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D

Asfalto, Neons e Contradições

O sol mal havia começado a despontar no horizonte quando o imenso ônibus de luxo, fretado pelos amigos de Emanuel, estacionou em frente à principal unidade de seus estúdios de tatuagem. Não era uma excursão comum; era uma celebração extravagante da "família" estendida que Emanuel construíra entre artistas, investidores e amigos de longa data.

Emanuel conferia a lista de passageiros no tablet, o cenho franzido pelo estresse habitual. Ele odiava depender de horários alheios, mas a ideia de uma viagem de ônibus — com bar privativo, poltronas de couro e isolamento acústico — parecia o único jeito de reunir todo o seu mundo caótico em um só lugar.

— Emanuel, querido, se você não relaxar esse rosto, vai acabar com rugas antes dos trinta, e eu não vou deixar meu homem parecer um maracujá murcho — a voz de Sara cortou o ar, acompanhada pelo estalo rítmico de seus saltos plataforma.

Ela estava deslumbrante, como sempre. Usava um conjunto de veludo molhado azul-elétrico que deixava pouco para a imaginação, óculos escuros de grife mesmo antes do sol nascer e uma mala de mão que custava mais do que um carro popular. Atrás dela, três de suas melhores amigas — mulheres tão exuberantes e barulhentas quanto ela — riam de algo no celular.

— Onde está a Ágata? — Emanuel perguntou, recebendo um beijo rápido e com gosto de gloss de cereja.

— Já subiu com a babá. Ela está sentada na primeira fila, mandando em todo mundo e exigindo o tablet dela. Uma mini diva de respeito — Sara riu, ajeitando o decote que realçava o silicone impecável. — E a "outra"? Ela vem ou vai ficar chorando no pé da cama dos pais?

Emanuel olhou para o relógio, a irritação começando a borbulhar.

— Eduarda teve uma prova final da faculdade ontem à noite e disse que o Uber estava difícil. Se ela não chegar em cinco minutos, teremos que ir.

— Que pena — disse Sara, sem um pingo de sinceridade na voz. — Mas olha, se ela não vier, eu prometo te entreter o dobro.

No exato momento em que Sara se virava para entrar no veículo, um táxi parou bruscamente atrás do ônibus. Eduarda saiu quase tropeçando, carregando uma mochila de lona e a lancheira de Maya. Ela parecia exausta; as olheiras leves sob os olhos castanhos denunciavam a noite em claro estudando, mas o sorriso que surgiu ao ver Emanuel foi puro e radiante.

— Eu consegui! — ela exclamou, ofegante, correndo até ele. — Desculpe o atraso, Emanuel. Eu quase não dormi, mas não queria perder isso por nada.

Emanuel sentiu o aperto no peito relaxar instantaneamente. Ele a puxou pela cintura, sentindo a maciez do seu cardigã de tricô e o cheiro de sabonete de bebê que sempre a acompanhava.

— Você está atrasada, Duda. Eu quase dei a ordem de partida — ele murmurou, embora suas mãos estivessem acariciando as costas dela com uma ternura que ele nunca demonstrava em público.

— Eu sei, eu sei... — ela se aninhou no abraço dele por um segundo. — Cadê a minha pequena?

— Maya está lá dentro, com a babá e a Ágata. Estava perguntando por você — Emanuel disse, pegando a mochila de Eduarda. — Vamos, antes que a Sara resolva assumir o volante e acelerar sem a gente.

Ao subirem as escadas do ônibus, o contraste de mundos se tornou claustrofóbico. Na parte de trás, perto do bar, Sara e suas amigas já haviam aberto uma garrafa de espumante. A música eletrônica batia baixo, mas o suficiente para preencher o ambiente. Ágata estava sentada em uma poltrona, com um fone de ouvido rosa, ignorando solenemente a irmã.

Maya, por outro lado, estava encolhida em um canto do banco, abraçada a um coelhinho de pelúcia, com os olhinhos marejados. No momento em que viu Eduarda, a menina soltou um grito agudo que fez as amigas de Sara revirarem os olhos.

— Mamãe Duda!

Eduarda praticamente voou para o banco, pegando a menina no colo. Maya se agarrou ao pescoço dela como se fosse sua única âncora em um mar revolto.

— Oi, meu amor... A mamãe está aqui. Desculpa a demora, tá? — Eduarda sussurrou, sentando-se e acomodando a cabeça da menina em seu colo.

Emanuel sentou-se no banco à frente delas, tentando encontrar um equilíbrio entre a necessidade de silêncio de Eduarda e a energia caótica que vinha do fundo do ônibus.

— Olha só se não é a santinha — uma das amigas de Sara, uma loira de unhas imensas chamada Sheila, comentou enquanto passava pelo corredor para ir ao banheiro. — Trouxe o enxoval completo, Duda? Parece que vai passar um mês fora.

Eduarda apenas deu um sorriso tímido e baixou a cabeça, focando em acariciar os cabelos de Maya.

