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D

O Frágil Fio de Vidro

O som rítmico dos aparelhos na Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica era a única trilha sonora que Emanuel conseguia suportar. Aquele "bip" constante, persistente e irritante, era a única prova de que o coração de Arthur ainda lutava. O pequeno furacão, que antes derrubava potes de tinta e escalava cercadinhos, agora parecia uma boneca de cera sob o lençol branco do hospital. Tubos e acessos venosos marcavam a pele que Emanuel tanto desejava tatuar com o nome do filho no futuro.

Eduarda estava sentada em uma poltrona plástica ao lado do berço, com o rosto escondido nas mãos. Ela não chorava mais de forma ruidosa; suas lágrimas haviam secado, deixando apenas um rastro de sal e uma exaustão que parecia ter envelhecido sua alma em apenas quarenta e oito horas. Arthur contraíra uma pneumonia severa que evoluíra rapidamente para uma infecção sistêmica, e os médicos ainda lutavam para estabilizar sua saturação de oxigênio.

— Ele está tão pálido, Emanuel... — sussurrou ela, a voz falhando, sem tirar os olhos do peito do menino que subia e descia com dificuldade. — Onde está aquela força dele? Por que ele não acorda para me morder ou para puxar meu cabelo?

Emanuel aproximou-se e colocou a mão pesada no ombro de Eduarda. Ele, o homem prático, o empresário que geria crises globais em seus estúdios de tatuagem com um estalar de dedos, sentia-se um inútil. Pela primeira vez na vida, o dinheiro não podia comprar o resultado que ele queria.

— Ele vai voltar, Duda. O Arthur é um lutador. Ele tem o meu sangue e a sua teimosia — Emanuel disse, embora sua própria voz estivesse embargada. — Eu não vou deixar nada acontecer com ele.

— Você viu como ele apertou o meu dedo antes de o sedarem? — Ela olhou para Emanuel com olhos suplicantes. — Ele estava com medo. Ele é só um bebê.

Emanuel sentiu um aperto no peito que nunca havia experimentado. Ele amava Valentina, sua pequena diva de cristal, mas havia algo em Arthur que o conectava à sua própria essência bruta. Ver aquele menino, que era a imagem da vida e do caos, prostrado por uma doença, fez Emanuel perceber que Arthur era o centro de gravidade de sua existência. Se aquele menino partisse, o império de Emanuel seria apenas um monte de cinzas.

O celular de Emanuel vibrou no bolso. Ele tentou ignorar, mas a persistência das chamadas indicava que era Sara. Ele saiu do quarto da UTI por um momento, indo até o corredor frio e asséptico.

— O que foi, Sara? Eu disse que não podia falar agora. O Arthur teve uma piora na febre.

— Emanuel, eu sei que a situação do menino é chata, mas a vida não parou — a voz de Sara veio nítida e impaciente do outro lado da linha. — A fotógrafa da *Vogue Kids* já chegou na cobertura. O cenário está montado e a Valentina está perfeita. Ela precisa de você aqui.

Emanuel fechou os olhos, sentindo uma veia pulsar em sua têmpora.

— Você está brincando, não é? Meu filho está entre a vida e a morte em uma UTI e você quer que eu vá posar para fotos de revista?

— "Seu filho", Emanuel? A Valentina também é sua filha! — Sara retrucou, o tom subindo. — Ela tem um contrato. Essa sessão de fotos vai lançar a imagem dela como o rosto da nova coleção. Você sabe o quanto eu trabalhei para isso. O Arthur tem a Eduarda lá com ele. O que você vai fazer em um hospital? Você não é médico.

— Eu sou o pai dele, Sara! — Emanuel rugiu, atraindo olhares reprovadores das enfermeiras. — Ele precisa sentir que eu estou aqui. A Eduarda está destruída. Eu não vou sair daqui por causa de uma futilidade dessas.

— Futilidade? — Sara soltou uma risada sarcástica. — Futilidade é essa sua obsessão por esse menino selvagem enquanto a sua filha legítima, a sua princesa, está aqui pronta para brilhar. Se você não vier em uma hora, eu vou dar a entrevista dizendo que você é um pai ausente. Eu juro, Emanuel.

— Faça o que você quiser, Sara. Vá para o inferno com as suas fotos — Emanuel desligou o celular e o desligou completamente, jogando-o no banco do corredor.

Ele voltou para o quarto. Eduarda havia adormecido por um instante, com a cabeça encostada na grade do berço. Emanuel sentou-se no chão ao lado dela, observando os dois. Ele percebeu que a vida que levava, tentando equilibrar o fogo de Sara e a doçura de Eduarda, era insustentável diante da realidade da morte. Ali, naquele hospital, a vulgaridade de Sara parecia uma mancha feia em um quadro sagrado.

As horas se transformaram em dias. No terceiro dia, Arthur teve uma crise respiratória. O código azul ecoou pelo andar, e Emanuel teve que carregar Eduarda para fora enquanto os médicos realizavam manobras de emergência.

— Não! Deixem-me ficar com ele! — gritava Eduarda, lutando contra os braços de Emanuel. — Arthur! Mamãe está aqui!

— Calma, pequena... calma — Emanuel a segurava com força, chorando abertamente agora, as lágrimas molhando a nuca da namorada. — Eles vão salvá-lo. Eles têm que salvá-lo.

Foi o momento mais sombrio da vida de Emanuel. Ele prometeu a si mesmo que, se Arthur sobrevivesse, as coisas mudariam. Ele não permitiria que a toxicidade de Sara atingisse mais o menino. Ele protegeria aquela inocência com sua própria vida.

