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O Tríptico de Poder e Desejo

O silêncio na manhã seguinte era pesado, carregado com a eletricidade estática que precede um grande temporal. Sara não havia gritado, não havia quebrado nenhum vaso de cristal e, para a surpresa de Emanuel, nem mesmo mencionara o que vira ou ouvira na noite anterior. Em vez disso, ela agira com uma eficiência fria e calculada, organizando a agenda da casa como se estivesse preparando um evento de gala.

Emanuel estava em seu escritório, os olhos fixos em uma tela que mostrava o rastreamento de um sinal suspeito nos arredores de um dos seus estúdios em Madri, mas sua mente estava presa na imagem de Eduarda amamentando Maya. Aquele gesto de entrega absoluta o havia marcado de uma forma que nenhuma tatuagem jamais conseguiria. Ele sentia-se dividido: o protetor racional lutava contra o homem que desejava possuir cada centímetro daquela bailarina sensível.

A porta do escritório se abriu. Sara entrou, mas não com a agressividade habitual. Ela usava um vestido de seda champanhe, longo e fluido, que a fazia parecer uma divindade de mármore. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque impecável, e o olhar era de uma clareza assustadora.

— Emanuel — disse ela, fechando a porta com um clique seco. — Temos muito o que conversar, e não é sobre o "Assassino das Sapatilhas".

Emanuel recostou-se na cadeira, cruzando os braços sobre o peito largo.

— Se for sobre a cena de ontem, Sara...

— Não me interrompa — cortou ela, caminhando até a mesa e sentando-se na borda, cruzando as pernas torneadas. — Eu vi como você olha para ela. Vi como ela se aninha em você. E vi, principalmente, o que ela está fazendo com a nossa filha. Maya nunca esteve tão calma.

Emanuel permaneceu em silêncio, esperando o bote. Mas o bote não veio da forma que ele esperava.

— Eu sou uma administradora, Manu — continuou Sara, passando a unha bem feita pelo tampo da mesa. — Eu sei quando uma peça se torna essencial para o funcionamento de uma estrutura. Eduarda não é mais apenas uma hóspede. Ela se tornou uma necessidade emocional para você e para a Maya. E eu não vou lutar contra o inevitável. Eu não perco tempo com batalhas que já foram decididas pelo instinto.

— O que você está sugerindo? — perguntou ele, a voz cautelosa.

— Eu aceito. Aceito que ela ocupe esse espaço. Aceito que você a deseje e que ela cuide da nossa filha. Mas com uma condição inegociável: eu sou a rainha desta casa. Eu sou a sua esposa oficial, a sócia do seu império e a mulher que detém o poder público. Ela será a sua protegida, a sua... concubina, se quiser usar um termo arcaico, mas nunca, jamais, ela estará acima de mim.

Emanuel sentiu um choque de realidade. Sara era mais pragmática do que ele imaginara. Ela preferia partilhá-lo sob suas regras do que perdê-lo para um sentimento que ela não podia controlar.

— E por que você acha que ela aceitaria isso? — perguntou Emanuel. — Eduarda é tímida, sensível. Ela não é como você.

— Ela aceitará porque ela te ama — disse Sara com um sorriso de escárnio. — E porque ela tem pavor do mundo lá fora. Aqui, ela tem um deus para protegê-la e uma rainha para guiá-la. Mandei chamá-la. Vamos resolver isso agora.

Momentos depois, Eduarda entrou na sala. Ela vestia um vestido leve de algodão branco, o cabelo castanho caindo em ondas suaves pelos ombros. Ao ver Sara e Emanuel juntos, ela parou, as mãos unidas à frente do corpo, os dedos brincando nervosamente uns com os outros.

— Sentem-se — ordenou Sara, apontando para as poltronas de couro diante da mesa de Emanuel.

