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D

O Brilho do Vidro e o Peso da Carne

O apartamento de Emanuel estava mergulhado em uma penumbra luxuosa, quebrada apenas pelas luzes da cidade que filtravam através das imensas paredes de vidro. O clima, no entanto, não era de descanso. Sara andava de um lado para o outro na sala, o som de seus saltos agulha batendo no mármore como uma contagem regressiva para uma explosão. Ela estava com um copo de vodca na mão e os olhos fixos em Emanuel, que revisava alguns contratos em seu tablet, tentando ignorar a presença elétrica da loira.

— Você está muito monótono, Manu — disparou Sara, parando abruptamente na frente dele. — Desde que essa... essa "boneca de porcelana" se mudou para cá, você parece um aposentado. Onde está aquele homem que gostava de adrenalina?

Emanuel nem sequer levantou os olhos do aparelho.

— Eu trabalho, Sara. Eu gerencio negócios em três continentes. Se você quer adrenalina, vá saltar de paraquedas.

Sara soltou uma risada ruidosa e se inclinou sobre ele, deixando que o decote generoso de seu vestido de seda ficasse a centímetros do rosto dele. O cheiro de seu perfume doce e agressivo invadiu o espaço.

— Eu tenho uma ideia melhor. A Jéssica e a Bianca estão vindo para cá. Elas me perguntaram se você ainda tem aquele "fôlego" de antigamente. Eu disse que você estava meio enferrujado, mas que eu poderia convencer você a mostrar que ainda é o dono da porra toda.

Emanuel finalmente bloqueou a tela do tablet e olhou para ela. Ele conhecia aquele jogo. Antes de Eduarda entrar em sua vida, a dinâmica com Sara era baseada em excessos. Sara nunca sentira ciúmes; pelo contrário, ela sentia prazer em ver Emanuel possuindo outras mulheres, como se o fato de ele voltar para a cama dela no final da noite fosse o troféu máximo de sua posse. Para ela, o sexo era uma transação de poder e diversão, e envolver suas amigas "vips" era apenas uma forma de entretenimento.

— Não estou a fim, Sara — disse ele, a voz seca. — Não tenho mais paciência para essas suas festinhas particulares.

— Ah, qual é! — Sara revirou os olhos, jogando-se no sofá ao lado dele. — Você adorava a Bianca. Ela faz coisas que a sua santinha nem imagina que existem. Vai ser divertido, Manu. Eu assisto, a gente bebe, e você tira esse estresse acumulado. Qual o problema? Você virou monógamo de repente?

— Não é questão de monogamia — Emanuel respondeu, sentindo a irritação crescer. — É questão de vontade. Eu não quero.

— Você não quer ou está com medo de que a "Duda" comece a chorar se descobrir? — O tom de Sara era puro veneno. — Ela é uma criança, Emanuel. Você está deixando uma menina de vinte anos ditar como você vive?

Nesse momento, a porta do corredor se abriu silenciosamente. Eduarda apareceu, usando uma camisola de seda clara e um cardigã por cima, os cabelos levemente bagunçados pelo sono. Ela esfregava os olhos, parecendo ainda mais jovem e frágil sob a luz fria da sala.

— Emanuel? — a voz dela saiu pequena, manhosa. — O que está acontecendo? Por que vocês estão gritando?

Sara sorriu, um brilho predatório surgindo em seus olhos loiros.

— Ótimo, a Bela Adormecida acordou. Chegou bem na hora, Duda. Eu estava apenas sugerindo ao Manu que a gente desse uma animada na noite. Algumas amigas minhas estão chegando.

Eduarda caminhou até Emanuel, ignorando Sara, e sentou-se no braço da poltrona dele, passando os braços pelo pescoço do homem. Ela se aninhou nele, buscando o calor e a proteção que eram sua âncora.

— Amigas? — Eduarda perguntou, olhando para o namorado. — Que amigas?

— Amigas que o Emanuel conhece muito bem, querida — interrompeu Sara, levantando-se e caminhando até o bar para se servir de mais bebida. — Mulheres de verdade, que sabem como satisfazer um homem como ele. Eu estava propondo que ele fodesse uma delas hoje à noite. Ou as duas. Eu não me importo de dividir o brinquedo, sabe?

O corpo de Eduarda retesou instantaneamente. Ela olhou para Emanuel, os olhos grandes e expressivos começando a brilhar com lágrimas de choque e indignação.

— O quê? — a voz de Eduarda tremeu. — Emanuel, você não faria isso... faria?

Emanuel suspirou, sentindo o peso daquela disputa. Ele sentia o corpo de Eduarda tremendo contra o seu, o cheiro suave de sabonete infantil dela contrastando com o álcool e o perfume caro de Sara.

