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O Labirinto de Seda e Tinta
A luz da manhã entrava pelas imensas janelas de vidro da cobertura, refletindo-se no piso de porcelanato branco que Sara insistia em manter impecável. O apartamento, que antes parecia um monumento ao sucesso e ao ego de Emanuel, agora exibia sinais de uma invasão suave: um par de sapatilhas de cetim esquecido perto do sofá de couro, um livro sobre o Renascimento na mesa de centro e o aroma de chá de camomila lutando contra o perfume forte de orquídeas de Sara.
Eduarda estava oficialmente morando ali há três dias, e a atmosfera era uma corda esticada ao limite.
No centro da sala, o caos matinal fervilhava. Emanuel, já vestido com suas roupas pretas de trabalho, tentava ler um relatório no tablet enquanto tomava café. Sara, impecável em um robe de seda transparente sobre um conjunto de lingerie rendada, retocava o batom vermelho enquanto falava ao viva-voz com o gerente da unidade de Milão.
— Não me interessa se o fornecedor de agulhas subiu o preço, Marco! — Sara exclamou, a voz cortante como uma navalha. — Diga a ele que, se não mantiver a tabela, Emanuel vai pessoalmente cancelar o contrato na próxima convenção. E você sabe que ele não é gentil quando está com fome.
Emanuel deu um sorriso de lado, sem tirar os olhos da tela. Ele amava a agressividade administrativa de Sara; ela era o escudo que permitia que ele fosse apenas o artista.
— Emanuel — chamou Eduarda, saindo do corredor dos quartos.
Ela parecia pequena, envolta em um pijama de algodão azul claro, com o cabelo castanho preso em uma trança frouxa. Seus olhos estavam levemente inchados, e ela carregava Maya no colo. A menina, um espelho em miniatura da doçura de Eduarda, estava com o rosto enterrado no pescoço da "mamãe Duda", as mãos pequenas apertando a camiseta de Eduarda como se sua vida dependesse disso.
— Ela não quer comer, Emanuel — disse Eduarda, a voz carregada de uma preocupação manhosa. — E não quer sair do meu colo. Acho que ela teve outro pesadelo.
Emanuel deixou o tablet de lado e estendeu os braços para a filha.
— Venha cá, Maya. Deixe a Duda tomar café. Você precisa se arrumar para ir brincar com a Ágata.
No momento em que Emanuel tentou tocar na menina, Maya soltou um grito agudo, um choro desesperado que ecoou por toda a cobertura. Ela se encolheu ainda mais nos braços de Eduarda, soluçando violentamente.
— Não! Mamãe Duda! Não solta! — gritava a pequena de dois anos, as lágrimas molhando o ombro de Eduarda.
Sara desligou o telefone abruptamente e virou-se, os olhos estreitados sob as sobrancelhas perfeitamente desenhadas. O ciúme, um sentimento que ela raramente admitia sentir, subiu como uma maré ácida.
— Pelo amor de Deus, Emanuel, essa menina está ficando insuportável — disse Sara, caminhando até o grupo com seus saltos agulha estalando no chão. — Maya, olhe para mim. Eu sou sua mãe. Pare com esse show agora mesmo.
Maya apenas chorou mais alto, escondendo o rosto. Eduarda começou a balançar o corpo levemente, tentando acalmar a criança, o rosto corado de vergonha e aflição.
— Sara, não fale assim, ela está assustada — sussurrou Eduarda. — Ela só está passando por uma fase difícil com a mudança.
— Fase difícil? — Sara riu, uma risada irônica que não chegava aos olhos. — Ela mora aqui desde que nasceu, Eduarda. Você é quem se mudou agora. O problema é que você mima ela tanto que a menina perdeu a coluna vertebral. Ela nem parece minha filha desse jeito.
— Chega, Sara — Emanuel interveio, a voz baixa e autoritária. — A Maya é sensível, você sabe disso. Eduarda, leve ela para a cozinha e tente dar um pouco de fruta. Eu preciso falar com a Sara.
Eduarda assentiu rapidamente, saindo quase em fuga, sussurrando palavras de conforto para a menina que ainda soluçava.
Assim que elas saíram, o silêncio que ficou na sala era carregado de eletricidade. Ágata, a miniversão de Sara, apareceu no topo da escada, impecável em um vestido de grife infantil, observando tudo com um olhar de superioridade que daria inveja a uma rainha.
— A Maya é muito chata, né, papai? — perguntou Ágata, descendo os degraus com elegância precoce. — Ela está sempre chorando. Eu nunca choro.
— É assim que se fala, minha diva — disse Sara, orgulhosa, embora seu olhar ainda estivesse fixo na porta da cozinha por onde Eduarda passara.
Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto cansado.
