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O Eco das Ondas e o Peso das Palavras
O sol de dez horas da manhã refletia intensamente nas águas cristalinas de Angra dos Reis, onde o iate de Emanuel estava ancorado. O cenário era o epítome do luxo: champanhe no gelo, música ambiente e a brisa salgada soprando sobre o convés. Emanuel, com o corpo bronzeado e as tatuagens ganhando destaque sob a luz solar, observava a cena com uma mistura de orgulho e exaustão emocional.
Leo, agora com dez meses, estava sentado em um tapete emborrachado no deck, tentando desesperadamente alcançar um brinquedo de borracha. Maya, com apenas três meses, dormia em um moisés climatizado sob a sombra do toldo.
— Ma-má! — balbuciou Leo, esticando os braços gordinhos na direção de Eduarda, que se aproximava com um frasco de protetor solar.
Eduarda sorriu, aquele sorriso doce e tímido que sempre desarmava Emanuel. Ela usava um biquíni de crochê em tom pastel e uma saída de praia leve, parecendo uma entidade saída de uma pintura renascentista.
— Oi, meu amor! A mamãe está aqui — disse ela, pegando o menino no colo e enchendo seu pescoço de beijos.
Leo soltou uma gargalhada cristalina, agarrando os cabelos castanhos de Eduarda com força. Emanuel, sentado em uma espreguiçadeira próxima, não conseguiu conter o sorriso.
— Ele está ficando forte, Duda — comentou Emanuel, esticando a mão para bagunçar o cabelo do menino. — Daqui a pouco vai estar correndo por esse barco todo.
— Pa-pá! — Leo exclamou, reconhecendo a voz de Emanuel e tentando pular para o colo dele.
— É, campeão, o papai está aqui — murmurou Emanuel, pegando o bebê e sentindo aquele calor familiar no peito.
A poucos metros dali, o clima era diferente. Sara estava cercada por três de suas amigas — mulheres impecavelmente montadas, com biquínis de grife e óculos escuros que custavam o preço de um carro popular. Ela segurava uma taça de cristal, mas seus olhos loiros e afiados estavam fixos na interação entre Emanuel, Eduarda e Leo.
— É patético — sussurrou uma das amigas de Sara, observando a cena. — Ela age como se tivesse parido o menino.
Sara tomou um gole generoso de champanhe, o rosto tenso apesar da maquiagem perfeita.
— Ela é a tutora, querida. Faz o papel dela — disse Sara, embora sua voz tivesse um tom cortante. — Mas o Leo precisa entender quem manda nesta família.
Sara se levantou, a silhueta de modelo destacada pelo biquíni dourado que realçava suas curvas e o silicone perfeito. Ela caminhou com passos decididos até Emanuel e Eduarda.
— Emanuel, querido, você está sufocando o menino — disse ela, com um sorriso forçado. — Deixa ele um pouco aqui comigo. As meninas querem ver como ele está crescendo.
Emanuel olhou para Sara. Ele tentava, todos os dias, manter o equilíbrio. À noite, ele ainda se perdia nos braços de Sara, no fogo e na paixão que os unia há anos. Ele não a amava menos; na verdade, a maternidade trouxera uma nova camada de respeito por ela. Mas a obsessão de Sara por Leo estava se tornando um problema.
— Ele está calmo aqui, Sara — respondeu Emanuel, tentando evitar o conflito.
— Ele precisa socializar, Manu — insistiu ela, estendendo os braços para o bebê de forma quase imperativa. — Vem com a tia Sara, Leo. Vem ver as amigas da mamãe.
Ao ouvir a palavra "mamãe" vinda de Sara, Leo franziu a testa. Quando ela tentou pegá-lo, o menino se encolheu, escondendo o rosto no ombro tatuado de Emanuel e soltando um resmungo de protesto.
— Não! — Leo disse, uma das poucas palavras que já dominava, empurrando a mão de Sara com sua mãozinha pequena. — Ma-má! — ele chamou, apontando para Eduarda.
O silêncio que se seguiu no deck foi constrangedor. As amigas de Sara trocaram olhares rápidos. Eduarda baixou os olhos, sentindo a tensão subir pela sua espinha.
— Ele está manhoso hoje, Sara — interveio Eduarda, a voz suave tentando apaziguar. — O sol deixa ele um pouco irritado.