— Eu já disse que não vou fazer nada, Eduarda — ele tentou acalmá-la, passando a mão por seus cabelos.

— Mas ela disse que você já fez! — Eduarda se afastou um pouco, olhando-o com uma mistura de mágoa e uma possessividade que ela raramente demonstrava. — Você costumava fazer essas coisas com as amigas dela? Você transava com outras mulheres na frente dela?

— Isso foi antes de você, Duda — Emanuel respondeu, a voz endurecendo levemente. Ele odiava ter que explicar seu passado de excessos para aquela menina que via o amor como algo puro e quase sagrado.

— Viu só? — Sara riu, encostando-se no balcão com o copo na mão. — Ele era um homem livre antes de você transformá-lo em um ursinho de pelúcia. Deixe ele se divertir, garota. Ele é rico, é poderoso, ele precisa de carne fresca de vez em quando. Você não dá conta de tudo o que ele precisa com essa sua timidez de freira.

Eduarda desceu do braço da poltrona, ficando de pé diante de Emanuel. Ela não era alta, mas a intensidade de sua emoção a fazia parecer maior. As lágrimas agora caíam livremente, mas não eram apenas de tristeza; era uma fúria silenciosa e possessiva.

— Você é meu — ela sussurrou, a voz carregada de uma manha desesperada. — Você é meu, Emanuel. Eu não quero que nenhuma dessas mulheres encoste em você. Eu não quero que você olhe para elas.

— Ora, olhem para ela! — Sara debochou, aproximando-se. — Ficou possessiva a santinha? O que você vai fazer? Vai chorar até ele desistir? Você é patética. Emanuel, a Jéssica acabou de mandar mensagem, elas estão no lobby. Mande o porteiro liberar.

Emanuel olhou para o celular sobre a mesa, depois para Sara, e finalmente para Eduarda. A tensão na sala era quase insuportável.

— Emanuel, por favor... — Eduarda se jogou nos joelhos dele, abraçando suas pernas. — Não deixa elas entrarem. Se você fizer isso, se você tocar em outra mulher... eu vou embora. Eu não consigo dividir você. Eu prefiro morrer a ver você com outra.

— Que drama! — gritou Sara, perdendo a paciência. — Emanuel, mande essa menina para o quarto e seja homem! Você sempre fez o que quis. Vai deixar ela te humilhar assim, te tratando como se você fosse propriedade dela?

Emanuel sentiu a pressão explodir. Ele se levantou abruptamente, fazendo Eduarda recuar. Ele caminhou até o interfone, o rosto uma máscara de rigidez.

— Emanuel! — Eduarda gritou, a voz falhando.

Ele apertou o botão.

— Sim, senhor Albuquerque? — a voz do porteiro ecoou.

— Tem duas mulheres no lobby para o meu apartamento — disse Emanuel, olhando fixamente para Sara.

Sara sorriu, vitoriosa, cruzando os braços sobre os seios siliconados. Eduarda cobriu o rosto com as mãos, soluçando desesperadamente, o corpo pequeno sacudindo no chão.

— Não as deixe subir — ordenou Emanuel, a voz fria como gelo. — Diga que houve um imprevisto e que não receberei ninguém hoje. Nem hoje, nem nunca mais sem o meu convite direto.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelos soluços baixos de Eduarda. O sorriso de Sara desapareceu instantaneamente, substituído por uma expressão de puro choque que rapidamente se transformou em fúria.

— O que você fez? — Sara sibilou, caminhando até ele com os punhos cerrados. — Você me fez passar por idiota? Eu prometi a elas! Eu sou sua namorada, Emanuel! Eu tenho direitos sobre o que acontece nesta porra de casa!

— Você não tem direito a nada que eu não permita, Sara — Emanuel rebateu, sua voz subindo de tom pela primeira vez. — Eu cansei dessa sua vulgaridade. Cansei de você tentar transformar a minha vida em um puteiro barato só porque você não consegue lidar com o fato de que as coisas mudaram.

— Mudaram por causa dela! — Sara apontou para Eduarda com um dedo trêmulo. — Por causa dessa coisinha insignificante que não tem metade do corpo que eu tenho, que não tem metade da minha atitude! O que ela te deu, Emanuel? Um feitiço? Você está cego?

Emanuel ignorou Sara e caminhou até Eduarda. Ele se ajoelhou no chão e a puxou para seus braços. Eduarda se agarrou a ele como se fosse sua única salvação, escondendo o rosto em seu pescoço, molhando sua pele com lágrimas quentes.