— Deixa ela, Sheila — Sara gritou lá de trás, rindo. — A Duda precisa de todo esse equipamento para sobreviver ao mundo real. Ela é sensível, lembra?

Emanuel respirou fundo, sentindo a tensão subir pela nuca.

— Sara, menos. Já são sete da manhã e você já está provocando. Bebe seu champanhe e fica na sua.

— Grosso! — Sara mandou um beijo no ar para ele. — Só estou animando o ambiente, querido. Esse ônibus está parecendo um velório aqui na frente.

A viagem seguiu por algumas horas. O cenário mudava lá fora, mas o clima lá dentro permanecia dividido por uma linha invisível. No fundo, o grupo de Sara discutia sobre procedimentos estéticos, festas em Ibiza e as últimas fofocas do mundo da moda. Na frente, o silêncio era interrompido apenas pelos sussurros de Eduarda contando uma história para Maya e pelo som das páginas de um livro de História da Arte que ela tentava ler.

Emanuel, no meio do caminho, sentia-se um mediador de fronteiras. Ele se levantava, ia até o fundo, dava um beijo em Sara, ouvia uma reclamação administrativa sobre um dos estúdios, e depois voltava para a frente, sentando-se ao lado de Eduarda para que ela pudesse encostar a cabeça em seu ombro por alguns minutos.

— Você está bem? — ele perguntou a Eduarda, em voz baixa.

— Estou... Só um pouco de dor de cabeça. O som está um pouco alto, e eu não tive tempo de tomar café — ela confessou, com aquele jeito manhoso que sempre desarmava Emanuel.

— Eu vou buscar algo para você — disse ele, levantando-se.

No frigobar, Emanuel encontrou apenas bebidas alcoólicas e energéticos. Ele teve que pedir ao motorista para parar no próximo posto de conveniência. Quando o ônibus parou, a reclamação foi geral no fundo.

— Ah, não! Parar agora? A gente estava no ritmo! — reclamou Sara, saindo de sua poltrona e caminhando até Emanuel. — O que foi agora, Manu?

— A Duda está com dor de cabeça e precisa comer algo sólido, Sara. Não é todo mundo que vive de vodca e luz como você.

Sara revirou os olhos, mas não parecia realmente brava. Ela olhou para Eduarda, que tentava acalmar Maya, que acordara assustada com a parada brusca.

— Ela é tão... frágil — Sara comentou, cruzando os braços, os seios fartos quase saltando do decote. — Às vezes eu me pergunto como você consegue, Emanuel. Eu te dou adrenalina, ela te dá... o quê? Chá de camomila?

— Ela me dá paz, Sara. Coisa que você nem sabe o significado — Emanuel respondeu, descendo do ônibus.

Sara ficou parada no corredor por um momento. Ela olhou para Maya, que agora choramingava pedindo um doce. A menina era sua cara, mas o temperamento era todo de Eduarda. Aquilo a incomodava profundamente. Era como se uma parte dela tivesse sido "contaminada" pela suavidade da outra namorada de Emanuel.

Ela caminhou até o banco de Eduarda. As amigas de Sara observavam da parte de trás, esperando um barraco.

— Toma — disse Sara, estendendo um comprimido que tirou da bolsa de grife. — É para enxaqueca. Dos bons, importado. Não vai morrer se tomar.

Eduarda olhou para a mão de Sara, surpresa.

— Obrigada, Sara... Eu... eu aceito.

— E dá um jeito nessa menina, Duda. Ela chora demais. Ágata já está reclamando que a irmã é uma "bebê chorona". Ensina ela a ser firme, pelo amor de Deus.

— Ela só tem dois anos, Sara — Eduarda respondeu com a voz doce, mas com um brilho de resiliência nos olhos. — Ela não precisa ser firme agora. Ela só precisa se sentir segura.

Sara bufou, soltando uma risada irônica.

— Segurança não paga conta, nem ganha respeito no mundo lá fora. Mas enfim... faz do seu jeito.

Emanuel voltou com um sanduíche natural e um suco. Ele entregou a Eduarda e percebeu o clima estranho.

— O que aconteceu?

— Nada, Emanuel. A Sara só estava me dando um remédio — Eduarda sorriu, tentando tranquilizá-lo.

O ônibus voltou a rodar. Com o remédio fazendo efeito e o estômago forrado, Eduarda acabou pegando no sono, com a cabeça apoiada na janela e Maya dormindo em seu colo. Emanuel observou as duas por um longo tempo. Elas pareciam uma pintura renascentista, envoltas em uma aura de pureza que parecia deslocada naquele ônibus cheio de tatuadores brutos e mulheres fatais.

Sentindo uma necessidade súbita de equilíbrio, ele se levantou e foi para o fundo do ônibus. Sara estava sentada sozinha agora, olhando para a estrada com uma expressão rara de introspecção.

— O que foi? — ela perguntou, sem olhar para ele. — Veio ver se eu não estou injetando veneno nas suas amigas?