— Ele não está irritado, Eduarda. Ele está sendo mal ensinado — rebateu Sara, os olhos faiscando. — Ele deveria saber quem é quem aqui. Eu sou a mulher do Emanuel, a mãe da irmã dele. Eu sou a estrutura desta casa.
— Sara, chega — disse Emanuel, a voz baixa e firme, o tom que ele usava quando o estresse começava a transbordar. — Não vamos fazer isso na frente dos convidados. O Leo é um bebê. Ele chama quem ele quiser do que ele quiser.
Sara soltou uma risada seca e irônica.
— Claro. O "papai" Emanuel sempre protegendo a "mamãezinha" sensível. É conveniente, não é?
Ela deu meia-volta e retornou para seu grupo de amigas, mas o clima de festa havia evaporado para Emanuel. Ele entregou Leo para Eduarda e se levantou, caminhando até a proa do iate para respirar.
Minutos depois, ele sentiu mãos pequenas e macias tocando suas costas. Eduarda se aproximou, deixando Leo brincando com um dos marinheiros de confiança na popa.
— Você está bem? — perguntou ela, encostando a cabeça no braço dele.
— Estou cansado, Duda. Parece que estou sempre mediando uma guerra que não tem fim. Eu amo a Sara, eu realmente amo. Mas ela não entende que o coração do Leo não se conquista no grito.
Eduarda suspirou, abraçando a cintura de Emanuel e sentindo a segurança que ele sempre lhe transmitia.
— Ela se sente ameaçada, Manu. Ela vê o jeito que você olha para mim... e o jeito que o Leo me busca. Ela quer tudo, o tempo todo.
Emanuel virou-se e envolveu Eduarda em seus braços. Ele a beijou no topo da cabeça, aspirando o cheiro de mar e protetor solar.
— Eu não quero que você se sinta mal por ser amada por ele. Ou por mim. Você é essencial, Duda.
— Mas eu me sinto mal — sussurrou ela, manhosa, escondendo o rosto no peito dele. — Às vezes eu acho que seria mais fácil se eu fosse embora... para a faculdade, para longe de toda essa confusão.
Emanuel segurou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo.
— Nem pense nisso. Você não vai a lugar nenhum. Eu preciso de você. O Leo precisa de você.
O momento de intimidade foi interrompido pelo som de saltos (ou o equivalente a eles em sandálias de luxo) no deck de madeira. Sara estava lá, observando-os com uma expressão de desdém.
— O almoço vai ser servido — anunciou ela, a voz fria. — Emanuel, seus amigos estão perguntando sobre o novo estúdio em Londres. Por que você não vai ser um anfitrião decente em vez de ficar aqui escondido?
Emanuel soltou Eduarda com um suspiro pesado.
— Já estou indo, Sara.
O almoço foi uma exibição de opulência e passividade-agressividade. Sara dominava a conversa, falando sobre investimentos, sobre a decoração da nova ala da mansão e sobre como Maya seria uma criança prodígio. Emanuel dava atenção a ela, beijava sua mão e agia como o parceiro dedicado que sempre fora. Ele ainda sentia o desejo magnético por Sara; ela era vibrante, poderosa e parte de sua história de sucesso.
Mas, debaixo da mesa, sua mão ocasionalmente buscava o joelho de Eduarda, que estava sentada ao seu outro lado, silenciosa e observadora. Eduarda era o seu equilíbrio, o ponto de paz em meio ao caos que Sara criava.
— E você, Eduarda? — perguntou uma das amigas de Sara, com um tom de falsa curiosidade. — Como vai aquela faculdade de... como é mesmo? Pinturas velhas?
— História da Arte — corrigiu Eduarda, calmamente. — Vai bem. Estou focada na minha monografia sobre o Renascimento.
— Que fofo — comentou Sara, servindo-se de mais vinho. — É bom ter um hobby enquanto você ajuda com o Leo. Mas, falando sério, Emanuel, já decidimos sobre a escola de elite para o Leo, certo? Eu já entrei em contato com a diretoria.
Emanuel franziu a testa.
— Sara, o menino tem dez meses. Não decidimos nada ainda. E a Eduarda precisa opinar sobre isso, ela é a tutora legal.
Sara pousou a taça com um clique nítido na mesa de vidro.