Enquanto isso, na cobertura, Sara fervia de ódio. Ela postara fotos de Valentina sozinha, forçando um sorriso na bebê que, sem a presença do pai, parecia confusa e inquieta.

— Sorria, Valentina! — Sara ordenava, ajeitando o laço de cetim da filha com força excessiva. — Não seja como o seu irmãozinho problemático. Você é o sucesso da casa.

Valentina, porém, não colaborava. Ela sentia a tensão da mãe e o vazio deixado por Emanuel e Arthur. A pequena diva, pela primeira vez, chorou durante uma sessão de fotos, arruinando a maquiagem que Sara insistira em colocar nela.

— Que droga! — Sara gritou, jogando um pincel no chão. — Até você está tentando me sabotar?

No quinto dia de internação, o milagre aconteceu. A febre de Arthur cedeu. Os pulmões, antes congestionados e rígidos, começaram a responder aos antibióticos de última geração. O médico saiu da UTI com um sorriso cansado.

— Ele passou pelo pior, Emanuel. O Arthur é um touro. A saturação estabilizou e vamos começar a retirar a sedação.

Eduarda desabou nos braços de Emanuel, desta vez em um pranto de alívio.

— Ele vai viver... ele vai viver, Emanuel!

— Eu disse a você, pequena. Ele é nosso milagre.

Quando Arthur abriu os olhos, dois dias depois, a primeira coisa que viu foi o rosto de Emanuel. O menino soltou um som fraco, uma tentativa de "papai", e esticou a mãozinha trêmula. Emanuel a pegou, beijando cada dedo com uma devoção que nunca sentira antes.

— Eu estou aqui, campeão. O papai nunca mais vai sair do seu lado.

A alta veio após uma semana. Arthur ainda estava magro e um pouco pálido, mas o brilho travesso estava voltando aos seus olhos. Emanuel o carregou para dentro da cobertura como se carregasse um tesouro inestimável.

Sara estava na sala, esperando por eles. Ela segurava Valentina no colo, ambas vestidas de forma impecável, como se estivessem prontas para um evento social.

— Finalmente — disse Sara, sem se levantar. — Espero que agora a rotina volte ao normal. A Valentina sentiu falta da atenção dela. Ela ficou muito estressada com toda essa confusão.

Emanuel parou no meio da sala, olhando para Sara com um desprezo que a fez recuar fisicamente.

— O Arthur quase morreu, Sara. Ele ficou internado por uma semana em uma UTI. E a sua única preocupação é o "estresse" da Valentina por não ter flashes no rosto?

— Eu sou prática, Emanuel. O menino melhorou, não melhorou? Então pronto. Agora, precisamos planejar a festa de boas-vindas da Valentina para os patrocinadores.

Emanuel caminhou até ela, a voz baixa e perigosa, enquanto Eduarda levava Arthur para o quarto para descansar.

— Escute bem o que eu vou te dizer, Sara. Nunca mais... nunca mais ouse comparar a saúde do meu filho com os seus contratos de modelo. Se você falar do Arthur com esse desdém novamente, eu juro que coloco você e seus vestidos de seda para fora desta casa no mesmo instante.

— Você não faria isso. Você me ama. Você precisa de mim — Sara disse, embora sua voz tivesse perdido a confiança.

— Eu amo a Valentina. Mas o que eu sinto por você está morrendo a cada vez que você abre a boca para ser egoísta — Emanuel virou as costas para ela. — Eu vou ficar com o Arthur. Não me procure hoje.

No quarto de Arthur, o sol da tarde entrava pela janela, iluminando Eduarda que ninava o filho. Arthur segurava um dos pincéis de Eduarda, que ela trouxera da galeria, e tentava "pintar" o lençol.

— Ele está de volta — Eduarda sorriu, encostando a cabeça no ombro de Emanuel quando ele se sentou ao lado deles.

— Ele está. E eu também estou, Duda. De verdade agora.

Emanuel percebeu que a doença de Arthur fora o catalisador de uma mudança interna. Ele ainda estava preso naquele triângulo, preso entre a responsabilidade com Valentina e a paixão por Sara, mas seu coração agora tinha um dono absoluto. Arthur era o elo que o prendia à humanidade.

Naquela noite, o silêncio da cobertura não era de tensão, mas de uma trégua frágil. Emanuel dormiu no quarto de Arthur, em uma poltrona, vigiando cada respiração do filho. Ele sabia que Sara estava no outro quarto, tramando sua próxima jogada para recuperar o controle, mas ele não se importava.

Pela manhã, Arthur acordou e, com sua energia renovada, conseguiu alcançar um copo de água na mesinha de cabeceira, derrubando tudo sobre o tapete caro de Emanuel.

— Ei! — Emanuel exclamou, acordando com o barulho.

Arthur olhou para a poça de água, olhou para o pai e soltou uma gargalhada alta e pura.

— Bagunça! — gritou o menino, batendo as mãos na água.

Emanuel sorriu, sentindo uma paz que nenhuma joia ou sucesso profissional jamais lhe dera.

— É, garotão. Bagunça. Muita bagunça.

Ele pegou o filho no colo, sentindo o calor da vida pulsando naquele pequeno corpo. O furacão estava de volta, e Emanuel estava pronto para enfrentar qualquer tempestade que Sara ou o mundo decidissem enviar. Porque agora ele sabia: o maior erro de Sara não fora trazer Eduarda para suas vidas, mas acreditar que o brilho de Valentina poderia apagar a luz intensa e caótica que Arthur trouxera para o seu coração.