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Cicatrizes de Lealdade e o Peso do Sangue

O silêncio no estúdio de tatuagem era pesado, apenas quebrado pelo zumbido baixo de um esterilizador ao fundo. Emanuel mantinha as mãos apoiadas nos joelhos, a postura rígida de quem carregava o mundo nas costas. Eduarda, diante dele, parecia um pássaro ferido, com os ombros encolhidos e o rosto manchado pelo choro, mas havia algo diferente no brilho de seus olhos castanhos naquela noite.

— Você não entende, Duda — Emanuel repetiu, a voz carregada de uma decepção que cortava o ar. — A Sara tem mil defeitos, eu sou o primeiro a admitir. Ela é impulsiva, é difícil, muitas vezes é insuportável com esse jeito dela de querer chocar todo mundo. Mas tem uma coisa que eu nunca pude questionar: a lealdade dela. Se fosse você sendo barrada naquela porta, se fosse você sendo humilhada por um estranho ou por qualquer pessoa, a Sara nunca deixaria você sozinha. Ela teria feito um escândalo, teria te defendido com unhas e dentes, mas jamais teria entrado para comer bolo enquanto você chorava no carro.

Um silêncio curto se instalou. Eduarda, que até então parecia submissa e mansa, soltou uma risada anasalada, curta e carregada de uma amargura que Emanuel raramente presenciava nela. Ela limpou uma lágrima solitária com o dorso da mão e olhou diretamente para o homem que amava.

— Você realmente acredita nisso, Emanuel? — perguntou ela, a voz suave, mas firme. — Você vive com a gente, mas parece que não enxerga o que acontece quando você vira as costas.

Emanuel franziu o cenho, a autoridade de sua presença vacilando por um segundo.

— O que você quer dizer com isso?

— A Sara não só deixaria alguém me humilhar, Emanuel, como ela mesma me humilha todos os dias — Eduarda desabafou, dando um passo à frente, saindo da sombra da timidez que costumava protegê-la. — Ela ri das minhas roupas, desdenha da minha faculdade de História da Arte porque diz que "não dá dinheiro", faz piadas sobre o meu jeito tímido na frente dos seus amigos. Você acha que ela me defenderia da tia Odete? Ela adoraria ver a tia Odete acabando comigo, porque isso provaria que eu sou a "fraca" da relação. A lealdade que você vê nela é só possessividade em relação a você.

Emanuel levantou-se, a diferença de altura entre eles criando uma sombra sobre o corpo esguio de Eduarda. Ele estava irritado, o controle que tanto prezava escorrendo por entre os dedos.

— Isso não justifica o que você fez hoje. Você me deixou sozinho com ela naquela calçada. Você escolheu a aprovação de uma mulher preconceituosa em vez de ficar ao lado de quem divide a vida com você.

— Eu escolhi a minha avó! — Eduarda elevou o tom de voz, algo raríssimo. — Eu escolhi o meu pai, que estava lá tentando apaziguar as coisas. Eu amo você, Emanuel. Eu amo você tanto que aceito dividir você com uma mulher que me detesta. Eu aceito o seu estilo de vida, aceito as suas regras e esse seu jeito controlador. Mas eu não vou deixar de ver a minha família por causa da Sara. Eu não vou deixar de ser neta e filha porque a sua outra namorada resolveu usar um decote no umbigo para ir à casa de uma católica fervorosa.

Emanuel sentiu o impacto das palavras. Ele sabia que Sara tinha provocado a situação com suas roupas, mas sua mente prática ainda via a traição de Eduarda como o erro maior.

— Então é isso? — Emanuel cruzou os braços, os músculos tatuados se retesando. — A partir de agora, quando sua família decidir que uma de nós não presta, você simplesmente concorda e entra para o jantar? Que tipo de relacionamento é esse, Eduarda?

Eduarda aproximou-se, o jeito manhoso retornando, mas agora misturado com uma determinação melancólica. Ela tocou o peito nu de Emanuel, sentindo o calor da pele dele e a vibração de sua respiração pesada.

— Não é sobre concordar, Manu... é sobre saber que eu tenho raízes. A tia Odete errou, ela foi horrível. Mas ela é meu sangue. A Sara é uma escolha sua que eu aceitei, mas ela não é minha prioridade acima do amor que eu tenho pelos meus pais. Eu sinto muito se ela se sentiu humilhada, de verdade. Mas eu não sou o escudo dela.

Emanuel segurou os pulsos de Eduarda, não com força, mas com uma intensidade que a fez prender o fôlego.

— Se você quer estar comigo, Duda, você tem que entender que o meu mundo não é o mundo da sua tia. Eu sou um tatuador. Eu sou o cara que as pessoas como ela olham torto na rua. Quando você escolhe o lado dela, mesmo que seja por "sangue", você está dizendo que o que eu sou também não é bom o suficiente para frequentar a sala de estar da sua família sem restrições.

— Isso não é verdade! — ela exclamou, tentando se soltar. — Eles respeitam você! Meu pai te adora!

— Mas não respeitam as minhas escolhas — Emanuel rebateu friamente. — E você, sendo a parte "doce" dessa relação, acaba sendo o cavalo de Troia deles. Eles usam você para tentar me separar do que eles consideram vulgar.

Eduarda baixou a cabeça, as lágrimas voltando a cair silenciosamente sobre as mãos de Emanuel que ainda prendiam seus pulsos.

— Eu só queria que todos se dessem bem — ela sussurrou, a voz quebrada pela exaustão emocional. — Eu só queria que você não ficasse com raiva de mim. Eu não aguento quando você me olha desse jeito, como se eu fosse uma estranha.

