D
O Sangue nas Dobras da Seda
O brilho azulado da tela do notebook era a única fonte de luz no quarto de Eduarda. Ela estava sentada na beira da cama, envolta em um pijama de cetim claro que parecia derreter sobre sua pele. O silêncio da madrugada na mansão era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico da própria respiração. Quando o ícone de notificação de e-mail piscou no canto superior, um calafrio instintivo percorreu sua espinha.
Ela clicou. O anexo carregou lentamente, revelando uma imagem em alta definição. Eram suas próprias sapatilhas de ponta, aquelas que ela havia deixado no armário do teatro na noite da fuga. Estavam dispostas sobre um fundo de veludo negro, mas o cetim rosa, antes imaculado, estava encharcado de um vermelho viscoso e escuro. Abaixo da foto, uma única frase em letras cursivas, quase elegantes:
"As outras eram apenas ensaios. Você é a minha obra-prima. O palco está pronto, Eduarda."
Um grito sufocado escapou de seus lábios. O notebook escorregou de seu colo, batendo no tapete com um som surdo. Eduarda abraçou os próprios joelhos, tremendo violentamente. A sensação de estar sendo observada, de que as paredes de vidro e aço de Emanuel não eram suficientes para barrar aquele horror, a atingiu como um soco.
Minutos depois, Emanuel apareceu na porta. Ele não bateu; o sensor de movimento e os batimentos cardíacos elevados de Eduarda, monitorados pelo sistema de segurança do quarto, o haviam alertado. Ele vestia apenas uma calça de moletom escura, o peito largo e tatuado subindo e descendo com rapidez.
— Eduarda? O que houve? — A voz dele era um trovão contido.
Ela não conseguiu falar. Apenas apontou para o computador no chão. Emanuel pegou o aparelho, os olhos escaneando a mensagem. Suas mandíbulas se travaram com tanta força que os músculos do pescoço saltaram. Ele sentiu uma fúria cega, algo que ultrapassava o dever profissional. Era uma possessividade primitiva, uma necessidade de esmagar qualquer coisa que ousasse ameaçar a paz daquela garota.
— Ele entrou no meu e-mail... ele sabe que eu estou viva... ele vai me achar — soluçou ela, desabando em prantos.
Emanuel sentou-se ao lado dela e, sem pensar nas consequências ou na frieza que costumava manter, puxou-a para seus braços. Eduarda se encaixou nele como se tivesse sido feita para aquele abraço. O calor da pele dele e o cheiro de tinta de tatuagem e sândalo agiram como um sedativo temporário. Ele sentia os seios dela pressionados contra seu peito nu, a maciez de suas curvas contra sua rigidez, mas, naquele momento, o desejo foi suplantado por uma promessa silenciosa de guerra.
***
Na manhã seguinte, a sala de reuniões de Emanuel parecia um bunker. O Comandante Vargas estava presente, junto com dois agentes da elite da Polícia Federal. Sara estava encostada no batente da porta, segurando uma xícara de café com uma mão e mantendo Ágata no quadril com a outra. Ela observava a cena com uma mistura de tédio e uma ponta de ciúme que se recusava a admitir.
Maya, por outro lado, estava sentada no tapete aos pés de Eduarda, agarrada à barra do vestido da jovem, recusando-se a ir para o colo da babá ou da própria mãe.
— O hacker dele é bom — disse Vargas, jogando uma pasta sobre a mesa. — Ele usou um servidor mascarado no Leste Europeu para enviar o e-mail. Ele quer desestabilizar a testemunha. Ele sabe que, se Eduarda quebrar psicologicamente, o caso desmorona.
— Ele não vai chegar perto dela — rosnou Emanuel, os braços cruzados, a postura de um predador pronto para o bote.
Um dos policiais, um homem de meia-idade chamado Rocha, pigarreou, olhando de Emanuel para Eduarda e depois para o luxo ostensivo da mansão.
— Com todo o respeito, Emanuel... talvez esta casa não seja mais o lugar ideal. O assassino já rompeu a barreira digital. Se ele for tão bom fisicamente quanto é virtualmente, sua segurança privada pode não ser suficiente. Além disso, há o fator emocional. A menina está visivelmente abalada, e sua família está no caminho do fogo cruzado.
Emanuel sentiu um estalo em seu cérebro. A ideia de Eduarda saindo debaixo de seu teto, de ser levada para um prédio federal frio ou uma casa segura precária, fez seu sangue ferver.
— O que você está sugerindo, Rocha? — perguntou Emanuel, a voz perigosamente baixa.
— Sugiro que ela seja transferida para a custódia total do Estado em uma unidade militar isolada. É o procedimento padrão quando o esconderijo atual é comprometido. É o melhor para a segurança dela... e da sua esposa e filhas.
Emanuel deu um passo à frente, a presença física emanando uma ameaça tão real que o policial recuou instintivamente.
— Ela não vai a lugar nenhum — sentenciou Emanuel. — O Estado não conseguiu proteger as outras três bailarinas. O Estado permitiu que o rastro dele esfriasse. Eduarda fica comigo.
— Emanuel, seja racional — interveio Vargas. — Rocha tem um ponto. Se esse cara decidir atacar a mansão, Sara e as bebês...
— Eu disse que ela fica! — a explosão de Emanuel fez o silêncio cair como uma guilhotina na sala.
Sara arqueou uma sobrancelha, o olhar fixo no marido. Ela nunca o vira perder o controle daquela forma por causa de um "ativo" ou de um caso. Sua intuição feminina, afiada como uma navalha, captou a mudança no ar.
— Por que tanta insistência, Manu? — Sara perguntou, a voz carregada de ironia. — Se os profissionais dizem que ela corre perigo aqui, e que nós corremos perigo por causa dela, por que não deixá-la ir? Afinal, você sempre diz que a lógica vem primeiro.
Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda, que estava encolhida na cadeira, com os olhos fixos no chão e as mãos acariciando distraidamente os cabelos de Maya. Ele percebeu que a lógica havia abandonado o prédio há muito tempo. O que ele sentia não era apenas responsabilidade. Era uma necessidade de oxigênio. A presença de Eduarda, sua doçura, até mesmo sua fragilidade, haviam se tornado o contraponto necessário para a sua vida de sombras e controle.
— A lógica é que eu sou o único capaz de mantê-la viva — respondeu Emanuel, voltando-se para os policiais. — Eu vou dobrar a guarda. Vou trazer minha equipe de segurança de Londres. Se vocês tentarem tirá-la daqui, considerarei uma invasão de propriedade. A reunião acabou.
Vargas suspirou, fazendo um sinal para que os policiais se retirassem.
— Você está jogando um jogo perigoso, garoto. Não deixe o instinto protetor nublar seu julgamento.
Quando a sala esvaziou, restaram apenas Emanuel, Sara, Eduarda e as crianças. Sara caminhou até o centro da sala, entregando Ágata para a babá que aparecera na porta.
— Você está apaixonado por ela — disse Sara, sem rodeios. Não era uma pergunta; era uma acusação direta, lançada com a confiança de quem conhece cada engrenagem do homem à sua frente.
Eduarda levantou a cabeça, o rosto pálido tornando-se instantaneamente escarlate.
— Não... Senhora Sara, por favor, eu...
— Cale a boca, bailarina. Estou falando com meu marido — cortou Sara, os olhos brilhando com uma fúria fria. — Olhe para você, Emanuel. Você está disposto a colocar suas filhas em risco, a enfrentar a polícia, tudo para manter essa coisinha por perto. Onde está o homem prático que eu conheci?
— Isso não tem nada a ver com sentimentos, Sara — mentiu Emanuel, embora as palavras soassem ocas até para ele. — É sobre eficiência.
— Eficiência? — Sara soltou uma risada amarga. — Você a olha como se ela fosse o último copo de água no deserto. E ela? Ela te olha como se você fosse um deus. É patético.
Sara deu as costas e saiu da sala, os saltos batendo com violência, deixando um rastro de perfume caro e ressentimento.
O silêncio que ficou era denso, quase palpável. Maya, sentindo a tensão, começou a choramingar. Eduarda a pegou no colo, ninando a bebê com uma ternura que partiu o coração de Emanuel.
— Talvez ela tenha razão — sussurrou Eduarda, as lágrimas voltando a cair. — Eu deveria ir. Eu não quero causar problemas no seu casamento. Eu não quero que Maya sofra.
Emanuel se aproximou. Ele parou a poucos centímetros dela, sentindo o calor que emanava de seu corpo. Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Eduarda, secando uma lágrima com o polegar. A pele dela era tão macia quanto ele imaginara, e o contato pareceu queimar sua mão.
— Você não vai embora — disse ele, a voz agora suave, mas absoluta. — Sara vai entender com o tempo. Ou não vai. Mas eu não posso... eu não vou deixar você sair por aquela porta.
— Por que? — perguntou ela, os olhos grandes e intuitivos buscando a verdade nos dele.
Emanuel não respondeu com palavras. Ele não podia admitir em voz alta que, cada vez que olhava para ela, sentia uma vontade avassaladora de largar tudo — o império, as investigações, a rigidez — apenas para protegê-la do mundo. Ele não podia dizer que a imagem dela nua no quarto o assombrava, não por luxúria barata, mas porque ele queria ser o único a ver aquela vulnerabilidade.
— Porque você é minha responsabilidade — disse ele, finalmente, usando a palavra "responsabilidade" como um escudo para o que realmente sentia.
— Só isso? — perguntou Eduarda, com uma coragem que ele não esperava.
Emanuel sentiu o peso da pergunta. Ele olhou para Maya, que agora dormia pacificamente no colo de Eduarda, e depois para a mulher que a segurava. O contraste entre a força bruta de seu mundo e a delicadeza dela era o que o estava destruindo.
— Não — admitiu ele, a voz falhando por um milésimo de segundo. — Não é só isso.
Ele se afastou antes que fizesse algo de que não pudesse voltar atrás. Precisava focar no assassino. Precisava transformar aquela mansão em uma fortaleza impenetrável. Mas, enquanto caminhava em direção ao seu escritório, Emanuel soube que a fortaleza mais difícil de manter era a que ele havia construído em volta do próprio coração.
Eduarda ficou na sala, apertando Maya contra o peito. Ela sentia o perigo lá fora, o monstro que queria transformar seu sangue em arte. Mas, pela primeira vez, o medo do assassino era menor do que o medo do que estava acontecendo dentro dela. Ela estava se apoiando em Emanuel, não apenas como um protetor, mas como o centro de seu universo. E ela sabia que, em uma casa onde Sara era a rainha legítima, ela era apenas uma intrusa cujo único poder era a doçura e uma curva de quadril que tirava o sono do homem que deveria apenas mantê-la viva.
No andar de cima, Sara observava a cena pela câmera de segurança de seu tablet. Seus dedos apertaram o dispositivo com força. Ela não odiava Eduarda — a garota era insignificante demais para o ódio —, mas ela odiava a fraqueza que Eduarda despertava em Emanuel.
— Você quer ser a obra-prima dele, bailarina? — murmurou Sara para a tela. — Vamos ver quanto tempo você dura quando as luzes do palco se apagarem.
A guerra estava declarada, e Emanuel, o mestre das tatuagens e das sombras, estava prestes a descobrir que algumas marcas são profundas demais para serem apagadas, e que o amor, quando nasce do medo, é a cicatriz mais perigosa de todas.