Emanuel sentou-se ao lado dela, puxando-a para o seu colo. Sara, apesar de toda a pose de mulher independente e vulgar, derreteu-se no toque dele instantaneamente.

— Eu vim ver como está a minha administradora favorita — ele sussurrou no ouvido dela, sentindo o perfume caro inundar seus sentidos. — Você sabe que eu te amo, né? Mesmo quando você é uma peste.

Sara sorriu, uma expressão genuína que raramente mostrava a outros.

— Eu sei. E eu amo você, seu ogro. Só... é difícil às vezes. Ver você olhando para ela como se ela fosse feita de vidro. Eu também queria que você me visse assim às vezes.

Emanuel a apertou mais forte.

— Você não é de vidro, Sara. Você é de aço. E é por isso que eu preciso de você para manter o império de pé. Se você fosse de vidro, a gente já teria quebrado há muito tempo.

Sara aceitou o elogio torto com um beijo voraz. Eles ficaram ali, emaranhados um no outro, enquanto o ônibus cortava a rodovia.

Lá na frente, Eduarda acordou com o movimento. Ela viu, pelo reflexo do espelho interno, Emanuel e Sara juntos no fundo. Uma pontada de insegurança atingiu seu peito, como sempre acontecia. Ela se sentia tão pequena perto da grandiosidade de Sara. Ela sentia que, a qualquer momento, Emanuel poderia perceber que uma bailarina tímida não era o suficiente para um homem como ele.

Maya se mexeu no colo dela e abriu os olhos castanhos, os mesmos olhos de Eduarda.

— Mamãe?

— Oi, meu anjo.

— O papai tá com a outra mamãe? — a menina perguntou, com a ingenuidade típica da idade.

— Está sim, querida. Eles estão conversando.

— Eu gosto da mamãe Sara. Ela brilha — disse Maya, fechando os olhos novamente.

Eduarda sorriu, sentindo as lágrimas arderem. Maya tinha razão. Sara brilhava. Ela era o sol, cegante e necessário. E talvez, pensou Eduarda, ela mesma fosse a lua — discreta, refletindo a luz alheia, mas necessária para que a noite não fosse tão escura.

Emanuel voltou para a frente cerca de meia hora depois. Ele parecia mais leve, a tensão nos ombros finalmente cedendo. Ele sentou-se ao lado de Eduarda e pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos.

— Está melhor? — ele perguntou.

— Muito melhor — ela respondeu, encostando a cabeça no ombro dele. — Emanuel... sobre o apartamento...

Ele ficou tenso imediatamente.

— Não vamos falar disso agora, Duda. Aproveite a viagem.

— Não, eu quero falar. Eu estive pensando... enquanto você estava lá atrás com a Sara. Eu sei que eu tenho medo. Medo de perder meu espaço, medo de não me encaixar na rotina de vocês. Mas eu vi a Maya hoje... como ela fica perdida sem mim. E como a Ágata precisa de um pouco mais de... doçura por perto.

Emanuel prendeu a respiração.

— O que você está dizendo?

— Eu vou morar com vocês — ela sussurrou, tão baixo que ele quase não ouviu por causa do ronco do motor. — Mas com uma condição.

— Qual? Eu faço qualquer coisa.

— Eu quero um quarto só meu. Um estúdio de dança pequeno, onde eu possa ter meu silêncio quando o mundo da Sara ficar barulhento demais. E quero que você prometa que, quando eu precisar me fechar lá, você não vai tentar arrombar a porta.

Emanuel sorriu, um sorriso largo e vitorioso que iluminou seu rosto cansado. Ele a beijou com uma intensidade que fez Eduarda perder o fôlego.

— Prometido. Eu te dou o castelo inteiro se você quiser, Duda.

Lá no fundo do ônibus, Sara observava a cena pelo corredor. Ela viu o beijo, viu a expressão de Emanuel e soube, com sua intuição afiada, que Eduarda finalmente havia cedido. Ela tomou um longo gole de seu espumante, sentindo uma mistura estranha de alívio e desafio.

— Bom — murmurou Sara para si mesma, ajeitando o cabelo loiro no reflexo da janela. — Se ela vai entrar no jogo de verdade, é bom ela se preparar. Porque agora a brincadeira de casinha vai ficar interessante.

Ela se levantou, caminhou até o bar e gritou para o ônibus inteiro:

— Ei, pessoal! Aumenta esse som! A gente tem muito o que comemorar hoje!

A música eletrônica subiu de volume, preenchendo o ônibus de luxo. Na frente, Eduarda tapou os ouvidos de Maya com as mãos, sorrindo para Emanuel. No fundo, Sara dançava com suas amigas, brindando ao caos. E no centro de tudo, Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo que, pela primeira vez, as peças de seu quebra-cabeça impossível estavam finalmente começando a se encaixar, mesmo que o preço fosse viver eternamente entre o estrondo do trovão e a delicadeza da garoa.