— Sara, você precisa ter paciência. A Maya tem uma conexão profunda com a Duda. Você mesma sempre disse que a maternidade era um desperdício do seu tempo de administração.
— Eu disse que era um desperdício de tempo, não que eu queria ser substituída na cabeça da minha própria filha! — Sara explodiu, aproximando-se de Emanuel. — Eu carreguei aquela menina, Emanuel. Eu fiz as cirurgias para consertar o estrago que a gravidez fez no meu corpo. E agora ela me olha como se eu fosse uma estranha e olha para a Eduarda como se ela fosse a Virgem Maria?
— Ela é um bebê de dois anos, Sara. Ela não entende de biologia ou de gratidão — Emanuel tentou racionalizar, segurando os ombros de Sara. — Ela entende de afeto e presença. A Duda tem tempo, ela tem essa energia calma. Você é... bem, você é um furacão.
— Eu sou a mulher que mantém esse império funcionando para que ela possa dançar balé e estudar História da Arte sem se preocupar com o preço do pão! — Sara se soltou dele, a voz vibrando de raiva. — Se ela vai morar aqui, ela tem que entender que a Maya é minha. Ela pode ser a "tia querida", a "mamãe de brincadeira", o que for. Mas esse grude, essa ansiedade de separação... isso está me deixando louca.
Enquanto isso, na cozinha, o clima era de uma melancolia suave. Eduarda havia conseguido sentar Maya no cadeirão, mas a menina ainda segurava a barra de sua blusa com uma das mãos enquanto tentava comer um pedaço de mamão com a outra.
— Pronto, meu amor... A mamãe Duda está aqui. Eu não vou a lugar nenhum — dizia Eduarda, limpando uma lágrima do rosto da menina.
— Promete? — perguntou Maya, com a voz embargada.
— Prometo.
Eduarda sentia um conflito interno dilacerante. Ela amava Maya com cada fibra de seu ser; a menina era o conforto que ela precisava naquele ambiente tão hostil e frio. Mas ela via os olhares de Sara. Ela sentia o julgamento de Emanuel, que queria que todos fossem uma família feliz e organizada, como se as emoções humanas pudessem ser administradas como uma planilha de estúdio de tatuagem.
Emanuel entrou na cozinha, observando a cena. Ele se aproximou de Eduarda por trás e beijou seu pescoço, um gesto de posse e carinho que sempre a fazia estremecer.
— Você está bem, Duda? — perguntou ele.
— Estou. Só... me sinto mal pela Sara. Eu não quero tirar o lugar dela, Emanuel. De verdade.
— Você não está tirando nada. Você está dando o que ela não consegue dar — Emanuel foi prático, como sempre. — A Sara é excelente em muitas coisas, mas ternura não é uma delas. A Maya precisa de você. Mas você precisa ser firme também. Se ela chorar toda vez que você sair do campo de visão dela, você vai virar uma prisioneira nesta casa.
— Eu não me importo de ficar com ela — disse Eduarda, olhando para a menina.
— Mas eu me importo — Emanuel virou Eduarda para ele, obrigando-a a encará-lo. — Eu trouxe você para cá para ser minha mulher, para estar comigo. Não para ser babá em tempo integral porque a Maya decidiu que você é o único porto seguro dela. Hoje à noite temos o jantar de inauguração da nova galeria. Você vai comigo.
— E a Maya? — perguntou Eduarda, já sentindo o aperto no peito.
— A Maya vai ficar com a Sara e a babá. É hora de ela se acostumar.
Ao ouvir o nome de Sara, Maya começou a choramingar novamente.
— Não! Mamãe Duda vai junto!
— Não, Maya — Emanuel disse, o tom de voz subindo, o que fez a menina se encolher. — A Duda vai sair com o papai. Você vai ficar com a mamãe Sara.
O resto do dia foi uma preparação para o desastre. Eduarda tentou brincar com as duas meninas à tarde, esperando que a presença de Ágata pudesse distrair Maya. Mas Ágata estava ocupada demais tentando convencer a babá a pintas suas unhas de dourado.
— Tia Duda, por que a Maya é tão bobinha? — perguntou Ágata, olhando para a irmã com desdém. — A mamãe disse que ela precisa de um "sacode". O que é um sacode?
Eduarda sentiu um calafrio.
— É só uma expressão, Ágata. Sua irmã só é mais sensível.
Sara apareceu na porta do quarto de brinquedos, já vestida para o evento. Ela usava um vestido de lantejoulas pretas com um decote profundo, os cabelos loiros em ondas perfeitas. Ela parecia uma deusa de guerra pronta para conquistar o mundo.
— Eduarda, você ainda não começou a se arrumar? — perguntou Sara, olhando para o relógio de ouro no pulso. — O Emanuel detesta atrasos, e eu não vou deixar ele de mau humor por sua causa.