— Eu sou administradora, Emanuel. Eu entendo de futuro e de contatos. A Eduarda pode escolher a cor das canetinhas, mas a educação de um herdeiro é assunto sério.
Eduarda sentiu o nó na garganta. Ela odiava confrontos, odiava a forma como Sara a diminuía constantemente, mas o amor por Leo falava mais alto.
— Eu também sou responsável por ele, Sara — disse Eduarda, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — E eu quero que ele tenha uma infância normal, não apenas uma agenda de contatos.
— Normal? — Sara riu. — Nada nesta vida é normal, querida. Olhe ao seu redor.
O clima pesou tanto que até os amigos de Emanuel começaram a desviar o olhar. Emanuel sentiu a veia em sua têmpora pulsar.
— Chega desse assunto. Estamos aqui para relaxar.
Após o almoço, enquanto os convidados se dispersavam para mergulhar ou dormir, Emanuel encontrou um momento de solidão na cabine principal. Ele estava deitado, tentando processar a tensão, quando a porta se abriu. Era Sara.
Ela entrou e trancou a porta. Caminhou até ele com a confiança de quem sabe o poder que exerce sobre o homem à sua frente.
— Você me deu pouca atenção hoje — disse ela, sentando-se sobre o colo dele, as mãos percorrendo as tatuagens em seus ombros.
— Eu estou tentando equilibrar as coisas, Sara. Você não facilita.
— Eu não quero facilitar, Emanuel. Eu quero você. Só você — ela o beijou com uma intensidade febril, um beijo que cheirava a champanhe e posse. — Aquela menina está roubando o amor do Leo e a sua atenção. Eu não vou aceitar ser a "segunda" na minha própria casa.
— Você nunca será a segunda — murmurou Emanuel, o corpo respondendo ao toque dela por puro instinto e memória. — Mas a Duda faz parte da nossa vida agora. Por que você não consegue apenas conviver em paz?
— Porque eu sou a rainha, Emanuel. E rainhas não dividem o rei com a serva — ela sussurrou no ouvido dele, mordendo o lóbulo de sua orelha.
Emanuel a possuiu ali mesmo, em um ato que misturava desejo e uma tentativa desesperada de reafirmar o laço que os unia. Sara era o seu vício, a mulher que o conhecia desde antes do império, a mulher que carregava seu sangue.
No entanto, quando ele saiu da cabine uma hora depois, exausto e com a mente ainda mais nublada, ele encontrou Eduarda no convés inferior. Ela estava sentada no chão, com Leo adormecido em seu colo. Ela cantava baixinho uma canção de ninar, a mesma que Thiago costumava cantar.
Ao ver Emanuel, ela deu um sorriso triste. Ela sabia onde ele estivera. Ela sentia o cheiro de Sara nele.
— Ele sentiu sua falta — disse ela, baixinho. — Ele queria que o papai desse o boa noite dele.
Emanuel sentiu uma pontada de culpa tão aguda que quase perdeu o fôlego. Ele se ajoelhou ao lado de Eduarda e envolveu os dois em um abraço.
— Me desculpa — sussurrou ele.
— Não precisa pedir desculpas por amá-la, Manu — disse Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele. — Eu só queria que houvesse espaço suficiente para todos nós. Mas sinto que o barco está afundando.
Emanuel apertou o abraço. Ele olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: sucesso, dois filhos saudáveis e duas mulheres extraordinárias que o amavam.
Mas, enquanto observava o reflexo do sol na água, ele percebeu que a paz que tanto buscava era uma ilusão. Ele estava vivendo em dois mundos diferentes, e a fronteira entre eles estava se tornando uma zona de guerra.
Sara não aceitaria dividir. Eduarda não suportaria a humilhação para sempre. E Leo, no centro de tudo, chamava por uma mãe que não era a mulher que Emanuel chamava de esposa.
— Eu vou dar um jeito — prometeu Emanuel, embora soubesse que, em uma guerra de corações, ninguém sai ileso.
— O problema, Manu — disse Eduarda, olhando para o bebê adormecido —, é que às vezes o "jeito" dói mais do que o problema.
Naquela noite, sob as estrelas de Angra, Emanuel Silva dormiu entre o fogo e a calmaria, sem saber que a tempestade real ainda estava por vir.