Eduarda sentou-se na ponta da poltrona, parecendo pronta para fugir a qualquer momento. Emanuel permaneceu em sua cadeira de autoridade, mas seu olhar buscava confortar a jovem bailarina.

— Eduarda — começou Sara, sua voz soando como mel e veneno misturados. — Eu não sou cega. Sei o que está acontecendo entre você e meu marido. E sei o que você representa para a minha filha Maya.

Eduarda baixou o rosto, as bochechas queimando em um tom vivo de carmesim.

— Eu sinto muito... eu nunca quis desrespeitar...

— Poupe-me das desculpas — interrompeu Sara, levantando-se e caminhando até ficar atrás da poltrona de Eduarda, colocando as mãos nos ombros da jovem. — Você é uma criatura fascinante. Tão magra, tão delicada... e ainda assim, com essas curvas que fariam qualquer homem perder o juízo. Eu entendo por que o Emanuel está obcecado.

Eduarda estremeceu com o toque de Sara. A loira inclinou-se, sussurrando perto do ouvido da bailarina, mas alto o suficiente para que Emanuel ouvisse.

— Eu tomei uma decisão. Você pode ficar. Pode ter o Emanuel. Pode dar a Maya todo o carinho que eu, com minha agenda e meu temperamento, não tenho paciência para dar. Mas você será minha também. Você seguirá as minhas ordens. Nesta casa, existe uma hierarquia, e você está na base dela. Você será o nosso segredo, a nossa joia escondida.

Eduarda olhou para Emanuel, os olhos marejados, buscando uma saída.

— Emanuel? — sussurrou ela, a voz embargada.

Emanuel levantou-se e contornou a mesa. Ele parou diante das duas mulheres — o contraste era absoluto. Sara, a força solar, imponente, siliconada e segura de si. Eduarda, a luz lunar, pálida, natural e vulnerável. Ele colocou a mão no rosto de Eduarda, sentindo a pele macia que o assombrava.

— Sara está oferecendo um acordo, Eduarda — disse ele, a voz profunda. — É a única forma de mantermos essa dinâmica sem destruir a família. Eu quero você aqui. Eu quero proteger você. Mas eu também não posso renunciar ao que construí com a Sara.

— Você quer que eu seja... uma sombra? — perguntou Eduarda, uma lágrima solitária escorrendo.

— Eu quero que você seja o meu refúgio — respondeu Emanuel, beijando a testa dela. — E em troca, eu serei o seu escudo contra qualquer monstro que tente te alcançar.

Sara sorriu, uma expressão de triunfo calculista. Ela se aproximou de Emanuel, passando o braço pela cintura dele, reafirmando sua posse.

— Pense bem, querida — disse Sara para Eduarda. — Lá fora, você é uma bailarina marcada para morrer. Aqui dentro, você é amada por um homem poderoso e cuidada por mim. Você terá tudo: as melhores roupas, os melhores professores de arte, a segurança de um exército. Só precisa aceitar que o trono tem apenas um lugar, e ele é meu.

Eduarda olhou para Maya, que estava no cercadinho no canto da sala, brincando silenciosamente. O apego que ela sentia pela bebê, o amor que florescia por Emanuel e o medo paralisante do assassino pesaram em sua decisão. Ela era manhosa, buscava proteção, e ali, naquela configuração bizarra, ela encontrava o máximo de segurança que poderia desejar.

— Eu aceito — sussurrou Eduarda, fechando os olhos. — Se for para estarmos juntos... se eu puder cuidar da Maya... eu aceito.

Sara soltou uma risada curta e vitoriosa.

— Ótimo. Agora que as regras estão estabelecidas, vamos começar a agir como uma unidade.

Ela caminhou até o bar do escritório e serviu três doses de um uísque caríssimo. Entregou uma a Emanuel e outra a Eduarda, que segurou o copo com as mãos trêmulas.

— Um brinde ao nosso novo arranjo — disse Sara, erguendo o copo. — À segurança, à família e aos segredos que nos tornam mais fortes.

