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O Labirinto de Prioridades
O sol da manhã entrava pelas janelas do amplo loft de Emanuel, refletindo nas superfícies de vidro e metal que compunham a decoração moderna e minimalista. No centro da sala, Emanuel estava sentado diante de um notebook, com o cenho franzido e uma xícara de café preto já frio ao seu lado. O sucesso de seus estúdios de tatuagem trazia consigo uma carga administrativa que, por vezes, drenava sua energia mais do que as horas segurando a agulha sobre a pele de um cliente.
Sara apareceu no topo da escada, vestindo um robe de seda preta que mal escondia as curvas realçadas pelo silicone. Ela não era uma pessoa matinal por natureza, mas quando o assunto era o império de Emanuel, seus olhos brilhavam com uma lucidez afiada. Ela desceu os degraus e se aproximou dele, colocando as mãos sobre seus ombros e massageando a tensão acumulada no trapézio.
— Você está revisando o balanço de Miami, não está? — perguntou ela, a voz ainda rouca de sono, mas carregada de uma inteligência prática.
— O custo operacional subiu 15% em dois meses, Sara — Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento e aproveitando o toque dela. — Não faz sentido. O fluxo de clientes aumentou, mas o lucro líquido está estagnado.
Sara contornou a mesa e sentou-se na borda, cruzando as pernas de forma que o robe se abrisse levemente. Ela puxou o notebook para si e deslizou os dedos pelo trackpad com agilidade.
— É a logística de suprimentos, Manu. O fornecedor de tintas da Flórida mudou a tabela de frete. Eu te mandei um e-mail sobre isso na quarta-feira. Se mudarmos para o distribuidor da Geórgia, reduzimos esse custo em 8% e ainda ganhamos um prazo de pagamento maior. Já deixei a planilha de comparação pronta na pasta compartilhada.
Emanuel olhou para ela, uma centelha de admiração cruzando seu rosto cansado. Ele esticou o braço e puxou uma pequena caixa de veludo azul que estava escondida sob alguns papéis.
— Você é implacável, Sara. Eu não sei o que faria sem essa sua mente para os números.
Ele entregou a caixa a ela. Sara a abriu, revelando um bracelete de ouro branco cravejado de pequenos diamantes. Seus olhos brilharam, não apenas pelo valor da joia, mas pelo reconhecimento que ela representava.
— Um bônus pelo relatório de Londres? — ela perguntou, deslizando a joia pelo pulso e admirando o brilho contra sua pele bronzeada.
— Um presente porque eu estou orgulhoso de você — Emanuel disse, levantando-se e puxando-a para um beijo rápido. — Você tem sido meu braço direito.
Sara sorriu, mas em seu íntimo, ela processava a informação de forma estratégica. Ela sabia que Emanuel amava Eduarda. Sabia que aquela garota tímida e sensível ocupava um lugar no coração dele que ela, com sua agressividade e pragmatismo, talvez nunca ocupasse da mesma forma. No entanto, Sara também entendia de território. Eduarda era a namorada "da alma", mas ela era a namorada "da vida". Ela morava ali, ela dividia os problemas, ela entendia o peso da conta bancária e a pressão do sucesso.
— Eu vou agendar a reunião com os fornecedores da Geórgia hoje mesmo — Sara disse, ajustando o bracelete. — Quero deixar tudo limpo antes do evento de amanhã à noite na galeria. Você vai precisar estar com a cabeça fresca para os investidores.
Emanuel hesitou, a menção ao evento trazendo à tona o conflito que ele vinha tentando evitar.
— Sobre amanhã... a Eduarda não vai poder ir.
Sara parou o que estava fazendo e olhou para ele. Ela não sorriu com escárnio, nem soltou uma piada ácida, o que surpreendeu Emanuel. Em vez disso, ela apenas inclinou a cabeça, mantendo uma expressão de compreensão calculada.
— Faculdade? — ela perguntou, neutra.
— Trabalho de História da Arte. Ela disse que é uma pesquisa extensa e o prazo termina na segunda-feira. Ela está muito nervosa com isso.
Sara deu de ombros, caminhando em direção à cozinha para preparar um novo café.
— É uma pena. É um evento importante para a marca. Mas eu entendo, a Duda leva os estudos a sério. Eu estarei lá com você, Manu. Vou garantir que você fale com as pessoas certas e que ninguém te alugue por tempo demais.
