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O Banquete das Aparências e o Gosto do Leite

O luxo na mansão de Emanuel não era apenas estético; era uma ferramenta de controle. Sara sabia disso melhor do que ninguém. Sentada em seu escritório particular, cercada por catálogos de decoração e amostras de tecidos de seda, ela orquestrava o que chamava de "O Evento do Ano". Para ela, não importava que Leo tivesse apenas dez meses. Na sua lógica administrativa e competitiva, o tempo era algo que se moldava à vontade de quem detinha o poder.

— Quero o buffet de lagosta e a decoração temática de "Pequeno Príncipe", mas com um toque moderno, minimalista. Ouro e azul marinho — disse Sara ao telefone, a voz firme enquanto observava suas unhas impecáveis. — Sim, eu sei que o aniversário dele é daqui a dois meses. Mas a festa será em duas semanas. Considerem um pré-aniversário oficial. O herdeiro da rede Silva merece ser celebrado agora.

Emanuel entrou no escritório, o cenho franzido. Ele vinha do andar de baixo, onde o som do riso de Leo e o silêncio doce de Eduarda ainda ecoavam em seus ouvidos.

— Sara, o que é tudo isso? — perguntou ele, apontando para as pilhas de convites impressos em papel de alta gramatura. — Dez meses? Ninguém faz festa de um ano aos dez meses.

Sara desligou o telefone e deu um sorriso felino, levantando-se para ajeitar a gola da camisa de linho do namorado.

— É uma celebração da nossa família, Emanuel. Maya está crescendo, Leo está cada vez mais esperto. Precisamos mostrar ao nosso círculo social que estamos unidos. E, mais importante, Leo precisa começar a entender quem são os pilares da vida dele.

— Ele já sabe quem são os pilares, Sara — murmurou Emanuel, sentindo a tensão habitual subir pela nuca.

— Ele sabe quem o alimenta, Emanuel. Mas ele precisa saber quem o provê, quem o apresenta ao mundo. Eu quero que ele me veja como a matriarca. E essa festa será o palco para isso.

No quarto ao lado, Eduarda tentava manter a calma enquanto amamentava Leo. O vínculo biológico que o destino lhe dera — aquele milagre inexplicável do leite que brotava de seu corpo por puro amor — era seu único escudo contra a agressividade velada de Sara. Leo mamava com vigor, seus olhinhos castanhos fixos nos de Eduarda, a mãozinha pequena agarrada ao seu dedo.

Quando Emanuel entrou no quarto, minutos depois, encontrou Eduarda com lágrimas nos olhos.

— Ela vai fazer mesmo, não vai? — perguntou ela, a voz sumida. — Uma festa de um ano antecipada. É um absurdo, Manu. Ele é só um bebê, ele vai ficar assustado com tanta gente, tanto barulho.

Emanuel sentou-se na beira da cama e suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Você conhece a Sara, Duda. Quando ela coloca uma ideia na cabeça, é como um trator. Ela diz que é para o bem dele, para a imagem da família.

— Não é para o bem dele! — Eduarda se exaltou um pouco, o que fez Leo soltar o peito por um segundo e resmungar. — É para o ego dela. Ela quer desfilar com ele como se fosse um troféu, quer que as amigas dela vejam como ela é uma "mãe exemplar" para um órfão. Mas quem acorda à noite sou eu. Quem dá o peito sou eu. Ele é meu filho, Emanuel. Eu sinto isso em cada gota de leite.

Emanuel a puxou para um abraço lateral, tomando cuidado com o bebê.

— Ele é nosso filho, Duda. Eu não o vejo mais como afilhado. Ele é meu sangue agora, tanto quanto a Maya. Mas eu preciso que você tente colaborar. Se a gente bater de frente com a Sara agora, ela vai transformar a vida nesta casa em um inferno ainda maior.

— Já é um inferno, Manu — sussurrou ela, manhosa, escondendo o rosto no pescoço dele. — Eu só queria paz. Só queria cuidar dos meus dois meninos sem ter que provar nada para ninguém.

***

As duas semanas seguintes foram um borrão de organizadores de eventos, entregas de flores e provas de roupas. Sara ignorava solenemente os protestos de Eduarda. Ela agia como se a jovem estudante fosse apenas uma parte da mobília, necessária para o bem-estar básico do bebê, mas irrelevante para as decisões importantes.

No dia da festa, a mansão foi transformada em um palácio de contos de fadas. Colunas de balões orgânicos, mesas de doces finos e fotógrafos de revistas de celebridades preenchiam o jardim. Emanuel usava um terno sob medida que escondia suas tatuagens, mas não o seu desconforto.

— Onde está o aniversariante? — perguntou Sara, radiante em um vestido Versace que custava mais do que um carro popular.

— Eduarda está terminando de vesti-lo — respondeu Emanuel, olhando o relógio. — Ele estava dormindo, Sara. Você sabe que ele fica irritado quando o acordam antes da hora.

— Ele vai brilhar — disse ela, pegando Maya no colo, que estava impecável em um vestido de renda. — Hoje todos verão a família Silva em toda a sua glória.

Quando Eduarda desceu as escadas, o silêncio se espalhou por alguns segundos entre os convidados que estavam perto. Ela estava simples, mas deslumbrante, em um vestido de seda azul claro que realçava sua pele suave. Nos braços, ela carregava Leo, vestido em um pequeno smoking que claramente o incomodava.

