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O Brilho da Discórdia e a Imagem da Tentação

O sol da manhã de domingo entrou sem pedir licença pelas enormes janelas de vidro da cobertura de Emanuel, refletindo-se nas superfícies de mármore e aço escovado. Emanuel já estava acordado, sentado à mesa da cozinha com um tablet em mãos, analisando os relatórios de faturamento do estúdio de Berlim. Ao seu lado, Sara vestia apenas um robe de seda branca, curto o suficiente para exibir as pernas torneadas, enquanto tomava um café preto forte.

— Você viu isso? — Sara quebrou o silêncio, girando o celular sobre a mesa. Sua voz tinha aquele tom de ironia que Emanuel conhecia bem.

Emanuel desviou os olhos do tablet.

— Vi o quê, Sara?

— A sua pequena protegida. Parece que a "Noite Encantada" rendeu mais do que cupcakes e fofocas. Ela postou a foto, Emanuel. E, pelo visto, ela não é tão tímida quanto você gosta de acreditar.

Emanuel sentiu um aperto familiar no estômago. Ele pegou o próprio celular e abriu o Instagram. Lá estava. Eduarda havia postado a foto que enviara para ele na noite anterior, mas com um ângulo ainda mais revelador. Ela aparecia de costas para um espelho, o decote profundo do vestido marfim descendo até a base da coluna, revelando a curva suave de sua cintura e a pele impecável. A legenda era simples: "Me sentindo um sonho".

O post já contava com milhares de curtidas e centenas de comentários. Amigos da faculdade, desconhecidos e até alguns tatuadores do círculo de Emanuel deixavam elogios que faziam o sangue do homem ferver.

— Ela está linda — comentou Sara, observando a reação de Emanuel com um sorriso enviesado. — Mas esse vestido não é para uma menina que diz que não está pronta para morar com o namorado por causa da "pureza" do lar dos pais. Ela está chamando atenção, Emanuel. E ela sabe exatamente o que está fazendo.

— Ela só postou uma foto, Sara. Não comece — Emanuel disse, embora sua mandíbula estivesse rígida.

— Eu não estou começando nada, querido. Eu sou administradora, lido com imagens o dia todo. Eduarda está testando o poder dela. Ela viu como você ficou louco ontem à noite e agora quer que o resto do mundo veja o que você tem. É uma tática velha, mas eficiente.

Emanuel não respondeu. Ele digitou uma mensagem rápida para Eduarda: "Apague essa foto agora".

A resposta veio cinco minutos depois, em forma de áudio. A voz de Eduarda soava sonolenta, manhosa e carregada daquela doçura que sempre o desarmava.

— Bom dia, Manu... por que você está bravo? Minhas amigas todas postaram. Eu me senti tão bonita... Você não achou que eu estava bonita?

Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele conseguia visualizar a cena: ela deitada naqueles lençóis de algodão, com o cabelo castanho espalhado pelo travesseiro, olhando para o celular com aqueles olhos de corça.

— Eu achei que você estava maravilhosa, Duda — ele gravou de volta, tentando manter o tom firme. — Mas não quero homens comentando sobre o seu corpo. Tem caras falando coisas que eu não admito. Apague.

— Eu não vou apagar, Manu — ela respondeu, desta vez por texto, com um emoji de carinha triste. — Você é muito controlador. Eu quase não saio, quase não posto nada. Deixa eu ter esse momento?

Emanuel jogou o celular sobre a mesa, irritado.

— Ela não vai apagar — disse ele para Sara, que acompanhava a cena com diversão.

— É claro que não — Sara se levantou, caminhando até ele e sentando-se em seu colo, passando os braços pelo pescoço dele. O cheiro do perfume caro dela o atingiu em cheio. — Ela sabe que você vai ficar obcecado por ela o dia todo por causa disso. É assim que ela te prende, Emanuel. Enquanto eu te dou lucros e estabilidade, ela te dá esse caos emocional que você secretamente adora.

— Eu não adoro isso, Sara. Eu só quero que ela me escute.

— Então faça ela escutar — Sara sussurrou, roçando os lábios nos dele. — Mas agora, esqueça a universitária. Temos que revisar os contratos da nova linha de tintas. E depois... bem, depois eu posso te mostrar que não preciso de um vestido de flores para ter a sua atenção.

Emanuel a beijou com força, uma forma de descontar a frustração. Sara era terra firme, era o fogo que ele conhecia e controlava. Mas, mesmo enquanto suas mãos percorriam as curvas seguras de Sara, sua mente voltava para a imagem da pele branca de Eduarda e para a teimosia silenciosa daquela menina que ele mesmo havia transformado em mulher.

Duas horas depois, Emanuel estava no carro. Ele não conseguiu se concentrar nos contratos. A imagem de Eduarda recebendo atenção de outros homens agia como um ácido em seu sistema. Ele dirigiu até a casa dela e, para sua surpresa, encontrou-a no jardim da frente, lendo um livro de História da Arte sob a sombra de uma árvore.