Emanuel sentiu um alívio imediato. Ele esperava uma cena, um comentário vulgar sobre como Eduarda era "imatura" por priorizar um trabalho acadêmico em vez de apoiar o namorado. A nova postura de Sara — uma convivência civilizada, quase protetora — era um bálsamo para seus nervos. O que ele não percebia era que Sara estava jogando o jogo longo. Ela não precisava atacar Eduarda; bastava estar presente onde Eduarda estivesse ausente.
***
Mais tarde naquele dia, Emanuel dirigiu até o pequeno apartamento dos pais de Eduarda. Ele precisava vê-la. O contraste entre a eficiência de Sara e a vulnerabilidade de Eduarda era o que mantinha seu equilíbrio emocional, por mais caótico que fosse.
Quando Eduarda abriu a porta, ela parecia exausta. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, e havia uma mancha de grafite em sua bochecha. Ao ver Emanuel, seu rosto se iluminou com uma doçura que instantaneamente desarmou a rigidez dele.
— Manu! — ela exclamou, jogando-se nos braços dele e escondendo o rosto em seu pescoço. — Que saudade.
— Eu te vi ontem, pequena — ele riu baixo, apertando-a contra o corpo e sentindo o cheiro de baunilha e papel velho.
— Mas parece que faz uma semana — ela murmurou, manhosa, puxando-o para dentro. — Eu estou tão cansada. Esses manuscritos renascentistas vão acabar comigo. Eu sinto que não sei nada, que vou tirar uma nota horrível.
Emanuel sentou-se no sofá pequeno da sala, puxando Eduarda para o seu colo. Ela se acomodou ali com uma naturalidade infantil, apoiando a cabeça em seu peito e brincando com os botões de sua camisa.
— Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço, Duda. Vai se sair bem. Eu só queria que você estivesse comigo amanhã. Sinto sua falta nesses eventos.
Eduarda suspirou, um som triste e suave.
— Eu também queria estar lá. Queria usar aquele vestido azul que você me deu e ficar do seu lado... mas eu tenho medo de não terminar a tempo. E eu me sinto tão pequena naquelas festas, Manu. Todo mundo fala de negócios, de expansão... e a Sara está sempre lá, tão segura de si.
Emanuel acariciou o rosto dela, limpando a mancha de grafite com o polegar.
— A Sara trabalha comigo, é diferente. Mas você é o meu refúgio. Eu não preciso que você entenda de logística, eu preciso que você seja você.
— Então por que você insiste tanto para eu morar com você? — ela perguntou, olhando-o nos olhos com uma sinceridade que o atingiu em cheio. — Você sabe que se eu for, eu vou ter que conviver com ela o tempo todo. Eu não sou forte como a Sara, Manu. Eu não sei responder às patadas dela. Eu vou acabar me fechando no quarto e chorando.
Emanuel sentiu a irritação familiar borbulhar, mas ao olhar para a expressão frágil de Eduarda, a raiva se transformou em uma frustração melancólica.
— Eu quero você lá porque eu quero acordar e ver seu rosto. Porque eu quero te proteger de tudo, inclusive dela. Se você estivesse lá, eu poderia mediar as coisas.
— Você não consegue mediar nem no parque de diversões, Manu — ela disse, com uma lucidez que o surpreendeu. — Como vai mediar no café da manhã?
Emanuel ficou em silêncio por um longo momento. Ele sabia que ela tinha razão, mas sua natureza controladora odiava a divisão. Ele queria suas duas metades sob o mesmo teto, queria o império e o jardim, a espada e o escudo.
— Só me prometa que vai pensar mais um pouco — ele pediu, a voz quase um sussurro. — Eu comprei uma escrivaninha nova para o quarto de hóspedes. É de madeira antiga, do jeito que você gosta. Está lá, esperando por você.
Eduarda sentiu o coração apertar. O carinho dele a sufocava tanto quanto a confortava.
— Eu vou pensar, Manu. Prometo.
***
A noite do evento na galeria de arte chegou com toda a pompa que os empreendimentos de Emanuel exigiam. O local estava repleto de colecionadores, artistas e empresários. Emanuel estava impecável em um terno sob medida cinza-chumbo, mas seus olhos buscavam constantemente a porta, um hábito reflexo de quem ainda esperava ver uma silhueta tímida aparecer.
