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Colisão de Mundos: O Veludo e o Espinho

A cobertura de Emanuel na Avenida Atlântica exalava o mesmo luxo pragmático que ele carregava em sua postura. Móveis de design italiano em tons de grafite, iluminação indireta e janelas do chão ao teto que emolduravam o oceano como uma pintura viva. No entanto, o silêncio do ambiente estava prestes a ser estilhaçado.

Emanuel entrou no apartamento mantendo a mão possessiva na base das costas de Eduarda. Ela caminhava com passos miúdos, os dedos apertando a alça de uma pequena bolsa de palha, sentindo-se pequena demais para a grandiosidade daquele lugar. O biquíni de crochê azul-claro ainda estava sob uma saída de praia transparente que ela havia colocado às pressas, e seus pés descalços deixavam marcas leves de areia no mármore impecável.

— É... é lindo aqui, Emanuel — sussurrou ela, a voz carregada daquela manha natural que fazia o tatuador querer guardá-la em uma redoma de vidro. — Parece grande demais para uma pessoa só.

— E era — respondeu ele, a voz grave ecoando no hall de entrada. — Por isso você está aqui agora. Quero que se sinta em casa, Eduarda. Não precisa ter medo de nada.

Mas o medo de Eduarda não era do espaço físico, e sim da energia que ela sentiu assim que cruzaram o arco da sala de estar. Sentada no sofá de couro legítimo, com uma taça de champanhe na mão e as pernas longas cruzadas de forma provocante, estava Sara.

A loira usava um conjunto de cetim preto que deixava pouco para a imaginação, realçando o busto farto e as curvas que ela ostentava com um orgulho quase agressivo. O contraste entre as duas mulheres era violento: uma era a suavidade da manhã, a outra, a urgência de uma noite de festa.

Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, seus olhos percorrendo Eduarda de cima a baixo com um julgamento clínico que fez a jovem se encolher instintivamente contra o braço de Emanuel.

— Finalmente, "gato" — disse Sara, a voz carregada de um sarcasmo cortante. — Achei que seu "investimento" fosse algum contrato de estúdio novo em Tóquio ou Londres, não uma criança perdida que esqueceu de se vestir para sair da praia.

Emanuel sentiu o corpo de Eduarda retesar. Ele apertou o ombro dela, um gesto de proteção que não passou despercebido por Sara, cujos olhos brilharam com uma faísca de fúria contida.

— Sara, controle a língua — ordenou Emanuel, sua voz assumindo o tom frio e autoritário que usava para gerir seus negócios. — Esta é a Eduarda. Ela vai ficar com a gente por um tempo. Na verdade, ela vai morar aqui.

O riso de Sara foi curto e seco, uma explosão de descrença. Ela se levantou, caminhando até eles com a confiança de quem é dona do território. O cheiro de seu perfume doce e forte invadiu o espaço, sufocando a leve fragrância de brisa marinha que emanava de Eduarda.

— Morar aqui? — Sara parou a poucos centímetros de Eduarda, forçando a garota a olhar para cima. — Você perdeu o juízo de vez, Emanuel? O que é isso? Algum projeto de caridade? Ela parece que vai quebrar se bater um vento mais forte. E esse biquíni... que coisa mais... artesanal. É bonitinho, sabe? Minha avó fazia tapetes assim.

Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos sensíveis. Ela não estava acostumada com aquele tipo de hostilidade direta. Baixou o rosto, deixando que os cabelos ondulados escondessem sua expressão, e buscou a mão de Emanuel, entrelaçando seus dedos nos dele com uma urgência quase infantil.

— Eu... eu estudo História da Arte — murmurou Eduarda, tentando encontrar uma voz que não falhasse. — O crochê é uma técnica legítima... e Emanuel disse que...

— Emanuel diz muita coisa quando está com tesão ou cansado — interrompeu Sara, aproximando-se ainda mais, o silicone destacado pelo decote profundo enquanto ela cruzava os braços. — Mas a realidade aqui é outra, boneca. Eu sou a mulher dele há quatro meses. Eu administro a vida dele, o humor dele e o que acontece nesta cama. Você é o quê? Um passatempo de fim de tarde?