Emanuel soltou os pulsos dela e suspirou, passando a mão pelo rosto. O estresse acumulado do dia estava cobrando seu preço. Ele olhou para a porta de vidro fosco, sabendo que Sara estava do outro lado, provavelmente ouvindo cada palavra e preparando um contra-ataque ácido.

— Vá para o quarto, Eduarda — disse ele, a voz voltando àquela monotonia controlada que era quase pior do que o grito. — Eu não vou mudar o que eu penso. Acho que você foi covarde hoje. E você não vai mudar o que sente sobre sua família. Mas entenda uma coisa: se houver uma próxima vez, e você me deixar sozinho para defender quem nos insulta, não vai ter "conversa séria" quando você voltar. Porque talvez não tenha mais para onde voltar.

O coração de Eduarda deu um solavanco. A ameaça implícita de um término, ou de uma expulsão daquele núcleo que ela tanto amava, a deixou paralisada. Ela buscou o olhar dele, mas Emanuel já estava se virando para a sua bancada, pegando um desenho de um cliente para o dia seguinte, fechando-se em seu próprio mundo de tinta e agulhas.

— Manu... — ela tentou, estendendo a mão para tocá-lo nas costas.

— Agora não, Eduarda. Eu preciso de silêncio.

Ela recuou, sentindo-se pequena. Saiu do estúdio e atravessou a sala. Sara continuava no sofá, a taça de vinho agora vazia na mesa de centro. Quando Eduarda passou, a loira soltou um risinho debochado.

— Apanhou muito do papai Emanuel, santinha? — provocou Sara, a voz carregada de veneno. — Da próxima vez, pede para a sua tia rezar um terço pela sua permanência aqui. Porque o clima está ficando bem pesado para o seu lado.

Eduarda parou e olhou para Sara. Por um momento, a timidez quase a fez calar, mas a dor da discussão com Emanuel a transformou.

— Você ganhou o que queria hoje, não foi, Sara? — Eduarda disse, a voz trêmula, mas audível. — Você provocou até ser expulsa, só para testar a lealdade dele e me colocar contra ele. Você não se importa com a humilhação, você adora o papel de vítima para ele te proteger. Mas saiba de uma coisa: ele pode estar bravo comigo hoje, mas ele me ama. E ele sabe que, no fundo, quem causou aquela cena no portão foi o seu ego, não a religião da minha tia.

Sara levantou-se num salto, a camiseta de Emanuel mal cobrindo suas coxas, os olhos azuis faiscando.

— Como é que é? Repete se tiver coragem, sua sonsa!

— Não vou repetir nada — Eduarda disse, virando as costas e caminhando para o quarto de hóspedes que costumava usar quando as coisas estavam tensas. — Eu já tive conflito o suficiente por um dia.

Ela entrou no quarto e trancou a porta, desabando na cama. O cheiro de Emanuel estava em todo lugar, mas o conforto parecia distante.

Enquanto isso, na sala, Sara bufava de ódio, mas havia um sorriso vitorioso no canto de seus lábios. Ela caminhou até o estúdio e entrou sem bater. Emanuel nem levantou a cabeça.

— Ela é uma traíra, Manu — disse Sara, aproximando-se dele e massageando seus ombros tensos. — Você viu como ela te deixou? Você viu como ela defendeu aquela velha maluca? Você não precisa disso. Você precisa de alguém que esteja no fogo com você.

Emanuel fechou os olhos, sentindo as mãos de Sara, mas sua mente estava na imagem de Eduarda chorando, dividida entre o amor e o sangue.

— Sai, Sara — ele disse, a voz baixa.

— O quê? Eu estou tentando te ajudar, eu estou do seu lado!

— Eu disse para sair — Emanuel levantou o olhar, e a frieza nele fez até Sara recuar um passo. — Eu sei exatamente o que você fez hoje. Eu sei que você escolheu aquele vestido de propósito. Eu te defendi porque era o certo a fazer, mas não ache que eu sou idiota.

Sara abriu a boca para protestar, mas o olhar de Emanuel a calou. Ela saiu do estúdio batendo a porta, deixando-o finalmente sozinho.

Emanuel olhou para as próprias mãos. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado, mas ali, no silêncio do seu loft de luxo, ele se sentia um náufrago. Ele amava a doçura e a paz que Eduarda trazia para sua vida caótica, e desejava o fogo e a intensidade de Sara. Mas o preço de manter aquele equilíbrio estava se tornando alto demais.

Ele sabia que a conversa do dia seguinte seria decisiva. Eduarda não abriria mão da família, e Sara não abriria mão de ser o centro das atenções. E ele, no meio das duas, estava começando a sentir que a pele que ele tanto tatuava com histórias alheias estava começando a rasgar com a sua própria.

A noite passou lenta. No quarto, Eduarda abraçava o travesseiro, imaginando se o seu jeito manhoso seria o suficiente para curar a ferida daquela tarde. Ela sabia que Emanuel valorizava a lealdade acima de tudo, mas ela também sabia que sem a sua família, ela perderia a própria identidade.

"Eu te amo, Emanuel", ela pensou, antes de o sono exausto a vencer. "Mas eu não posso ser apenas o que você quer que eu seja."

No estúdio, Emanuel finalmente desligou as luzes. Ele caminhou até a janela e olhou a cidade. A guerra entre o sagrado e o profano, entre o dever e o desejo, estava longe de acabar. E ele era o único general em um campo de batalha onde todas as vitórias pareciam derrotas disfarçadas.