Ela usava um short jeans curto e uma regata simples, parecendo a personificação da inocência que ele tanto queria preservar. Quando ela o viu, um sorriso radiante iluminou seu rosto.

— Manu! Você não disse que vinha.

Emanuel saiu do carro e caminhou até ela com passos pesados.

— A foto ainda está lá, Eduarda.

Ela fechou o livro e se levantou, caminhando até ele com aquele jeito leve, quase flutuando.

— Você veio até aqui só por causa disso? — Ela envolveu a cintura dele com os braços, olhando-o de baixo para cima. — Você está sendo bobo. Ninguém ali me conhece de verdade. Só você me tem, Manu.

— Isso não importa. Eu não gosto da exposição. Eu te dou tudo, Duda. Por que você precisa disso?

Eduarda se afastou um pouco, a expressão mudando de doce para magoada em um segundo.

— Você me dá tudo, mas não me dá a sua presença o tempo todo. Você mora com a Sara. Você trabalha com a Sara. Eu fico aqui, esperando você ter um tempo para mim entre uma reunião e outra. A foto... a foto me faz sentir que eu existo para o mundo também, não só para você quando você decide aparecer.

Aquilo foi um golpe baixo, e Emanuel sabia que ela tinha razão, embora não quisesse admitir.

— Você sabe por que eu não moro com você — ele disse, a voz subindo de tom. — Eu te peço toda semana para se mudar para a cobertura. Eu quero você lá, sob meus olhos. Você é quem nega. Diz que "não está pronta", que "seus pais são modernos mas não tanto".

— Porque eu tenho medo, Emanuel! — Ela exclamou, os olhos começando a brilhar com lágrimas. — Se eu for para lá, eu vou ser a "outra". A Sara é a rainha daquela casa. Ela manda em tudo, ela conhece todos os seus negócios. Eu vou ser só a menina que fica no quarto esperando você chegar. Aqui, eu sou eu.

Emanuel a puxou para um abraço apertado, sentindo-a tremer contra seu peito. O ódio que ele sentia pela foto se transformou em uma proteção possessiva sufocante.

— Você nunca seria a outra, pequena. Você é minha. Tanto quanto ela, mas de um jeito que ela nunca vai ser.

— Então prova — ela sussurrou, a voz manhosa voltando enquanto ela se aninhava no pescoço dele. — Fica aqui comigo hoje. Esquece o estúdio, esquece a Sara.

— Eu tenho uma reunião à tarde, Duda...

— Desmarca — ela pediu, afastando-se apenas o suficiente para olhá-lo com aqueles olhos suplicantes. — Por favor? Eu apago a foto se você ficar.

Emanuel olhou para ela, sentindo-se o homem mais poderoso do mundo e, ao mesmo tempo, o mais manipulável. Eduarda sabia exatamente onde apertar.

— Tudo bem — ele cedeu, sentindo a derrota e o prazer se misturarem. — Eu fico. Mas você vai apagar agora. Na minha frente.

Ela sorriu, um sorriso vitorioso que faria Sara sentir orgulho da pupila se a visse. Eduarda pegou o celular, deletou o post e depois se jogou nos braços de Emanuel.

— Eu te amo, Manu.

— Eu também te amo, sua pestinha.

Emanuel passou a tarde no quarto de Eduarda. O ambiente era um contraste absoluto com a frieza moderna de sua cobertura. Havia livros por toda parte, velas perfumadas e uma cama que parecia um ninho de travesseiros. Ali, ele não era o empresário rico ou o tatuador renomado; ele era apenas o homem de Eduarda.

Eles fizeram amor com uma lentidão que torturava. Eduarda era toda entrega e sons manhosos, reagindo a cada toque de Emanuel como se fosse a primeira vez. Ele explorou cada centímetro da pele que o mundo havia cobiçado na foto, reivindicando-a como sua propriedade exclusiva.

— Você é minha — ele rosnava contra o ouvido dela, enquanto suas mãos grandes prendiam os pulsos dela acima da cabeça. — Só minha.

— Sim... só sua — ela gemia, arqueando o corpo para encontrá-lo.

No entanto, o mundo exterior não parava. Enquanto Emanuel estava imerso na doçura de Eduarda, seu celular não parava de vibrar no modo silencioso sobre a cômoda. Eram mensagens de Sara.

"Onde você está? Os investidores já chegaram."

"Emanuel, não me diga que você caiu no truque da foto."

"Isso é ridículo. Você está agindo como um amador."

Quando o sol começou a se pôr, Emanuel finalmente pegou o aparelho. Ele sentiu uma pontada de culpa, não por estar com Eduarda, mas por ter deixado Sara na mão profissionalmente. Sara era sua parceira, a mulher que segurava as pontas quando ele perdia o controle.

— Eu preciso ir, Duda — ele disse, levantando-se e começando a se vestir.

Eduarda, enrolada nos lençóis, fez um beicinho.

— Já? Mas ainda está cedo...

— Eu perdi uma reunião importante. Sara está furiosa.

