pedido de desculpas? — A voz de Sara veio do corredor, carregada de sarcasmo. Ela apareceu usando um conjunto de ginástica de grife, tão justo que parecia uma segunda pele, realçando cada curva trabalhada em cirurgias e academia. — Acho bom mesmo. Aquela pirralha me chamou de "larga" na frente de todo mundo, Emanuel. Eu ainda não superei isso.
Eduarda encolheu os ombros, sentindo a habitual onda de insegurança, mas Emanuel interveio antes que a discussão recomeçasse.
— Já chega, Sara. O assunto morreu no sábado. Estejam prontas em vinte minutos.
O trajeto até o shopping mais luxuoso da cidade foi feito em um silêncio cortante dentro da SUV blindada. Emanuel dirigia com as mãos firmes no volante, enquanto Eduarda olhava pela janela, perdida em seus pensamentos sobre a Renascença italiana, e Sara checava incessantemente suas redes sociais, bufando a cada poucos minutos para garantir que seu descontentamento fosse notado.
Ao chegarem, o cenário era o ápice do consumo de elite. Vitrines de cristal, seguranças de luvas brancas e o aroma de perfumes importados. Emanuel caminhava entre as duas, uma mão ocasionalmente pousando nas costas de Eduarda para guiá-la, enquanto Sara desfilava à frente, atraindo olhares com sua presença ruidosa e seu perfume invasivo.
— Vamos entrar naquela ali — apontou Sara para uma boutique de calçados de edição limitada, famosa por atender apenas celebridades e a elite financeira. — Me disseram que a coleção nova chegou hoje.
Emanuel assentiu, esperando que o brilho das vitrines fosse o suficiente para distrair as feras. Ao entrarem na loja, a atmosfera mudou. O carpete era tão macio que abafava os passos, e o atendimento era individualizado. Uma vendedora jovem, vestida impecavelmente de preto, aproximou-se com um sorriso treinado.
— Bem-vindos. Em que posso ajudá-los hoje?
— Queremos ver o que há de mais exclusivo — declarou Sara, jogando o cabelo loiro para trás e apoiando as mãos nos quadris, fazendo questão de destacar o busto.
A vendedora conduziu o grupo até um pedestal de veludo no centro da loja. Sobre ele, repousava um par de sapatos que parecia ter saído de um sonho — ou de um museu. Eram scarpins de um tom de azul-meia-noite profundo, com detalhes em cristais que imitavam constelações e um salto fino, esculpido como uma obra de arte.
Eduarda, geralmente indiferente a marcas, sentiu o coração disparar. Para ela, aquele sapato não era apenas moda; era estética pura, uma composição de cores e formas que lembrava a "Noite Estrelada" de Van Gogh.
— Meu Deus... — sussurrou Eduarda, aproximando-se timidamente.
— É maravilhoso! — exclamou Sara ao mesmo tempo, seus olhos brilhando com a cobiça de quem vê um troféu. — Eu quero esse. Emanuel, olhe para isso! É a minha cara.
Emanuel observou o sapato e depois as duas mulheres. Ele sabia que o preço daquela peça poderia comprar um carro popular, mas o dinheiro não era o problema. O problema era o brilho idêntico de desejo nos olhos de ambas.
— É uma edição especial, senhor — explicou a vendedora, mantendo a voz suave. — Existem apenas cinquenta pares no mundo. Este é o único que recebemos nesta unidade.
— Ótimo — disse Sara, já se sentando em um pufe de couro. — Traga o meu número. Trinta e sete.
A vendedora hesitou, olhando para os pés de Sara e depois para o tablet em suas mãos.
— Um momento, por favor. Vou verificar o estoque.
Eduarda continuava parada, olhando para o sapato como se estivesse em transe. Ela nunca pedia nada, nunca exigia presentes caros. Mas aquele sapato... ele parecia falar com sua alma sensível.
— Emanuel... — ela chamou baixinho, puxando levemente a manga do paletó dele. — Eu... eu nunca peço nada, mas esse sapato é a coisa mais linda que eu já vi.
Emanuel sentiu um aperto no peito. Ele raramente via Eduarda demonstrar interesse por algo material com tanta intensidade. Por outro lado, ele sentia o olhar predatório de Sara sobre ele, um aviso silencioso de que, se ela não recebesse o que queria, o inferno seria pouco perto do que ela causaria.
A vendedora voltou, seu semblante era de uma polidez quase apologética.
— Sinto muito, senhora — disse ela, dirigindo-se a Sara. — O único par que temos é o número trinta e quatro.
O rosto de Sara caiu. Ela olhou para os próprios pés, que, embora bem cuidados, eram largos e estruturados, condizentes com sua estatura e porte físico.
— Como assim? Procure em outra loja! Peça para entregarem! — Sara começou a se exaltar, a voz subindo de tom, atraindo a atenção de outros clientes.
— Infelizmente, não há outros disponíveis no país — explicou a vendedora, tentando manter a calma. — Na verdade, essa coleção específica foi desenhada com uma fôrma muito estreita e delicada. O designer a pensou exclusivamente para pés muito finos e pequenos, o que chamamos de "pés de porcelana".
Eduarda, que calçava exatamente trinta e quatro e tinha pés extremamente delgados, sentiu o rosto esquentar. Ela olhou para Emanuel, que agora processava a informação.
— Trinta e quatro é o número da Eduarda — disse Emanuel, sua voz soando como uma sentença de morte para o bom humor de Sara.