— Eu já vou, Sara. Só estava tentando acalmar a Maya.
— Deixe ela comigo — disse Sara, entrando no quarto com uma determinação fria. — Vá. Agora.
Eduarda hesitou, olhando para Maya, que já começava a tremer.
— Vá, Duda — insistiu Sara, pegando Maya no colo com uma firmeza que beirava a brusquidão.
No momento em que Eduarda saiu do quarto, o grito de Maya foi tão dilacerante que Eduarda parou no corredor, as mãos cobrindo a boca.
— Continue andando, Eduarda! — gritou Sara de dentro do quarto. — Ela vai parar se você sumir!
Eduarda correu para o quarto de hóspedes, que Emanuel transformara em seu refúgio, e começou a se arrumar entre soluços contidos. Ela colocou um vestido de seda verde-água, simples e elegante, mas suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia fechar o zíper.
Duas horas depois, o grupo estava pronto para sair. Emanuel estava impecável em um terno sob medida que escondia suas tatuagens, mas deixava transparecer sua aura de poder.
Maya estava exausta de tanto chorar, sentada no sofá com a babá, os olhos vermelhos e o corpo soluçando em intervalos rítmicos. Sara estava ao lado de Emanuel, radiante, ignorando o estado da filha menor.
— Vamos? — perguntou Emanuel, pegando a mão de Eduarda.
— Emanuel, olhe para ela... — sussurrou Eduarda, apontando para Maya.
— Ela está bem, Eduarda. A babá está aqui. Vamos logo — Emanuel a puxou suavemente.
No momento em que a porta da cobertura se fechou, o choro de Maya recomeçou, abafado pelo isolamento acústico, mas ainda presente na mente de Eduarda.
O jantar foi um borrão de luzes, conversas sobre arte e negócios. Sara brilhava, circulando entre os investidores, rindo alto, sendo a parceira perfeita para o império de Emanuel. Eduarda permanecia ao lado dele, tímida, respondendo com monossílabos, sua mente presa na imagem da menina soluçando no sofá.
— Você está aqui, mas não está, não é? — Emanuel murmurou no ouvido de Eduarda enquanto bebiam champanhe.
— Eu não consigo parar de pensar nela, Emanuel. É a ansiedade de separação. Ela se sente abandonada.
— Ela tem uma mãe biológica e uma babá profissional em casa, Duda. Ela não está abandonada.
— Mas ela quer a mim! — Eduarda disse, com uma intensidade que raramente demonstrava.
Sara se aproximou deles, os olhos brilhando de adrenalina.
— Emanuel, o diretor da galeria quer falar com você sobre a exclusividade das fotos das suas tatuagens. Eduarda, querida, por que essa cara de enterro? O champanhe está ruim?
— Eu quero ir para casa, Sara.
Sara revirou os olhos, soltando uma risada curta.
— Você é inacreditável. Estamos na festa do ano, e você quer voltar para trocar fraldas? Honestamente, Emanuel, eu não sei como você aguenta.
— Ela está preocupada com a Maya, Sara — defendeu Emanuel, embora seu tom também demonstrasse cansaço.
— A Maya está dormindo! — mentiu Sara, pois sabia que a babá havia mandado uma mensagem dizendo que a menina se recusava a fechar os olhos. — Deixe de ser dramática, Eduarda. Aproveite o luxo por uma noite.
O jantar se arrastou por mais três horas. Quando finalmente voltaram para casa, o silêncio da cobertura era perturbador.
Emanuel abriu a porta e o que viram foi uma cena de guerra emocional. A babá estava sentada no chão da sala, exausta. Maya havia dormido ali mesmo, no tapete, agarrada a uma sapatilha de balé de Eduarda que ela encontrara em algum lugar. Ágata dormia calmamente em seu quarto, alheia ao drama.
Eduarda correu até Maya, pegando-a no colo. A menina acordou instantaneamente, e ao ver Eduarda, não chorou. Ela apenas se agarrou ao pescoço da bailarina com uma força sobrenatural, tremendo.
— Mamãe... você voltou — sussurrou a pequena.
Sara observava a cena da porta, o ciúme queimando como fogo em suas veias. Ela viu o modo como Maya se acalmou instantaneamente nos braços de Eduarda, um efeito que ela, a mãe que lhe dera a vida, nunca conseguira produzir.
— Isso é ridículo — disse Sara, a voz trêmula de raiva. — Essa menina está doente. E você, Eduarda, está alimentando essa doença.
— Eu estou dando amor, Sara! — Eduarda gritou, finalmente explodindo. — Coisa que você parece considerar um acessório opcional!
Emanuel se colocou entre as duas, a expressão gélida.
— Chega. As duas. Agora.