— Chega, Sara! — o grito de Emanuel não foi alto, mas teve o impacto de um trovão. Ele se colocou entre as duas, as tatuagens em seus braços parecendo mais escuras sob a luz da sala. — Eu não estou pedindo sua opinião. Estou informando como as coisas serão. Eu quero a Eduarda aqui. Eu quero o cuidado dela, a paz dela. E eu quero você também, com sua energia e sua presença. Mas se você não conseguir conviver, o problema será seu.

Sara recuou um passo, a expressão de choque sendo rapidamente substituída por uma máscara de escárnio. Ela conhecia Emanuel; sabia que quando ele colocava uma ideia na cabeça, era como tinta na pele: permanente.

— Você quer as duas? — Sara soltou uma risada amarga, olhando para Eduarda, que agora parecia querer sumir no chão. — Você acha que essa coisinha sonsa vai aguentar o tranco? Ela não dura uma semana comigo, Emanuel. Ela vai chorar toda vez que eu abrir a boca.

— Eu não sou sonsa — disse Eduarda, com uma coragem súbita que nasceu do puro desconforto. Ela olhou para Sara, os olhos grandes e expressivos ainda úmidos, mas firmes. — Eu só não gosto de gritar. O Emanuel me convidou... e eu confio nele.

A forma como Eduarda pronunciou o nome dele, com uma doçura dependente, fez o estômago de Emanuel revirar de uma forma que ele não conseguia explicar. Era um instinto de posse primitivo. Ele queria que Eduarda precisasse dele, e queria que Sara o desejasse.

— Ótimo — sibilou Sara, caminhando até a mesa de centro para pegar seu celular. — Se ela vai ficar, espero que saiba que eu não divido o closet, não divido a atenção e, principalmente, não divido o que é meu por direito. Se prepara, "Duda", porque esta cobertura acabou de ficar pequena demais para nós duas.

Sara saiu da sala em direção ao quarto principal, o som de seus saltos batendo no mármore soando como tiros de advertência. O silêncio que se seguiu foi pesado, apenas quebrado pelo som da respiração descompassada de Eduarda.

— Ela me odeia — soltou Eduarda, a voz trêmula, virando-se para Emanuel e escondendo o rosto em seu peito largo. — Emanuel, eu não quero causar problemas... ela é tão... forte. Eu não sou como ela.

Emanuel a envolveu em um abraço apertado, sentindo a fragilidade da estrutura dela contra seu corpo sólido. Ele beijou o topo da cabeça de Eduarda, respirando o cheiro de sol que ela exalava.

— É exatamente por você não ser como ela que eu preciso de você aqui — disse ele, a voz agora suave, mas com aquele subtom de controle que não admitia réplicas. — A Sara é fogo, Eduarda. Ela queima. Mas você... você é a água. Eu preciso de ambos para me sentir vivo. Não se preocupe com o que ela diz. Eu estou aqui para te proteger.

— Mas ela é tão bonita e... imponente — insistiu Eduarda, fazendo um biquinho manhoso enquanto olhava para ele, buscando confirmação. — Você ainda ama ela, não é?

Emanuel hesitou por um segundo, a imagem de Sara, selvagem e indomável, cruzando sua mente.

— Sim, eu amo. Mas o que eu sinto por você é algo que eu nunca senti. É uma necessidade de cuidar, de ver você florescer. Eu quero ver você pintando na varanda, quero ver você estudando seus livros de arte enquanto eu trabalho. Eu quero que você seja meu refúgio.

Eduarda sorriu timidamente, a insegurança dando lugar a uma satisfação silenciosa. Ela gostava da ideia de ser o "refúgio" de um homem tão poderoso. Ela se apoiou nele, deixando que ele guiasse seus passos.

— Eu trouxe o resto do meu chocolate branco — disse ela, voltando ao seu tom manhoso e infantil que tanto encantava Emanuel. — Você divide comigo antes de dormir?

— Divido, pequena. Divido tudo com você.