— Sempre a Sara — Eduarda resmungou, virando-se para o outro lado.

Emanuel caminhou até a cama e beijou o ombro dela.

— Não comece. Eu passei o dia todo com você, como você pediu. Agora eu preciso ser homem e resolver os meus negócios.

Ele saiu da casa dos Silva sentindo o peso da sua vida dupla. Ao chegar na cobertura, encontrou Sara na sala, bebendo um martini e olhando para a vista da cidade. Ela ainda usava o vestido de trabalho, mas seu cabelo estava levemente desgrenhado, um sinal de que ela estivera sob estresse.

— Espero que tenha valido a pena — ela disse, sem se virar. — Perdemos o contrato de exclusividade com a fornecedora japonesa. Eles não gostam de falta de pontualidade. Dizem que demonstra falta de seriedade.

Emanuel jogou as chaves sobre o aparador.

— Eu resolvo isso amanhã, Sara. Eu ligo para o Tanaka pessoalmente.

— Você não entende, não é? — Sara se virou, os olhos brilhando de raiva. — Eu não me importo que você foda com ela. Eu aceitei isso. O que eu não aceito é que você deixe o nosso império sangrar porque uma menina de vinte anos sabe como postar uma foto de costas para te manipular. Você é maior que isso, Emanuel. Ou pelo menos deveria ser.

Emanuel aproximou-se dela, a tensão entre os dois quase palpável.

— Eu sei o que eu estou fazendo, Sara.

— Sabe? — Ela soltou uma risada sarcástica. — Você está sendo puxado por dois cabos de guerra. Ela te puxa pela carência e eu te puxo pela realidade. Um dia, Emanuel, um desses cabos vai arrebentar. E eu espero estar bem longe quando isso acontecer.

Emanuel a segurou pelos ombros, forçando-a a olhar para ele.

— Você não vai a lugar nenhum. Você é a minha base. Você sabe disso.

Sara relaxou o corpo, o sarcasmo dando lugar a uma exaustão momentânea.

— Eu sou a sua base porque eu escolho ser. Mas não teste a minha paciência com essa infantilidade. Se você quer a Eduarda, traga-a para cá de uma vez. Ponha as cartas na mesa. Pare de fugir para aquela casa de família toda vez que ela chora.

— Ela não quer vir! — Emanuel explodiu. — Ela diz que não está pronta, que tem medo de você.

Sara deu um sorriso frio, quase perverso.

— Medo de mim? Ela deveria ter medo é de si mesma. Ela é muito mais perigosa do que parece, Emanuel. E o fato de você não ver isso é o que mais me preocupa.

Emanuel soltou-a e caminhou até o bar, servindo-se de um whisky puro. Ele pensou na foto de Eduarda, no cheiro de baunilha do quarto dela, e depois olhou para a sofisticação agressiva de Sara à sua frente.

Ele amava as duas. Amava o poder que Sara lhe dava e a paz que Eduarda lhe proporcionava. Mas a convivência "civilizada" que ele tentava manter estava começando a mostrar rachaduras profundas. A foto de Eduarda não tinha sido apenas um post de rede social; tinha sido um marco. A menina estava crescendo, e com o crescimento vinha a percepção do próprio poder.

— Amanhã teremos um jantar — Emanuel decretou, sem olhar para trás.

— Com quem? — perguntou Sara.

— Com vocês duas. Aqui. Nesta mesa.

Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa.

— A pequena Duda vai aceitar vir ao covil da loba?

— Ela vai vir porque eu vou mandar. Chega de joguinhos. Se vamos viver isso, vamos viver do meu jeito. Sob o meu teto.

Sara tomou o último gole de seu martini, um brilho de antecipação surgindo em seus olhos.

— Vai ser um jantar interessante, Emanuel. Só não reclame se a sobremesa for amarga.

Emanuel não respondeu. Ele olhou para o próprio reflexo no vidro da varanda. Ele era o mestre do controle, o homem que transformava dor em arte na pele das pessoas. Mas, naquela noite, ele sentia que estava prestes a iniciar uma tatuagem que não poderia ser apagada, e cujas agulhas iriam perfurar muito mais fundo do que ele jamais imaginou.

Enquanto isso, em seu quarto de solteira, Eduarda olhava para o celular. Ela havia apagado a foto, como prometido, mas salvou todos os prints dos comentários e das curtidas. Ela sorriu para o escuro. Ela tinha visto o medo nos olhos de Emanuel — o medo de perdê-la, o medo de não ser o único. E aquele sentimento era inebriante.

— Amanhã, Manu... — ela sussurrou para si mesma — amanhã você vai ver que eu estou mais pronta do que você imagina.

O palco estava montado. O tatuador, a administradora e a musa. Três vidas entrelaçadas por um desejo possessivo que desafiava a lógica. E, enquanto a cidade de São Paulo dormia sob um manto de luzes, o conflito que Emanuel tanto tentava evitar estava apenas começando a ganhar sua forma definitiva.