— Shhh... já passou — ele murmurou, a voz suavizando apenas para ela. — Ninguém vai entrar aqui. Ninguém vai tocar em mim.

— Você prometeu... — Eduarda soluçava, apertando a camisa dele com as mãos pequenas. — Você é meu, Manu... só meu. Eu não quero que elas vejam você... eu não quero que elas saibam como você é...

— Eu sou seu, Duda. Calma — ele disse, sentindo uma onda de proteção possessiva que o surpreendeu. Ele percebeu que, embora o caos de Sara fosse excitante no passado, a vulnerabilidade absoluta de Eduarda era o que realmente o prendia. O fato de ela precisar dele de forma tão desesperada alimentava seu ego de uma maneira que o sexo grupal nunca conseguira.

Sara observava a cena com um nojo visceral. Ver o homem que ela considerava o auge da masculinidade e do poder ajoelhado no chão, confortando uma menina "manhosa", era o golpe final em seu orgulho.

— Vocês são doentes — Sara cuspiu as palavras, jogando o copo de cristal na parede. O vidro se estilhaçou em mil pedaços, refletindo a luz da cidade. — Você está trocando uma mulher de verdade por uma boneca inflável que chora, Emanuel. Você vai se arrepender disso. Quando você se cansar dessa doçura enjoada e quiser fogo de verdade, não venha me procurar.

— Eu não vou — Emanuel respondeu, sem tirar os olhos de Eduarda. — Agora, saia daqui, Sara. Vá para o seu quarto ou saia para a noite, eu não me importo. Mas se eu ouvir a voz das suas amigas ou a sua provocação mais uma vez hoje, eu juro que coloco suas malas no corredor agora mesmo.

Sara soltou um grito de frustração, um som gutural que ecoou pelo apartamento luxuoso. Ela marchou em direção ao corredor, batendo a porta de seu quarto com tanta força que o som pareceu um tiro de canhão no silêncio da cobertura.

Emanuel continuou no chão, segurando Eduarda. Ele sentia o coração dela batendo contra o seu peito, rápido e assustado.

— Ela me odeia — sussurrou Eduarda, a voz rouca de tanto chorar. — Ela vai tentar de novo, Emanuel. Ela quer tirar você de mim.

— Ela não pode tirar o que eu não quero dar, pequena — ele disse, levantando o queixo dela para que ela o olhasse. Os olhos de Eduarda estavam vermelhos e inchados, mas havia neles uma determinação possessiva que ele nunca tinha visto. — Você precisa confiar em mim.

— Eu confio em você... mas não confio nela. E não confio naquelas mulheres — Eduarda disse, limpando o rosto com as costas das mãos. — Eu quero que você me prometa. Prometa que nunca mais vai deixar ela sugerir essas coisas.

— Eu prometo — ele disse, e pela primeira vez, ele sentiu que aquela promessa era real. O mundo de excessos de Sara estava se tornando um fardo pesado demais para carregar.

Emanuel pegou Eduarda no colo, levantando-se com facilidade. Ela enlaçou as pernas na cintura dele, escondendo o rosto em seu ombro, agindo com aquela manha característica que o desarmava completamente. Ele a levou para o quarto principal, longe do rastro de destruição e vidro quebrado que Sara deixara na sala.

Enquanto ele a deitava na cama e se acomodava ao seu lado, o silêncio da noite finalmente se estabeleceu. Mas era um silêncio tenso. No quarto ao lado, Sara provavelmente planejava sua próxima jogada. Emanuel sabia que o equilíbrio entre a seda e o fogo estava quebrado para sempre.

Eduarda se aninhou no peito de Emanuel, segurando a mão dele com força. Ela sabia que tinha vencido aquela batalha, mas o gosto da vitória era amargo. Ela percebera que, para manter Emanuel, ela teria que lutar contra um mundo de tentações que ela mal compreendia. Mas, ao sentir o braço dele a envolvendo de forma protetora, ela fechou os olhos.

Lá fora, a cidade continuava brilhando, indiferente ao drama humano. Dentro do apartamento, o vidro quebrado na sala era um lembrete de que a vulgaridade de Sara ainda estava presente, mas, por aquela noite, a manha e a possessividade de Eduarda haviam erguido uma barreira que nem o silicone, nem a vodca, nem as amigas vips de Sara conseguiriam transpor.

Emanuel, antes de adormecer, olhou para o teto. Ele era um homem rico, poderoso e cobiçado, mas ali, no escuro, ele percebeu que o verdadeiro poder não estava em foder quem quisesse, mas em ser o único mundo de alguém tão delicado quanto a mulher em seus braços. E esse pensamento, embora assustador, era o que finalmente lhe trazia a paz que o ouro nunca pudera comprar.