Voltar ao resumo

D

O Banquete das Máscaras e a Rebeldia de Seda

A cobertura de Emanuel parecia estranhamente silenciosa naquela tarde de terça-feira, um contraste gritante com o turbilhão de pensamentos que ocupava a mente do tatuador. Ele estava sentado em sua poltrona de couro, observando Sara organizar uma série de planilhas em seu notebook. A loira, sempre impecável em seus ternos ajustados que realçavam as curvas esculpidas pelo silicone e pela disciplina, era o pilar de ordem em seu império de tinta.

— Os estúdios de Londres e Tóquio estão com a agenda lotada para os próximos seis meses, Manu — disse Sara, sem desviar os olhos da tela. — Eu já organizei a logística das tintas orgânicas que você queria. Estará tudo pronto para sua viagem na semana que vem.

Emanuel apenas assentiu, o olhar perdido na vista panorâmica de São Paulo. Ele amava Sara; amava a competência dela, a vulgaridade refinada que ela exibia entre quatro paredes e a forma como ela não exigia dele nada além de sucesso e prazer. Mas seu coração, ultimamente, andava batendo em um ritmo diferente, um ritmo ditado pela doçura e pela fragilidade de Eduarda.

A paz foi interrompida pelo som suave de passos no corredor. Eduarda apareceu na sala, usando um vestido de algodão branco, curto e leve, que a fazia parecer uma pintura renascentista perdida no século XXI. Ela carregava um envelope dourado nas mãos e tinha aquele brilho úmido nos olhos que Emanuel conhecia bem: ela queria algo.

— Manu... — ela começou, aproximando-se dele com passos hesitantes. Ela se sentou no braço da poltrona e passou os braços finos pelo pescoço dele, aninhando o rosto em seu ombro. — Você sabe que o aniversário da tia Letícia é este fim de semana, não sabe?

Emanuel suspirou, já sentindo a tensão subir pela espinha. Letícia, a irmã mais nova de seu sogro, era a personificação do caos.

— Eu sei, Duda. E já mandei flores em nosso nome.

— Mas ela vai dar duas festas, Manu — Eduarda sussurrou, fazendo um biquinho manhoso contra a pele do pescoço dele. — Uma à tarde, no jardim, para a família... e uma à noite, no loft dela. Ela chama de "A Noite das Máscaras". Eu quero muito ir nas duas.

Sara soltou uma risada seca do outro lado da sala, fechando o notebook com um estalo.

— "A Noite das Máscaras" da Letícia? — Sara levantou-se, caminhando até eles com um sorriso irônico. — Eduarda, querida, você é uma menina que faz faculdade de História da Arte e mora com os pais sob toque de recolher. Aquela festa não é para você. Vai ter gogo boys, performances burlescas e sabe Deus o que mais. Emanuel nunca deixaria você entrar naquele antro.

Eduarda se encolheu contra Emanuel, os olhos castanhos começando a marejar.

— Eu não sou mais criança, Sara! — ela protestou, a voz trêmula. — Eu quero ver a minha tia. Ela disse que é uma celebração da liberdade feminina. Manu, por favor... eu nunca te peço nada. Eu fico aqui, eu aceito as regras do meu pai, eu aceito tudo... mas eu quero ir.

Emanuel segurou o rosto de Eduarda com as mãos grandes, os dedos tatuados contrastando com a pele pálida dela.

— Duda, a Sara tem razão. Eu conheço o tipo de gente que frequenta as festas da Letícia. Não é ambiente para você. Você é sensível, é doce... você ficaria chocada.

— Eu não vou ficar chocada! — Eduarda explodiu em um choro súbito e convulsivo, soltando-se do abraço dele. — Vocês dois me tratam como se eu fosse de vidro! Eu quero viver um pouco! Se você não me levar, Emanuel... eu juro que vou fugir de casa! Eu pulo a janela, eu pego um Uber, eu dou um jeito!

Emanuel levantou-se, a irritação começando a superar a paciência.

— Você não vai a lugar nenhum, Eduarda! Pare com essa birra. Você tem vinte anos, comporte-se como tal.

Eduarda olhou para ele com uma mágoa profunda, as lágrimas escorrendo livremente. Ela não disse mais nada, apenas virou as costas e correu para o quarto de hóspedes, batendo a porta com força.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara cruzou os braços, observando Emanuel.

— Ela está ficando rebelde, Manu. A influência daquela tia é veneno puro.

— Eu sei — rosnou Emanuel, passando a mão pelo cabelo curto. — Mas se ela tentar fugir, o Ricardo me mata. E eu não quero que ela se machuque.