— O quê? — Sara levantou-se de um salto, o rosto ficando vermelho sob a maquiagem pesada. — Você está brincando comigo? Eu sou a namorada principal aqui, Emanuel! Você vai dar esse sapato para essa... essa sonsa, só porque ela tem pé de criança?
— Sara, controle-se — Emanuel advertiu, sentindo a irritação crescer. — Não é uma escolha minha, é uma questão de anatomia. O sapato não serve em você.
— Não serve porque essa loja é ridícula! — Sara se virou para a vendedora, os olhos faiscando de ódio. — O que você quis dizer com "pés delicados"? Está dizendo que o meu pé é o quê? Grosso? Vulgar?
A vendedora, visivelmente desconfortável, tentou recuar.
— De forma alguma, senhora. É apenas o conceito da coleção... para mulheres de estrutura mais leve...
— Estrutura leve! — Sara soltou uma risada histérica e amarga. — Ela está me chamando de cavalo, Emanuel! Você vai deixar essa mulher me insultar?
— Ninguém está te insultando, Sara — Eduarda interveio, sua voz sendo um contraste suave com os gritos da outra. — É apenas um sapato. Se não serve, não serve.
— "É apenas um sapato" — Sara imitou a voz de Eduarda de forma infantil e debochada. — Fácil dizer quando você é toda miudinha e murcha. Você é tão sem graça que até as marcas de luxo sentem pena e fazem coisas minúsculas para ver se você aparece no mundo!
— Sara, chega! — O grito de Emanuel silenciou a loja. Ele se aproximou dela, a expressão endurecida pelo estresse que ele tanto tentara evitar naquele dia. — Você está fazendo um espetáculo por causa de um par de sapatos. Isso é patético.
— Patético é você preferir ela! — Sara rebateu, as lágrimas de raiva começando a borrar seu rímel caro. — Você sempre protege essa coisinha manhosa.
Emanuel ignorou o drama de Sara por um momento e voltou-se para a vendedora.
— Por favor, traga o par para ela experimentar — ele apontou para Eduarda.
Eduarda sentou-se, o coração batendo forte. Quando a vendedora deslizou o scarpin em seu pé, o encaixe foi perfeito. Parecia ter sido moldado para ela. O azul-meia-noite ressaltava a brancura de sua pele, e os cristais brilhavam sob as luzes da loja. Ela se levantou e caminhou alguns passos; a delicadeza do sapato acentuava sua postura elegante e natural.
— Ficou perfeito, Duda — Emanuel comentou, e por um breve segundo, um sorriso genuíno apareceu em seu rosto. Ele admirava a beleza clássica de Eduarda, algo que não precisava de esforço ou de excessos.
— Eu quero eles, Emanuel... — ela disse, os olhos brilhando de felicidade.
— Eles são seus — ele respondeu, entregando o cartão de crédito preto para a vendedora.
Sara, vendo a cena, sentiu um ódio visceral. Ver Eduarda, a menina que ela tanto desprezava, ganhando algo que ela mesma cobiçava, e ainda por cima sendo elogiada por ter "pés delicados", era o golpe final em seu ego inflado.
— Eu odeio você, Emanuel! — Sara gritou, pegando sua bolsa de grife e batendo-a contra o balcão. — Eu odeio esse lugar e odeio essa garota!
Ela saiu da loja em disparada, os saltos de sua sandália atual batendo com fúria contra o chão, os ombros largos tensos de indignação. Emanuel suspirou profundamente, fechando os olhos por um instante. Ele sabia que teria que lidar com o surto de Sara mais tarde, com as cobranças, os presentes caros para compensar o "trauma" e as noites de discussão.
Mas, ao abrir os olhos e ver Eduarda se olhando no espelho, com um sorriso tímido e radiante, segurando a sacola da boutique como se fosse um tesouro, ele sentiu que, por um momento, a decisão fora certa.
— Vamos? — perguntou Emanuel, oferecendo o braço para ela.
— Vamos — respondeu Eduarda, aproximando-se dele e apoiando a cabeça em seu ombro por um breve segundo, um gesto de carinho e gratidão que sempre desarmava o empresário.
Enquanto caminhavam pelo shopping, Eduarda sentia-se leve. Pela primeira vez, ela não fora a vítima silenciosa das provocações de Sara. Ela não precisara gritar ou ser vulgar; sua própria natureza, sua delicadeza que Sara tanto tentava transformar em defeito, fora sua maior vitória.
Emanuel, no entanto, sentia o peso do mundo em seus ombros novamente. Ele olhou para o celular, vendo as mensagens furiosas que Sara já começava a enviar. Ele era um homem de negócios, um mestre em estratégia, mas ali, entre a seda e o fogo, ele percebia que estava jogando um jogo onde ninguém realmente vencia.
Eduarda saiu do shopping feliz, sentindo-se, pela primeira vez, a protagonista de sua própria história. Sara, em algum lugar do estacionamento, provavelmente estava quebrando um de seus próprios sapatos de raiva. E Emanuel, no centro de tudo, apenas desejava que a beleza daquele sapato azul pudesse comprar, ao menos, algumas horas de silêncio antes que a próxima guerra começasse.
— Emanuel? — Eduarda chamou, enquanto entravam no carro.
— Sim, Duda?
— Obrigada. Por me ver.
Emanuel não respondeu com palavras. Apenas apertou a mão dela com força antes de dar a partida. Ele sabia que a paz era temporária, e que o luxo era apenas uma máscara para a rachadura profunda que existia entre eles três. Mas, naquela tarde, o brilho nos olhos de Eduarda valia cada centavo e cada grito de Sara que ele teria que ouvir logo em seguida.