Emanuel bebeu, sentindo o líquido queimar sua garganta. Ele olhou para Eduarda e viu que, apesar da submissão, havia um brilho de alívio nos olhos dela. Ele sabia que estava entrando em um território perigoso. Manter o equilíbrio entre o vulcão que era Sara e a seda que era Eduarda exigiria mais controle do que qualquer investigação policial.

Horas depois, após o jantar silencioso mas estranhamente pacífico, Emanuel encontrou-se sozinho com Eduarda na biblioteca. Sara subira para colocar Ágata para dormir e verificar alguns relatórios de Londres.

Eduarda estava encolhida em uma poltrona de veludo, lendo um livro sobre o Renascimento italiano. Emanuel aproximou-se e sentou-se no braço da poltrona.

— Você está bem com isso? — perguntou ele, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela.

— Eu não sei — admitiu ela, fechando o livro. — A Sara me assusta um pouco. Ela é tão... intensa.

— Ela é prática — disse Emanuel. — Ela percebeu que lutar contra você seria lutar contra mim e contra a Maya. Ela prefere ter você sob o olhar dela do que como uma inimiga oculta.

Eduarda levantou-se, ficando entre as pernas de Emanuel. Ela envolveu o pescoço dele com os braços, escondendo o rosto em seu peito.

— Eu só quero me sentir segura, Emanuel. Quando estou com você, o mundo lá fora parece desaparecer. As sapatilhas de sangue, as ameaças... tudo some.

Emanuel a abraçou com força, sentindo a fragilidade de sua estrutura. Mas, ao mesmo tempo, ele sentia a pressão de seus seios fartos contra seu peito, um lembrete constante da sensualidade que pulsava sob aquela aparência de menina.

— Eu vou te manter segura — prometeu ele. — Mas agora você faz parte de algo maior.

Naquela noite, a dinâmica da casa mudou definitivamente. Não havia mais segredos sussurrados nos corredores ou olhares de culpa. Havia um pacto de sangue e seda.

Sara, em seu quarto, observava as câmeras. Ela via Emanuel e Eduarda na biblioteca. Ela via o carinho, o beijo suave que ele depositava no topo da cabeça da bailarina. Ela sentiu uma pontada de algo que poderia ser dor, mas que ela rapidamente transformou em poder.

— Ele pode ter o seu coração, pequena bailarina — murmurou Sara para a tela, enquanto retocava o esmalte vermelho de suas unhas. — Mas ele é meu por direito, por história e por contrato. E enquanto você me fizer feliz mantendo minha filha calma e meu marido satisfeito, eu deixarei você viver no meu jardim.

O "Assassino das Sapatilhas" continuava lá fora, uma sombra espreitando nas brechas da noite. Mas dentro da mansão de Emanuel, um novo tipo de jogo começava. Um jogo onde o amor era uma moeda de troca, a proteção era o prêmio e a rainha loira ditava as regras de um espetáculo onde a bailarina tímida acabara de ganhar o papel principal, sem saber que, em um palco compartilhado, os holofotes podem queimar tanto quanto iluminar.

Emanuel, no entanto, sentia que finalmente tinha o que desejava. O controle sobre o caso, a estabilidade de seu casamento e a posse da mulher que despertara seus instintos mais profundos. Ele era o mestre das tatuagens, o homem que marcava a pele alheia para sempre. E agora, ele tinha duas mulheres marcadas, cada uma à sua maneira, pela sua vontade e pelo seu poder.

A noite caiu sobre a mansão, trazendo um silêncio que, pela primeira vez, não parecia carregado de medo, mas de uma expectativa sombria e excitante. O tríptico estava formado: o poder, a força e a sensibilidade, unidos sob o mesmo teto, aguardando o próximo movimento de um assassino que não imaginava que sua presa agora estava protegida por uma fortaleza muito mais complexa do que apenas paredes de pedra.