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O Eclipse de Ferro e Veludo
A luz pálida do amanhecer filtrava-se pelas cortinas de linho egípcio da cobertura, mas Emanuel já estava acordado há horas. Ele não conseguia dormir profundamente desde que Eduarda se mudara definitivamente para o seu apartamento. O que deveria ser um período de celebração e alívio transformara-se em um estado de vigilância constante. Sentado na poltrona de couro ao lado da cama imensa, ele observava o peito dela subir e descer de forma superficial.
Eduarda parecia uma pintura de mármore translúcido. A recaída viera sem aviso, três semanas após a alta hospitalar. O médico explicara que a anemia aplástica era uma batalha de resistência, não um sprint, e que o corpo dela ainda estava lutando para produzir o que precisava. Para Emanuel, cada sombra sob os olhos castanhos dela era como um golpe de agulha sem tinta em sua própria pele.
— Manu... — a voz dela surgiu pequena, quase um suspiro, vinda do meio dos travesseiros.
Emanuel inclinou-se instantaneamente, segurando a mão dela. Estava fria, apesar do aquecimento central.
— Estou aqui, pequena. Como você se sente?
Eduarda abriu os olhos devagar, focando no rosto tenso do namorado. Ela fez um pequeno biquinho, a expressão mais manhosa do mundo se formando em suas feições delicadas.
— Minha cabeça está rodando... e meus braços parecem feitos de chumbo — ela murmurou, estendendo a mão livre para que ele a puxasse para mais perto. — Você me carrega até a varanda? Eu queria ver o sol.
— O médico disse que você precisa de repouso absoluto hoje, Duda — Emanuel disse, embora já estivesse passando os braços por baixo dela para ajeitá-la em seu colo. — Mas eu te levo até a poltrona. Só por cinco minutos.
Ele a ergueu com uma facilidade que enfatizava o quanto ela estava leve. Ao caminhar pelo corredor, deu de cara com Sara. A loira usava um conjunto de ginástica de grife, segurando um copo de suco verde e um tablet. Ela parou, observando a cena com uma sobrancelha arqueada.
— Outra crise de tontura? — perguntou Sara, o tom entre a ironia e a preocupação prática. — Emanuel, o hematologista ligou. Os resultados da nova série de exames saem à tarde. Eu já agendei a enfermeira para vir aplicar o ferro intravenoso às quatorze horas.
— Obrigado, Sara — Emanuel respondeu, a voz curta. — Certifique-se de que seja a mesma enfermeira da última vez. Eduarda não gosta de mãos pesadas.
— Eu sei, Manu. Eu cuido de tudo, como sempre — Sara suspirou, olhando para Eduarda, que escondia o rosto no pescoço de Emanuel, fugindo da claridade. — E você, gracinha, trate de tomar todo o caldo de carne que eu pedi para prepararem. Se você emagrecer mais um quilo, vai sumir entre os lençóis.
— Eu vou tomar, Sara... — Eduarda respondeu, a voz abafada contra a pele de Emanuel. — Mas eu queria algo doce depois.
Sara revirou os olhos, mas Emanuel notou que ela já estava digitando algo no tablet, provavelmente encomendando os doces artesanais que Eduarda gostava.
— Você mima demais essa menina, Emanuel — Sara resmungou, saindo em direção ao escritório. — Estamos com três estúdios novos para inaugurar e você parece um enfermeiro particular.
Emanuel não deu atenção. Ele acomodou Eduarda na poltrona da varanda envidraçada, cobrindo-a com uma manta de cashmere. Ele sentou-se no chão, aos pés dela, deixando que ela brincasse com os fios curtos de seu cabelo.
— Manu? — ela chamou, a voz ganhando um tom de desejo infantil.
— Diga, meu amor.
— Eu vi uma coisa ontem... no Instagram daquela loja de sapatos de luxo que a Sara gosta — ela começou, os olhos brilhando por um momento. — Era uma Mary Jane. De veludo bordô, com uma fivela de cristais e uma tira bem delicada. Parecia sapatinho de boneca, Manu. Eu fiquei imaginando como ficaria linda com aquele meu vestido de seda branca quando eu ficar boa e a gente puder sair para jantar.