Ao seu lado, Sara era uma visão de poder e sedução. Ela usava um vestido de cetim dourado, justo como uma segunda pele, e o bracelete que Emanuel lhe dera brilhava em seu pulso. Ela não saía do lado dele, mas, ao contrário de outras noites, ela não estava provocativa ou barulhenta. Ela agia como a anfitriã perfeita.
— Aquele é o diretor da rede de hotéis que quer abrir um estúdio conceito em Dubai — Sara sussurrou no ouvido de Emanuel, indicando um homem grisalho do outro lado do salão. — Vá falar com ele. Eu vou buscar duas taças de champanhe e te encontro em cinco minutos com os dados do faturamento trimestral no celular, caso ele pergunte.
Emanuel assentiu, impressionado com a eficiência dela. Durante toda a noite, Sara foi impecável. Ela afastava pessoas indesejadas com um sorriso educado, mas firme, e inseria Emanuel em conversas que eram puramente lucrativas. Ela não mencionou Eduarda nenhuma vez. Não fez piadas sobre a ausência da "estudante". Ela simplesmente ocupou o espaço com tamanha competência que, por alguns momentos, Emanuel se esqueceu da tensão que costumava sentir.
Perto da meia-noite, quando os convidados começavam a se dispersar, Emanuel e Sara ficaram sozinhos em uma varanda com vista para a cidade.
— Foi uma noite excelente — Emanuel admitiu, afrouxando a gravata. — Você foi incrível, Sara. De verdade.
Sara aproximou-se, encostando-se no parapeito e olhando para ele com uma expressão serena, algo raro em seu rosto geralmente irônico.
— Eu sei o que eu represento para você, Manu — ela disse, a voz suave. — Eu sei que você ama a Eduarda. Eu aceitei isso. Mas a Eduarda é uma menina que precisa de proteção. Eu sou a mulher que protege você.
Emanuel olhou para ela, surpreso pela vulnerabilidade naquelas palavras.
— Eu não quero que vocês disputem espaço — ele começou, mas ela o interrompeu com um gesto suave.
— Não há disputa, querido. Ela tem o seu coração. Eu tenho a sua vida. Ela te dá paz, mas eu te dou o mundo. Só quero que você perceba que, enquanto ela escolhe ficar trancada no quarto estudando história, eu estou aqui, sangrando e vencendo com você.
Ela não esperou por uma resposta. Deu um último gole em seu champanhe e entrou na galeria, deixando Emanuel sozinho com seus pensamentos.
Ele pegou o celular e viu uma mensagem de Eduarda, enviada há duas horas: *"Boa sorte no evento, Manu. Queria estar aí para te dar um beijo de boa sorte. Estou indo dormir agora, minha cabeça dói de tanto ler. Te amo."*
Emanuel sorriu ao ler a mensagem, sentindo o calor do afeto de Eduarda. Mas, ao olhar para dentro da galeria e ver Sara conversando com o último investidor, organizando os detalhes do fechamento da noite, ele sentiu um peso diferente.
Ele amava a doçura de Eduarda, a forma como ela o fazia se sentir humano e amado por quem ele era, não pelo que possuía. Mas a eficiência de Sara, a lealdade prática e a presença constante eram pilares que ele não podia ignorar.
O conflito, que antes parecia uma briga entre duas mulheres, agora se revelava como um conflito dentro dele mesmo. Ele queria a simplicidade da história da arte e a complexidade da administração global. Ele queria o silêncio da casa dos pais de Eduarda e o barulho dos rooftops com Sara.
Emanuel suspirou, guardando o celular. A convivência civilizada que Sara agora propunha era, na verdade, sua estratégia mais perigosa. Ela não estava mais tentando expulsar Eduarda; ela estava apenas tornando-se indispensável, esperando que, com o tempo, o peso da realidade fizesse a balança pender para o lado de quem nunca ia embora.
Ele entrou na galeria, oferecendo o braço para Sara.
— Vamos para casa? — ele perguntou.
— Vamos — ela respondeu, com um sorriso vitorioso que ele não percebeu. — Amanhã cedo temos muito o que fazer.
Enquanto o carro luxuoso cortava as ruas da cidade, Emanuel pensava na escrivaninha de madeira antiga que permanecia vazia em seu loft. Ele se perguntou por quanto tempo mais conseguiria manter aqueles dois mundos girando sem que eles colidissem e destruíssem tudo o que ele construiu. A paz era um luxo que ele, apesar de todo o seu dinheiro, ainda não podia comprar.