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Ouro para a Santa, Veneno para a Rainha

O céu de Londres estava tingido por aquele cinza metálico e persistente, uma névoa que parecia se misturar ao concreto dos prédios históricos e ao brilho frio das vitrines da Bond Street. Emanuel caminhava com as mãos nos bolsos de seu sobretudo de lã italiana, a expressão fechada e o passo firme. Ele havia acabado de fechar um contrato de exclusividade para um novo estúdio em Mayfair, um movimento que consolidaria sua marca como a maior rede de tatuagem de luxo do mundo. Mas, mesmo com o sucesso pulsando em suas veias, sua mente estava a milhares de quilômetros de distância, mais especificamente na cobertura onde o caos o esperava.

Ele parou diante de uma joalheria cuja fachada era tão discreta que apenas olhos treinados — e contas bancárias astronômicas — reconheceriam a importância do lugar. No centro da vitrine, repousando sobre um veludo azul-marinho, estava uma peça que parecia ter sido arrancada de um sonho barroco. Era um colar de ouro branco, com um pingente de safira cercado por pequenas pérolas naturais e diamantes lapidados de forma antiga. Não era uma peça chamativa ou agressiva; era delicada, etérea, carregada de uma melancolia clássica que remetia à Renascença.

— É a cara dela — murmurou Emanuel para si mesmo, os olhos fixos na joia.

Ele não precisou pensar duas vezes. Entrou na loja e, em menos de quinze minutos, saiu com uma caixa pequena e pesada protegida em seu bolso interno. Ele sabia que, ao comprar aquilo para Eduarda, estava assinando uma sentença de guerra em casa. Sara não aceitava o segundo lugar, e ela certamente não aceitava que o "bom gosto" de Eduarda fosse validado com ouro e pedras preciosas. Mas Emanuel, em um momento de rara indulgência emocional, sentiu que a timidez e a doçura de Eduarda mereciam um símbolo de proteção.

O voo de volta foi longo, e o silêncio da primeira classe permitiu que ele acumulasse a energia necessária para o furacão que encontraria ao abrir a porta.

Quando Emanuel entrou na cobertura, o perfume de Sara, doce e sufocante, o atingiu imediatamente. Ela estava sentada no sofá de couro branco, bebendo um martini e deslizando o dedo por um tablet, provavelmente selecionando a próxima lista de compras que ele deveria pagar. No canto oposto da sala, perto da janela que dava vista para a cidade, Eduarda estava encolhida em uma poltrona, com um caderno de esboços no colo e os fones de ouvido, tentando, sem sucesso, criar uma bolha de paz.

— O rei voltou do exílio! — exclamou Sara, levantando-se com um sorriso predatório. Ela usava um conjunto de seda preta que mal cobria o necessário, expondo as curvas que ela tanto se orgulhava de ter comprado. — Achei que tivesse decidido ficar com alguma modelo inglesa de pernas finas.

Emanuel deixou a mala no chão e aceitou o beijo possessivo que Sara lhe deu, embora sua mente estivesse focada na figura pequena que agora se levantava da poltrona.

— Oi, Manu... — Eduarda disse, a voz quase sumindo. Ela caminhou até ele com passos lentos, os olhos brilhando de saudade genuína. — Que bom que você chegou. A casa fica tão barulhenta sem você para colocar ordem.

— Barulhenta? Eu mal abri a boca hoje, sua sonsa! — Sara rebateu, revirando os olhos. — Você que fica aí suspirando pelos cantos como se estivesse em um funeral.

— Chega — disse Emanuel, a voz firme cortando o ar. — Eu acabei de chegar de uma viagem de dez horas. Não quero ouvir gritos.

Ele se sentou na poltrona central, observando as duas. Sara se acomodou no braço da sua cadeira, passando as unhas longas pelo seu pescoço, enquanto Eduarda sentou-se no chão, aos seus pés, apoiando o queixo em seu joelho, buscando o contato físico que a acalmava.

— Trouxe presentes? — Sara perguntou, direta, os olhos brilhando com a cobiça de quem conhece bem o poder aquisitivo do homem que tinha à frente. — Vi que você passou pela Bond Street. Eu quero aquela bolsa de couro de crocodilo que te mandei o link, Emanuel.

Emanuel respirou fundo e tirou a caixa de veludo do bolso. O silêncio caiu sobre a sala como uma cortina pesada. Sara esticou a mão, os dedos já prontos para agarrar o que ela assumia ser dela por direito de hierarquia.

— Na verdade — começou Emanuel, desviando a caixa da mão de Sara e entregando-a para Eduarda —, eu vi isso e lembrei de alguém que valoriza a história por trás da arte. Duda, abra.

Eduarda arregalou os olhos, as mãos tremendo levemente ao segurar a caixa. Quando a tampa se abriu e a safira brilhou sob a luz do lustre de cristal, ela soltou um pequeno arquejo.

