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O Banquete do Guerreiro e a Sombra do Exaustão

O sol da manhã entrava pelas amplas janelas da cobertura, mas Emanuel mal tinha forças para abrir os olhos. O corpo, outrora uma máquina de precisão e energia inesgotável, parecia agora um bloco de chumbo fundido ao colchão de luxo. Ser o dono de um império de estúdios de tatuagem exigia muito de sua mente, mas ser o ponto central entre Eduarda e Sara estava drenando o que restava de sua vitalidade física.

A noite anterior havia sido um campo de batalha silencioso. Primeiro, o vigor exigente e performático de Sara, que demandava atenção como se cada encontro fosse uma disputa de poder. Depois, a entrega doce e prolongada de Eduarda, que buscava nele o porto seguro para sua carência manhosa. Emanuel amava as duas, mas o preço biológico de manter aquele harém moderno estava começando a ser cobrado.

Ele sentiu um peso suave se acomodar ao seu lado. O cheiro de lavanda e baunilha anunciou Eduarda antes mesmo que ela falasse.

— Bom dia, meu amor — sussurrou ela, passando os dedos delicados pelos cabelos dele. — Você parece tão cansado... seus olhos estão fundos.

Emanuel soltou um grunhido baixo, tentando se sentar.

— É o trabalho, Duda. Muitas reuniões, muitos projetos novos.

Eduarda sorriu, aquele sorriso doce que escondia uma percepção aguçada. Ela sabia que não era apenas o trabalho. Ela via como ele chegava ao limite para satisfazer os apetites vorazes de Sara e, ao mesmo tempo, não deixá-la de lado. Eduarda, em sua sabedoria silenciosa e instintiva, decidiu que sua missão não seria competir com os gritos de Sara, mas sim garantir que o "seu macho" não desmoronasse.

— Eu preparei algo especial para você — disse ela, ajudando-o a se levantar com uma solicitude quase maternal. — Vá tomar um banho frio, Manu. Eu vou servir o seu café na varanda.

Enquanto Emanuel se arrastava para o banheiro, Eduarda deslizou para a cozinha. Naquele território, ela era a mestre. Sara podia saber administrar empresas, mas Eduarda entendia de alquimia. Sobre a bancada de mármore, ela organizou os ingredientes que vinha estudando em livros antigos de nutrição e segredos de família.

Ela começou quebrando dois ovos caipiras, separando as gemas com cuidado. Adicionou uma colher generosa de mel puro, um toque de canela e uma pitada de pó de guaraná orgânico. Bateu tudo vigorosamente até formar uma espuma densa e dourada. Era a famosa gemada de sua avó, mas potencializada com raízes que ela comprara discretamente em um empório de ervas medicinais.

— O que é essa nojeira que você está batendo aí? — A voz de Sara surgiu como um chicote, vinda do corredor.

Sara apareceu usando um baby-doll de renda preta, ostentando o corpo perfeito e o bronzeado artificial. Ela olhou para a tigela de Eduarda com um teto de nojo.

— É um tônico para o Emanuel, Sara — respondeu Eduarda, sem perder o ritmo da colher. — Ele está exausto. Você não percebeu como ele está pálido?

— Ele está ótimo — Sara deu de ombros, pegando uma maçã e dando uma mordida ruidosa. — Ontem à noite ele estava muito bem disposto, se é que você me entende. Talvez ele só esteja cansado da sua melação matinal.

Eduarda sentiu a ferroada, mas não revidou. Ela apenas adicionou um punhado de nozes e castanhas picadas a uma tigela de iogurte natural e preparou um suco de romã concentrado.

— Se você quer que ele continue "disposto", deveria se preocupar mais com o que ele coloca para dentro do corpo, e não só com o que ele faz com o seu — disse Eduarda, a voz calma, mas firme.

— Poupe-me dos seus conselhos de vovó, Duda — Sara revirou os olhos, saindo da cozinha em direção ao solário. — Vou retocar meu bronzeado. Avise ao Manu que quero sair para jantar em um lugar badalado hoje.

Eduarda suspirou. Sara era como um parasita de energia; ela sugava e sugava, sem nunca pensar na reposição. Pouco depois, Emanuel apareceu na varanda, já vestido com uma calça de linho e uma camisa leve, mas a postura ainda denunciava o esgotamento.

— Aqui, Manu — Eduarda deslizou a bandeja para a frente dele. — Beba tudo. É um segredo de família para dar foco e energia.

Emanuel olhou para a gemada espumante. O aspecto não era dos mais modernos, mas o aroma de canela e mel era convidativo.