Ele pegou Maya do colo de Eduarda, ignorando os protestos da menina, e a entregou à babá.
— Leve-a para o quarto. Agora.
Depois, voltou-se para as duas mulheres.
— Eduarda, vá para o nosso quarto. Sara, escritório. Agora.
Eduarda obedeceu, subindo as escadas em prantos. Sara caminhou para o escritório com a cabeça erguida, mas por dentro sentia-se desmoronar.
No escritório, Emanuel fechou a porta e encarou Sara.
— Você está com ciúmes da sua própria filha, Sara. Isso é baixo, até para você.
— Eu não estou com ciúmes! — ela gritou, batendo a mão na mesa de carvalho. — Eu estou sendo ignorada na minha própria casa! Aquela menina me olha com medo, Emanuel. Com medo! E olha para ela com adoração. O que eu fiz de errado? Eu dei tudo para elas!
— Você deu tudo o que o dinheiro compra, Sara. Mas você nunca deu o silêncio. Você nunca deu o colo sem olhar para o relógio. A Maya é o que você mais critica na Eduarda: ela é doce, ela é lenta, ela sente o mundo. E você odeia isso porque te lembra que você não tem controle sobre tudo.
Sara sentou-se na cadeira de couro, as lágrimas finalmente borrando sua maquiagem impecável.
— Eu quero que ela goste de mim, Emanuel.
— Então pare de competir com a Eduarda — disse ele, aproximando-se e colocando a mão sobre a dela. — A Eduarda não é sua inimiga. Ela é a ponte. Se você afastar a Duda, você perde a Maya para sempre.
Sara ficou em silêncio por um longo tempo.
— E se ela preferir a Duda para sempre?
— Ela nunca vai deixar de ser sua filha, Sara. Mas ela precisa de duas mães diferentes. Ela precisa da sua força para aprender a enfrentar o mundo, e precisa da doçura da Duda para aprender a viver nele.
Emanuel saiu do escritório e foi para o quarto. Lá, encontrou Eduarda sentada na beira da cama, ainda com o vestido de festa, olhando para o nada.
— Ela vai ficar bem? — perguntou Eduarda.
— Vai. Mas você precisa me prometer uma coisa, Duda.
— O quê?
— Você não pode se anular. Eu quero as duas aqui, mas eu quero você inteira. Se você se tornar apenas uma sombra da Maya, você vai sumir. E eu não posso perder você.
Eduarda deitou-se no peito dele, sentindo as batidas do coração de Emanuel.
— Eu vou tentar, Emanuel. Mas é tão difícil ver ela sofrendo.
— Eu sei.
Naquela noite, a cobertura mergulhou em um sono inquieto. No meio da madrugada, Sara saiu de seu quarto e caminhou silenciosamente até o quarto das gêmeas. Ela olhou para Ágata, que dormia como uma princesa, segura de si. Depois, olhou para Maya.
A menina segurava a sapatilha de Eduarda contra o peito, mesmo dormindo.
Sara sentou-se na beira da cama de Maya. Com um gesto hesitante, ela estendeu a mão e acariciou o cabelo castanho da filha. Maya se mexeu, soltando um suspiro pequeno.
— Eu estou aqui, pequena — sussurrou Sara, a voz rouca. — Eu não sou tão fofinha quanto a sua mamãe Duda, mas eu estou aqui.
Maya abriu os olhos por um segundo. No escuro, ela viu o contorno da mãe. Ela não chorou. Ela apenas estendeu a mão pequena e tocou o braço de Sara, sentindo a frieza das joias e a maciez da pele.
— Mãe? — perguntou a menina.
— Sim, sou eu.
Maya fechou os olhos novamente e, para surpresa de Sara, soltou a sapatilha de Eduarda e segurou o dedo indicador da mãe.
Sara ficou ali, sentada no escuro, por quase uma hora. Ela percebeu que a vida com Emanuel e Eduarda nunca seria normal. Seria sempre um campo de batalha entre o ego e o afeto, entre o silicone e a seda, entre o controle e a entrega.
Mas, enquanto sentia o aperto pequeno da mão de Maya, Sara soube que, pela primeira vez em sua vida, ela não precisava administrar nada. Ela só precisava estar ali.
Na manhã seguinte, quando Eduarda acordou e foi até o quarto das meninas, ela encontrou Sara dormindo em uma poltrona ao lado da cama de Maya, ainda com o vestido de festa amassado, mas com uma expressão de paz que Eduarda nunca vira nela.
Emanuel, observando da porta, colocou a mão no ombro de Eduarda.
— Viu? — sussurrou ele. — O caos sempre encontra o seu próprio equilíbrio.
Eduarda sorriu, sentindo que, finalmente, a casa deles estava começando a se tornar um lar, não importa o quão estranho e complicado ele fosse para o resto do mundo.