Emanuel a levou para um dos quartos de hóspedes, que já estava preparado com lençóis de seda e flores frescas — um comando que ele havia enviado ao seu assistente pessoal minutos depois de conhecê-la no quiosque. Ele sabia que a transição seria um campo de batalha. Sara não aceitaria a derrota facilmente, e sua vulgaridade agressiva seria usada como arma contra a delicadeza de Eduarda a cada oportunidade.

Mais tarde naquela noite, após deixar Eduarda instalada e aparentemente calma, Emanuel entrou no quarto principal. Sara estava deitada, as luzes apagadas, mas o brilho do cigarro eletrônico denunciava que ela estava acordada.

— Ela já dormiu? — perguntou Sara, a voz desprovida de sarcasmo agora, revelando uma mágoa profunda que ela raramente mostrava.

— Sim — respondeu Emanuel, começando a desabotoar a camisa.

— Você realmente acha que pode ter tudo, não é? O tatuador rico com a loira de capa de revista e a estudantezinha de porcelana. Você é um egoísta, Emanuel.

Ele se aproximou da cama, sentando-se na borda e sentindo o calor que emanava de Sara.

— Eu sou um homem que sabe o que quer, Sara. E eu quero você. Você sabe que ninguém me satisfaz como você. Mas a Eduarda... ela me dá algo que você se recusa a dar: paz.

Sara sentou-se bruscamente, os cabelos loiros bagunçados, os olhos faiscando na penumbra.

— Paz é tédio! Você vai se cansar daquela passividade em duas semanas. Ela é um móvel, Emanuel. Um enfeite de crochê.

— Veremos — disse ele, puxando Sara para um beijo bruto, carregado da tensão que havia se acumulado durante o dia.

Sara correspondeu com a mesma agressividade, suas unhas cravando-se nas tatuagens das costas dele. Ela queria marcar seu território, queria provar que era insubstituível. Mas, enquanto Emanuel a possuía com a intensidade de sempre, sua mente vagava por um momento para o quarto ao lado, onde uma garota sensível e de olhos doces provavelmente sonhava com cerejas e chocolate branco.

O conflito estava armado. De um lado, a administração prática e o corpo escultural de Sara, que não tinha medo de lutar sujo. Do outro, a intuição emocional e a carência magnética de Eduarda, que conquistava espaço através da vulnerabilidade.

E no centro, Emanuel, o mestre das agulhas e das tintas, acreditando que poderia controlar o destino daquelas duas vidas como se estivesse desenhando um projeto em uma pele limpa. Ele só não contava que, ao contrário da tinta, as emoções humanas borram, sangram e, às vezes, deixam cicatrizes que nem a melhor arte pode cobrir.

Na manhã seguinte, o café da manhã foi servido na varanda. Eduarda apareceu usando um de seus vestidos românticos, uma peça de linho cru com flores bordadas, os pés pequenos ainda descalços. Ela parecia uma ninfa sob a luz da manhã carioca.

Sara já estava à mesa, impecável em um robe de seda carmesim, lendo algo no tablet e bebendo um café preto forte. O silêncio era tão denso que poderia ser cortado com uma faca.

— Bom dia... — murmurou Eduarda, sentando-se na ponta oposta de Sara.

Sara nem levantou os olhos.

— Tem suco de cereja na jarra de cristal — disse Emanuel, saindo da cozinha com um prato de frutas. — Eu pedi especialmente para você, Eduarda.

Eduarda abriu um sorriso radiante, seus olhos brilhando de gratidão.

— Obrigada, Emanuel! Você lembrou!

Sara soltou um estalido com a língua, finalmente olhando para a jovem.

— Aproveita o suquinho, querida. Porque nesta casa, as coisas doces costumam azedar bem rápido quando eu estou por perto.

Eduarda murchou visivelmente, segurando o copo com as duas mãos como se fosse um escudo. Emanuel suspirou, sentindo a primeira onda de estresse do dia. Ele olhou para o mar, percebendo que manter aquelas duas mulheres sob o mesmo teto seria sua obra de arte mais difícil — e, possivelmente, a mais perigosa.