Durante as próximas horas, a cobertura foi palco de uma guerra fria. Eduarda não saiu do quarto. Ela não jantou, não atendeu às mensagens de Emanuel e, quando ele tentou entrar, a porta estava trancada. Através da madeira, ele só ouvia os soluços abafados e as súplicas manhosas que ela murmurava entre dentes, dizendo que ele não a amava de verdade, que ele só queria uma boneca para exibir.

A resistência de Emanuel durou até a manhã de sábado. Ele não suportava ver Eduarda sofrer, e a ideia de ela realmente tentar fugir e se colocar em perigo era insuportável.

— Tudo bem! — ele gritou na frente da porta trancada. — Nós vamos! Mas eu vou com você. E nós vamos embora no primeiro sinal de baixaria. Entendeu, Eduarda?

A porta se abriu lentamente. Eduarda estava com os olhos inchados, mas um sorriso radiante começou a se formar. Ela se jogou nos braços dele, cobrindo seu rosto de beijos.

— Obrigada, Manu! Obrigada! Eu prometo que vou me comportar. Eu te amo tanto!

Sara, vendo que havia perdido aquela batalha, apenas deu de ombros.

— Se é assim, eu também vou. Alguém precisa garantir que você não saia de lá com um soco na cara de algum stripper, Emanuel.

***

A primeira festa, à tarde, foi suportável. No jardim da mansão da família, cercados por parentes e flores, tudo parecia normal. O pai de Eduarda, Ricardo, vigiava a filha como um falcão, mas a presença de Emanuel ao lado dela o acalmava. Eduarda estava radiante, rindo com a tia Letícia, que lançava olhares cúmplices para Emanuel, claramente vitoriosa por ter conseguido levar a sobrinha para a "segunda fase" do evento.

Quando a noite caiu, a atmosfera mudou drasticamente. O loft de Letícia, no centro da cidade, estava transformado. A iluminação era vermelha e púrpura, o som de um deep house pulsava pelas paredes e o ar estava impregnado com um perfume exótico de incenso e champanhe caro.

Emanuel entrou no local sentindo-se um intruso. Ele usava preto, sua expressão fechada e alerta. Sara estava ao seu lado, com um vestido dourado curtíssimo que atraía olhares de todos os lados, sentindo-se perfeitamente em casa. Mas era Eduarda quem roubava a cena de uma forma perturbadora.

Ela usava um vestido de seda preto, com as costas totalmente nuas, e uma máscara de renda que cobria apenas a metade superior do rosto. Ela não parecia mais a menina tímida da faculdade; havia algo de etéreo e perigoso nela.

— Manu, olha aquilo! — Eduarda exclamou, apontando para o centro da sala.

No meio do loft, sobre uma plataforma circular, dois homens esculturais, vestindo apenas calças de couro e máscaras de animais, dançavam com uma sensualidade agressiva. Mulheres e homens ao redor aplaudiam, alguns tocando os músculos brilhantes de óleo dos dançarinos.

Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele tentou puxar Eduarda para o bar, mas ela estava hipnotizada.

— É maravilhoso, não é? — ela disse, os olhos brilhando por trás da máscara de renda. — Veja como eles se movem, Manu. É como se fossem estátuas vivas.

— É vulgar, Eduarda — Emanuel sentenciou, a voz rouca de ciúmes. — Vamos sair daqui. Já vimos o suficiente.

— Só mais um pouco! — ela implorou, segurando o braço dele. — A tia Letícia vai começar a performance dela agora!

Letícia apareceu no palco, usando um espartilho de couro e chicotes de seda. A performance era uma mistura de dança burlesca com teatro de sombras. Emanuel estava perplexo. Ele nunca vira nada parecido, e o fato de Eduarda estar ali, assistindo a tudo com uma curiosidade quase infantil, mas tingida de um desejo que ele nunca notara, o deixava tonto.

— Você está vendo a cara dele, Sara? — sussurrou Letícia, ao passar por eles após a apresentação. — Ele está descobrindo que a bonequinha dele tem dentes.

De repente, a música mudou para um ritmo mais lento e tribal. Um dos gogo boys aproximou-se do grupo. Ele era alto, de pele bronzeada e olhos felinos por trás de uma máscara de lobo. Ele estendeu a mão para Eduarda, um convite silencioso para uma dança.

Emanuel deu um passo à frente, o punho cerrado, mas Eduarda foi mais rápida. Ela olhou para Emanuel, não com medo, mas com uma súplica manhosa que o paralisou.

— Deixa, Manu... só uma dança. Eu estou aqui com você. Por favor?

Ele hesitou. O ciúme lutava contra o desejo de não ser o "carcereiro" que ela tanto acusava.

— Uma dança — ele disse, a voz como um trovão baixo. — E eu estarei bem aqui.