— Manu... é... é lindo. Parece algo que saiu de um quadro do Botticelli — sussurrou ela, as lágrimas já começando a inundar os olhos. — Você lembrou de mim?

— Lembrei do seu curso de História da Arte — Emanuel disse, permitindo-se um pequeno sorriso. — É uma peça exclusiva. Só existe essa.

O estalo que se seguiu foi o som de Sara batendo sua taça de martini na mesa de centro com força excessiva. O rosto dela, antes sedutor, transformou-se em uma máscara de fúria e incredulidade.

— Você está brincando comigo, Emanuel? — A voz de Sara subiu uma oitava, tornando-se aguda e cortante. — Você viaja para Londres, a capital do luxo, e traz uma joia de colecionador para essa... essa mosca morta?

— Sara, não comece — Emanuel avisou, o tom de voz baixando perigosamente.

— Não comece? — Ela se levantou, gesticulando freneticamente. — Olha para essa porcaria! Pérolas? Safira? Isso é coisa de velha! Isso é coisa de quem quer se esconder! Eu te peço presentes há meses, eu te dou a visibilidade que sua marca precisa, eu estou sempre impecável para você, e você dá o ouro para a santinha do pau oco?

Eduarda encolheu-se, apertando a caixa contra o peito, os ombros subindo em uma postura defensiva.

— Não fala assim, Sara... é um presente especial — murmurou Eduarda, a voz embargada.

— Especial é o meu rabo, Eduarda! — gritou Sara, aproximando-se da outra com uma agressividade que fez Emanuel se levantar em um salto. — Você manipula ele com esse seu jeitinho de coitada, de menina sensível que precisa de proteção. Você é uma parasita emocional!

— Cala a boca, Sara! — Emanuel rugiu, sua estatura dominando o ambiente. — Eu compro o que eu quiser, para quem eu quiser. A Eduarda não me pediu nada. Eu vi a joia e decidi que seria dela. Se você não consegue aceitar um gesto de carinho que não seja voltado para o seu próprio ego, talvez você esteja no lugar errado.

Sara soltou uma risada histérica, os olhos fixos na joia que Eduarda ainda segurava.

— Ah, entendi. Agora você vai bancar o cavaleiro de armadura brilhante? Vai dizer que o amor puro dela vale mais do que tudo o que eu faço por você na cama e nos eventos? — Ela apontou o dedo para Eduarda. — Você é patética. Usa esses vestidos de camponesa e agora esse colar de museu para fingir que é superior. Mas você não passa de uma criança que não sabe nem pedir um vinho sem gaguejar!

Eduarda começou a chorar, um choro silencioso e sofrido que sempre desarmava Emanuel e o deixava com os nervos em frangalhos.

— Eu só... eu só gostei do colar porque foi o Manu que escolheu — disse Eduarda entre soluços. — Eu não queria brigar, Sara.

— Você nunca quer nada, mas sempre consegue tudo! — Sara avançou um passo, e por um segundo Emanuel achou que ela fosse arrancar o colar das mãos da outra. — Você é vulgar na sua passividade, Eduarda. É nojento.

Emanuel segurou o braço de Sara com firmeza, não para machucá-la, mas para pará-la. Ele podia sentir a pulsação dela, acelerada pela raiva e pela inveja.

— Para o quarto. Agora — ordenou ele, os olhos fixos nos dela.

— Eu não vou a lugar nenhum! — desafiou ela, embora o brilho de autoridade nos olhos de Emanuel a fizesse vacilar por dentro.

— Sara, eu não vou repetir. Se você disser mais uma palavra para a Eduarda, eu juro que amanhã mesmo você acorda em um apartamento de dois quartos na periferia com as suas malas na porta. Você gosta do luxo? Então aprenda a respeitar quem eu escolhi para compartilhar esse luxo com você.

Sara bufou, o peito subindo e descendo com força, o silicone parecendo prestes a explodir sob a seda fina. Ela olhou de Emanuel para Eduarda com um desprezo profundo, mas o medo de perder o estilo de vida que tanto amava falou mais alto.

— Você vai se arrepender disso, Emanuel — sibilou ela. — Essa doçura dela vai te sufocar até você implorar por alguém que tenha sangue nas veias de verdade.

Ela girou nos calcanhares, os saltos batendo com violência contra o mármore enquanto ela se retirava para o quarto, batendo a porta com uma força que fez os quadros nas paredes tremerem.

O silêncio que restou na sala era pesado, carregado com o resíduo da violência verbal. Emanuel soltou um suspiro longo, sentindo o peso do mundo em seus ombros. Ele se voltou para Eduarda, que ainda estava sentada no chão, soluçando baixinho, o colar de safira brilhando como uma lágrima azul em suas mãos.

— Vem aqui, Duda — disse ele, a voz suavizando instantaneamente.