— Você cuida de mim como se eu fosse um cristal, pequena — disse ele, dando o primeiro gole. O sabor era intenso, doce e quente, descendo pela garganta e espalhando um calor imediato pelo peito.

— Você é o meu guerreiro, Manu — ela se sentou aos pés dele, apoiando o queixo em seus joelhos, olhando-o com adoração. — E um guerreiro precisa ser alimentado. Se você ficar fraco, quem vai nos proteger?

Emanuel bebeu tudo, sentindo quase instantaneamente uma leve dormência nas extremidades, seguida por um estado de alerta que ele não sentia há dias. O cansaço nas pernas pareceu diminuir. Ele comeu as castanhas e o iogurte, sentindo-se nutrido de uma forma que os suplementos caros da academia nunca conseguiam.

— Sinto-me melhor — admitiu ele, passando a mão pelo rosto e sentindo a pele mais firme. — Obrigado, Duda. Você realmente tem mãos de fada.

— Eu só quero o seu bem, meu amor — ela ronronou, aproveitando o momento de paz.

Mas a paz na cobertura de Emanuel era um artigo de luxo com prazo de validade curto. Sara voltou da varanda, o cheiro de óleo bronzeador invadindo o espaço.

— Manu! Finalmente acordou para a vida — ela se jogou no colo dele, ignorando Eduarda como se ela fosse um móvel. — Estava dizendo para a sua cozinheira particular que quero ir ao restaurante novo no Jardins hoje. Tem uma lista de espera imensa, mas sei que você consegue uma mesa.

Emanuel sentiu a pressão voltar. O peso de Sara em seu colo, o perfume forte, a demanda imediata. Ele olhou para Eduarda, que permanecia ali, silenciosa, apenas observando.

— Não sei, Sara... eu tenho muito trabalho acumulado no estúdio central.

— Ah, não comece com isso! — Sara fez um biquinho, passando as unhas longas pela nuca dele. — Você trabalhou a semana toda. Eu mereço uma noite fora. E você também. Precisa de diversão, de gente bonita, de champanhe.

Eduarda levantou-se calmamente e recolheu a bandeja.

— Ele vai se o restaurante oferecer uma boa proteína — disse Eduarda, lançando um olhar significativo para Emanuel. — Ele precisa de sustento, não só de champanhe.

— Cala a boca, Duda! — Sara disparou. — Vá ler seus livros de arte e deixe os adultos decidirem a noite.

Emanuel sentiu a irritação crescer, mas o tônico de Eduarda parecia estar fazendo um efeito colateral interessante: ele não se sentia tão irritadiço. Sentia-se... capaz. Uma vitalidade nova pulsava em suas veias, um vigor que começava a se manifestar fisicamente.

— Tudo bem, Sara — disse ele, a voz mais grave. — Eu vou conseguir a mesa. Mas vamos voltar cedo. Amanhã tenho uma sessão de doze horas de tatuagem.

Sara comemorou com um grito estridente e um beijo possessivo, antes de correr para escolher o vestido. Emanuel ficou sozinho por um momento com Eduarda.

— Você vai ficar bem? — perguntou ele, segurando a mão dela.

— Vou sim, Manu. Vou preparar um caldo revigorante para quando você chegar. O restaurante vai te dar prazer, mas o meu caldo vai te dar o sono que você precisa para amanhã.

Emanuel a puxou para um beijo casto na testa. Ele sentia a diferença. Enquanto Sara era o consumo, Eduarda era a preservação. E ele precisava desesperadamente de ambas para se sentir completo.

A noite no restaurante foi um exercício de paciência. Sara estava em seu elemento, bebendo, rindo alto e atraindo olhares. Emanuel mantinha a postura, mas sentia o esforço que era acompanhar aquele ritmo. No meio do jantar, ele sentiu uma súbita queda de energia, as luzes do lugar parecendo brilhar demais. Foi então que se lembrou do pequeno frasco que Eduarda colocara em seu bolso antes de sair.

"Para quando o brilho dela for demais", dizia o bilhete. Era um extrato concentrado de gengibre e ginseng que ela mesma preparara. Ele tomou discretamente com um gole de água. O efeito foi quase imediato. O coração estabilizou, a mente clareou.

Ao voltarem para casa, Sara estava elétrica, querendo continuar a festa no quarto. Emanuel, impulsionado pelos cuidados constantes de Eduarda, conseguiu atender às expectativas de Sara, mas ao terminar, sentiu que poderia dormir por um século.