O bebê estava com os olhos arregalados, a respiração curta. O barulho da música e o falatório das centenas de pessoas o assustavam.

— Me dá ele aqui — disse Sara, aproximando-se com um sorriso triunfante para as câmeras.

Ela praticamente arrancou Leo dos braços de Eduarda. O bebê começou a chorar imediatamente. Não era um choro comum; era um grito de pânico.

— Ah, pare com isso, querido. É a sua festa! — disse Sara, tentando balançá-lo enquanto posava para os fotógrafos. — Sorria para a foto, Leo. Veja, a mamãe está aqui.

— Sara, ele está ficando roxo — interveio Emanuel, aproximando-se, a voz carregada de aviso. — Devolve ele para a Duda.

— Ele só precisa se acostumar com a agitação, Emanuel! — rebateu ela, mantendo o sorriso congelado para os convidados. — Ele é um Silva, tem que aprender a lidar com o público.

Leo, em um ato de desespero, começou a lutar nos braços de Sara. Ele puxou o colar de pérolas dela, arrebentando o fio e espalhando as joias pelo chão de mármore. O choro se tornou um berro estridente que silenciou a música.

— Ma-má! Ma-má! — gritava o menino, esticando os braços freneticamente na direção de Eduarda.

A humilhação de Sara foi instantânea. As amigas da alta sociedade cochichavam atrás das taças de champanhe. Eduarda, sem pedir licença, deu um passo à frente e pegou o bebê. No momento em que Leo sentiu o contato com o corpo de Eduarda, o choro mudou de tom, tornando-se soluços sofridos. Ele escondeu o rosto no seio dela, buscando o refúgio que só ela oferecia.

— Eu vou levá-lo para cima — disse Eduarda, a voz firme, embora seus olhos estivessem úmidos. — Ele não aguenta mais isso.

— Você não vai a lugar nenhum! — sibilou Sara, a voz baixa e perigosa. — A festa mal começou. O parabéns é agora.

— O parabéns de dez meses? — Emanuel interveio, colocando-se entre as duas mulheres. — Chega, Sara. Você já teve suas fotos. O menino está exausto. Eduarda, leve-o.

Sara assistiu, com o peito subindo e descendo de fúria, enquanto Eduarda subia as escadas com Leo. Emanuel olhou para a namorada, sentindo uma mistura de pena e irritação.

— Você tentou comprar o afeto dele com uma festa, Sara. Mas o afeto se constrói no silêncio, não no barulho.

Emanuel seguiu Eduarda. Ele a encontrou no quarto do bebê, que estava na penumbra. Eduarda já havia tirado o smoking desconfortável de Leo e estava sentada na poltrona, amamentando-o para acalmá-lo. O silêncio do quarto era um contraste violento com o caos lá embaixo.

— Ele está tremendo, Manu — sussurrou Eduarda, passando a mão pela cabeça suada do menino. — Como ela pôde fazer isso com ele?

Emanuel ajoelhou-se ao lado deles, sentindo-se pequeno diante daquela cena de pureza.

— Ela não entende, Duda. Ela acha que o amor é uma transação. Mas eu entendo. Eu vejo o que você faz por ele.

Ele inclinou-se e beijou a testa de Leo, depois a de Eduarda. Naquele momento, ele percebeu que não importava quantos estúdios de tatuagem ele possuísse ou quanto dinheiro tivesse no banco. Sua verdadeira riqueza estava ali, naquela pequena bolha de cuidado e leite.

— Eu amo vocês — disse Emanuel, as palavras saindo com uma sinceridade que o assustou.

— E a Sara, Manu? — Eduarda perguntou, olhando-o nos olhos. — Ela vai destruir tudo se não puder ser a protagonista.

— Eu não vou deixar. Eu amo a Sara, ela é a mãe da Maya, mas ela vai ter que aprender a dividir esse espaço. Se ela não aceitar que você é a mãe do Leo, então teremos um problema que nenhuma festa pode resolver.

Lá embaixo, Sara dispensava os convidados com uma frieza cortante. Ela entrou na mansão, subiu as escadas e parou diante da porta entreaberta do quarto de Leo. Ela viu Emanuel abraçado a Eduarda e ao bebê. Viu a entrega, viu o leite, viu o amor que ela não conseguia fabricar com joias ou eventos.

Ela sentiu uma pontada de inveja, mas logo a substituiu por uma determinação gélida. Ela não perderia Emanuel. Ela não perderia o controle de sua casa.

— Aproveitem o momento — murmurou Sara para si mesma, enquanto caminhava em direção ao quarto de Maya. — Porque amanhã, as regras mudam. Se eu não posso ser a mãe que ele quer, serei a rainha que ele teme.

A noite terminou com a mansão mergulhada em um silêncio tenso. Leo dormia profundamente, satisfeito e seguro. Eduarda descansava a cabeça no ombro de Emanuel, exausta pela batalha emocional. E Emanuel, o homem que queria as duas, percebeu que a beleza daquela família fragmentada era tão frágil quanto uma tatuagem recém-feita: qualquer movimento errado poderia deformar o desenho para sempre.

Ele amava o fogo de Sara e a paz de Eduarda. Amava a filha biológica e o filho de alma. Mas, enquanto o sol começava a surgir no horizonte, ele sabia que o verdadeiro desafio não era amá-las, mas sobreviver ao choque entre esses dois mundos que ele insistia em manter sob o mesmo teto.