Eduarda aceitou a mão do dançarino. Emanuel observou, com o coração na boca, enquanto sua namorada tímida se movia no ritmo da música. Ela não era vulgar como Sara, nem agressiva como Letícia. Eduarda dançava com uma delicadeza fluida, seus movimentos eram suaves, mas cada vez que ela roçava acidentalmente no dançarino, Emanuel sentia uma pontada de posse que quase o fazia perder o controle.

No entanto, o que mais o chocava era a expressão dela. Eduarda estava amando. Ela ria, jogava o cabelo para trás e, ocasionalmente, olhava para Emanuel com uma expressão de triunfo. Ela estava provando que podia habitar aquele mundo e ainda ser a sua Duda.

Sara aproximou-se de Emanuel e tocou seu ombro.

— Ela é boa nisso, não é? — Sara comentou, sem sombra de ciúmes, apenas observação técnica. — A timidez dela é a maior arma de sedução que eu já vi. Olhe para todos esses homens, Manu. Eles estão fascinados porque ela parece intocável, mas está aqui, no meio do fogo.

Emanuel não respondeu. Ele estava processando a descoberta de que Eduarda tinha camadas que ele ainda não explorara. A "manhosa" dele tinha uma força latente que o excitava e o assustava ao mesmo tempo.

A festa continuou, e o ambiente ficou mais ousado. Houve um momento em que pétalas de rosas começaram a cair do teto, e a luz ficou quase inexistente. Emanuel sentiu mãos pequenas e macias puxarem seu pescoço. Era Eduarda. Ela estava ofegante, o rosto corado.

— Eu quero ir embora, Manu — ela sussurrou contra os lábios dele.

— Agora você quer? — ele perguntou, com um sorriso de canto.

— Quero. Eu já vi o que queria. Agora eu quero que você me mostre o resto na nossa casa.

Emanuel não precisou ouvir duas vezes. Ele a pegou pela mão, sinalizou para Sara que estavam saindo, e atravessou o loft como um furacão.

No carro, o silêncio era carregado de eletricidade. Eduarda se encostou no banco, observando Emanuel dirigir com uma agressividade contida.

— Você ficou muito bravo, não foi? — ela perguntou, com aquela voz doce que sempre o desarmava.

— Eu fiquei louco, Eduarda. Ver você naquele lugar, com aqueles caras...

— Mas eu só queria você, Manu — ela disse, deslizando a mão pela coxa dele. — Eu só queria que você visse que eu posso ser o que você quiser. Eu posso ser a sua menina comportada na frente do meu pai, e posso ser o seu segredo naquela festa.

Emanuel parou o carro na garagem da cobertura e a encarou. A máscara de renda ainda estava no rosto dela, pendurada por um fio.

— Você é perigosa, Duda.

— Eu sou sua — ela retrucou, subindo no colo dele ali mesmo, no espaço apertado do carro. — Só sua.

Emanuel a beijou com uma fome que misturava todo o estresse da semana com a revelação daquela noite. Ele percebeu que a dinâmica entre as duas mulheres de sua vida acabara de mudar drasticamente. Sara era a estabilidade, a parceira de negócios, a amante confiável. Mas Eduarda... Eduarda era o desafio constante, a doçura que escondia um abismo de possibilidades.

Ao subirem para a cobertura, Sara já estava lá, bebendo uma última taça de vinho. Ela olhou para os dois e percebeu a aura de possessividade que envolvia Emanuel.

— Sobreviveram? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— Mais do que isso, Sara — Emanuel respondeu, puxando Eduarda para perto de si. — Nós aprendemos algumas lições novas hoje.

Eduarda olhou para Sara e, pela primeira vez, não desviou o olhar. Ela deu um sorriso pequeno e vitorioso.

— A tia Letícia manda lembranças, Sara. Ela disse que a próxima festa será ainda melhor.

Emanuel sentiu que sua vida nunca mais seria a mesma. Ele tinha as duas mulheres morando com ele, cada uma ocupando um espaço vital em sua alma. Sara era o seu império, a força loira e siliconada que o mantinha no topo. Eduarda era o seu refúgio, a menina manhosa que, naquela noite, provara ser capaz de incendiar seu mundo com apenas um olhar por trás de uma máscara.

Ele as amava de formas diferentes, mas com a mesma intensidade avassaladora. E enquanto observava Eduarda caminhar em direção ao quarto, com a seda preta balançando em seus quadris, e Sara observá-lo com um olhar de compreensão mútua, Emanuel soube que o verdadeiro mestre daquela casa não era ele. Eram as duas, cada uma à sua maneira, que o mantinham preso naquele labirinto de desejo e controle.

Ele era um tatuador rico, influente e poderoso, mas ali, entre a vulgaridade competente de Sara e a manha audaciosa de Eduarda, Emanuel era apenas um homem rendido ao banquete que a vida — e Letícia — lhe preparara. E ele não mudaria absolutamente nada.