Ele se esgueirou para fora do quarto principal, deixando Sara adormecida entre lençóis bagunçados, e foi para a cozinha. Lá, uma pequena luz de LED iluminava o fogão. Eduarda estava sentada à mesa, lendo sob a luz suave, um pote de cerâmica fumegando à sua frente.

— Eu sabia que você viria — disse ela, a voz um sussurro acolhedor.

— Eu estou exausto, Duda. Ela... ela não para nunca.

— Eu sei, meu bem. Senta aqui. Bebe esse caldo de ossos e raízes. Vai repor tudo o que você perdeu hoje.

Emanuel sentou-se, sentindo o peso do mundo escorregar de seus ombros. Ele tomou o caldo morno, sentindo a nutrição profunda que só o cuidado genuíno poderia oferecer. Eduarda não fazia perguntas, não exigia nada. Ela apenas cuidava da manutenção daquele homem que ela considerava seu sol.

— Por que você faz isso? — perguntou ele, olhando para ela. — Por que cuida tanto de mim, mesmo sabendo que eu estive com ela?

Eduarda esticou a mão e acariciou o rosto de Emanuel, limpando uma gota de suor que ainda restava em sua têmpora.

— Porque uma árvore só dá frutos se as raízes estiverem bem alimentadas, Manu. A Sara quer os frutos. Ela quer a sombra, quer a beleza. Eu... eu prefiro cuidar das raízes. Se eu não fizer isso, você seca. E se você secar, o meu mundo acaba.

Emanuel sentiu uma emoção profunda apertar seu peito. Ele a puxou para o colo, sentindo a leveza de Eduarda em contraste com a densidade de sua própria vida.

— Você é o meu milagre, Duda.

— Eu sou apenas a sua mulher, Manu. A que garante que você sempre terá forças para voltar para casa.

Naquela noite, Emanuel não dormiu no quarto principal com Sara. Ele adormeceu no sofá da biblioteca, com a cabeça no colo de Eduarda, enquanto ela lia em voz baixa sobre a história das cores na Renascença. O sono foi profundo, reparador e livre de sonhos agitados.

Na manhã seguinte, Emanuel acordou antes do despertador. Sentia-se renovado, forte, os músculos prontos para as doze horas de trabalho que viriam. Ele foi até a cozinha e encontrou um copo de suco verde com pó de maca peruana esperando por ele, com um bilhete: "Para o seu dia ser tão forte quanto você".

Sara apareceu pouco depois, reclamando de uma leve ressaca e de uma dor de cabeça.

— Como você consegue estar assim, Emanuel? — resmungou ela, pegando um café preto puro. — Eu estou um caco e você parece que dormiu dez horas em um spa.

— É a genética, Sara — mentiu ele, dando um gole no suco de Eduarda e piscando para a morena que entrava na sala.

— Deve ser — Sara bufou. — Duda, faça um ovo mexido para mim. E nada dessas suas misturas estranhas.

Eduarda sorriu para Emanuel, um segredo compartilhado brilhando em seus olhos. Ela preparou os ovos de Sara com indiferença, mas para Emanuel, ela preparou uma omelete de claras com espinafre e sementes de abóbora, ricas em zinco.

Ao sair para o trabalho, Emanuel sentia-se invencível. Ele sabia que a dinâmica entre as duas era insustentável a longo prazo, que a vulgaridade de Sara e a timidez de Eduarda acabariam colidindo de forma irremediável novamente. Mas, por enquanto, ele se permitia ser o beneficiário daquela guerra silenciosa.

Enquanto Sara gastava sua fortuna e exauria sua paciência, Eduarda construía silenciosamente os alicerces de sua permanência. Ela não precisava de gritos ou escândalos; ela o dominava através do sangue, da energia e da saúde. Ela sabia que, no final das contas, um homem sempre escolheria a mão que o alimentava e o mantinha de pé.

Eduarda observou o carro de Emanuel sair da garagem pelo monitor de segurança. Ela suspirou, voltando para a cozinha para lavar a louça.

— Pode gritar o quanto quiser, Sara — sussurrou Eduarda para as paredes vazias. — Pode exigir diamantes e jantares. Mas o vigor dele, a vida dele... isso pertence a mim. Sou eu quem decide o quanto ele tem para te dar.

Ela guardou o frasco de gemada na geladeira, já planejando o cardápio da noite. Emanuel teria um dia longo, e ela precisava garantir que, quando ele voltasse, ainda houvesse fogo suficiente para que ela pudesse se aquecer em seus braços, longe dos olhos invejosos da loira. A manutenção do seu macho era uma tarefa de tempo integral, e Eduarda era, acima de tudo, uma mulher dedicada à sua obra-prima.