Ele a puxou para cima e a sentou em seu colo na poltrona. Eduarda escondeu o rosto em seu pescoço, molhando sua camisa com as lágrimas.

— Ela me odeia tanto, Manu... por que ela tem que ser assim? — perguntou ela, a voz manhosa e quebrada.

— A Sara é feita de espinhos, Duda. Você sabe disso. Ela não entende o que não pode comprar ou exibir como um troféu — Emanuel explicou, passando a mão pelos cabelos macios da menina. — Não deixe que ela estrague o presente. Eu trouxe para você porque você é a única coisa calma na minha vida.

Eduarda levantou o rosto, os olhos vermelhos, mas com um pequeno brilho de triunfo que ela tentava esconder sob a fachada de fragilidade.

— Você coloca em mim? — pediu ela, entregando o colar.

Emanuel pegou a joia e a prendeu ao redor do pescoço delicado de Eduarda. O contraste do ouro branco com a pele clara dela era perfeito. Ela parecia uma princesa de um século passado, uma visão de pureza que ele sentia necessidade de proteger a qualquer custo.

— Ficou perfeito — murmurou ele.

— Obrigada, Manu... você é meu herói — ela sussurrou, beijando o canto da boca dele e se aninhando em seus braços.

Emanuel ficou ali, no silêncio da sala, acariciando os cabelos de Eduarda. Ele sabia que a paz era apenas uma ilusão temporária. No quarto ao lado, Sara provavelmente estava destruindo algum objeto caro ou planejando como dar o troco. A dinâmica de sua vida era um pêndulo constante entre o ataque e a defesa, entre o grito e o sussurro.

Ele olhou para a porta fechada do quarto e depois para a mulher em seus braços. Ele amava a paz de Eduarda, mas sabia que, em algum momento daquela noite, ele precisaria lidar com o fogo de Sara. Ele era o mestre das sombras, o homem que transformava dor em arte na pele das pessoas, mas em sua própria casa, ele era apenas o combustível para as chamas daquelas duas mulheres.

— Manu? — Eduarda chamou, a voz já mais sonolenta, sentindo-se segura agora que havia vencido aquela batalha silenciosa por atenção.

— Oi, pequena.

— Você não vai lá com ela, vai? Deixa ela sozinha para aprender a não ser má.

Emanuel deu um beijo no topo da cabeça de Eduarda, mas não respondeu. Ele sabia que não podia deixar Sara sozinha por muito tempo. O veneno dela precisava ser drenado, ou acabaria matando a todos. E ele, em sua lógica prática e sombria, sabia exatamente como fazer isso.

— Vá para o seu quarto, Duda. Tente descansar. Eu vou resolver as coisas — disse ele, levantando-a com cuidado.

Eduarda fez um beicinho, mas assentiu, tocando a safira em seu pescoço como se fosse um amuleto. Ela caminhou em direção ao seu próprio quarto, o andar leve e gracioso.

Emanuel esperou até ouvir a porta dela se fechar. Ele permaneceu sozinho na sala escura por alguns minutos, observando as luzes da cidade lá fora. Então, com um suspiro de resignação e desejo contido, ele caminhou em direção ao quarto principal.

Ao abrir a porta, ele encontrou o ambiente na penumbra. Sara estava de pé junto à janela, de costas para ele. O som da respiração dela era pesado.

— Sai daqui, Emanuel — disse ela, sem se virar. — Vai dormir com a sua camponesa de luxo.

Emanuel não disse nada. Ele apenas caminhou até ela e a segurou pela cintura, puxando-a contra seu corpo. Sara tentou se soltar, mas ele era muito mais forte.

— Você é insuportável, Sara — sussurrou ele no ouvido dela, a voz carregada de uma tensão que não era mais de raiva.

— E você é um idiota por achar que ela é melhor que eu — ela rebateu, mas seu corpo já começava a ceder ao toque dele.

— Eu nunca disse que ela era melhor. Eu disse que ela é diferente. E você... — ele virou-a de frente, segurando seu queixo com firmeza — ...você é o meu caos particular.

Sara sorriu, um sorriso cruel e vitorioso, mesmo com os olhos ainda faiscando de ciúmes. Ela sabia que, embora Eduarda tivesse ficado com a joia, ela ainda tinha o controle sobre os instintos mais básicos de Emanuel.

— Amanhã eu quero o dobro do valor daquele colar em crédito na minha conta — exigiu ela, passando os braços pelo pescoço dele.

— Veremos — respondeu Emanuel, antes de silenciá-la com um beijo que carregava toda a frustração e o desejo daquela viagem.

A guerra na cobertura continuaria na manhã seguinte, com novos ataques e novas defesas. Mas, por enquanto, Emanuel navegava entre as duas águas, o porto seguro de uma e a tempestade da outra, sabendo que, no fundo, ele não saberia mais como respirar em um mar calmo.