Emanuel sorriu, sentindo um alívio ao vê-la interessada em algo externo à doença.
— Se você gostou, é sua. Me mostre qual é e eu peço para entregarem agora mesmo.
Eduarda pegou o celular com as mãos trêmulas e abriu o anúncio salvo. Emanuel analisou a imagem. O sapato era, de fato, a cara dela: clássico, delicado e caro. Ele imediatamente ligou para o seu assistente pessoal, mantendo o telefone no viva-voz.
— Marcos, preciso que você compre um par de sapatos na Boutique Valmont. Mary Jane, veludo bordô, tamanho 35. Quero aqui na cobertura em uma hora.
Houve um silêncio do outro lado da linha, seguido pelo som de digitação.
— Senhor... eu sinto muito — disse Marcos, a voz hesitante. — Eu acabei de verificar o estoque global dessa coleção. Essa edição foi limitada, apenas cinquenta pares no mundo. Estão esgotados em todas as lojas, inclusive em Paris e Milão. Não há mais disponibilidade.
O brilho nos olhos de Eduarda apagou-se instantaneamente. O biquinho manhoso voltou, mas desta vez acompanhado de lágrimas que inundaram seus olhos castanhos.
— Ah... não tem mais — ela sussurrou, a voz quebrada. — Tudo bem, Manu. Eu não deveria ter pedido. Eu nem consigo andar direito agora, para que eu quero sapatos bonitos?
Emanuel sentiu uma pontada de angústia. Para ele, aquele sapato não era apenas um acessório; era um símbolo da vida que ele queria devolver a ela. Ver Eduarda desistir de algo com aquela melancolia era insuportável.
— Não chore, Duda. Eu vou dar um jeito.
— Não tem jeito, Manu — ela soluçou, encolhendo-se sob a manta. — Se acabou no mundo todo, acabou. É como eu me sinto... sem estoque de nada.
Emanuel levantou-se, a mandíbula travada. Ele não aceitava "não" como resposta, especialmente quando o sorriso de Eduarda estava em jogo. Ele caminhou até o escritório, onde Sara estava em uma conferência por vídeo. Ele esperou que ela desligasse.
— Sara, preciso da sua ajuda — ele disse, a voz autoritária.
— Se for sobre o contrato de Madri, eu já...
— Não é sobre Madri. É sobre um sapato. Uma Mary Jane de veludo bordô da Valmont. Eduarda quer, e o Marcos disse que está esgotado no mundo todo.
Sara soltou uma risada ruidosa, recostando-se na cadeira de couro.
— Você interrompeu meu fechamento de trimestre por causa de um sapato esgotado? Emanuel, você perdeu o juízo de vez.
— Eu não estou brincando, Sara. Ela está lá fora chorando. Ela se sente fraca, se sente feia por causa da anemia. Aquele sapato é a única coisa que a fez sorrir hoje. Use seus contatos. Ligue para as compradoras pessoais, fale com os donos da marca. Eu pago o triplo, o quádruplo. Eu quero aquele sapato.
Sara observou Emanuel por um longo momento. Ela via a obsessão nos olhos dele, o desespero de um homem que podia comprar o mundo, mas não podia comprar a saúde da mulher que amava. Ela suspirou, desligando o monitor.
— Você é patético, sabia? — ela disse, mas já estava pegando o telefone. — Mas eu também sou, por ainda estar aqui. Deixe comigo. Se esse sapato existe em algum closet de alguma socialite fútil, eu vou encontrá-lo.
Emanuel voltou para a varanda. Eduarda havia pegado no sono, exausta pelo pequeno esforço de chorar. Ele sentou-se ao lado dela e esperou.
Duas horas se passaram. A enfermeira chegou, aplicou a medicação intravenosa enquanto Eduarda ainda dormitava, reclamando baixinho da picada da agulha. Emanuel segurou a mão dela o tempo todo, sentindo cada pequena contração de dor dela em seus próprios nervos.
Quando a enfermeira saiu, Sara entrou no quarto. Ela não estava com o tablet, mas com uma caixa de veludo preto nas mãos e um sorriso vitorioso.
— O que você conseguiu? — Emanuel perguntou, levantando-se.
— Digamos que eu tive que prometer um favor muito grande para a esposa do CEO da Valmont — Sara disse, entregando a caixa para Emanuel. — Era o par de exibição da flagship de Londres. Eles iam mandar para o museu da marca, mas eu os convenci de que o pé da sua "boneca" era um destino mais nobre. E, claro, você agora deve uma doação generosa para a fundação de caridade dela.
Emanuel abriu a caixa. O veludo bordô brilhava sob a luz do quarto, os cristais da fivela refletindo as cores do arco-íris. Era perfeito.
— Duda... — ele chamou, balançando-a levemente. — Pequena, acorde.
Eduarda abriu os olhos, ainda meio dopada pela medicação. Emanuel segurou o sapato diante dela.
— Você disse que não tinha mais no mundo — ele sussurrou. — Mas você esqueceu que, para você, eu invento um mundo novo se for preciso.
Eduarda arregalou os olhos. Ela tateou o tecido macio do sapato, as pontas dos dedos acariciando o bordô profundo.
— Manu! Como? A Sara disse que...
— A Sara é eficiente — Emanuel cortou, olhando para a loira, que permanecia na porta, observando.
— Obrigada, Sara! — Eduarda disse, a voz subitamente cheia de energia. — Ele é mais lindo do que na foto. Manu, coloca em mim? Só para eu ver?
Emanuel ajoelhou-se. Com uma delicadeza que ninguém acreditaria que aquelas mãos de tatuador possuíam, ele deslizou o pé pálido e frio de Eduarda para dentro do sapato de veludo. O contraste do bordô com a pele alva dela era deslumbrante.
— Ficou perfeito — Emanuel disse, beijando o peito do pé dela.
— Eu me sinto uma princesa — ela suspirou, admirando o próprio pé. — Agora eu tenho um motivo para caminhar pelo corredor amanhã. Eu vou usar eles, Manu. Eu vou ficar boa para usar eles com você.
Eduarda estendeu os braços e Emanuel a abraçou, sentindo-a se aninhar em seu peito de forma manhosa.
— Você vai ficar boa, Duda. Eu não vou deixar nada te acontecer.
Sara observava do corredor. Ela sentia uma pontada de solidão, mas também uma estranha satisfação. Ela era o motor que fazia aquela engrenagem funcionar. Ela era o sangue frio que permitia que Emanuel vivesse seu romance de seda.
— Comam o caldo de carne agora — Sara disse, a voz ríspida para esconder a emoção. — E Emanuel, temos uma reunião com Berlim em vinte minutos. Não se atrase por causa de um sapato.
— Eu já vou, Sara — Emanuel respondeu, mas não se moveu.
Eduarda adormeceu novamente, desta vez com um meio sorriso nos lábios e o sapato de veludo ainda calçado em um dos pés. Emanuel permaneceu ali, sentado no chão, guardando o sono dela. Ele sabia que a anemia voltaria a testá-los, que haveria mais dias de sangue e fraqueza. Mas, naquele momento, ele sentia que havia vencido uma pequena batalha contra o destino.
Ele olhou para a sua mão, onde uma tatuagem de uma fênix subia pelo pulso. Ele era o fogo, Sara era o aço e Eduarda era a vida frágil que eles juraram proteger. O império de Emanuel não era feito de estúdios ou dinheiro; era feito daquele equilíbrio improvável entre o veludo bordô e a tinta preta. E, enquanto Eduarda respirasse, ele continuaria movendo céus e terras para que ela tivesse motivos para sorrir, nem que fosse por causa de um par de sapatos esgotado no mundo, mas presente em seu coração.